Capa: Educação Sob Ataque, Resistência em Movimento: Auto-organização, Solidariedade e Lutas Docentes no Cenário Internacional

Educação Sob Ataque, Resistência em Movimento: Auto-organização, Solidariedade e Lutas Docentes no Cenário Internacional

Por Evaldo Piolli |
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Evaldo Piolli é sociólogo, pesquisador e professor livre-docente da Faculdade de Educação da UNICAMP. Lidera o Grupo de Pesquisa Trabalho, Saúde e Subjetividade (NETSS) e coordena o Observatório do Trabalho Docente da mesma instituição.

Nos últimos anos, diferentes países têm assistido à emergência de importantes mobilizações de professores, estudantes e trabalhadores da educação. Da greve dos professores mexicanos às marchas universitárias argentinas, dos protestos estudantis no Peru e no Chile às mobilizações contra o ICE e em defesa da Palestina nas universidades norte-americanas, passando pela greve da educação no Pará (Brasil), observa-se a constituição de um amplo ciclo internacional de lutas em defesa da educação pública, dos direitos sociais e da valorização do trabalho. Embora essas mobilizações possuam especificidades nacionais, elas compartilham elementos comuns que permitem compreendê-las como parte de um mesmo contexto histórico marcado pela intensificação das políticas neoliberais, pela precarização das condições de trabalho e pelo avanço de projetos políticos autoritários.

Mais do que respostas imediatas a perdas salariais ou ataques conjunturais, essas lutas expressam processos de construção coletiva que articulam professores, estudantes, movimentos feministas, organizações indígenas, trabalhadores migrantes e diferentes setores populares. Em muitos casos, as mobilizações assumem formas organizativas baseadas na participação direta, na solidariedade e na auto-organização, revelando a busca por alternativas às formas tradicionais de representação política e sindical.

É nesse contexto que a reflexão Thompson (2011) adquire especial relevância. Ao afirmar que a classe é um fenômeno histórico que se constitui quando homens e mulheres, a partir de experiências comuns, reconhecem interesses compartilhados e passam a agir coletivamente, o autor oferece uma importante chave interpretativa para compreender as mobilizações contemporâneas da educação. Mais do que movimentos reivindicatórios isolados, elas podem ser entendidas como experiências de formação política, construção de solidariedades e constituição de sujeitos coletivos.

Nessa perspectiva, a classe não se apresenta como uma realidade previamente dada, mas emerge historicamente no próprio processo das lutas sociais. É na experiência concreta dos conflitos entre trabalhadores e aqueles que detêm o poder econômico e político que se desenvolvem relações de solidariedade, pertencimento e identidade coletiva. Os valores, discursos e referências que sustentam essa consciência não surgem espontaneamente; são construídos a partir das experiências compartilhadas de exploração, resistência e organização coletiva. Assim, as mobilizações de professores, estudantes e trabalhadores da educação podem ser compreendidas como espaços privilegiados nos quais se forjam interesses comuns, se fortalecem vínculos desolidariedade e se constituem sujeitos capazes de intervir coletivamente na realidade social.

Nesse sentido, os protestos indicam que a educação se tornou um dos campos centrais da disputa política contemporânea: de um lado, projetos que buscam convertê-la em serviço barato, controlado, padronizado e funcional ao mercado; de outro, trabalhadores que defendem a escola pública, a carreira docente, a autonomia pedagógica e a educação como direito universal. Nesse cenário, a ascensão da extrema direita e os limites da esquerda liberal revelam duas formas distintas, mas muitas vezes convergentes, de gestão da crise: uma pela via autoritária e abertamente antissocial; outra pela conciliação institucional com a racionalidade neoliberal. Portanto, se olharmos atentamente e fizermos uma análise mais aprofundada das manifestações teremos em mãos elementos fundamentas para a devida interpretação, sobretudo porque permite escapar de algumas armadilhas analíticas frequentes. 

Professores, estudantes e trabalhadores em luta

Na Bolívia, após cerca de 50 dias de protestos e bloqueios, o governo firmou acordo com a Central Operária Boliviana em meio à insatisfação com medidas de austeridade, crise econômica e deterioração das condições de vida. A mobilização foi alimentada não apenas pela deterioração das condições de vida, mas também pela percepção de que o governo Rodrigo Paz promovia uma reorientação estratégica do país. 

Na política externa, o estreitamento das relações com os Estados Unidos e organismos financeiros internacionais gerou preocupações entre amplos setores populares, especialmente diante da importância da Bolívia no mercado mundial de lítio, recurso considerado estratégico para a transição energética global. Ao mesmo tempo, propostas de reforma constitucional, mudanças no Judiciário e medidas relacionadas à gestão dos recursos naturais foram interpretadas por sindicatos, organizações indígenas e movimentos populares como sinais de enfraquecimento do controle público sobre setores considerados estratégicos para a soberania nacional.

Nesse contexto, a persistente escassez de combustíveis, a corrosão dos salários pela inflação e o temor de uma privatização indireta dos recursos naturais contribuíram para aproximar diferentes setores sociais que tradicionalmente atuavam de forma dispersa. Trabalhadores urbanos, sindicatos independentes, comunidades agrárias, organizações indígenas, professores e comitês cívicos populares passaram a compartilhar espaços de mobilização e coordenação. A experiência boliviana ilustra muito bem, como a unidade e a solidariedade entre diferentes sujeitos sociais podem emergir a partir da percepção de ameaças comuns, constituindo uma frente ampla de resistência que ultrapassa interesses corporativos imediatos e articula reivindicações econômicas, sociais e políticas mais abrangentes.

Um dos aspectos mais significativos do processo foi a construção de uma ampla convergência entre diferentes setores populares. A adesão de organizações camponesas, indígenas, sindicais e de trabalhadores da educação ampliou a força das mobilizações e demonstrou a capacidade de articulação de demandas diversas em torno de objetivos comuns. Mesmo diante da repressão, das prisões de lideranças, das tentativas de criminalização dos protestos e da decretação do estado de exceção, o movimento manteve elevados níveis de solidariedade e ação coletiva. 

A experiência boliviana demonstra que a unidade entre trabalhadores, camponeses, povos indígenas e movimentos sociais continua sendo um elemento decisivo para enfrentar políticas de ajuste e projetos considerados neoliberais, constituindo um exemplo importante de resistência social baseada na solidariedade entre diferentes sujeitos coletivos.

No México, a mobilização dos professores organizados na Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) tornou-se uma das mais importantes lutas educacionais de 2026. As reivindicações centrais incluíam a duplicação do salário-base, a revogação das reformas educacionais implementadas por governos anteriores, o fim do Sistema para a Carreira das Professoras e dos Professores (USICAMM), criticado por aprofundar mecanismos meritocráticos e de controle do trabalho docente, e a restauração de um sistema público e solidário de aposentadorias 1. Embora as demandas possuam um forte conteúdo econômico e corporativo, elas expressam também uma crítica mais ampla às reformas neoliberais que vêm reestruturando a educação mexicana nas últimas décadas.

O movimento adquiriu repercussão internacional por coincidir com a abertura da Copa do Mundo, colocando em evidência as contradições entre os grandes investimentos destinados ao evento e as reivindicações dos trabalhadores da educação. Durante cerca de vinte dias, os professores realizaram greves, bloqueios, ocupações do espaço público e manifestações massivas em diferentes regiões do país, pressionando o governo da presidente Claudia Sheinbaum. Mesmo com a celebração de acordos parciais e o retorno às atividades escolares, a Coordinadora Nacional de Trabajadores de la Educación (CNTE) declarou que a mobilização deve permanecer ativa até que suas reivindicações sejam efetivamente atendidas.

A mobilização revelou uma estratégia de ação coletiva que articula greve nacional, ocupação permanente do espaço público, bloqueios urbanos, negociação institucional e aproveitamento da visibilidade proporcionada por um megaevento esportivo internacional. Em vez de restringir a luta às mesas de negociação, a CNTE preserva uma elevada capacidade de mobilização de base, buscando ampliar o custo político da intransigência governamental e conferir maior legitimidade pública às suas reivindicações. Nesse sentido, a presença permanente nas ruas constitui, simultaneamente, um instrumento de pressão sobre o Estado, de fortalecimento da organização sindical e de projeção nacional e internacional da luta dos trabalhadores da educação.

O caso mexicano é particularmente significativo porque evidencia a persistência de formas de organização e luta construídas historicamente pelas bases docentes. Diferentemente de movimentos estritamente conduzidos por estruturas sindicais burocratizadas, a CNTE possui uma longa tradição de assembleias, coordenações regionais e participação direta dos trabalhadores na definição das estratégias de luta. Nesse sentido, a experiência mexicana aproxima-se de outras mobilizações recentes observadas na Argentina, nos Estados Unidos e no Pará-Brasil, onde a força dos movimentos tem estado associada à capacidade de auto-organização e protagonismo das bases.

Mais do que uma reivindicação salarial, a luta dos professores mexicanos expressa a resistência à mercantilização da educação, à precarização do trabalho docente e aos mecanismos gerenciais de controle impostos pelas reformas educacionais. Por isso, ela se insere em um ciclo mais amplo de mobilizações internacionais nas quais trabalhadores da educação, estudantes e comunidades escolares buscam construir formas de solidariedade e organização capazes de enfrentar tanto os projetos autoritários da extrema direita quanto os limites das políticas educacionais administradas sob a racionalidade neoliberal.

Na Argentina, professores e estudantes universitários têm protagonizado sucessivas mobilizações contra os cortes orçamentários promovidos pelo governo de Javier Milei e em defesa do financiamento 2 da educação superior pública. A quarta Marcha Federal Universitária, realizada em 2026, ocorreu em meio a novos ajustes fiscais que atingiram as áreas de educação e saúde. Apesar da forte pressão social e da aprovação, pelo Congresso, de leis destinadas a garantir recursos para as universidades, Milei vetou as medidas por considerá-las incompatíveis com sua política de superávit fiscal. Em 2025, contudo, o Congresso conseguiu derrubar o veto presidencial, transformando a defesa da universidade pública em um dos principais focos de resistência às políticas de austeridade implementadas pelo governo argentino. 

Em 3 de junho de 2026, milhares de mulheres ocuparam as ruas de Buenos Aires e de dezenas de cidades argentinas convocadas pelo movimento Ni Una Menos, exigindo medidas efetivas contra o feminicídio e a violência machista. A mobilização foi impulsionada pela comoção causada pelo assassinato da adolescente Agostina Vega, de 14 anos, mas também pela denúncia do desmonte das políticas públicas de proteção às mulheres promovido pelo governo Milei. As manifestantes denunciaram os cortes orçamentários, a redução dos programas de assistência às vítimas e o enfraquecimento dos organismos estatais voltados ao enfrentamento da violência de gênero. 

Um aspecto relevante foi o caráter amplo e socialmente enraizado da mobilização. Além dos coletivos feministas, participaram trabalhadoras de diferentes categorias, estudantes, movimentos sociais e professoras da educação básica e superior, que vêm desempenhando papel importante nas mobilizações contra o ajuste fiscal, os cortes na educação e os ataques aos direitos sociais. A presença das educadoras reforçou a articulação entre a luta feminista e a defesa da educação pública, evidenciando que a violência de gênero, a precarização do trabalho e o desmonte das políticas sociais são dimensões interligadas de uma mesma ofensiva conservadora e neoliberal. 

Para além da pauta específica do combate ao feminicídio, o protesto expressou um movimento mais amplo de resistência social na Argentina. Assim como ocorre nas mobilizações universitárias, nas lutas docentes e nos protestos contra as políticas de austeridade, o movimento de mulheres tem se constituído como um importante espaço de auto-organização, solidariedade e construção de sujeitos coletivos. A participação ativa das professoras revela que as fronteiras entre luta sindical, luta educacional e luta feminista tornam-se cada vez mais permeáveis, ampliando as possibilidades de articulação entre diferentes movimentos sociais na resistência ao governo Milei e às políticas de ajuste. 

No Chile, em junho de 2026, milhares de estudantes protagonizaram a primeira grande mobilização nacional contra o governo de extrema direita de José Antonio Kast. Convocada pela Confederação de Estudantes do Chile (Confech), com apoio ativo do Sindicato dos Professores, a greve nacional denunciou os cortes orçamentários na educação, saúde e políticas sociais, além da chamada "megarreforma" tributária que reduz impostos para grandes empresas e amplia benefícios aos setores mais ricos. A resposta do governo foi marcada pela repressão policial, com uso de gás lacrimogêneo, canhões de água, prisões e dezenas de feridos. 

Um aspecto particularmente relevante é que a mobilização não se restringiu a reivindicações educacionais. Os manifestantes denunciaram o desmonte de direitos sociais, o aumento do custo de vida, a redução de programas de acesso ao ensino superior e a aprovação de medidas de caráter punitivo, como o projeto "Escolas Protegidas"3, considerado pelos movimentos estudantis e docentes uma resposta repressiva aos problemas da educação. A participação conjunta de estudantes e professores consolidou uma frente social mais ampla contra as políticas de ajuste implementadas pelo governo Kast. 

Os acontecimentos no Chile reafirmam a hipótese de que as lutas contemporâneas na educação tendem a ultrapassar os limites corporativos e a conectar-se com reivindicações sociais mais amplas. Assim como ocorre na Argentina, no México, no Peru, nos Estados Unidos e nas experiências brasileiras, a defesa da educação pública aparece articulada à luta contra a austeridade, a mercantilização dos direitos sociais e os projetos autoritários da extrema direita. Mais do que movimentos setoriais, essas mobilizações expressam processos de construção de solidariedade e de formação de sujeitos coletivos que aproximam estudantes, professores e trabalhadores em torno de interesses comuns. 

São lutas que convergem em frentes mais amplas de solidariedade, nas quais professoras, estudantes, trabalhadores e movimentos feministas passam a atuar conjuntamente contra diferentes formas de opressão e precarização. Em contextos distintos, observa-se a tentativa de submeter a educação à lógica fiscal, gerencial e mercantil, reduzindo salários, flexibilizando vínculos, ampliando terceirizações e enfraquecendo a autonomia profissional dos educadores. 

No Brasil foi emblemática a greve da educação no Pará constituiu uma das experiências mais significativas de resistência recente no campo educacional brasileiro. Diante da implementação da Lei nº 10.820/2024 do novo Plano de Carreira para os professores que suprimia direitos dos professores e instaurava um modelo de carreira baseado em critérios meritocráticos e de produtividade inspirados na lógica empresarial. Os professores e professoras construíram uma ampla mobilização que ultrapassou os limites corporativos da categoria. A luta foi marcada por um discurso crítico às políticas neoliberais e por métodos de ação direta, como greves, manifestações e a ocupação da Secretaria de Educação do Estado (SEDUC-PA), articulando a defesa dos direitos dos trabalhadores da educação com a resistência a um projeto considerado autoritário, privatista e empresarial para a escola pública.

Um dos aspectos mais relevantes da experiência paraense foi a construção de uma forte unidade entre professores, lideranças indígenas, quilombolas, populações ribeirinhas, movimentos sociais e organizações sindicais. A partir dessa convergência, foram criados espaços de solidariedade, colaboração e ação coletiva que fortaleceram a mobilização e ampliaram sua legitimidade social. Após mais de vinte dias de greve, a pressão exercida pelo movimento resultou na suspensão e posterior revogação da Lei nº 10.820/2024. A experiência do Pará demonstra que a unidade entre diferentes sujeitos sociais, associada a formas mais horizontais de organização e participação das bases, pode constituir um importante caminho de resistência frente à precarização do trabalho, à fragmentação das categorias e ao avanço de projetos neoliberais na educação pública.

Nos Estados Unidos, entre janeiro e fevereiro de 2026, uma parcela importante da mobilização docente não ficou centrada apenas em salários, carreira ou financiamento da educação, mas na defesa concreta das comunidades trabalhadoras imigrantes ameaçadas pelas operações do ICE. Em Minneapolis, professores e seus sindicatos passaram a organizar redes de proteção, informação e solidariedade para estudantes e famílias imigrantes, transformando as escolas em espaços de resistência comunitária. Os trabalhadores de educação somaram forças e ajudaram a construir uma infraestrutura de resistência social contra as políticas de deportação em massa do governo Trump.

As universidades estadunidenses voltaram a ocupar um lugar central nas lutas sociais contemporâneas. Em 2026, estudantes, professores e trabalhadores universitários participaram de mobilizações contra as políticas migratórias do governo Trump e as ações do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega). Na Universidade de Columbia, um protesto contra a cooperação da instituição com o ICE terminou com a prisão de doze manifestantes, entre eles estudantes e docentes. Os participantes defendiam que as universidades e escolas deveriam atuar como espaços de proteção das comunidades imigrantes diante das deportações e da repressão estatal. As mobilizações também se relacionam a uma crescente resistência às tentativas de criminalização dos protestos e às pressões do governo federal sobre as instituições de ensino superior. 

Esses protestos não podem ser compreendidos isoladamente das mobilizações pró-Palestina que tomaram os campi universitários norte-americanos desde 2024. Universidades como Columbia, UCLA, Yale e diversas outras tornaram-se centros de organização estudantil e docente em defesa do povo palestino e contra o apoio dos Estados Unidos à ofensiva israelense em Gaza. A resposta das autoridades foi marcada por repressão policial, centenas de prisões e cortes de financiamento a instituições acusadas de tolerar os protestos. A articulação entre a defesa dos direitos dos imigrantes, a solidariedade internacional ao povo palestino e a defesa da liberdade acadêmica revela como as universidades estadunidenses vêm se convertendo em importantes espaços de resistência política, aproximando estudantes, professores e movimentos sociais em torno de pautas que ultrapassam os limites estritamente educacionais. 

A extrema direita tem aprofundado esse processo por meio de políticas autoritárias, privatizantes e antissindicais, como se vê de modo mais evidente na Argentina de Milei, no Chile de Kast, nos EUA com Trump e em setores conservadores europeus. Mas a chamada esquerda liberal também participa desse movimento quando administra a crise do capital sem romper com a austeridade, com a responsabilização individual, com as reformas previdenciárias e com a adaptação da escola às exigências do mercado.  Assim, os protestos docentes devem ser compreendidos como parte de uma resistência mais ampla contra a precarização do trabalho e contra a destruição dos direitos sociais. 

Fugindo das armadilhas interpretativas

Conforme apontamos ao longo deste trabalho, uma análise mais aprofundada das recentes mobilizações de professores, estudantes e trabalhadores da educação em diferentes países revela uma chave interpretativa promissora, capaz de evitar duas armadilhas analíticas recorrentes. A primeira consiste em compreender essas lutas apenas como respostas defensivas a perdas salariais ou a ataques conjunturais. Embora tais reivindicações estejam presentes, elas não esgotam o significado desses movimentos. Em diversos contextos, observa-se algo mais profundo: a reconstrução de formas coletivas de ação política e de solidariedade em um cenário marcado pela fragmentação do trabalho, pela precarização das condições de vida e pela crise das formas tradicionais de representação política e sindical. 

A segunda armadilha consiste em reduzir a análise à oposição entre governos de extrema direita e governos progressistas. Evidentemente, a ascensão da extrema direita constitui um elemento central da conjuntura contemporânea, sobretudo pelos ataques aos sindicatos, à universidade pública, à ciência, aos direitos sociais e aos movimentos populares. Contudo, muitas das políticas que alimentam a insatisfação dos trabalhadores — austeridade fiscal, gerencialismo, privatizações, avaliação por desempenho, flexibilização das relações de trabalho e mercantilização da educação — também foram implementadas ou preservadas por governos de centro e de esquerda liberal. Essa constatação ajuda a compreender por que muitas das mobilizações recentes assumem formas organizativas relativamente autônomas em relação aos canais institucionais tradicionais e buscam construir novos espaços de participação e deliberação coletiva.

As experiências observadas no Pará em 2024, na Argentina, no México, no Chile, na Bolívia e nos Estados Unidos apontam justamente para essa tendência. Em cada uma delas, professores, estudantes e trabalhadores da educação enfrentam problemas específicos, mas também compartilham desafios comuns relacionados à defesa da educação pública, à valorização do trabalho, ao combate à precarização e à resistência às diferentes formas de mercantilização da vida social. Em muitos casos, as mobilizações ultrapassam os limites das reivindicações corporativas e articulam-se com outras lutas sociais, como a defesa dos direitos dos migrantes, das mulheres, dos povos indígenas e das comunidades atingidas por políticas de austeridade e privatização.

Nesse sentido, as lutas contemporâneas do setor educacional, expressam uma dupla resistência. Por um lado, enfrentam projetos neoliberais e autoritários impulsionados pela extrema direita. Por outro, evidenciam os limites das formas institucionalizadas de mediação política e sindical construídas nas últimas décadas. A emergência de assembleias de base, comandos de greve, ocupações, coordenações intersetoriais e redes de solidariedade revela a busca por formas mais participativas de organização e ação coletiva. Trata-se de processos que recolocam a auto-organização, a democracia de base e o protagonismo dos trabalhadores e estudantes no centro da luta pela educação pública. 

A força dessas experiências talvez não resida apenas em suas reivindicações imediatas, mas sobretudo na capacidade de produzir espaços de formação política, solidariedade e construção de sujeitos coletivos. As mobilizações analisadas demonstram precisamente esse movimento: não se trata apenas de trabalhadores defendendo direitos, mas de trabalhadores e estudantes constituindo-se como força social por meio da própria experiência da luta. 

É justamente por essa razão que a solidariedade entre os diferentes movimentos assume uma importância estratégica. Se as lutas constituem espaços de formação política, auto-organização e construção de sujeitos coletivos, a defesa de ações solidárias deixa de ser apenas uma questão moral ou humanitária para se tornar uma necessidade política fundamental. As experiências recentes mostram que a ampliação dos laços de solidariedade entre professores, estudantes, trabalhadores, movimentos feministas, organizações populares e comunidades locais fortalece a capacidade de resistência e amplia o alcance político das mobilizações. Em um contexto no qual as políticas de ajuste, privatização e precarização se articulam cada vez mais em escala internacional, também a resistência precisa construir formas mais amplas de cooperação, unidade e solidariedade. É nesse horizonte que as lutas contemporâneas da educação revelam seu potencial mais profundo: não apenas defender direitos ameaçados, mas contribuir para a construção de novos sujeitos coletivos e de novas possibilidades de transformação social.

Como observa Thompson (2011, p.10), "a classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (partilhadas ou herdadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si, e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus". As mobilizações recentes de professores, estudantes e trabalhadores da educação em diferentes países sugerem justamente esse processo de constituição coletiva. Não se trata apenas de reivindicações salariais ou corporativas isoladas, mas de experiências compartilhadas de precarização do trabalho, desfinanciamento da educação pública, ataques aos direitos sociais, mercantilização do ensino e restrição dos espaços democráticos.

Da Argentina ao México, do Chile aos Estados Unidos, passando pela Bolívia e pelo Pará, as mobilizações em defesa da educação demonstram a construção de formas de solidariedade que ultrapassam os limites corporativos e nacionais. Professores, estudantes, trabalhadores universitários, movimentos sociais e organizações populares passam a reconhecer problemas e adversários comuns, fortalecendo experiências coletivas de resistência. Assembleias, greves, ocupações e redes de cooperação internacional emergem como importantes espaços de formação política. 

As experiências analisadas demonstram que os ataques à educação pública, aos direitos sociais e ao trabalho integram um processo mais amplo de reestruturação neoliberal em escala global, assumindo diferentes configurações políticas conforme o contexto nacional. Nesse cenário, a solidariedade entre trabalhadores, estudantes e movimentos sociais deixa de ser mero apoio externo para tornar-se elemento constitutivo da ação coletiva. A valorização da ação direta, da organização de base, da democracia sindical e da cooperação internacional amplia a capacidade de resistência frente à precarização, à privatização e à mercantilização da educação, oferecendo importantes referências para o fortalecimento das lutas dos trabalhadores da educação no Brasil.

Fontes do artigo 

BRASIL DE FATO. Milhares de mulheres exigem ações contra o feminicídio e o machismo na Argentina. 3 jun. 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/06/03/milhares-de-mulheres-exigem-acoes-contra-o-feminicidio-e-o-machismo-na-argentina/. Acesso em: 25 jun. 2026. 

BRASIL DE FATO. Estudantes no Chile são reprimidos durante uma greve nacional contra cortes sociais de Kast. 3 jun. 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/06/03/estudantes-no-chile-sao-reprimidos-durante-uma-greve-nacional-contra-cortes-sociais-de-kast/. Acesso em: 25 jun. 2026. 

BRASIL DE FATO. Bolívia prende líderes de protestos em meio a respaldo militar dos EUA. 5 jun. 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/06/05/bolivia-prende-lideres-de-protestos-em-meio-a-respaldo-militar-dos-eua/. Acesso em: 25 jun. 2026. 

CONFEDERACIÓN DE TRABAJADORES DE LA EDUCACIÓN DE LA REPÚBLICA ARGENTINA (CTERA). Ni Una Menos: CTERA y la CTA-T en las calles contra las violencias, el ajuste y los discursos de odio. Buenos Aires, 4 jun. 2026. Disponível em: https://ctera.org.ar/ni-una-menos-ctera-y-la-cta-t-en-las-calles-contra-las-violencias-el-ajuste-y-los-discursos-de-odio/. Acesso em: 25 jun. 2026.

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CNN BRASIL. Protestos contra o ICE em universidade dos EUA terminam com 12 detidos. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/protestos-contra-o-ice-em-universidade-dos-eua-terminam-com-12-detidos/. Acesso em: 25 jun. 2026. 

ESQUERDA DIÁRIO. Professores se organizando contra o ICE nas escolas de Minneapolis são o coração da resistência. 2026. Disponível em: https://www.esquerdadiario.com.br/Professores-se-Organizando-Contra-o-ICE-nas-Escolas-de-Minneapolis-Sao-o-Coracao-da-Resistencia. Acesso em: 25 jun. 2026. 

FOLHA DE S.PAULO. Governo da Bolívia assina acordo com central sindical após 50 dias de protestos pelo país. São Paulo, 19 jun. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/06/governo-da-bolivia-assina-acordo-com-central-sindical-apos-50-dias-de-protestos-pelo-pais.shtml. Acesso em: 25 jun. 2026. 

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