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Althusser e o marxismo: 60 anos de controvérsias

Por Juan Dal Maso | | Atualizado em 19.09.2026
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Este ano completam-se seis décadas desde a publicação das obras típicas da “idade de ouro” de Louis Althusser: Pour Marx (traduzido ao castelhano com o título A revolução teórica de Marx) e Lire Le Capital (Para ler O Capital). Nas linhas que seguem, abordaremos alguns debates relacionados com suas ideias.

Introdução

Althusser é, no campo do marxismo, um autor muito mais criticado do que lido. Isso se deve à existência de múltiplos muros entre as diversas tendências que se reivindicam marxistas, mas sobretudo à fortuna desigual de seus trabalhos. As obras que mencionamos acima eclipsaram, em vida, sua produção posterior, ao mesmo tempo em que a publicação e discussão de sua obra póstuma, em mãos de grupos mais ou menos herméticos de especialistas, questionou severamente a imagem do “marxismo estruturalista” sem conseguir que a leitura mais completa e matizada tivesse a mesma difusão. Isso faz com que continuem se reproduzindo as críticas mais comuns às obras clássicas de Althusser como se correspondessem ao conjunto de suas elaborações, sem perceber que nessas mesmas obras há matizes ignorados nessas críticas típicas.

Ao mesmo tempo, segue vigente, pela grande influência da obra de Perry Anderson Considerações sobre o marxismo ocidental e por uma certa vulgarização de seus argumentos, a ideia de um Althusser “marxista ocidental” dedicado a questões teóricas abstratas sem intervir na política — imagem que não corresponde à trajetória do autor em questão N1 . Por essas razões, qualquer discussão minimamente séria sobre a obra de Althusser requer confrontar essas interpretações.

Marxismo estruturalista?

Como dissemos, ambos os livros de Althusser publicados em 1965 são os que tiveram maior repercussão e são as obras pelas quais se recorda sua contribuição (ou falta dela) à teoria marxista. Esse é o momento mais “teoricista”, “cientificista” e “estruturalista” do pensador francês, e a partir daí ele foi catalogado com esses termos. Veremos que a questão não é tão simples, por várias razões.

Recordemos, primeiro, os principais pontos levantados por Althusser em Lire Le Capital: 1) Distinção entre objeto de conhecimento e objeto real. 2) Distinção entre o objeto da economia política clássica e o objeto de Marx, cujo ponto de toque é o conceito de mais-valia. 3) Rejeição do uso evidente tanto do conceito de história quanto do historicismo, por serem tributários de uma compreensão da totalidade como um todo espiritual expressivo no qual seria possível realizar um “corte de essência”, a partir do qual todos os elementos remetem a um mesmo princípio que expressa uma continuidade homogênea da história. Sua proposta alternativa era a de um todo articulado composto de diferentes níveis, em cada um dos quais opera uma temporalidade específica, organizados em uma estrutura sobredeterminada pela eficácia de cada elemento em relação ao todo e, simultaneamente, pela determinação em última instância exercida pela economia. 4) Reivindicação da revolução teórica de Marx, pela superação da antropologia ingênua, do empirismo e do positivismo da economia clássica, explicando a distribuição e o consumo em função da produção, com conceitos como relações de produção, forças produtivas, condições materiais da produção, que constituem uma estrutura regional dentro de uma estrutura global: o modo de produção, construído a partir de uma combinação conceitual que possui formas específicas conforme os distintos modos de produção. 5) Uma definição inicial da estrutura como um todo eficaz sobre seus elementos e uma redefinição posterior como “estrutura presente apenas em seus efeitos”, mais próxima da imanência spinozista (ainda que em uma linguagem que imitava a da psicanálise). A tentativa teórica era audaciosa: apresentar um Marx novo, apoiando-se na ascensão do estruturalismo, mas sem estabelecer uma identificação direta entre ambos. Esse novo Marx era construído por Althusser com a complexa argumentação da “leitura sintomática” que expunha seu discurso científico ao mesmo tempo que construía seu discurso filosófico. Aqui ele tentava introduzir uma novidade concentrada no tema da “causalidade estrutural”, já que sua teoria buscava modificar a apresentação da totalidade marxista em termos de base e superestrutura.

Um problema importante dessa tentativa residia na contradição entre o esforço de estabelecer o conceito de um todo articulado “sem centro” e, ao mesmo tempo, tentar “salvar” a “determinação em última instância pela economia” como característica do marxismo — de modo que ambos os discursos permaneciam sobrepostos. A problemática althusseriana da combinação buscava uma leitura antimecanicista da relação entre base e superestrutura. Mas a releitura da história em termos de estrutura conceitual o afastava de uma explicação mais abrangente da relação entre estrutura e mudança histórica.

Em Althusser and his contemporaries, Warren Montag destaca que a mudança na definição de estrutura foi motivada por um intercâmbio com Pierre Macherey, que havia lhe apontado a afinidade entre a primeira definição — “eficácia de uma estrutura sobre seus elementos” — e a totalidade hegeliana 1 . Essa oscilação entre os dois conceitos de estrutura pode ser considerada uma confirmação da tensão que vínhamos destacando: privilegiar o aspecto “sistêmico” da construção conceitual ou aquele que dá mais ênfase à conjuntura.

Apesar dessas ressalvas feitas por Montag, a catalogação do “jacaré” da ENS da rua Ulm como “marxista estruturalista” pareceria irrepreensível se o compararmos com Gramsci, Lenin, Rosa Luxemburgo ou Trotsky — sem falar em Lukács. No entanto, como assinalou o próprio Montag, o tema não é tão simples. Não é tão simples porque o que hoje conhecemos como “estruturalismo” é uma espécie de recorte de algo muito mais amplo e intrincado; mas sobretudo porque a relação de Althusser com essa tendência é muito mais complexa do que uma simples adaptação do marxismo ao estruturalismo ou um “flerte”, como disse o próprio Althusser em certo momento.

Para caracterizar essa relação, é preciso situar a estratégia de intervenção teórica pensada por Althusser no panorama da filosofia e do marxismo franceses da época, na qual ele recuperava uma gama de autores como Lévi-Strauss, Lacan, Canguilhem, Cavaillès e Jules Vuillemin, como havia comentado a Lucien Sève em uma carta de 2 de novembro de 19622 . Sua leitura do panorama intelectual pode ser vista com mais clareza em uma conferência que Althusser proferiu na ENS em 26 de junho de 1966 (após o “lendário” Comitê Central do PCF sobre cultura, dedicado à crítica de suas posições, em que Althusser esteve ausente, já que não fazia parte do organismo nem foi convidado), conservada em versão mimeografada e publicada postumamente por François Matheron 3: . Nessa conferência, Althusser caracterizava o panorama da filosofia francesa a partir das seguintes correntes:A) A persistência de uma tradição religiosa e espiritualista, influenciada pelas posições agostinianas e tomistas. B) A tradição idealista-racionalista surgida a partir de Descartes, que havia dado origem ao materialismo mecanicista, cuja influência podia ser rastreada na psicologia experimental e na sociologia. Por outro lado, o idealismo crítico que remontava a Kant havia incidido na filosofia de Alain (Émile Chartier) e na de Husserl (este último, muito influente na França). Althusser identificava esse idealismo crítico como o elemento particularmente dominante na conjuntura da filosofia francesa. C) O empirismo racionalista, que remontava ao materialismo francês do século XVIII, passava pela Enciclopédia, seguia com o positivismo de Comte que “salvou a honra da filosofia francesa diante da reação espiritualista do século XIX” e chegava até a filosofia da ciência francesa do século XX, abrangendo autores como Cournot, Durkheim, Cavaillès, Bachelard, Koyré e Canguilhem. Este esboço das principais correntes da filosofia francesa em 1966 devia ser contextualizado em um marco mais amplo, caracterizado pela profunda reação operada na filosofia francesa durante o século XIX, com correntes religiosas, espiritualistas, antirracionalistas (fossem contra um racionalismo empirista ou idealista). Para Althusser, o legado dessa corrente era dominante na conjuntura filosófica francesa de 1966. Contra essa corrente, que Althusser focalizava especialmente em Bergson, considerava que se colocava a tarefa de traçar uma linha que unisse Fourier, Saint-Simon, Cournot, Comte, Nietzsche, Freud, Durkheim e Marx.

A conjuntura anterior havia se caracterizado pela crise do espiritualismo, diante da qual se apresentara a de uma aliança entre o marxismo e as tendências racionalistas (idealistas e empiristas) e o idealismo crítico contra aquele, no que Althusser denominava a “Frente nº 1” antiespiritualista. Mas a conjuntura de meados de 1966, segundo Althusser, era diferente e se colocava a abertura de uma “Frente nº 2”, na qual era necessário estabelecer uma aliança com as tendências “estruturalistas” que criticavam as limitações do racionalismo e do idealismo crítico, a fim de consolidar uma problemática materialista. Digamos, de passagem, que essa caracterização e política de alianças estava em sintonia com os interesses assinalados por Althusser na carta a seu amigo Lucien Sève que citamos antes.

Estamos falando, portanto, não de uma adaptação a uma moda acadêmica, como muitas vezes se apresentou a posição de Althusser, mas de uma intervenção muito bem pensada, em função de uma caracterização da “conjuntura filosófica” e a partir de uma leitura da filosofia vinculada às necessidades da luta ideológica. Por outro lado, como se pode ver em seu artigo sobre Lévi-Strauss, datado de menos de um mês após essa conferência, Althusser considerava o estruturalismo do célebre antropólogo como um pensamento caracterizado por um “mau formalismo”, que desconhecia o pensamento de Marx, não sabia o que era um modo de produção e menos ainda uma formação social, assim como não podia explicar por que se davam umas combinações e não outras, confundindo o necessário com o possível etc. 4 .

Aqui não estamos ainda fazendo referência à posterior evolução de Althusser, mas já em seu momento mais “estruturalista” podem ser vistos matizes importantes. Poder-se-ia objetar que não faz sentido andar buscando matizes quando é mais fácil nos contentarmos com a etiqueta já estabelecida, porque, de todo modo, nessa etapa de Althusser há uma torção em direção ao estruturalismo. Justamente aí está o problema: pensando dessa maneira, o marxismo se transforma em um monte de sentenças já ditadas, reproduzidas por partidários de uma teoria que, paradoxalmente, não estão interessados nela.

Um marxista antidialético?

Se o anterior parecia um pouco complicado, aqui já estamos em um terreno totalmente pantanoso, que parte de uma incompreensão derivada da suposição de que o único marxismo dialético possível teria que ser hegelianizante. É certo que Althusser sustentou o programa delirante de tentar elaborar uma espécie de “dialética não hegeliana”, tentativa altamente problemática pelo papel que teve a volta a Hegel em 1857 no próprio trabalho teórico de Marx, mas também por razões mais gerais de contexto e história intelectual.

Essa questão da dialética é abordada especialmente em dois artigos de Pour Marx. O primeiro deles, “Contradição e sobredeterminação: notas para uma investigação”, retoma a imagem da “inversão” da dialética hegeliana, assinalando que esta colocava mais problemas do que pretendia resolver, ainda que tivesse sido uma forma de popularizar a ideia de que Marx havia posto em pé uma dialética materialista. Aqui Althusser questionava também a ideia de separar método e sistema que Engels havia proposto em seu Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. Afirmava que separar método de sistema não é o mesmo que inverter a dialética idealista, o que –por sua vez– também não é o mesmo que “separar o núcleo racional da casca mística” no próprio método. Althusser convocava a abandonar essas “fórmulas rituais”, tomadas de distintas expressões de Marx e Engels. Em todos os casos, questionava a ideia de que a dialética hegeliana pudesse se transformar em marxista pela “extração” de alguma parte ou aspecto discutível.

A proposta de Althusser era pensar a estrutura específica da dialética marxista. Não a inversão do sentido de uma dialética idealista, mas a transformação de suas estruturas. Desde sua ótica, o desenvolvimento do marxismo no plano teórico dependia da capacidade de explicar a diferença das estruturas fundamentais de ambas as dialéticas.

Althusser assinalava a importância de pensar o conceito marxista de contradição em sua singularidade e em suas implicações científicas e filosóficas. Para pensar essa especificidade, tomava emprestado um termo da psicanálise: a sobredeterminação. A sobredeterminação implicava que a contradição pensada pelo marxismo não se reduzia imediatamente ao enfrentamento capital-trabalho, mas que era necessária uma acumulação de outras contradições através das quais aquela se tornava operante, criando uma “unidade de ruptura” ou um “bloqueio”. Nessa multiplicidade de contradições, uma delas resultava determinante para definir o curso de um momento histórico.

A inspiração para pensar essa contradição sobredeterminada eram as “análises concretas de situações concretas” mediante as quais Lenin identificava o “elo mais fraco da cadeia imperialista”. Sua outra inspiração era a teoria das contradições principais e secundárias de Mao Zedong. Nesse ensaio, essa referência é mais ou menos instrumental, por razões que analisaremos mais adiante. Digamos por ora que Althusser buscava uma explicação de qual era a estrutura de uma dialética especificamente marxista, encontrava nela o conceito de contradição e tentava precisá-lo com essa definição da sobredeterminação. Por essa via, tentava mostrar como se constituía um movimento de ruptura. Esse não se dava sobre a base de formas gerais do movimento de superação das contradições, mas estabelecendo uma dinâmica de constituição de uma ruptura baseada em elementos interatuantes relacionados entre si. Desses elementos, um resultava decisivo por razões estruturais, mas também contingentes. A sobredeterminação permitia a Althusser apresentar uma contradição que se resolvia por seu próprio movimento mas que, diferentemente da contradição hegeliana, não era um movimento de “interiorização” nem de “superação que ao mesmo tempo conserva a verdade do superado”, mas um evento singular que tinha uma estrutura inseparável de seu próprio movimento de ruptura ou de bloqueio 5 .

Neste texto e a partir dessa leitura da dialética, Althusser tentou superar a concepção de uma base econômica e de uma superestrutura político-jurídica que seria determinada por aquela. Para isso, perguntava-se pela eficácia específica das superestruturas, resgatando Gramsci como o único que havia buscado aprofundar esse problema. Nesse marco, questões superestruturais como o regime político ou determinadas tradições ideológicas podiam desempenhar um papel determinante na sobredeterminação da contradição que faz com que se constitua uma unidade de ruptura, isto é, uma situação ou momento em que se coloca a possibilidade de ruptura revolucionária.

O ensaio “Sobre a dialética materialista” retomava os temas de “Contradição e sobredeterminação”, tentando construir uma exposição do método científico de Marx e, ao mesmo tempo, uma explicação mais completa do problema da sobredeterminação e da estrutura. Sobre a questão do método científico, remeto a Althusser e Sacristán. Itinerários de dois comunistas críticos, onde o tema está comentado em detalhe, na parte dedicada a Pour Marx. Agora vou me concentrar na questão da sobredeterminação.

Recuperando a ideia das contradições principais e secundárias, redefinia a questão da sobredeterminação e do “todo estruturado”, que é complexo e possui a unidade de uma estrutura articulada dominante:

“Essa reflexão sobre as condições de existência da contradição dentro de si mesma, essa reflexão sobre a estrutura articulada dominante que constitui a unidade do todo complexo dentro de cada contradição, eis aqui o traço mais profundo da dialética marxista, aquele que tentei expressar anteriormente através do conceito de ‘sobredeterminação’ 6 .”

Entre os dois artigos, Althusser apresentava de duas formas distintas a questão da sobredeterminação. Em “Contradição e sobredeterminação”, a sobredeterminação era utilizada para pensar como se constituía uma “unidade de ruptura”. E a referência a Mao aparecia subordinada à reivindicação de Lenin. Em “Sobre a dialética materialista”, Althusser tentava aprofundar essa reflexão, mas mudava substancialmente o sentido da busca: da “unidade de ruptura” ao “todo articulado dominante”, caracterizado pela “contradição principal e secundária”. Em síntese, havia buscado uma teoria de como se rompe uma estrutura e acabava oferecendo uma explicação de suas hierarquias. Logicamente, ambas as abordagens podem ser complementares, mas havia uma mudança de ênfase.

Em 1974, quase dez anos depois da publicação de Pour Marx e Lire Le Capital, um grupo de intelectuais da LCR publicou um livro de polêmicas contra Althusser, que levava precisamente esse título: Contra Althusser. Se nossos cálculos não falham, um pouco antes havia sido publicado o livro de Jacques Rancière A lição de Althusser, que denunciava o “pensamento da ordem” de Althusser, a partir de uma ótica maoísta de “revolução cultural”. Ou seja, havia uma competição entre os grupos à esquerda do PCF sobre quem criticava mais duramente Althusser.

Deste livro de contribuições dos intelectuais mandelistas levaremos em conta especialmente duas intervenções. Uma é a de Jean Marie Brohm (“Louis Althusser e a dialética materialista”), que dá especial destaque à discussão da dialética. Cabe dizer que o artigo é interessante porque mostra uma certa amplitude de referências na LCR, que não abrangiam apenas Marx, Engels, Lenin e Trotsky, mas também Lukács, Korsch e Gramsci. Brohm desenvolve uma extensa argumentação em que aborda diversos eixos. Um deles é a relação entre Hegel e Marx, mais precisamente a impossibilidade de pensar uma dialética marxista que não tenha dívida com a de Hegel.

Para fundamentar essa posição, Brohm recorre a múltiplas referências nas quais Marx, Engels e Lenin afirmam a dívida que o pensamento de Marx tem com o de Hegel, inclusive a impossibilidade de que tivesse existido Marx sem o autor da Ciência da Lógica. Afirma que a dialética de Hegel mantém com a de Marx a mesma continuidade revolucionária que a revolução democrático-burguesa mantém com a revolução proletária, segundo a mecânica da revolução permanente. Nesse contexto, Brohm revisita algumas discussões, como a relação entre lei e fenômeno, abstrato e concreto, totalidade e contradição, e sustenta que a compreensão da dialética por Marx lhe permite pensar a mudança revolucionária, enquanto Althusser, com sua sobredeterminação, só pode explicar uma estrutura sem mudança, o que anda de mãos dadas com a compreensão da história como um processo sem sujeito.

Contra essa ideia, Brohm sustenta que o proletariado é “o objeto-sujeito dialético do processo revolucionário, o sujeito da subversão social, a totalidade negativa, a negatividade portadora da revolução permanente. Por essa razão a dialética materialista se exerce na autoatividade revolucionária do proletariado” 7 . Seria muito difícil redigir um parágrafo em que estivessem mais bem concentrados todos os tópicos do marxismo hegeliano: anulação da diferença entre sujeito e objeto, entre agente e estrutura e entre teoria e processo.

Ao mesmo tempo em que apresentava uma leitura subjetivista do marxismo, Brohm formulava coisas contraditórias, como a de que Marx fazia “ciência positiva”, mas que, na realidade, não lhe interessava fazer ciência nem filosofia, mas sim uma ciência revolucionária, entre outras. Com menos verborragia, mas mais precisão — ainda que a partir de coordenadas semelhantes —, em “As leituras malsãs de Althusser” Avenas e Brossat realizam uma crítica da sobredeterminação althusseriana que aponta, por um lado, que a tentativa não é questionável em si mesma, dado que se trata de uma problemática pensada pelas variantes marxistas afastadas do mecanicismo; mas o questionável é Althusser apresentá-la como se fosse uma grande descoberta.

Ao mesmo tempo, assinalam que a inspiração althusseriana era a “lei do desenvolvimento desigual”, cujo uso unilateral levava a absolutizar a diferença da estrutura sobredeterminada em si mesma, sem pensar sua relação com a totalidade do capitalismo mundial, como fez Trotsky com o desenvolvimento desigual e combinado. Aqui poderíamos pensar que esse reparo poderia ser mais adequado para a versão da sobredeterminação apresentada em “Sobre a dialética materialista” do que para a de “Contradição e sobredeterminação”. Mas trata-se de uma crítica mais concreta do que a declaração de fé hegeliano-subjetivista de Brohm, que além disso leva mais a sério os problemas pensados por Althusser, pois, se é certo que não se pode separar artificialmente Marx de Hegel, também não acrescenta clareza a confusão entre ambos.

Contra o Maio Francês?

Tanto as críticas de Jacques Rancière quanto as da LCR apresentaram Althusser como inimigo do movimento de 1968. Mas isso não corresponde à realidade de suas posições. Althusser escreveu especificamente sobre o tema dois documentos datados por ele próprio em 15 de março de 1969, com conteúdos muito semelhantes: uma carta a Maria Antonietta Macciocchi (publicada nesse mesmo ano em italiano em seu livro Cartas do interior do PCI a Louis Althusser) e um artigo intitulado “À propos de l’article de Michel Verret sur ‘Mai Étudiant’”, publicado no nº 145 da La Pensée de maio/junho de 1969.

Esse artigo respondia aos argumentos expostos por Michel Verret, filósofo e sociólogo, ex-aluno de Althusser na ENS e militante do PCF desde 1944, que criticava o “cretinismo universitário” do movimento de Maio. Para resumir, Althusser reivindicava o movimento da juventude como parte da revolta mundial contra o capitalismo, destacava como central a greve geral de 9 milhões de operários e definia o movimento como um “encontro” entre a luta econômica da classe trabalhadora e as reivindicações do movimento estudantil e da juventude em geral, que não havia alcançado uma verdadeira fusão de forças. Era crítico da perda de influência do PCF sobre a juventude e assinalava que manter uma posição sectária obreirista contra o movimento (como pretendia Verret) significava persistir nos erros que haviam levado o partido a não ter peso no movimento estudantil.

Vale dizer, de passagem, que a partir dessa reflexão, Althusser se propôs a aprofundar os problemas da ideologia e do Estado, questão abordada em seu trabalho Sobre a reprodução (1969) 8 , do qual, ainda em vida, foi publicado um fragmento em 1970 sobre os Aparelhos Ideológicos do Estado, e que só seria publicado integralmente postumamente, em 1995. Nesse trabalho, Althusser refletia sobre o papel dos sindicatos e partidos na estrutura do Estado francês e sobre a centralidade da luta de classes extraparlamentar e para além das demandas corporativas como chave de um processo revolucionário na França, ressaltando, ao mesmo tempo, que qualquer estratégia de poder pela via parlamentar enfrentaria inevitavelmente a repressão estatal. Portanto, não se podia abandonar a luta pela ruptura revolucionária do aparato estatal e pela ditadura do proletariado, em uma espécie de equação que podemos resumir como “governo de esquerda + luta de classes empurrando de baixo”.

Em materiais publicados posteriormente, como sua crítica ao 22º Congresso do PCF (1976) 9 — em que criticou a deriva eurocomunista do stalinismo francês — ou o mais extenso O que não pode durar no Partido Comunista10 , no qual criticou os métodos burocráticos da organização e propôs uma “União popular desde baixo” baseada na mobilização de massas, Althusser tomou uma posição política pública que o diferenciava da direção do PCF. Sem dúvida, essas posições são insuficientes do ponto de vista trotskista, mas não é casual que o próprio Ernest Mandel tenha recuperado o posicionamento de Althusser em O que não pode durar... para elaborar uma reflexão mais ampla sobre os problemas estratégicos da esquerda e da extrema esquerda na França, questão que abordamos em outro lugar.

Ah! Mas Althusser, marxista ocidental... o clichê vai continuar sendo reproduzido para além do que tenha sido a realidade. Reitero que as posições de Althusser tinham suas limitações — como, por exemplo, manter-se dentro do PCF (questão nada menor, é claro). Mas tomar apostas equivocadas não significa ter-se abstido de intervir politicamente. Ao mesmo tempo, podemos ver que suas posições foram diretamente influenciadas, primeiro, pelo processo de 1968 e, depois, pela crise do stalinismo.

Pós-marxismo?

Em seu livro Foucault, Deleuze, Althusser & Marx, Isabelle Garo apresenta Althusser como um autor que compartilhou as coordenadas do pós-estruturalismo ao mesmo tempo em que tentou produzir uma obra marxista “sem equivalente no contexto do momento, cuja trajetória meteórica parece iluminar pela última vez uma paisagem política em processo de desaparecimento” 11 . A imagem é sugestiva e se completa com uma avaliação dos últimos textos de Althusser sobre “materialismo aleatório” ou “materialismo do encontro” como negação ponto por ponto do pensamento althusseriano anterior, chegando inclusive a afirmar que Althusser havia concluído que “as condições para a derrota do marxismo estavam presentes nele desde o princípio” 12 , o que implicaria fechar a possibilidade de um ressurgimento do marxismo no futuro.

Não pretendo, evidentemente, conhecer o pensamento de Althusser ou do marxismo francês melhor do que Garo, cuja obra é de altíssimo nível (este livro tanto quanto todos os outros que tive oportunidade de ler). No entanto, minha impressão é que, neste caso, o demasiado conhecido pode ser visto sem ser reconhecido. Refiro-me ao fato de que, por um lado, o pensamento de Althusser já mantinha uma tendência a acentuar a questão da aleatoriedade antes mesmo dos textos do “materialismo aleatório” propriamente ditos — como se pode ver no já citado balanço do Maio Francês, em seu interesse pelas problemáticas das conjunturas ou em outros textos inéditos na época da publicação do livro de Garo. Por outro lado, na entrevista com Fernanda Navarro 13, Althusser assinalou claramente que sua busca naquele momento era a de uma filosofia para o marxismo, e não para ir além dele.

É certo que um pensamento que coloca a contingência mais no centro do que as determinações é, em tendência, mais afim ao pós-marxismo do que ao marxismo clássico. Em todo caso, isso tem a ver com os limites da busca filosófica de Althusser naquele momento e nesse marco criticamos suas posições desse período. No entanto, imputar-lhe um abandono do marxismo implica certa forçação em relação aos pontos de vista que ele sustentava, algo que também se pode ver em suas reflexões sobre a conjuntura de 1985 14, publicadas como apêndice de sua autobiografia.

Algumas conclusões

Para concluir: qual o sentido de voltar a discutir hoje sobre Althusser e suas ideias? Para além da necessária precisão em relação a diversos debates específicos, há três questões fundamentais nos apontamentos de Althusser que devemos levar a sério.

A primeira é que a reflexão sobre as relações entre marxismo, epistemologia e filosofia não está encerrada (assim como não estava naquele momento) e as tentativas de solução pensadas por Althusser (com todos os seus defeitos) marcam a necessária autonomia que essa reflexão deve conservar, em vez de pretender resolvê-la com apelos genéricos à prática política, ao mesmo tempo em que mostram as limitações de continuar reproduzindo as posições do marxismo hegeliano do século XX.

A segunda tem a ver com a reflexão sobre a relação entre capitalismo, ideologia e Estado, especialmente com sua compreensão da ideologia em termos de práticas materiais (tema ao qual quase nada dedicamos aqui e para o qual remetemos a Althusser, Sacristán e outros trabalhos). O capitalismo atual é muito mais “ideológico” do que “hegemônico” e, para pensar esse problema, Althusser pode nos ajudar.

Em termos mais diretamente políticos, sua evolução desde o “teoricismo” inicial até uma posição que resgatava a centralidade da luta de classes, assim como sua crítica ao eurocomunismo e à via pacífica para o socialismo, podem ser úteis frente a certos revivals tardios dessas perspectivas, bem como contra qualquer posição que subestime a importância da luta de classes em termos gerais.

Por último, a questão da sobredeterminação pode ser produtiva para tentar pensar situações específicas, sem perder de vista sua inserção numa dinâmica de conjunto — uma boa alternativa diante da proliferação de todo tipo de particularismos.

Em síntese, Althusser pode e deve ser criticado, mas também deve ser lido, tanto em sua textualidade quanto na profundidade de sua aposta. O marxismo, através de um processo de crise e recomposição, pode recomeçar — e recomeça — a luta. O porvir é longo.