Capa: Declaração: Mulheres Negras e Latino-americanas na Linha de Frente contra o capitalismo, o racismo e o imperialismo

Declaração: Mulheres Negras e Latino-americanas na Linha de Frente contra o capitalismo, o racismo e o imperialismo

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Neste 25 de julho, o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha não é apenas uma data de celebração, mas um marco de luta internacionalista que resgata a história de resistência contra a opressão de gênero, raça e classe. Inspiradas pelo legado de Tereza de Benguela, símbolo de luta contra a escravidão e líder do quilombo do Quariterê, reafirmamos que o enfrentamento ao racismo é indissociável da batalha pelo fim do capitalismo.

Sob o sistema capitalista, o patriarcado e o racismo atuam como engrenagens fundamentais para aprofundar a exploração e dividir a classe trabalhadora, se aproveitando da opressão de gênero e raça para aprofundar seus lucros.

Vivemos um cenário internacional convulsivo, marcado pela decadência da hegemonia dos EUA e pelo acirramento de disputas entre potências que empurram a humanidade para guerras e genocídios, como o que vimos na Palestina. Nossa luta é ao lado daquelas que se levantam para enfrentar o imperialismo, do continente africano ao Oriente Médio, da Venezuela aos Estados Unidos, da Bolívia ao continente europeu e asiático. Nosso grito como mulheres negras e latino americanas precisa ser pela derrota militar dos Estados Unidos e de Israel na guerra contra o Irã, conceder apoio político ao regime iraniano.

Na América Latina, essa ofensiva imperialista se expressa de formas brutais. Nossas irmãs venezuelanas enfrentam uma crise humanitária devastadora, agravada pelo bloqueio e sanções criminosas dos EUA. São as mulheres que sustentam a vida cotidiana em condições de extrema precariedade, liderando redes comunitárias de sobrevivência diante do colapso dos serviços básicos. Repudiamos o uso da "ajuda humanitária" por Donald Trump como mecanismo de pressão neocolonial pelo controle do petróleo e o papel totalmente subordinado do regime chavista. Também rechaçamos o bloqueio criminoso contra Cuba. Denunciamos a extrema direita na América Latina capacha de Trump que se junta hoje no Escudo das Américas, uma coalizão política e militar que serve para aprofundar a ingerência imperialista na região através de um suposto combate ao “narcoterrorismo”. Estamos ao lado de todas as mães e parentes que perderam seus filhos e familiares, como no RJ, Manguinhos, 9 de Paraisópolis. Contra a violência policial que é resultado deste tipo de política racista e reacionária. Por justiça para Luana Barbosa e Cláudia Ferreira.

Quando olhamos para a América Latina hoje, o que vemos é um cenário de profundas contradições, de crises orgânicas que também demonstram o fracasso das coalizões antineoliberais ou anti extrema-direita, que ao chegarem ao poder se tornam administradores do capitalismo neoliberal.

É por isso, que nesse dia, ao retomarmos a história de luta das mulheres negras, latino americanas e caribenhas, também olhamos para a força dessas lutas no presente. Nossa inspiração de luta está na força das mulheres de pollera. Saudamos a rebelião operária e camponesa que durou mais de 50 dias na Bolívia como um exemplo heroico de auto-organização. E denunciamos a traição da burocracia da COB, que pactuou com o governo de Rodrigo Paz, facilitando a repressão e a militarização das rodovias enquanto as mulheres indígenas e camponesas se mantinham na linha de frente dos bloqueios.

Olhar hoje a luta das mulheres na América Latina hoje também passa por compreender como o fenômeno da esquerda revolucionária argentina, que tem como grande referente nossa companheira Myriam Bregman do Pão e Rosas, demonstrando que é possível construir uma alternativa de independência de classe que diferente das variantes de conciliação, apresenta um programa anticapitalista para enfrentar a extrema direita de Milei e os ataques da burguesia. Que assim como as escravas insurretas que fizeram a história do nosso continente diz: moderada nunca! Convidamos todas, todes e todos para estar conosco na atividade com Myriam no próximo dia 8 de agosto que será transmitida em vários estados do Brasil, fortalecendo a luta das mulheres latino americanas.

Nos inspiramos na força das revoltas que atravessaram o continente africano nos últimos anos com as mulheres e jovens na linha de frente no Quênia, Angola, Moçambique, Madagascar. Se enfrentando com a violência policial, como a que levou a vida de Ana Mubiala, morta na frente dos seus filhos em Angola. Nossa luta é para ecoar grito das mulheres que seguem sendo estupradas na República Democrática do Congo, para garantir a exploração dos minérios como o cobalto e o coltan que alimentam a tecnologia militar de Israel e estão no marco da disputa estratégica entre EUA e China.

Nossa perspectiva internacionalista está ombro a ombro com as mulheres e meninas africanas na luta contra a espoliação imperialista do continente, sem ilusões em um suposto “multilateralismo benigno” promovido por novas potências capitalistas, como Rússia e China.

Nosso grito é em solidariedade total às mulheres imigrantes no Brasil. Venezuelanas, bolivianas, congolesas, angolanas e tantas outras frequentemente submetidas à precarização, xenofobia e perseguição. Contra a xenofobia e o racismo promovido pelos capitalistas nós dizemos: somos uma só classe, sem fronteiras. O capitalismo utiliza a xenofobia para rebaixar os salários de todo o proletariado, nossa luta é pela livre circulação e a igualdade plena de direitos: nenhuma trabalhadora é ilegal.

Pela mulheres haitianas que foram estupradas e vítimas de operações violentas como Minustah, dirigidas pelas tropas brasileiras que hoje seguem atendendo aos interesses imperialistas em países do continente africano.

No Brasil, a luta das mulheres negras é o motor do enfrentamento aos novos ataques do imperialismo e da herança colonial que persiste até hoje. Ecoa na luta contra a escravidão presente em pleno século XXI, na luta contra a 6x1, a reforma trabalhista e da previdência, contra a terceirização irrestrita e a uberização. Na luta de mulheres como Mirtes Renata, que há 6 anos grita por Justiça para Miguel. Assim como para fortalecer a campanha Sônia Livre que segue presa por seus algozes, com a cumplicidade do judiciário racista. O novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros é uma agressão imperialista que visa arrancar concessões e favorecer monopólios norte-americanos. Denunciamos o papel capacho da extrema direita bolsonarista, que atua como porta-voz dos interesses de Washington contra o próprio povo.

A escala 6x1 é um fio de continuidade da escravidão na jornada de trabalho, atingindo majoritariamente a população negra em setores precarizados. É inadmissível que o governo Lula tenha pactuado com Davi Alcolumbre e o Senado para desidratar a PEC do fim da 6x1, retirando urgências e abrindo brechas para "negociações" que rifam nossos direitos. Denunciamos a omissão das centrais sindicais, como a CUT, que paralisam a classe trabalhadora em favor da conciliação.

No Brasil da frente ampla, vemos uma escalada de feminicídios, em que 64% das vítimas são mulheres negras. Enquanto o Senado trava até mesmo a insuficiente Lei da Misoginia, o Judiciário racista segue revitimizando as mulheres e o Estado capitalista não garante creches, moradia e emprego e investe menos de 13 centavos por mulher para o enfrentamento à violência de gênero. Batalhamos por um plano de emergência real contra a violência, garantido pelo Estado, mas organizado pelas mulheres e sindicatos, sem confiança nas instituições que lucram com nossa opressão.

Essa semana vimos em São Paulo como a precarização mata. Um trem pegou fogo graças à privatização de Tarcísio, um bebê, filho de senegaleses, morreu em uma creche conveniada devido a superlotação. Enquanto isso, os educadores sofrem punições e perseguições com uma avaliação de desempenho que prepara grandes ataques. Precisamos dar um basta! A marcha das mulheres negras também precisa colocar no centro a luta contra as privatizações e a demanda de que as centrais sindicais construam uma forte luta unificada contra esses ataques. Uma luta que seria um ponto de apoio nacionalmente para enfrentar as privatizações, seguindo o exemplo das indígenas do Tapajós que no início do ano derrotaram as tentativas de privatização dos rios do governo Lula.

Neste 25 de julho, o Pão e Rosas e o Quilombo Vermelho convocam as mulheres negras, latinas e caribenhas a organizar a luta independente. Contra o capitalismo, o racismo e o patriarcado, faremos Palmares de novo!