Entrevista com Everaldo Andrade: "O reaparecimento de bloqueios, assembleias populares e greves nacionais na Bolívia pode se tornar referência na região"
Everaldo de Oliveira Andrade é professor de História Contemporânea na FFLCH-USP, e atual presidente da ANPUH-SP. É autor de 'A revolução boliviana', da editora Unesp, e 'Bolívia: democracia e revolução, a comuna de La Paz', da editora Alameda.

Everaldo de Oliveira Andrade
1. A Bolívia está atravessada por uma rebelião popular contra a dramática situação econômica do país, exigindo a renúncia do presidente Rodrigo Paz. Pode explicar as razões que iniciaram esta rebelião, e os segmentos sociais que dela participam?
A Bolívia atravessa uma nova onda de mobilizações populares impulsionada pelo agravamento da crise econômica e social sob o governo de Rodrigo Paz. Sua eleição ocorreu em meio à crise de representação que atingiu o bloco político construído em torno do Evo Morales e do Movimiento al Socialismo desde 2006. Durante quase duas décadas, o MAS conseguiu derrotar as agendas neoliberais tradicionais, ampliando direitos sociais, fortalecendo a presença estatal sobre os recursos naturais e criando empresas públicas estratégicas. Ao mesmo tempo, porém, buscou uma política permanente de conciliação com setores empresariais e do agronegócio, especialmente durante o processo da Constituição de 2009 e das políticas neodesenvolvimentistas adotadas posteriormente. A crise internacional de 2008 atingiu profundamente a economia boliviana, excessivamente dependente da exportação de gás natural. O projeto de diversificação econômica não chegou a produzir efeitos estruturais duradouros. Paralelamente, as medidas de ajuste conduzidas ainda nos governos do MAS, especialmente sob influência de Luis Arce, provocaram crescente desgaste entre setores populares. Rodrigo Paz explorou esse cenário de fragmentação e descontentamento com um discurso genérico de renovação política. No entanto, uma vez eleito, alinhou-se rapidamente ao programa liberal e à extrema direita continental. O decreto 5503 inaugurou medidas de choque contra a economia popular; em seguida, o governo aderiu ao projeto “Escudo das Américas”, articulado pelos Estados Unidos, promoveu cortes nos subsídios aos combustíveis e impulsionou a Lei 1720, que facilitava a concentração fundiária e ameaçava terras comunitárias indígenas e camponesas ao permitir sua financeirização e hipotecamento. A pressão popular obrigou o governo a revogar essa legislação. O estopim da atual rebelião foi a combinação entre inflação, deterioração do poder de compra, desemprego, retirada de subsídios e a recusa do governo em decretar aumento salarial em 1º de maio. A partir daí, ampliaram-se as greves, marchas e bloqueios de estradas organizados por trabalhadores urbanos, camponeses, organizações indígenas, transportistas e sindicatos. A Central Obrera Boliviana elaborou uma pauta unificada de 22 pontos em defesa dos salários, contra privatizações e medidas liberais, incorporando também a exigência de renúncia do presidente.
2. Paz é um aliado de Trump, aceitou ser parte do "Escudo das Américas" e enquadrar os bens naturais comuns da Bolívia nos planos dos EUA. O que esta rebelião de trabalhadores e camponeses implica ao projeto da extrema direita continental?
A crise boliviana possui impacto continental porque Rodrigo Paz se converteu rapidamente em um aliado estratégico do projeto hemisférico impulsionado por Donald Trump e pela extrema direita latino-americana. A adesão ao “Escudo das Américas” expressa justamente a tentativa de integrar os recursos naturais estratégicos bolivianos — gás, lítio, terras raras e territórios agrícolas — aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos e das grandes multinacionais. Historicamente, as elites bolivianas, sobretudo os grandes proprietários vinculados ao agronegócio de Santa Cruz e grupos financeiros urbanos, mantiveram forte dependência econômica e política do capital internacional. Esses setores acreditavam que a eleição de Paz permitiria desmontar rapidamente as conquistas sociais e os mecanismos de organização popular construídos desde os levantes da Guerra da Água e da Guerra do Gás no início dos anos 2000. A retomada da mobilização direta de massas demonstra, entretanto, que as organizações populares bolivianas preservam enorme capacidade de resistência. O reaparecimento de bloqueios, assembleias populares e greves nacionais pode se tornar referência para outros países da região, ao mostrar que projetos neoliberais e autoritários podem enfrentar resistência social organizada. Nesse sentido, a rebelião boliviana representa um desafio importante para a estratégia continental da extrema direita e do imperialismo estadunidense.
3. As mobilizações estão mostrando certo nível de coordenação, em especial os iniciais "comitês de bloqueio" em El Alto, Senkata, Ventilla, Puente Vela. Na sua opinião, qual a importância do desenvolvimento desses espaços de reunião e deliberação de trabalhadores e camponeses, em vista do que é hoje a COB (Central Obrera Boliviana)?
Os comitês de bloqueio surgidos em regiões como El Alto, Senkata, Ventilla e Puente Vela possuem enorme importância política porque expressam formas de auto-organização popular profundamente enraizadas na tradição de luta boliviana. Esses espaços articulam trabalhadores urbanos, camponeses, povos indígenas e setores populares em mecanismos de deliberação direta, coordenação territorial e ação coletiva. Seu significado vai além da luta imediata. Eles demonstram que a vitória eleitoral de Rodrigo Paz não significou uma derrota ideológica profunda das massas trabalhadoras bolivianas nem o desaparecimento de suas tradições de democracia direta e organização comunitária que vem da revolução de 1952, da comuna de La Paz de 1971 e tantas outras lutas. Ao mesmo tempo, esses comitês surgem também como resposta ao processo de burocratização enfrentado por parte da Central Obrera Boliviana, da CSTUB e de vários sindicatos históricos. A emergência de organismos de base pressiona pela retomada do caráter combativo das organizações operárias tradicionais e impulsiona sua reconexão com as mobilizações concretas das ruas. A própria pauta de 22 pontos apresentada pela COB ajudou a unificar reivindicações dispersas, conectando as demandas econômicas — salários, subsídios, defesa dos serviços públicos — a uma luta política aberta contra o governo. Assim, a dinâmica atual aponta para um processo em que a auto-organização popular pode redefinir o papel das organizações tradicionais do movimento operário boliviano.
4. A mobilização na Bolívia está mostrando um novo caminho para enfrentar a extrema direita? Qual a importância dela para o Brasil?
A experiência boliviana recoloca no centro da discussão latino-americana a importância da mobilização social direta como instrumento de enfrentamento aos projetos de extrema direita. As atuais lutas demonstram que processos de resistência ganham força quando partem de reivindicações materiais concretas: defesa do salário, combate às privatizações, proteção das terras comunitárias e preservação de direitos sociais. O caso boliviano também evidencia os limites das disputas exclusivamente institucionais. As eleições continuam sendo terreno importante de disputa política, mas estão cada vez mais condicionadas pelo poder econômico, pela influência das grandes plataformas digitais e pela intervenção geopolítica internacional. A vitória eleitoral de Rodrigo Paz capturou momentaneamente a crise do bloco popular organizado em torno do MAS, mas não eliminou as transformações sociais e políticas acumuladas desde 2006. O Movimiento al Socialismo possui limitações e contradições importantes, especialmente em seu modelo econômico e em suas práticas políticas. Ainda assim, consolidou-se como principal instrumento de oposição às agendas neoliberais da direita boliviana. O governo Paz interpretou equivocadamente sua vitória eleitoral como autorização para aplicar integralmente um programa liberal radical. A reação popular atual recoloca em cena a memória das grandes jornadas de luta de 2003, que derrubaram Gonzalo Sánchez de Lozada após as guerras da água e do gás. Para o Brasil e para outros países da região, o processo boliviano reforça a percepção de que a resistência às agendas ultraliberais depende da capacidade de organização da classe trabalhadora, dos grupos e coletivos populares, da unidade das lutas sociais e construção de instrumentos coletivos enraizados nas demandas concretas da classe trabalhadora.