América Latina: ofensiva imperialista, crise de hegemonia e retorno da luta de classes
Artigo publicado originalmente em espanhol no dia 30/06/2026 no Idea de Izquierda Argentina.
Os triunfos eleitorais de forças de direita e extrema direita em vários países da região, o fortalecimento da ingerência estadunidense, o avanço da militarização em algumas regiões e o evidente esgotamento das experiências dos governos chamados "progressistas" parecem alimentar a ideia de uma nova restauração reacionária continental. No entanto, uma análise mais profunda permite observar uma realidade distinta. O que se desenvolve na América Latina não é a consolidação de uma nova hegemonia da direita, mas uma crise orgânica da dominação burguesa que nenhuma variante política das classes dominantes conseguiu resolver.
As interpretações que reduzem a dinâmica latino-americana a uma alternância pendular entre governos "progressistas" e governos de direita, partindo das experiências vividas nas últimas décadas, não dão conta da realidade atual da América Latina. Durante as últimas duas décadas, tanto os governos neoliberais quanto os chamados "progressistas", para além da primeira fase em que desfrutaram de um boom das matérias-primas, foram incapazes de estabilizar de forma duradoura os regimes políticos. Atualmente, estamos diante de uma crescente polarização política e social que expressa o esgotamento dos mecanismos tradicionais de dominação que se verificaram, sejam eles de um signo ou de outro.
A questão das relações de forças na América Latina
A região continua atravessada pelas mesmas contradições que deram origem aos grandes processos de luta da última década. As rebeliões no Chile em 2019, os levantes na Colômbia em 2019 e 2021, as mobilizações indígenas e populares no Equador, as manifestações no Panamá, as lutas operárias e populares no Peru, assim como as recentes jornadas de resistência na Bolívia, demonstraram uma persistente e enorme energia social acumulada. Os partidos da direita podem vencer eleições, os partidos do "progressismo" podem conter ou desviar o movimento de massas, mas continuam sem resolver os problemas estruturais que alimentam periodicamente a irrupção das massas na cena política.
São direitas que avançam por cima, mas, por baixo, amadurecem e se acumulam fenômenos de resistência das massas, como se expressou na Bolívia, diante de uma situação em que os velhos "progressismos" têm dificuldade em desempenhar o papel de desviar ou conter o movimento de massas. Isso ocorre porque essas direitas latino-americanas não avançam apenas por seus próprios méritos. Seu crescimento também é produto dos limites históricos das experiências dos chamados governos "progressistas". Durante uma primeira etapa, numerosos governos se apoiaram em ciclos favoráveis dos preços das matérias-primas. No entanto, longe de modificar as estruturas de dependência e exploração existentes, acabaram por preservá-las, administrando o capitalismo latino-americano. A conciliação com os grandes empresários, a subordinação aos mercados internacionais e a recusa em afetar os interesses fundamentais das classes dominantes acabaram gerando frustração entre amplos setores populares e da classe trabalhadora.
Por isso, o retorno da direita não pode ser explicado simplesmente como um deslocamento ideológico das massas em direção a posições conservadoras. Ele expressa também o desgaste de projetos reformistas que prometeram transformações profundas, mas permaneceram dentro dos limites do capitalismo dependente. As visões que anunciam uma nova estabilização conservadora ignoram essa realidade. Da mesma forma, aqueles que esperam uma simples reedição dos antigos ciclos progressistas desconsideram que essas experiências já demonstraram seus limites históricos.
Na nova situação aberta, a luta de classes aparece de forma mais decidida. Apesar do papel de traição desempenhado pelas burocracias para retirar as massas das ruas, como vemos na Bolívia, estas não saem derrotadas, produzindo-se uma acumulação de tensões para futuras explosões. Isso demonstra que a correlação de forças entre as classes permanece completamente aberta e longe de se definir em favor do grande capital, a menos que ocorram grandes derrotas. Em outras palavras, sob a superfície dos resultados eleitorais continua atuando uma dinâmica mais profunda de instabilidade estrutural que segue atravessando praticamente todo o continente. Embora, até o momento, o movimento de massas não tenha conseguido infligir derrotas decisivas às burguesias para alterar definitivamente essa correlação de forças em seu favor de maneira contundente. Na Bolívia, não se chegou a uma efetiva greve geral por tempo indeterminado capaz de se impor ao governo de Paz, o que teria feito o pêndulo girar em favor dos de baixo, não apenas para a própria Bolívia, mas também para a classe trabalhadora e o conjunto dos explorados da América Latina. Isso coloca a necessidade de refletir e extrair lições sobre como derrotar essas ofensivas do capital e de seus governos que aplicam esses ataques.
A chegada de Abelardo de la Espriella ao governo não ocorre nas mesmas condições históricas que permitiram a ascensão de Álvaro Uribe no início do século. Entre ambos os momentos situam-se as gigantescas rebeliões que modificaram profundamente a consciência política de amplos setores populares e da juventude. Essas mobilizações colocaram em questão aspectos centrais do regime político colombiano e demonstraram uma capacidade de luta que não desapareceu. Por isso, embora a direita tenha conseguido se impor eleitoralmente, governará sobre um país muito mais polarizado e conflituoso. Se tentar avançar rapidamente com uma agenda de ataques às condições de vida das massas, poderá se deparar com resistências de grande magnitude. A experiência recente da Bolívia demonstra precisamente que as vitórias eleitorais não garantem necessariamente um caminho desimpedido para os ataques contra as massas.
Algo semelhante poderia ocorrer no Peru. Mesmo que Keiko Fujimori conseguisse consolidar sua chegada ao governo, isso ocorreria sobre bases extremamente frágeis. O sistema político peruano atravessa uma crise prolongada que nenhum governo conseguiu resolver. A fragmentação social, o descrédito institucional e a ausência de consensos mínimos transformam qualquer administração em um projeto potencialmente instável desde o seu nascimento.
A Bolívia constitui provavelmente a experiência mais reveladora do período. Ali foi possível observar com clareza como um governo recém-empossado enfrentou, em poucos meses, uma situação de bloqueios, mobilizações e conflitos de enorme alcance. Para além das particularidades nacionais, o caso boliviano evidencia uma tendência mais geral: os processos eleitorais são cada vez menos capazes de resolver as contradições sociais acumuladas. Em muitos casos, apenas as deslocam temporariamente até que reapareçam de forma mais explosiva, em meio a tensões sociais já extraordinariamente acumuladas.
As próximas eleições brasileiras terão uma importância decisiva para a situação regional. O Brasil continua sendo a principal economia da América Latina e um dos cenários onde as contradições da etapa se expressam com maior intensidade. A polarização social e política continua atravessando o país. Nenhuma das principais forças em disputa parece capaz de reconstruir um consenso duradouro. Por isso, o Brasil seguirá sendo um dos terrenos fundamentais nos quais se definirão as tendências estratégicas da América Latina nos próximos anos.
O México ocupa um lugar particular dentro desse cenário continental. Por um lado, tornou-se uma peça-chave da estratégia estadunidense de reorganização hemisférica. A integração econômica com os Estados Unidos é mais profunda do que nunca, ao mesmo tempo em que o controle migratório e a segurança fronteiriça adquiriram uma importância decisiva. Por outro lado, o México continua sendo um país atravessado por enormes contradições sociais e também concentra uma das classes trabalhadoras mais numerosas e estratégicas do continente. Além disso, possui uma enorme tradição de luta operária, camponesa, estudantil e indígena, que continua atuando como um elemento de fundo da situação política nacional. Embora o cenário atual não seja dominado por grandes mobilizações desse concentrado movimento operário, a recente greve do magistério, com mais de 50 mil professores nas ruas em seu primeiro dia de luta, demonstra que as contradições sociais acumuladas por décadas de subordinação ao imperialismo, juntamente com uma profunda tradição de luta operária, camponesa, estudantil e indígena, continuam atuando como um poderoso fator de potencial instabilidade. Trata-se de uma situação que poderia acelerar a experiência de importantes setores com o governo de Claudia Sheinbaum.
Algo semelhante ocorre na América Central. Governos como os de Bukele, em El Salvador, e Chaves, na Costa Rica, procuram apresentar-se como modelos de estabilidade e ordem. No entanto, por trás dessa imagem encontram-se profundas desigualdades sociais, crescente militarização e uma dependência estrutural em relação aos Estados Unidos. As aparentes fortalezas desses regimes podem revelar-se muito mais frágeis diante de futuras crises econômicas ou explosões sociais.
Na Venezuela [1], os Estados Unidos conseguiram avançar mais do que em qualquer outro país do continente em seu objetivo de reconfigurar o cenário político regional, impondo um protetorado neocolonial. O colaboracionismo e os acordos estabelecidos por cima entre setores da antiga burocracia governante e distintos setores da oposição burguesa, assim como a crescente penetração do capital estrangeiro em áreas estratégicas da economia, expressam um processo de recolonização econômica e política que avança sob novas formas. Mas mesmo esse avanço ocorre em um contexto contraditório.
A vitória obtida na Venezuela não é suficiente, por si só, para compensar as dificuldades enfrentadas por Washington em outras frentes. Por isso, Cuba aparece como um dos pontos mais sensíveis dessa dinâmica. Em um contexto de enfraquecimento relativo de sua hegemonia, uma demonstração contundente de autoridade sobre a ilha teria um enorme valor político para setores do establishment estadunidense. Isso significa que a pressão econômica, diplomática e até mesmo militar sobre Cuba se intensifica a cada dia.
O declínio dos Estados Unidos com derrotas militares acelera as tendências latino-americanas
Os Estados Unidos têm desenvolvido uma ofensiva para recompor sua hegemonia sobre a região. No entanto, a ofensiva imperialista se desenvolve em condições muito diferentes daquelas existentes durante os anos 1990. Os Estados Unidos já não são a potência incontestável, embora continuem sendo a principal potência militar e econômica; porém, já sofrem derrotas quando se aventuram em guerras, como se observou recentemente no Irã, ao mesmo tempo em que enfrentam uma concorrência crescente de outras potências e uma erosão progressiva de sua capacidade de impor soluções pela força.
As tensões que atravessam o cenário interno levaram setores das classes dominantes dos Estados Unidos a impulsionar uma política externa mais agressiva e militarizada. Suas tentativas de ofensiva em diferentes regiões, como no caso do Irã, não expressam uma força absoluta, mas, em grande medida, uma resposta ao seu próprio declínio relativo, que, diante de derrotas, não faz mais do que acelerá-lo. O cenário do Oriente Médio, particularmente após um desfecho calamitoso e militarmente frustrante em sua disputa com o Irã, deixou Washington em uma posição de vulnerabilidade inédita. Um desfecho catastrófico da aventura bélica que não apenas impacta as artérias da economia mundial, mas também destrói a tentativa do trumpismo de configurar uma saída ordenada para o neoliberalismo globalizante por meio da imposição de "bonapartismos autoritários".
Tendo acumulado derrotas humilhantes no Oriente Médio, o imperialismo estadunidense buscará desesperadamente vitórias "fáceis" em seu quintal imediato para contrabalançar sua crise diante de sua frente interna e consolidar esta parte do hemisfério. Trata-se de uma situação que inclusive reanima anti-imperialismos em uma escala cada vez mais internacional. Não por acaso, o Vietnã ressurge no imaginário após a recente derrota no Oriente Médio, diante dos fenômenos desenvolvidos naquela época.
A prolongada desaceleração econômica mundial, o agravamento das disputas geopolíticas, a crescente militarização dos conflitos interestatais e a deterioração das condições de vida de milhões de trabalhadores configuram um cenário marcado por uma profunda instabilidade, com propensões a guerras regionais e uma tendência cada vez mais acentuada em direção a formas autoritárias de governo, ao fortalecimento dos aparatos repressivos e à crescente militarização da política.
É nesse contexto que a América Latina voltou a adquirir importância estratégica para o imperialismo estadunidense, como forma de reafirmar sua autoridade política e militar. A chamada estratégia da "Grande América do Norte" sintetiza essa orientação. Por trás desse conceito encontra-se a tentativa de reorganizar o continente como uma zona econômica, política e militar subordinada aos interesses estratégicos de Washington. Essa situação não fará mais do que acelerar as tendências à crise dos regimes políticos e potencialmente catalisar processos de luta de classes, acelerando a ascensão do movimento de massas.
A questão decisiva: a independência política dos trabalhadores
A correlação de forças continental permanece em aberto. Não estamos diante de uma derrota histórica das massas, tampouco assistimos a uma nova estabilização neoliberal semelhante à dos anos 1990. Muito menos a uma nova onda progressista capaz de reorganizar a região sob formas reformistas, como ocorreu em sua primeira etapa. O que caracteriza a situação atual é uma combinação de crise de hegemonia, polarização social, ofensivas reacionárias e persistência da luta de classes. Na Bolívia, o movimento de massas não conseguiu derrotar o governo de Paz, mas permitiu extrair grandes lições e indicar como avançar nesse caminho estratégico. A grande questão continua sendo se a enorme força social dos trabalhadores, da juventude, das mulheres, dos camponeses pobres e dos setores oprimidos conseguirá se expressar politicamente de forma independente.
Enquanto as energias das massas continuarem subordinadas às variantes do chamado "progressismo", que administram o capitalismo, ou a projetos reacionários que buscam impor saídas autoritárias, as crises continuarão se reproduzindo. Mas precisamente a persistência da crise de dominação, o enfraquecimento relativo do imperialismo estadunidense e a incapacidade das classes dominantes de estabilizar a região criam condições para o surgimento de novas gerações de lutadores que busquem uma alternativa revolucionária.
Por isso, a tarefa estratégica fundamental não consiste apenas em prever futuras explosões sociais. Consiste em construir organizações revolucionárias capazes de intervir nelas com um programa independente de todas as variantes patronais. Sem essa ferramenta política, as futuras rebeliões correrão o risco de ser novamente desviadas para becos sem saída reformistas ou reacionários. Com ela, poderiam abrir-se perspectivas para que os trabalhadores disputem o poder.
As tendências à reação e as tendências à rebelião conviverão e entrarão em choque permanentemente. Nesse terreno contraditório serão travadas as grandes batalhas dos próximos anos. E será aí que a classe trabalhadora, construindo uma direção revolucionária própria, poderá disputar não apenas a resistência frente ao imperialismo e às burguesias locais, mas também a perspectiva estratégica da tomada do poder pelos explorados.
[1] Este artigo foi escrito antes dos dois terremotos trágicos que abalaram a Venezuela; portanto, o impacto deles na situação não é abordado no texto.