As ambições de Israel sobre o Líbano
Em meio à dinâmica da guerra imperialista protagonizada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã,- marcada por ameaças de extermínio feitas por Trump, cessar fogos rompidos horas depois, e declarações irrealistas - a frente travada pelos sionistas no Líbano se destacou como ponto nevrálgico. Horas após Trump aceitar o acordo mediado pelo Paquistão no dia 07/04, Israel bombardeou o Líbano com uma violência inédita desde 1982, assassinando pelo menos 250 pessoas e ferindo 800. Em seguida, Trump e seus porta-vozes desqualificaram as declarações do primeiro-ministro paquistanês de que o fim dos ataques ao Líbano eram parte do acordo recém mediado. Ato seguido, tem-se o fechamento do Estreito de Ormuz, e o mundo vê-se novamente na incerteza dos próximos capítulos dessa guerra.
Uma questão clara desde o início da guerra é a diferença de objetivos de Israel e dos Estados Unidos. Trump pressionado pela ação de Israel instou o Estado sionista a abrir negociações com o Líbano, para as quais Netanyahu colocou como objetivo o “desarmamento total do Hezbollah”, enquanto o Líbano exigiu um cessar-fogo imediato.
Assim, se os Estados Unidos carecem de estratégia e objetivos claros, embora no momento busquem uma saída rápida à guerra e suavizar as contradições econômicas que ela traz, para Israel a situação é oposta. Israel declarou desde o início que almeja a dissolução absoluta do regime iraniano, algo que tem se demonstrado improvável. Ademais, constam a não declarada, mas óbvia, sobrevivência política de Netanyahu através da continuidade da guerra. Mas é a derrota do Hezbollah no Líbano e a criação de uma zona tampão que agora se tornam os argumentos de Israel para a continuidade da guerra.
Netanyahu e a tentativa de se manter no poder através da guerra
Declaradamente, Israel diz que seus objetivos em seguir bombardeando o Líbano são desmarcar o Hezbollah, criar uma zona tampão no sul do Líbano, questão que vem sendo tentada há anos, e estabilizar a fronteira norte. Dessa forma, os altos mandatários do governo sionista declaram que Israel não sairá da guerra até que a capacidade de retaliação do Hezbollah seja neutralizada, algo difícil de alcançar. Mas existem também motivações de cunho doméstico.
Uma primeira motivação para Israel não abrir mão de bombardear o Líbano é a crise que o próprio Estado sionista atravessa. Crise que não se resume aos riscos que Netanyahu corre caso deixe o governo, com a possibilidade abertamente debatida de que saia do gabinete direto para a prisão. Trata-se de uma crise profunda, que atinge o regime político de conjunto, e crescentemente a própria continuidade de Israel tal como é hoje, derivada dos efeitos do genocídio palestino aberto em 2023.
De acordo com o Times of Israel 1 em cada 4 israelenses querem sair do país. As deserções no IDF se elevam, e o governo sionista teve que convocar 30 mil imigrantes africanos para “operações de risco” no genocídio palestino, enquanto setores de jovens minoritários, mas ativos, negam-se a servir o exército. Internacionalmente o questionamento ao colonialismo sionista cresce e é um caminho sem volta, apesar dos esforços dos que insistem na gasta campanha de igualar antissionismo com antissemitismo.
Neste contexto, a unidade nacional israelense que garante a sobrevida política de Netanyahu depende da continuidade da guerra. Israel ainda sustenta um majoritário consenso ultrarreacionário, mesmo com fissuras internas, embasado na ideia de que é preciso aniquilar qualquer opositor. Em uma realidade sem guerra, Netanyahu teria que lidar com a política interna, isto é, seu julgamento por três processos criminais por corrupção, fraude e abuso de confiança. Em meio à guerra, pesquisas como a realizada pelo jornal israelense Maariv trouxeram que 62% dos israelenses confiavam antes do cessar fogo na forma como Netanyahu conduzia a guerra.
Ligado a isso, Netanyahu busca apaziguar as vozes críticas da oposição de ultra-direita do governo em relação ao cessar-fogo. De acordo com o jornal Haaretz, Tzvika Foghel, do partido de extrema-direita Otzma Yehudit, mesmo de Itamar Ben-Gvir, chamou Trump de “pato”, enquanto Netanyahu teve que fazer um longo pronunciamento argumentando que a aceitação do cessar fogo no dia 07/04 por Trump não teria sido feito pelas suas costas.
E agora isso não se daria mais através de incursões rápidas, letais e dirigidas majoritariamente contra os palestinos, que enfrentaram historicamente as IDF muitas vezes munidos apenas por pedras. Como a dinâmica atual sugere, Israel está disposto a travar guerras longas, contra Estados que são potências regionais, com capacidade militar, ainda que assimétrica, e de preferência arrastando consigo os Estados Unidos. O argumento oferecido pelos estrategistas israelenses é uma espécie de apropriação da doutrina neoconservadora de “guerras preventivas”, isto é, que Israel deve eliminar todas as potenciais ameaças regionais, usando como justificativa o 7 de Outubro, igualmente apropriado como uma espécie de leitura sionista do 11 de Setembro.
No entanto, os tempos são outros, e Israel não é os Estados Unidos. Uma guerra prolongada travada isoladamente seria um risco importante para a existência de Israel, e nisso reside parte da sua contradição. Por outro lado, seguir os Estados Unidos significa ter objetivos limitados demais para Israel.
A retórica de “Grande Israel”
Outro aspecto é a retórica crescentemente usada pela ultradireita dominante do Knesset de “Grande Israel”. Trata-se de uma noção de origem bíblicas, usada pelos sionistas, e apoiada pela ultradireita israelense e internacional, para justificar as aspirações colonialistas e expansionistas sobre territórios que incluem, mas vão para além da Palestina histórica. Para articular interesses de ampliação de fronteiras e religião, a ultradireita sionista se embasa no Livro de Gênesis, segundo o qual as terras destinadas a Abraão iriam do Nilo até o Eufrates.
Traduzindo isso na prática significa uma ampliação da dominação sionista ao Egito, Jordânia, Arábia Saudita, Síria, Irã, Líbano, Iraque, Síria, Turquia, Kuwait, além dos territórios já ocupados da Palestina. Este projeto remete-se ao objetivo de Theodor Herzl, um dos fundadores do sionismo como corrente política.
Durante a Guerra dos Seis Dias em 1967 Israel ampliou sua ocupação colonialista, ocupando a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, juntamente com as Colinas de Golã na Síria e a Península do Sinai no Egito. Ainda que parte desses territórios tenham sido devolvidos, a promessa de “Grande Israel” foi evocada, em especial junto aos colonos sionistas e as alas religiosas da ultradireita. Desde que o atual governo israelense assumiu em 2022 as referências a “Grande Israel” tornaram-se recorrentes. Figuras como Bezael Smotrich, ultradireitista Ministro das Finanças, defendendo a expansão das fronteiras abarcando as regiões do “Grande Israel”.
Evidentemente que as dificuldades na guerra do Irã demonstram que esse projeto é mais um discurso que algo factível de ser conquistado. E ainda que a retórica de “Grande Israel” seja replicada por setores do governo Trump, dificilmente este se daria a tarefa de concretizá-lo. Mas ressurge como parte do ideário colonialista sionista que se radicaliza conforme questionamentos sobre a legitimidade de Israel existir se amplia globalmente. E, serve igualmente como uma justificativa para a continuidade das incessantes tentativas de ampliar o domínio sobre o Líbano.
A importância de enfraquecer o Líbano e a intenção de derrotar o Hezbollah
O Líbano é apresentado pela propaganda israelense como uma ameaça à existência de Israel, tanto por ser um ator regional com certo jogo próprio como por conta do Hezbollah. O Hezbollah tem a sua principal área de controle fixada no sul do Líbano, região fronteiriça de Israel. As áreas controladas pelo Hezbollah no Líbano não estão submetidas ao governo central do país, funcionando como uma espécie de “Estado dentro do Estado”, controlando os sistemas de infraestrutura, saúde e sociais. Portanto, um dos primeiros objetivos de Israel é forçar que o controle do Hezbollah sobre o sul do Líbano cesse, ou pelo menos enfraqueça.
Além disso, existe a necessidade de golpear uma das principais forças aliadas ao Irã na região. A aliança entre o Irã e o Hezbollah no Líbano é resultante da política dos aiatolás após sua ascensão e desvio da Revolução Iraniana de 1979 em aproximar os xiitas iranianos aos xiitas libaneses. No entanto, ao contrário do que alguns analistas dos grandes meios propagam, o Hezbollah não foi criado diretamente pelo regime iraniano, embora este o apoie e tenha financiado.
Suas origens são uma resposta à invasão israelense ao Líbano em 1978 e 1982, quando os sionistas invadem o país contra forças palestinas da OLP que instalaram-se em território libanês, à época palco de conflitos internos derivados da guerra civil de 1975. Israel ocupa as margens do rio Litani, e em junho de 1982 usando como argumento um atentado contra a embaixada israelense no Reino Unido, ataca a capital libanesa Beirute, sitiando por 7 semanas a localidade onde a OLP havia se instalado.
Em meio a esta situação o recém-eleito presidente do Líbano e aliado de Israel, Bashir Gemayel foi assassinado, dando o argumento para a intensificação da ofensiva israelense sobre o Líbano, que teve episódios brutais como o massacre dos palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. A repercussão do massacre ampliou a enorme instabilidade, que favoreceu a formação do Hezbollah,- cujo embrião já combatia os israelenses em meio à guerra civil-, e passou a controlar o sul do Líbano. Em 1985 o Hezbollah é oficialmente fundado, com uma carta que reitera o apoio ao Irã, aponta Israel como o porta-voz dos EUA na região, e classifica a potência imperialista e a URSS como dois inimigos do Islã.
Desde o início dos anos 1990 o Hezbollah ampliou a sua presença no regime político, ganhando as eleições nacionais de 1992, o que gradativamente os levou a suavizar a retórica de construção da nação islâmica para além das fronteiras do Líbano. Nas eleições de 2022, que instalou um governo interino de poderes limitados, o Hezbollah manteve 13 das 128 cadeiras totais do parlamento, e segue controlando diversas regiões do país.
Israel só se retirou do Líbano em 2000. Durante todos esses anos em que esteve em solo libanês, Israel protagonizou ataques. Em 2006 Israel bombardeou o sul do Líbano e a capital Beirute, resultando em 1109 libaneses mortos, e quase 5 mil feridos, enquanto 12 soldados e 43 israelenses foram mortos. O conflito se iniciou quando o Hezbollah interceptou um veículo militar israelense na fronteira entre os dois países, e prendeu 2 soldados israelenses. Foram 34 dias de enfrentamento que deixaram um rastro considerável de prejuízos em vidas e recursos ao Líbano. Mas o saldo foi a percepção de que frente à assimetria dos ataques israelenses, o simples fato do Hezbollah não ter sido desmantelado foi o equivalente a uma derrota militar. Isso levou ao fortalecimento do Hezbollah, e ampliou a percepção dos sionistas de que se trata de uma ameaça à existência de Israel.
Portanto, Israel segue afirmando sua intenção de minar a capacidade de resistência do Hezbollah. Porém, a exemplo do que se demonstrou em Gaza com o Hamas, e novamente com o Irã, derrotar estrategicamente organizações que estão profundamente conectadas não apenas com o regime político de seus países, como com a própria sociedade, como é o Hezbollah, exige ações muito mais complexas que a eliminação física de seus dirigentes. Israel teria que se envolver em uma guerra provavelmente longa, em meio a outras frentes abertas, e a uma crise política interna que tende a se aprofundar conforme as eleições nacionais de outubro deste ano se aproximam. No plano internacional, Israel e Estados Unidos estão perdendo a batalha pela opinião pública. Resta que isso se transforme em mobilizações da classe trabalhadora internacional para que uma saída efetivamente anti-imperialista se imponha.