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A questão negra: O maior evento na História

Por C.L.R. James | | Atualizado em 18.09.2026
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O texto a seguir foi publicado na revista Socialist Appeal (vol. 3, n⁰ 87), jornal do partido trotskista norte-americano Socialist Workers Party, no dia 14 de novembro de 1939. Foi assinado por J. R. Johnson, pseudônimo do militante comunista C.R.L. James.

“O trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele negra é marcado a ferro”. - Karl Marx

O maior evento na História

Uma revolução é o maior evento na história de uma sociedade, e a Revolução Russa é a maior de todas as revoluções. Devido a esse levante, os trabalhadores e os camponeses da Rússia esmagaram o sistema capitalista em um sexto da superfície terrestre e o levou em rumo ao socialismo. Em 8 de novembro de 1917, uma noite depois da tomada de poder, Lenin subiu no palanque da convocatória do Congresso Soviético. Segurando as rédeas em frente a ele, falou palavras memoráveis, “Nós devemos agora começar a construção do socialismo”. Nessa mesma noite e no mesmo palanque, soou o chamado para a revolução mundial, soado muitas vezes antes, mas agora, porque veio de líderes do primeiro Estado operário na história, reverberando pelos oceanos e montanhas de um continente ao outro. Foi ouvido na Europa Central e na Ásia Central, por milhões de indianos e chineses, ouvido também pelo povo mais oprimido do mundo, os negros em África, nas Índias Ocidentais e nos Estados Unidos.

Alguns dias atrás a revolução atingiu seu 22⁰ aniversário. Quebrada e manchada, atacada externamente e traída internamente, ainda assim vive. Desde o grande ápice ascendente nos primeiros anos, ela já sofreu duras quedas. Mas ela continua sendo um fundamento e uma bandeira, uma bandeira entortada, enlameada, manchada de crimes e sangue, carregada por mãos traiçoeiras mas ainda assim é um símbolo do maior esforço já feito pela humanidade destronada para livrar o mundo da exploração econômica e da tirania política. Para livrar o mundo, não só a Rússia. Hoje, os negros, pressionados por fardos ainda mais pesados dos que carregavam em 7 de novembro de 1917, devem celebrar esse aniversário a nunca ser esquecido, devem refletir no que a Revolução Russa significa, e ainda significa, para eles e para a humanidade.

Ela colocou em choque as fundações do imperialismo

Há 22 anos atrás a maioria dos negros em África e seus irmãos e irmãs na América eram um pouco mais do que escravos, nutrindo aquela esperança de liberdade insaciável que está no coração dos homens, mas alimentando-a com a ilusão, enganos e impotência criados pela supremacia branca e os muros de aço da escravidão imperialista. Mas a Revolução Russa em 1917 levou ao chão uma grande fortaleza do imperialismo mundial, e assim chocou a estrutura toda que até hoje, 22 anos depois, ainda se mantém de pé sob suas fundações. Nos anos que sucederam 1917, a Internacional Comunista carregou uma grande mensagem da revolução mundial e o exemplo da Rússia para milhões de negros pelo mundo. Os negros pela primeira vez entenderam que para eles, como para todos os oprimidos e explorados, que haviam altos e baixos, entenderam que não estavam sozinhos, que na França e na Inglaterra, na Bélgica e nos Estados Unidos, por todo o mundo, haviam milhões de trabalhadores e camponeses os quais o inimigo era o mesmo que os deles, o alvo deles era o mesmo, o destino era o mesmo, não só para destruir tiranos e opressores, mas para destruir o sistema que os pariu, não somente para derrubar o imperialismo, mas para criar a sociedade socialista.

A Revolução Russa, a Internacional Comunista que cresceu a partir dela, fruto da formidável propaganda e da corajosa agitação, seguindo exemplo de uma heróica luta e auto sacrifício, ensinou sobre o imperialismo bárbaro, da necessidade de revoluções proletárias nas nações imperialistas e da independência nacional nos países coloniais, pregou e praticou a unidade de todos os oprimidos, independente de raça e religião, infatigavelmente apontou para as duas rotas nas quais a humanidade pode seguir – a guerra imperialista e a reação capitalista, ou o socialismo vitorioso na Europa e na América e a independência da África e da Ásia.

Um golpe na exploração colonial

Existem negros que viam e ainda vêm muito pouco do seu papel na propagação da doutrina revolucionária. Eles são ou egoístas ou ignorantes – egoístas porque anseiam somente preservar e expandir seu patrimônio ou seu reles prestígio que foram capazes de arranjar para eles próprios; ou são ignorantes, não da ignorância das massas, que surge da falta de oportunidades e que a grande escola da luta de classes pode corrigir, mas são letrados na ignorância pela completa aceitação da educação imperialista, que é moldada para cegar e não abrir os olhos das massas, para perpetuar ao invés de destruir o sistema imperialista. Deixe esse negros que falam tão superficialmente sobre os “vermelhos” explicarem porque o governo britânico, quando Anthony Eden1 visitou Moscou em 1935, exigiu como condição maior para a amizade anglo-russa a descontinuação da propaganda revolucionária na Índia, nas Índias Ocidentais, e na África. Esses imperialistas britânicos, com a experiência de mais de três séculos, sabem a condição das pessoas que eles exploram sem qualquer misericórdia. Eles sentiram e ainda sentem o choque da Revolução Russa, dentro de casa na Inglaterra, e em qualquer canto de seu império. Eles sabem que, na África por exemplo, não emergiu ameaça alguma ao seu poder durante os 300 anos, tão forte quanto a representava por alguns milhares de cópias de panfletos bolcheviques circulando entre os negros, e alguns homens trabalhando devotados pela construção de um partido Bolchevique. Eles podem prever o poder caloroso das massas negras quando mobilizadas sobre um partido como esse. Eles sabem o que essa revolução significará ao seu poder, seus lucros e privilégios. Por isso eles amaldiçoam a Revolução Russa desde o dia em que ela nasceu.

Nenhum capitalista do Sul ou latifundiário celebra o aniversário da Revolução Russa. Caso um negro do Sul saia andando nas ruas da cidade com um cartaz escrito “Viva a Revolução Russa”, ele pode ser linchado antes de andar 50 metros. E por quê? Porque isso significa acabar com o sistema capitalista desde a raiz, acabar com sua pobreza e degradação desnecessária, suas guerras imperialistas e ditaduras fascistas, sua dominação de classe e perseguição racial. Todo o negro com uma grama de consciência de classe ou com qualquer faísca de revolta contra a opressão vai reconhecer o significado e celebrar o aniversário da Revolução de Outubro na Rússia.

A Quarta Internacional segue em frente

É verdade, vimos a revolução violada e degradada. Nós vimos, surgindo das ruínas do bolchevismo na Rússia, o abominável stalinismo. Nós vimos a Internacional Comunista deixar de ser uma valente defensora da classe trabalhadora internacional e se tornar uma mera ferramenta nas mãos da política externa de Stálin. O desenvolvimento e declínio da Revolução Russa são descritos outras vezes nesta edição, e em muitos dos nossos livros e panfletos. Mas, os princípios da revolução mundial, que assumiu carne e osso em 1917, ainda existem. Hoje, uma nova internacional, a Quarta, mantém essa tradição e trabalha por esse objetivo. Ainda que condenemos e sempre expusemos Stalin e suas ações, nós celebramos o aniversário russo e chamamos todos os negros e trabalhadores do mundo a celebrarem conosco.

Por ironia do destino, Leon Trótski, o nome de quem é visto junto a Lenin como as lideranças que levaram ao sucesso a revolução, nasceu no 7 de novembro, o aniversário da revolução. Nesse ano ele celebra seu 60⁰ aniversário. A História é a luta das forças econômicas e sociais se expressando nas palavras e nas ações dos homens. E algumas vezes a vida de um único indivíduo sintetiza a história de todo um movimento. Segundo somente atrás de Lenin, Trotsky estava na cabeça da Revolução Russa durante os grandes dias de outubro, a guerra civil, e se encontrou na linha de frente da oposição contra a burocracia de Stálin. Ele foi expulso da Rússia e exilado na Turquia. Seus filhos e família foram ordenadamente exterminados. Ele foi difamado como nenhum outro homem na história foi difamado. Ele foi mudando de país a país e por anos foi protegido dia e noite para ser salvo dos assassinos de Stálin. Tudo por uma única razão. Pois ele continua hoje como sempre foi, o inimigo da sociedade capitalista, o organizador e teórico da revolução mundial, e o inigualável oponente da burocracia que traiu a grande revolução, não preocupado com vingança pessoal ou a perda de poder, mas com a emancipação dos trabalhadores e camponeses de todos os países das correntes do capitalismo e da escravidão.

Ele escreveu pouco sobre a questão negra, assim como ele escreveu pouco, por exemplo, sobre a questão indiana. As circunstâncias da sua vida e as necessidades da luta o levaram a dedicar a maioria da sua atenção aos grandes centros das revoluções proletárias na Europa. Mas ele sempre viu e ensinou que a luta, em última instância, é uma só; que os golpes que desferiu e dirigiu contra o imperialismo mundial, em qualquer país, enfraqueciam todo o sistema e, assim, facilitavam a vitória dos indianos na Índia e dos negros na África e na América. Se hoje o Socialist Workers Party colocou o trabalho entre os negros americanos como uma das tarefas mais importantes diante de si, e possui um programa claro e uma política clara sobre os problemas do negro, isso se deve muito à insistência dele na importância do negro na revolução americana, à sua simpatia pela opressão deles, à sua fé ilimitada em sua capacidade de luta, em sua vontade de conquistar, em sua capacidade de contribuir para a criação da sociedade socialista. Os negros se unirão a nós para celebrar seu aniversário e desejar a ele e à sua esposa Natalia, sua dedicada auxiliar, muitos anos de vida e saúde para continuar seu trabalho, de tamanha importância para nós hoje e para as gerações que ainda virão.

Este aniversário conjunto tem para todos os negros um significado especial neste momento. Ele chega num período em que os bárbaros imperialistas estão mais uma vez envolvidos em suas orgias periódicas de destruição e massacre, quando os senhores da Rússia se aliaram aos criminosos imperialistas, quando as esperanças de libertação parecem fracas e distantes. Mas, nos primeiros dias de 1917, um manto semelhante parecia recair sobre os pobres e oprimidos em todos os países. No entanto, aquela escuridão foi o prelúdio de uma insurreição das massas como nunca se havia visto antes. Os negros estavam despreparados então. Hoje, graças à Revolução Russa, eles e todos os outros que sofrem com eles podem ver mais claramente. Conhecimento é poder. Celebremos estes aniversários não apenas em memória das grandes ações que foram realizadas, mas também das tarefas ainda maiores que nos aguardam nos dias que virão. Os negros, mais do que todos os outros, não têm nada a perder a não ser suas correntes. Eles, mais do que todos os outros, desempenharão seu papel na destruição da sociedade capitalista, pois têm mais a ganhar.