Capa: É o feminismo ou o machismo que divide a classe trabalhadora?

É o feminismo ou o machismo que divide a classe trabalhadora?

Por Andrea D’Atri |
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Artigo publicado originalmente em espanhol no dia 13/08/2026 no Ideas de Izquierda Argentina.

Quando a direita destila seus discursos de ódio contra os feminismos e os antigos aliados circunstanciais do movimento querem evitar o compromisso com essas lutas, reaparecem algumas suspeitas que acreditávamos já superadas. Por exemplo, a de que as feministas semeiam uma falsa divisão entre homens e mulheres. O pior é que isso também se traduz em uma ideologia reacionária com a qual se envenena o povo trabalhador: combater o machismo, a violência contra as mulheres e a diversidade sexual ou denunciar as desigualdades de gênero apenas distrairia a classe trabalhadora de seus “verdadeiros” problemas.

A nós, que desafiamos o sindicalismo tradicional burocratizado, colocando em pauta essas questões que dizem respeito a um setor cada vez maior da classe trabalhadora, somos pejorativamente rotulados de wokes, de progressistas pequeno-burgueses que não compreendem o povo. Como se o feminismo ou os direitos das mulheres constituíssem uma agenda alheia ao movimento operário; como se abordar essas questões, em vez de fortalecer suas lutas, ajudasse a fragmentá-las. E como ensina o ditado popular, “a união faz a força”; portanto, toda denúncia feminista seria divisionista.

Mas há outra maneira de abordar essa questão, se partirmos da premissa de que a classe trabalhadora e suas lutas não podem se unir verdadeiramente reproduzindo as desigualdades, os preconceitos e as hierarquias que existem na sociedade capitalista em que vivemos, que é patriarcal, racista, heterossexista etc. Essa unidade só pode ser construída combatendo essas desigualdades.

A classe trabalhadora não é uma categoria abstrata e homogênea

E isso parece contraditório, mas não é. Porque, quando se fala em classe trabalhadora, pode-se correr o risco de pensar que se trata de um conjunto homogêneo; como se todos os seus integrantes ocupassem a mesma posição, tivessem as mesmas experiências, enfrentassem os mesmos obstáculos e chegassem à luta com o mesmo nível de consciência. Mas qualquer trabalhador ou trabalhadora sabe que não é assim. Em uma fábrica há homens e mulheres; pessoas jovens e mais velhas; trabalhadores com diferentes trajetórias; pessoas de diferentes nacionalidades; pessoas heterossexuais e da diversidade sexual etc. Há também diferentes categorias, diferentes salários, variadas formas de contratação e, portanto, diferentes direitos — ou ausência deles. E, evidentemente, existem preconceitos que se alimentam dessa diversidade para legitimar as desigualdades. Eles não nascem no local de trabalho, mas atravessam as relações entre aqueles e aquelas que trabalham ali. Essa heterogeneidade da classe trabalhadora gera contradições na construção de sua unidade para a luta, para se fortalecer como um só corpo, com interesses antagônicos aos da patronal. É também um véu que oculta e dificulta perceber onde reside aquilo que todas e todos os membros de uma mesma classe explorada têm em comum.

Uma dessas contradições é a desigualdade que a sociedade de classes estabelece entre homens e mulheres e que, portanto, atravessa — de diferentes maneiras — as classes dominantes e, sobretudo, a classe trabalhadora, que é o que nos interessa aqui: as mulheres ocupam os postos de menor qualificação e pior remunerados; têm maiores restrições e menos oportunidades para ingressar em setores da economia com maior rentabilidade e melhores salários; carregam uma responsabilidade maior pelas tarefas domésticas e de cuidado não remuneradas em seus lares, o que dificulta sua inserção no mercado de trabalho ou seu desenvolvimento profissional; enfrentam situações de assédio e violência não apenas nas ruas ou em seus lares, mas também por parte de pessoas em cargos hierárquicos que abusam de seu poder, inclusive por parte de seus próprios companheiros e companheiras de trabalho. Tudo isso afeta sua participação sindical, sua possibilidade de apresentar suas reivindicações em uma assembleia ou de se sentir parte, em igualdade de condições, da organização coletiva.

Se olharmos para isso com os olhos das mulheres, então, podemos entender quão difícil é para uma trabalhadora que sofre, silenciosamente, o assédio de seu companheiro na linha de produção participar de uma assembleia, de um comitê de luta, de uma organização sindical e de muitas outras atividades que tendam a fortalecer a unidade dos explorados.

A divisão já existe: o que fazemos com ela?

Nem mesmo ser honestos lutadores sindicais, enfrentar a patronal ou questionar os dirigentes traidores e promover a democracia operária contra a burocracia sindical é suficiente para que essas ideias e comportamentos discriminatórios nos quais somos socializados desapareçam de nós por completo e automaticamente. Por isso, aqueles que são lutadores contra a patronal e contra a burocracia e, ainda mais, aqueles que são militantes conscientemente anticapitalistas e socialistas deveriam se opor a que os trabalhadores se recusem a aceitar questionamentos sobre seu machismo ou qualquer outra forma de discriminação, sob o pretexto de que estão enfrentando um ataque patronal. Em suma, trata-se de nos adaptarmos.

Quando alguém aponta essas desigualdades, não está introduzindo uma divisão que antes não existia. A divisão já existe; a questão é o que fazemos com ela. Podemos ocultá-la, minimizá-la e pedir às mulheres trabalhadoras que esperem até que chegue um momento hipotético em que “todos unidos triunfaremos” contra a patronal e tenhamos tempo para nos ocupar desses assuntos. Ou podemos assumi-la e enfrentá-la, como parte da luta para construir uma classe trabalhadora mais forte, mais consciente e efetivamente unida.

Isso também permite pensar o machismo, assim como outras formas de opressão e discriminação, a partir de outro lugar. Porque não se trataria apenas de uma advertência moral: “há companheiros machistas e devemos repreendê-los para que sejam pessoas melhores”. Trata-se de convencer de que o machismo, assim como o racismo, a homofobia etc., tem consequências políticas concretas que diminuem a força coletiva, enfraquecem a unidade e nos colocam em piores condições para a luta contra a patronal, as forças repressivas do Estado e o capitalismo.

Varrrer esses assuntos para debaixo do tapete não significa que eles deixem de existir. Se as trabalhadoras participam menos das assembleias porque sentem que suas opiniões são desvalorizadas; se não se sentem encorajadas a ocupar posições de direção sindical porque são ignoradas ou ridicularizadas; se situações de assédio são naturalizadas; se é aceito que as mulheres carreguem individualmente as responsabilidades familiares e isso não seja levado em consideração na hora de estabelecer as exigências para a luta; se as trabalhadoras sentem que seus problemas não são ouvidos pela organização coletiva; então a classe trabalhadora está perdendo uma parte de suas próprias forças. A experiência do Partido de Trabalhadores Socialistas e de Pão e Rosas parte de uma perspectiva contrária.

PepsiCo, Kraft-Mondelez, Donnelley

Ano de 2002. A Argentina ardia entre a crise e os movimentos sociais que não lhe davam trégua. Na multinacional PepsiCo, cerca de uma centena de trabalhadoras contratadas foram demitidas e o delegado Leonardo Norniella, do PTS, foi suspenso por defendê-las. A fábrica ficou sem sua principal referência em meio ao ataque patronal; então, Catalina Balaguer, que a cada 8 de março distribuía um panfleto e uma lembrancinha para suas companheiras de trabalho, assumiu a organização da luta. A PepsiCo a demitiu e teve início a luta por sua reintegração que, finalmente, foi conquistada quando a Justiça — estabelecendo jurisprudência — obrigou a empresa a reintegrá-la, por considerar que ela havia atuado como “delegada de fato”, diante da ausência forçada de Norniella.

Essas trabalhadoras e trabalhadores, formados por essas lutas classistas e também feministas, foram os que, de maneira unitária, votaram em assembleia pela participação na mobilização do #NiUnaMenos, em 3 de junho de 2015, exigindo do sindicato dos trabalhadores da Alimentação que disponibilizasse transporte para aqueles e aquelas que marchariam até o Congresso. Foi o encerramento de uma campanha nas redes sociais que, durante as semanas anteriores, promoveu debates no refeitório e nos vestiários sobre por que ocorriam os feminicídios, quais outras formas assumia a violência machista, além de desenvolverem suas próprias palavras de ordem em cartazes artesanais com os quais operários e operárias tiraram fotos em seus postos de trabalho. Em 19 de outubro de 2016, foi uma das poucas fábricas que paralisaram suas atividades para aderir à primeira Greve Feminista. A proposta foi apresentada pela Comissão Interna liderada pelo PTS e aprovada, em assembleia, por unanimidade. Por isso, em junho de 2017, quando a empresa fechou a fábrica, deixando 500 famílias na rua, as trabalhadoras da PepsiCo foram acolhidas pelos movimentos feministas e popularizou-se a palavra de ordem “Nem uma a menos sem trabalho”, somando o apoio de muitos outros setores que contribuíram para o fundo de greve e sustentaram a resistência.

Em 2009, espalhou-se uma epidemia de gripe A. As trabalhadoras da Kraft-Terrabusi (atualmente Mondelez) explicaram a seus companheiros os riscos que corriam devido às deficientes medidas de higiene na fábrica; mas, além disso, demonstraram sua decisão de enfrentar o perigo ao qual estavam expostos os filhos e filhas dos operários e operárias que frequentavam a creche da própria empresa. Essa luta foi um conflito histórico que levou à greve na fábrica localizada em General Pacheco, ao norte da região metropolitana de Buenos Aires. A multinacional, em represália, demitiu 162 trabalhadores e trabalhadoras que, imediatamente, ocuparam a fábrica. Os arredores da fábrica se transformaram em uma assembleia permanente, na qual não apenas se reuniam as famílias operárias, mas também dezenas de representantes sindicais, da cultura e de organizações políticas, estudantis, feministas e de direitos humanos. Propusemos organizar uma Comissão de Mulheres, mas não apenas com as operárias da fábrica, e sim também com as familiares dos operários demitidos, ainda que elas não trabalhassem na Kraft. Essa integração permitiu fortalecer a unidade necessária para enfrentar o ataque da patronal norte-americana. Sobre os ombros dessas mulheres recaíram as tarefas de sustentar a luta, divulgá-la amplamente e desenvolver iniciativas criativas que se multiplicaram por todo o país.

Mas o governador Daniel Scioli e o prefeito Sergio Massa, com o aval da presidenta Cristina Kirchner, ordenaram uma violenta operação policial de despejo, com grande repercussão nacional, que foi resistida com o apoio de famílias vizinhas e estudantes solidários. Eles respondiam a um pedido da embaixada dos EUA, que defendia os interesses de seu compatriota Warren Buffett, proprietário da Kraft e, naquele momento, o segundo homem mais rico do mundo. Mas não esperavam que operários, operárias e toda uma comunidade enfrentassem a cavalaria, os gases lacrimogêneos e as balas de borracha com tamanha coragem. Embora muitos trabalhadores tenham sido reintegrados, o governo pressionou para que a comissão interna assinasse um acordo de paz, deixando 53 demitidos de fora. Mas o delegado da agrupação Bordó, que é impulsionada pelo PTS, Javier Hermosilla, recusou-se a assinar nessas condições. As companheiras e companheiros dessa agrupação, forjados nessa experiência, tiveram um papel fundamental dois anos mais tarde, quando uma operária denunciou um supervisor por assédio sexual.

Em setembro de 2011, uma trabalhadora denunciou assédio e perseguição sexual por parte de um supervisor no departamento de Recursos Humanos. Mas a empresa decidiu suspender a vítima por vários dias, para evitar conflitos dentro da fábrica. Rapidamente, as companheiras do Pão e Rosas e da agrupação Bordó explicaram que nenhuma mulher e nenhum companheiro poderiam permanecer à margem. Não se tratava de um assunto privado, tampouco de um comportamento particular de um supervisor, já que toda a fábrica sabia que os chefes se reuniam para assistir a vídeos pornográficos em seus escritórios durante o horário de trabalho. Desencadeou-se um protesto massivo que paralisou imediatamente a produção e que conseguiu, por meio de assembleias informativas, fazer com que os turnos seguintes também aderissem. Toda a fábrica exigiu sanções contra o assediador e a reintegração imediata da trabalhadora. A greve marcou um marco na história do sindicalismo na Argentina: nunca havia sido organizada uma medida de força contra a violência de gênero em um local de trabalho. Por meio dessa ação, quantos trabalhadores terão compreendido que a violência contra as mulheres não é um problema alheio aos seus interesses enquanto classe?

Em 2019, voltaram a impulsionar uma greve de duas horas no turno da tarde e uma assembleia para se solidarizar com uma trabalhadora que era vítima de violência de gênero, exigindo que o sindicato assumisse a liderança no atendimento a esse caso. Seus companheiros e companheiras de setor divulgaram um vídeo no qual dizem: “Você não está sozinha.” Como disseram nossas companheiras operárias Lorena Gentile e Stella Cabral, o objetivo era fazer com que o sindicato assumisse a liderança desse apoio “a nós trabalhadoras que sofremos dia após dia a violência em nossos lares e que depois temos que entrar nas linhas de produção escondendo os hematomas.”

A Madygraf é uma reconhecida cooperativa gráfica, que funciona sob a gestão de seus operários e operárias. No entanto, anteriormente era a R. R. Donnelley, empresa multinacional de serviços de marketing e comunicação gráfica fundada nos EUA, cuja filial argentina ficou conhecida em 2014, quando fechou repentinamente sua fábrica em Garín, alegando uma falência (fraudulenta) e deixando seus trabalhadores na rua, sem outro aviso além de um pequeno cartaz colado na porta. Hoje, a Madygraf é conhecida no movimento feminista porque sua Comissão de Mulheres participa de todos os Encontros Plurinacionais e das mobilizações de 8 de março, contra os feminicídios e a violência de gênero, e porque teve uma participação destacada na luta pela legalização do aborto. Mas, antes de se tornar uma cooperativa com um quadro de trabalhadores diversificado, a Donnelley contratava apenas homens para trabalhar na gráfica. Por isso, em 2012, cansada de não conseguir emprego, Tamara ocultou sua identidade como mulher trans para ser admitida pela empresa, suportando em silêncio a humilhação de não poder se vestir nem ser chamada como queria, além de ter que compartilhar o vestiário com os operários. Quando os delegados perceberam que algo estava acontecendo, garantiram a ela um espaço seguro para que pudesse contar o que estava vivendo e se comprometeram a enfrentar os preconceitos dos demais companheiros para envolvê-los na luta pelo seu direito à identidade de gênero, também dentro da fábrica. Os operários do PTS, como Eduardo Ayala, lideraram então, junto a outros trabalhadores da agrupação Bordó, oposição à direção do sindicato, a luta para que a patronal disponibilizasse um vestiário separado para a única operária de toda a fábrica.

Há um ano, essa Comissão Interna combativa e antiburocrática, juntamente com o Pão e Rosas, vinha impulsionando a formação de uma Comissão de Mulheres integrada pelas companheiras, filhas e mães dos operários, que passaram de apoiar um conflito em 2011 a se transformar em uma peça fundamental da resistência diante do fechamento em 2014 e, desde então, da gestão operária, incorporando-se à produção como operárias gráficas.

A unidade não é decretada, é construída

Essas experiências de nossa corrente política no movimento operário e no movimento feminista não constituem exemplos livres de toda contradição, tampouco dissolvem, por si mesmas, de uma vez por todas, a opressão que é estrutural na sociedade de classes em que vivemos. Sua importância reside no fato de que nos permitiram colocar à prova uma concepção política de como construir a unidade da classe trabalhadora lutando contra a opressão e a exploração, sem estabelecer uma divisão sindicalista, aparentemente realista, mas profundamente conservadora, que separa o pão das rosas. São alguns exemplos que demonstram que, quando uma trabalhadora participa, fala, organiza, dirige uma luta e conquista autoridade entre seus companheiros, ela não está apenas modificando sua própria vida. Está desmontando os preconceitos que o conjunto dos trabalhadores possui sobre quem pode dirigir, quem pode falar, quem pode representar sua classe e liderar sua luta. E, provavelmente, também esteja transformando de maneira mais ampla sua visão sobre as relações entre os gêneros e outros vínculos para além da fábrica.

Combater o machismo em nossa classe não é divisionismo, mas justamente o contrário: é lutar por uma unidade mais consciente. O divisionismo é a política das classes dominantes, que precisam que homens e mulheres, pessoas de diferentes identidades e setores da classe trabalhadora compitam entre si, desconfiem uns dos outros, mantenham ressentimentos e se enfrentem, enquanto a minoria parasitária que vive da exploração de sua força de trabalho concentra a riqueza e o poder do Estado. A unidade da classe trabalhadora não é um ponto de partida em cada momento que a luta de classes nos apresenta. É uma construção política que exige não aceitar nem se adaptar à consciência das massas tal como ela existe. E, para aqueles que aspiramos a uma sociedade sem opressões nem exploração, é uma tarefa militante imprescindível, repleta de dificuldades, mas extremamente apaixonante.