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Luta negra e classe operária nos EUA das décadas de 1930 e 1940

Artigo publicado originalmente em espanhol no dia 10/09/2026 no Ideas de Izquierda Argentina

Publicamos um trecho antecipado de uma parte do livro Negritude e Revolução. Do decolonialismo latino-americanista ao marxismo negro. Trata-se de uma reflexão sobre as possibilidades revolucionárias contidas no desenvolvimento da luta de classes nos Estados Unidos entre o crack da economia mundial de 1929, a depressão da década de 1930 e a Segunda Guerra Mundial. Em particular, analisamos os problemas estratégicos relativos à articulação entre a luta negra e a revolução proletária em um momento histórico em que tanto a negritude quanto a classe operária norte-americana vivenciam profundos processos de luta e organização. Três grandes fenômenos do século XXI conferem particular atualidade a esta reflexão. Em primeiro lugar, apesar da intervenção dos Estados ter conseguido evitar que uma das maiores crises do capitalismo, como a de 2008, se transformasse em um crack financeiro como o de 1929, os capitais imperialistas não conseguem encontrar novos nichos de valorização capazes de cumprir um papel estabilizador semelhante ao que, durante a ofensiva neoliberal, desempenhou a restauração capitalista nos ex-Estados Operários que haviam planejado sua economia, como subproduto dos grandes processos revolucionários do século XX. Em segundo lugar, ligada a essa instabilidade, temos presenciado revoltas sociais sustentadas em muitos países do mundo como resistência às tentativas de descarregar essa crise sobre as costas das classes subalternas; em um processo de crescente protagonismo das lutas operárias, ainda que estas partam de uma posição mais atrasada, como vemos na última década na França, na Greve Geral contra o genocídio do povo palestino na Itália e nas recentes lutas docentes no Estado Espanhol. Em terceiro lugar, com desigualdades, a atualização dos conflitos entre as tendências à revolução e à contrarrevolução em diferentes partes do mundo, com o fortalecimento de correntes de extrema direita, vem acompanhada do recrudescimento das rivalidades entre as grandes potências, destacando-se a tendência à centralidade de confrontos militares que não víamos desde a Segunda Guerra Mundial. Consideramos que a reatualização dessas tendências justifica refletir sobre os problemas colocados pelo enfrentamento entre revolução e contrarrevolução, que marcou o período entre guerras do século passado, e repensá-los à luz da atualidade. Mas o recorte específico que fazemos daquela realidade neste texto tem um motivo adicional. Nas explosões sociais que percorreram o mundo nas últimas décadas, das quais o movimento Black Lives Matter nos Estados Unidos foi uma de suas máximas expressões, a classe trabalhadora atuou em grande medida como parte de movimentos sociais que se mobilizam por múltiplas formas de luta contra a opressão, sem colocar em jogo sua capacidade de paralisar a economia e colocar seus recursos a serviço das grandes maiorias populares. Nos Estados Unidos, a faísca foi a luta contra a violência policial racista e, mais recentemente, contra a violência policial anti-imigrante, como se viu no grande levante de Minneapolis que, em 2025, conseguiu frear a ofensiva da polícia migratória de Trump (ICE). Em outros países, os desempregados, os setores mais precarizados da classe trabalhadora que estão fora das organizações sindicais, os imigrantes, as mulheres mais exploradas e oprimidas, os povos originários e a juventude adquirem protagonismo e colocam um desafio: como articular as lutas contra todas as formas de opressão com a luta contra a exploração capitalista, com o objetivo de transformar as raízes do sistema e construir uma estratégia verdadeiramente emancipadora? As reflexões estratégicas presentes no diálogo de C. L. R. James com Trotsky em 1939 oferecem elementos fundamentais para problematizar essa questão.

Os Estados Unidos do século XX concentravam, ao mesmo tempo, a classe operária industrial mais poderosa do mundo e o proletariado negro mais numeroso de toda a diáspora africana. A estrutura de classes estadunidense combinava a indústria mais avançada do capitalismo, a disputa por sua predominância no sistema imperialista e a forma de dominação racial baseada nas leis Jim Crow.

Tratava-se de uma arquitetura institucional que, do final do século XIX até meados da década de 1960, garantiu a segregação racial nos estados do sul do país. Essas leis separavam legalmente negros e brancos em escolas, transportes, hospitais, restaurantes, espaços públicos e diversos âmbitos da vida cotidiana. Somavam-se a elas mecanismos restritivos que retiravam da população negra seus direitos políticos por meio de impostos eleitorais, testes de alfabetização e outras restrições ao voto. Em seu conjunto, um regime de violência racial que incluía linchamentos, perseguição policial e atuação de organizações supremacistas. Nesse contexto, o proletariado negro no seio do país imperialista mais poderoso do mundo emerge submetido a uma forma de colonialismo interno.

Seu potencial revolucionário não derivava somente de sua opressão, mas de sua crescente proximidade aos centros produtivos, logísticos, militares e políticos do poder estadunidense. Essa combinação permite pensar a posição da negritude estadunidense em termos daquilo que Emilio Albamonte, retomando problemas formulados por Lawrence Freedman, denomina um “multiplicador estratégico”: um fator capaz de transformar determinadas forças e capacidades existentes em uma potência superior àquela que teriam atuando separadamente. O conceito tem seu antecedente na teoria militar do “multiplicador de forças”, isto é, aqueles fatores que permitem obter efeitos desproporcionais em relação aos recursos inicialmente disponíveis. Transposto para o terreno da estratégia revolucionária, pode adquirir um sentido ainda mais amplo, que não designa somente uma determinada força ou organização. Diz respeito a uma relação capaz de articular posições, capacidades e sujeitos distintos, de tal forma que sua combinação altera qualitativamente a correlação de forças.

Albamonte busca problematizar como uma organização revolucionária relativamente pequena pode multiplicar sua influência por meio da fusão com setores muito mais amplos que entram em movimento. O desafio consiste em identificar como o partido revolucionário e os organismos de auto-organização podem atuar como multiplicadores estratégicos diferentes e complementares. O partido concentra experiência, programa e estratégia em uma vanguarda organizada; os organismos de auto-organização permitem ampliar, coordenar e centralizar as capacidades que as próprias massas desenvolvem na luta. O problema não consiste em acumular forças dentro da ordem dominante. Ao contrário, trata-se de encontrar as relações capazes de converter capacidades potenciais e dispersas em uma força política qualitativamente superior, especificamente no que diz respeito à sua função de colocar em xeque o status quo [N1].

É nesse sentido que utilizamos aqui o conceito para analisar a relação entre negritude e revolução nos Estados Unidos. O “multiplicador estratégico” contido na posição do proletariado negro não residia simplesmente na radicalidade que uma opressão secular poderia produzir. Encontrava-se na possibilidade de que essa radicalidade se combinasse com sua crescente inserção — e sua relação direta com outros trabalhadores — em pontos nevrálgicos da produção, da logística e da maquinaria militar do principal imperialismo mundial. A luta negra poderia deixar de ser uma demanda particular e passar a multiplicar a potência do proletariado em seu conjunto. Por sua vez, a força social concentrada nos centros estratégicos da economia poderia fortalecer a luta para enfrentar o caráter racista da sociedade norte-americana. Para realizar essa combinação, era necessário vencer a capacidade da burguesia estadunidense de integrar as camadas superiores do proletariado em seu esquema de dominação.

Essa posição estratégica do proletariado negro norte-americano — entendida aqui em um sentido mais amplo do que sua localização em pontos nevrálgicos da produção e circulação do capital — continha necessariamente uma dimensão internacional. Fazia referência à posição particular que ocupava no coração da principal potência imperialista e aos vínculos que a diáspora negra transatlântica estabelecia com povos coloniais e semicoloniais. Da mesma forma que o poder econômico e militar dos Estados Unidos dependia da opressão do mundo colonial e semicolonial, a emancipação do proletariado estadunidense não poderia se reduzir à conquista da igualdade dentro das fronteiras do mesmo Estado que submetia outros povos; tinha que vincular a luta contra o colonialismo interno ao combate contra o imperialismo no exterior [N2].

Isso implicava lutar contra a pilhagem de seu próprio imperialismo no mundo. Somente uma classe trabalhadora consciente de que suas condições materiais relativamente privilegiadas derivam do colonialismo externo e interno de “sua” burguesia poderia conquistar a confiança das massas negras. A construção de uma hegemonia proletária não economicista nos Estados Unidos exigia que os trabalhadores situados nos centros produtivos, logísticos e militares da potência imperialista assumissem como sua a causa dos povos oprimidos pela burguesia de seu país.

A possibilidade de que a luta negra se tornasse uma das forças de vanguarda da revolução norte-americana não era uma especulação abstrata. Constituía uma hipótese estratégica que deveria ser verificada no próprio desenvolvimento histórico da luta de classes. No entanto, essa hipótese permanece praticamente ausente tanto da historiografia tradicional sobre o movimento operário estadunidense quanto de boa parte da historiografia dedicada à questão negra.

A primeira tendeu a narrar a ascensão do sindicalismo industrial como um processo predominantemente econômico, relegando a luta contra a opressão racial a um plano secundário. A segunda reconstruiu o desenvolvimento do movimento negro muitas vezes como uma trajetória relativamente autônoma, separada das transformações do proletariado norte-americano. Ambas as perspectivas dificultam a compreensão do processo histórico mais significativo daquelas décadas: a maturação simultânea de tendências de radicalização operária e de auto-organização negra que, longe de evoluírem por caminhos paralelos, começaram progressivamente a se combinar, modificando-se mutuamente. Embora, a partir dos anos 1980, tenham surgido muitas elaborações que questionam essa separação e buscam analisar as interseções entre luta negra e classe operária nesse período, elas carecem do objetivo que nos propomos na presente reflexão: extrair conclusões estratégicas das tendências à articulação que surgiram das próprias condições da dominação imperialista.

De todas as derrotas organizadas pelo stalinismo em nível mundial, uma das mais importantes é, ao mesmo tempo, a mais esquecida. Se é verdade que a história dominante é a dos vencedores, os Estados Unidos, como principal vencedor das duas guerras mundiais, não poderiam permitir que se tornasse conhecida uma semente que desafiou seu poder. Como veremos, com a ajuda do stalinismo, as classes dominantes norte-americanas conseguiram ocultar as possibilidades revolucionárias de articulação entre a luta negra e a classe operária que ameaçaram seu próprio poder nos anos 1930 e 1940.

Negritude e luta de classes

A história da luta de classes nos Estados Unidos entre o final da Primeira Guerra Mundial e o imediato pós-guerra não pode ser reconstruída separando artificialmente a história do movimento operário da história da luta negra. Ambas constituem dimensões inseparáveis de um mesmo processo de transformação do capitalismo norte-americano. Enquanto a concentração industrial reorganizou o trabalho assalariado e deu origem ao moderno proletariado da grande indústria fordista, a crescente proletarização de amplos setores da população negra simultaneamente modificou a composição social dessa mesma classe trabalhadora. A industrialização do Norte e do Sul, a Grande Migração (processo de deslocamento interno de milhões de afro-americanos do sul rural dos Estados Unidos para as cidades do Norte, Meio-Oeste e Oeste, que começou em 1910 e depois se intensificou de maneira constante), impulsionada pela própria burguesia para que os negros do Sul ocupassem postos de trabalho a baixo custo, em substituição aos soldados enviados à guerra, a expansão da mineração e da siderurgia, o desenvolvimento do trabalho assalariado agrícola e a persistência da parceria agrícola produziram novas formas de combinação histórica entre exploração de classe e opressão racial.

A profundidade das tendências à radicalização da luta negra depois da Primeira Guerra Mundial refletiu-se na Universal Negro Improvement Association (Associação Universal para o Melhoramento das Pessoas Negras, UNIA). Fundada por Marcus Garvey, no contexto dos pogroms de 1919, estima-se que, no final de 1919, a UNIA contava com mais de mil filiais locais nos Estados Unidos, organizava atos que reuniam entre vinte e vinte e cinco mil pessoas, havia incorporado mais de dez mil pequenos investidores negros e chegou a reunir entre quinhentos mil e um milhão de membros formais, além de vários milhões de simpatizantes distribuídos pelo mundo. Nenhuma organização negra havia alcançado até então semelhante capacidade de mobilização.

As migrações durante a Primeira Guerra Mundial desenraizaram milhões de famílias negras de suas comunidades do Sul. Enfraqueceram antigas redes sociais de igrejas e associações locais. Sobre essa base, o discurso do “retorno à África” tornou-se o principal motor político da UNIA. Mas a maioria de seus simpatizantes não tinha a perspectiva imediata de emigrar para o continente africano. Ao contrário, a palavra de ordem adquiriu um significado simbólico. A África era entendida como pátria histórica da diáspora negra e, ao mesmo tempo, como símbolo da dignidade negra. A organização oferecia uma identidade coletiva baseada no orgulho racial, no pertencimento a uma ideia de “nação negra mundial”. Isso invertia o discurso colonial que identificava a África com o atraso. O continente negro era apresentado como berço da civilização e como futuro civilizatório. Essa ressignificação rompia com a subordinação ao reconhecimento branco. Uma mensagem simples e emocional, capaz de mobilizar amplos setores das massas.

Diante da guerra racial que atravessava os centros urbanos estadunidenses, a UNIA oferecia um sentido de pertencimento comunitário com disciplina e instituições próprias. Uniformes, bandeiras, desfiles, rituais e títulos honoríficos contribuíam para construir uma identidade nacional negra de massas. Algo muito diferente do pan-africanismo elitista de W. E. B. Du Bois, construído em torno da NAACP (Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor) e de sua estratégia de lutar pela integração negra à democracia imperialista norte-americana, recorrendo a mecanismos jurídicos e à esperança de convencer as classes dominantes da conveniência de deixar de ser racistas.

Marcus Garvey convocava a população negra a deixar de esperar que a liberdade fosse concedida pelos brancos e a conquistá-la por meio de sua própria organização. Defendia uma forma de “separatismo flexível”, baseada em empresas, escolas e instituições negras. A Black Star Line foi um empreendimento marítimo voltado para a África. Embora especialmente um setor de pequenos comerciantes, setores religiosos e pessoas desesperadas pelo terror racial quisessem a emigração imediata, nunca existiu um plano logístico viável para transferir em massa a população negra.

A expansão do garveyismo contou com uma estrutura territorial extremamente capilar, organizada em filiais locais estabelecidas em igrejas, sindicatos, clubes e bairros, dotadas de autonomia operacional, mas unificadas por uma mesma liturgia política. Seu jornal semanal, Negro World (Mundo Negro), publicado em vários idiomas e distribuído internacionalmente, não apenas difundia notícias, mas também buscava construir uma identidade política comum por meio de uma linguagem popular, carregada de referências bíblicas, metáforas simples e um estilo oratório próprio dos grandes pregadores religiosos.

O Estado respondeu com repressão. Em 1921, a Black Star Line afunda em meio a escândalos de corrupção que corroeram a confiança de parte da militância e enfraqueceram o mito da autossuficiência econômica imediata. As autoridades aproveitaram a crise para impulsionar uma ofensiva judicial que destruiu politicamente Garvey. A crise se aprofundou quando, em 1922, Garvey se reuniu com um dos principais dirigentes nacionais da Ku Klux Klan e responsável por seu aparato de propaganda. Garvey reconheceu publicamente que seu objetivo era explorar algum tipo de entendimento baseado na vontade mútua de separação racial [N3].

A reação foi devastadora. Intelectuais negros, militantes revolucionários e amplos setores operários repudiaram o encontro. Importantes quadros abandonaram a organização. O isolamento político facilitou a ofensiva repressiva do Estado. Preso em 1922, Garvey foi condenado a cinco anos de prisão, sendo deportado para a Jamaica em 1927. A extrema centralização da UNIA em torno de sua figura acelerou a decomposição. Na organização coexistiam operários, pequenos comerciantes, religiosos, nacionalistas, conservadores e setores progressistas. Eram permanentes as tensões entre o separatismo racial e o pragmatismo integracionista, entre o capitalismo negro e a crítica à ordem social vigente, entre a autoridade carismática e a democracia interna. Sem a centralização de Garvey, essas contradições explodiram. Embora a UNIA tenha sobrevivido durante a década de 1930, nunca recuperou a influência alcançada no período imediatamente posterior ao Red Summer [N4].

A população negra não constituía simplesmente um setor oprimido que deveria “somar-se” ao movimento operário. Por sua história de escravidão, expropriação, segregação e superexploração, a questão negra aparecia como uma das formas concretas por meio das quais se desenvolveria qualquer possibilidade de revolução proletária no país. A luta contra o racismo não era exterior à luta de classes: atravessava sua composição, suas divisões internas, suas possibilidades de unidade e suas formas de radicalização.

O extraordinário desenvolvimento econômico alcançado pelos Estados Unidos durante a primeira metade do século XX produziu uma concentração sem precedentes de forças produtivas, incluindo a população operária, as migrações internas e as contradições nacionais e raciais. Não existe “um único” Estados Unidos homogêneo, mas uma totalidade extraordinariamente desigual e combinada, com diversos componentes que permanentemente se chocam entre si: Norte, Sul, campo, indústria, negros, brancos, imigrantes, desempregados, camponeses, colonialismo externo e interno. Justamente essas contradições e conflitos são parteiras dos acontecimentos revolucionários.

O crack da Bolsa de outubro de 1929 abriu uma crise cuja profundidade alterou todas as relações sociais do capitalismo norte-americano. A produção industrial despencou, gerando desemprego em massa em níveis sem precedentes. Rompeu-se a estabilidade relativa da década anterior, criando condições para uma nova etapa de radicalização da luta de classes. Durante o primeiro quinquênio dos anos 1930, em várias cidades surgiram organizações de desempregados, campanhas contra os despejos, comitês de ajuda mútua e mobilizações por subsídios.

Em nenhum lugar do Sul essas tendências alcançaram inicialmente uma combinação tão explosiva quanto no Alabama. Birmingham constituía o principal centro minerador e siderúrgico da região. Era chamada de “Pittsburgh do Sul”. Ali eram explorados carvão e ferro. A produção de coque e a siderurgia haviam concentrado um numeroso proletariado branco e negro. Próximo ao centro urbano, começava o chamado Black Belt (“Cinturão Negro”), onde se concentravam enormes contingentes de população afrodescendente. Centenas de milhares de meeiros, arrendatários e trabalhadores agrícolas negros permaneciam submetidos a relações de exploração herdadas da ordem posterior à escravidão. A crise de 1929 atingiu simultaneamente esses dois extremos da estrutura social.

A partir de 1930, surgiram em Birmingham os Unemployed Councils (Conselhos de Desempregados), organizando aqueles que haviam perdido seus empregos e desenvolvendo ações coletivas diante de despejos, cortes de serviços e conflitos com as agências encarregadas de distribuir a assistência. Ao mesmo tempo, nos bairros negros também surgiram “comitês de vigilância”, que acompanhavam as famílias e mobilizavam os moradores.

Em 1931, a luta teve maior peso no campo. Surgiram núcleos de meeiros que organizavam os moradores. As famílias negras estavam submetidas havia várias gerações ao sistema de parceria agrícola, com suas próprias relações comunitárias, igrejas e tradições de resistência. Alguns também haviam trabalhado nas minas e fábricas de Birmingham. Sobre essas redes preexistentes, construiu-se a Share Croppers’ Union (SCU, Sindicato de Meeiros), em lutas contra os proprietários de terras, comerciantes e autoridades locais.

Mas o Alabama se converteu no centro da luta negra diante de um acontecimento de março daquele ano que alcançou repercussão em todo o país. Em uma evidente decisão racista, nove jovens negros que viajavam em um trem de carga foram presos, acusados falsamente de terem estuprado duas mulheres brancas, e transferidos para uma pequena cidade no norte do Alabama, Scottsboro. Ali foi realizado o processo judicial e o caso ficou conhecido por esse nome, no qual oito deles foram condenados à morte por júris brancos. O Partido Comunista (PC) transformou a defesa dos chamados Scottsboro Boys em uma campanha de alcance nacional e internacional, funcionando como um canal de politização muito mais amplo, que conectou as comunidades negras do Sul a mobilizações no Harlem e em outras cidades.

Poucos meses depois, em julho daquele ano, uma reunião de meeiros negros foi atacada por vigilantes brancos enviados pelas autoridades, numa tentativa de desarticular a organização. Ocorreu um confronto armado e Ralph Gray, meeiro negro e um dos principais organizadores locais, foi assassinado. A repressão empurrou a SCU para a clandestinidade, com reuniões secretas para defender seus membros diante de proprietários, policiais e grupos de vigilantes. Um ano depois, novos confrontos mostraram que a autodefesa armada havia criado raízes. Diante da clandestinidade, mulheres e familiares atuavam como elos, transmitiam informações e mantinham reuniões, enquanto as comunidades desenvolviam mecanismos para proteger militantes perseguidos.

Em 1933, a luta se radicalizou também nas indústrias do Alabama, alcançando os mineiros de carvão, que já possuíam uma tradição sindical. Surgiram tendências à organização pela base dentro da United Mine Workers of America (UMWA, Sindicato Unido dos Mineiros da América). Quando os dirigentes nacionais e os organizadores enviados por esse sindicato começaram a atuar, muitos desses mineiros já haviam constituído vários núcleos por iniciativa própria, com milhares de trabalhadores se filiando em questão de dias.

Cerca de 60% dos filiados da UMWA no Alabama eram negros. A organização dos mineiros tornou-se um dos poucos espaços de massas do Sul onde dezenas de milhares de trabalhadores negros e brancos pertenciam à mesma organização. Em meados da década, o Alabama contava com aproximadamente 23 mil mineiros de carvão organizados, cuja força começou a repercutir muito além das minas. Os mineiros forneceram apoio material e organizativo a outros setores em luta, e sua existência contribuiu para fazer do Alabama um dos centros mais dinâmicos da sindicalização do Sul. A existência de dezenas de milhares de trabalhadores já sindicalizados proporcionava solidariedade, recursos e apoio social a setores que apenas começavam a se organizar. A onda de greves que atravessou as minas de carvão e ferro, a siderurgia e outros setores de Birmingham em 1934 conectou-se à grande agitação operária que percorria o país. Também os trabalhadores têxteis do Alabama colocaram-se na vanguarda da greve geral da indústria que, naquele ano, abalou o Sul.

O que, no início da Depressão, aparecia fragmentado em movimentos urbanos e rurais isolados entre si, em poucos anos deu lugar a organizações e lutas entrecruzadas. Embora não existisse um organismo que centralizasse todas essas experiências e as profundas divisões raciais não tivessem desaparecido, a relação entre campo e cidade, as redes comunitárias, a solidariedade entre diferentes setores em luta e a incorporação conjunta de trabalhadores negros e brancos à organização dos mineiros lançaram as bases para uma convergência superior entre a insubordinação negra e o poder social do proletariado industrial em um dos bastiões de Jim Crow.

A reconstrução desse processo deve muito ao trabalho de Robin D. G. Kelley, Hammer and Hoe: Alabama Communists during the Great Depression. O autor destaca o papel protagonista do PC, buscando mostrar como as orientações políticas se encontraram com uma trama social que as precedia “desde baixo”. Os trabalhadores e camponeses negros, como sujeitos que construíram suas próprias formas de luta e organização, modificaram o comunismo do Alabama [N5].

O processo de sindicalização em massa dos mineiros de carvão do Alabama a partir de 1933 fez parte de um fenômeno nacional de organização sindical da classe trabalhadora. A incapacidade da administração republicana de Herbert Hoover de responder à crise favoreceu a vitória de Franklin D. Roosevelt. Diante da desorganização dos mecanismos tradicionais de dominação provocada pela depressão, o plano econômico impulsionado por Roosevelt entrou para a história conhecido como “New Deal” (Novo Acordo). Consistiu em políticas de intervenção estatal, regulamentação econômica e assistência aos desempregados. A Lei Nacional de Recuperação Industrial, aprovada em junho de 1933, reconheceu formalmente o direito dos trabalhadores de se organizar e negociar coletivamente. Centenas de milhares de trabalhadores interpretaram esse reconhecimento como um sinal para se sindicalizarem. Tratava-se de um esforço para canalizar institucionalmente o conflito social. As reformas do New Deal ampliavam direitos reais, fortalecendo o poder de arbitragem estatal. A filiação cresceu vertiginosamente, transbordando o sindicalismo de ofícios tradicional da American Federation of Labor (AFL).

Em 1934, eclodiu uma onda de greves que teve seus pontos mais altos em Toledo, Minneapolis e San Francisco. Em Toledo, a greve dos trabalhadores da Auto-Lite ultrapassou os limites da fábrica, convergindo com um movimento de desempregados que, assim como em Birmingham, vinha se organizando desde os primeiros anos da Depressão. Os comitês territoriais de desempregados que surgiram diante da crise buscavam estabelecer vínculos com os trabalhadores empregados e se articularam em torno da Lucas County Unemployed League, organização que mobilizou milhares de pessoas para reforçar os piquetes de greve e da qual também participaram trabalhadores negros. Ali, em Toledo, a polícia abriu passagem para os fura-greves e ocorreram batalhas de rua das quais participaram milhares de pessoas. A intervenção da Guarda Nacional deixou um saldo de dois trabalhadores assassinados.

Em Minneapolis, a famosa greve dos caminhoneiros do Local 574 conquistou a solidariedade e a participação de trabalhadores de outros setores e de amplas camadas da cidade. A partir do quartel-general da greve, eram coordenados piquetes móveis capazes de se deslocar para onde quer que se tentasse movimentar mercadorias, formando uma rede de comunicações, abastecimento dos grevistas e de suas famílias e um serviço médico próprio para atender os feridos. Uma organização auxiliar incorporou centenas de mulheres aos piquetes e a múltiplas atividades do conflito. Os organismos eleitos pelos trabalhadores centralizavam essas funções e progressivamente transformavam o sindicato em algo mais do que o instrumento reivindicativo de um setor, começando a atuar como um centro capaz de dirigir forças sociais que ultrapassavam até mesmo os próprios caminhoneiros. Ambas as experiências, Toledo e Minneapolis, mostravam como lutas nascidas em torno de reivindicações econômicas podiam ultrapassar os limites de seus locais de trabalho, incorporar novas forças por meio da coordenação e desenvolver formas embrionárias de organização independente das direções tradicionais.

Em outra região do país, San Francisco mostrava uma terceira luta de grande importância em termos de sua organização. O mercado de trabalho portuário californiano empregava afro-americanos em apenas alguns poucos cais. Embora formalmente a organização sindical não os excluísse, tolerava-se uma situação que os relegava a uma posição subordinada. As empresas patronais aproveitavam a exclusão racial para recrutar trabalhadores negros como fura-greves. A nova direção que se desenvolvia entre os estivadores enfrentou esse problema. Harry Bridges percorreu igrejas e organizações da comunidade negra, prometendo que a vitória da greve significaria abrir os cais aos trabalhadores afro-americanos. Militantes sindicais buscaram a colaboração do dirigente negro da Brotherhood of Sleeping Car Porters (Irmandade dos Carregadores de Vagões-leito) para impedir o recrutamento de fura-greves. Desde o início do conflito de 1934, os trabalhadores negros foram incorporados ao próprio comitê de greve para lutar efetivamente contra a segregação.

Os estivadores paralisaram a costa, grande parte dos trabalhadores marítimos aderiu ao conflito e os caminhoneiros dos Teamsters se recusaram a transportar as mercadorias movimentadas pelos fura-greves. A repressão policial assassinou dois trabalhadores e dezenas de milhares participaram da marcha fúnebre. A solidariedade se estendeu por todos os sindicatos da cidade e a pressão vinda de baixo acabou impondo uma greve geral contra a resistência de boa parte da burocracia sindical. Durante quatro dias, San Francisco ficou parcialmente paralisada e surgiram formas elementares de organização, com os próprios sindicatos assumindo tarefas sociais. Embora a direção conservadora do Conselho do Trabalho tenha conseguido finalmente suspender a greve geral, os estivadores posteriormente obtiveram importantes conquistas, entre elas um sistema de contratação no qual o sindicato adquiriu um poder decisivo. Sobre essa base, também pôde começar a ser rompida a antiga segregação racial dos cais.

As três grandes greves de 1934 que mencionamos ultrapassaram, por diferentes vias, os limites da luta econômica imediata. As direções desses processos provinham de tradições políticas diferentes. Em Toledo, desempenharam um papel decisivo os militantes do American Workers Party de A. J. Muste; em Minneapolis, a direção do Local 574 estava nas mãos de militantes trotskistas; enquanto, em San Francisco, a direção operária nucleada em torno de Harry Bridges havia conquistado uma influência crescente, com importante participação de militantes vinculados ao PC [N6].

Em 1935, constituiu-se o Committee for Industrial Organization (CIO). Impulsionado por John L. Lewis, dirigente do sindicato dos mineiros, a United Mine Workers (UMW), e por outros dirigentes da AFL, tratava-se de um espaço dentro da velha central sindical, criado para organizar os novos setores da classe trabalhadora que haviam entrado nas fábricas sob o modelo de produção fordista e buscavam se sindicalizar. Tentava-se organizar por indústria os milhões de trabalhadores do setor automobilístico, do aço, da borracha e de outros ramos da produção em massa, que não encontravam lugar na velha estrutura de ofícios sobre a qual se baseava a AFL.

Entre 1936 e 1937, eclodiram as chamadas “sit-down strikes” (greves de braços cruzados). O método consistia em ocupar a fábrica e impedir que a patronal introduzisse fura-greves. Sua expressão mais importante ocorreu em Flint, Michigan, coração do império industrial da General Motors. Ali, durante semanas, o comitê de greve organizou a segurança, a alimentação, a limpeza e as comunicações. As esposas e familiares dos grevistas criaram uma brigada de apoio que cumpriu um papel decisivo na luta. A ocupação resistiu às tentativas de despejo até que a patronal reconheceu o novo sindicato da indústria automobilística (United Automobile Workers, UAW) como representante oficial de seus filiados. A organização fordista da produção havia criado também uma nova vulnerabilidade estratégica do capital. A dependência de grandes cadeias integradas entre si permitiu que a paralisação de determinados pontos nevrálgicos tivesse efeitos sobre sistemas produtivos muito mais complexos. Experiências que aumentavam a percepção do poder dos trabalhadores sobre posições estratégicas na economia. A apropriação momentânea do espaço produtivo proporcionava ensaios embrionários na criação de organismos autônomos de poder operário.

A vitória sobre a General Motors acelerou a expansão do sindicalismo industrial, que também se estendeu ao setor siderúrgico. A maior corporação siderúrgica do país viu-se obrigada a reconhecer o sindicato sem a necessidade de uma batalha comparável à de Flint. Um processo também marcado por derrotas, como nas companhias siderúrgicas menores agrupadas sob o nome de Little Steel, que resistiram à sindicalização por meio de demissões, espionagem, forças policiais e violência aberta. No conjunto, a expansão do sindicalismo industrial nos setores automobilístico, siderúrgico, da borracha, da mineração, do transporte e em outras indústrias básicas transformou o CIO em algo muito maior do que o projeto inicial para o qual havia sido concebido, subordinado à estrutura da AFL. Nas fábricas mais modernas, operava a pressão para unir trabalhadores qualificados e não qualificados, imigrantes e nativos, homens e mulheres. O sindicalismo industrial incorporava cada vez mais a tendência à inclusão de trabalhadores negros. Por estarem integrados em um mesmo processo produtivo, a força do próprio sindicato dependia de seu caráter multirracial. Aqui, a luta contra o racismo adquire uma dimensão estratégica. Para que as patronais não aproveitassem as divisões raciais para colocar os trabalhadores uns contra os outros, a unidade inter-racial se impunha como pré-condição da força proletária para paralisar a produção. Essa contradição manifestou-se de forma aguda no Alabama, onde as patronais atacaram o CIO diante dos trabalhadores brancos como uma organização “negra” e “comunista”. A questão negra começava, assim, a se converter na pedra de toque da radicalização do movimento operário.

A nova organização industrial incorporou as tendências contrapostas que atuavam no movimento operário norte-americano. Se, por um lado, sua própria força dependia da incorporação dos negros às suas fileiras, por outro, junto com sua massificação, também se conservaram parte das características racistas, burocráticas e de conciliação de classes que constituíam os sindicatos majoritários. No entanto, a tensão dos novos componentes tornou-se incompatível com a velha estrutura. A partir de 1936, o comando da AFL suspendeu os sindicatos vinculados ao CIO. Os esforços para submetê-los tornaram a separação irreversível. Em 1938, o movimento de sindicatos por indústria tornou-se uma federação independente sob um novo nome: Congress of Industrial Organizations, conservando assim as mesmas iniciais, CIO.

Essas transformações tectônicas no movimento operário e na luta negra foram acompanhadas por uma mudança histórica no regime político bipartidário norte-americano. Antes dos anos 1930, os republicanos tinham uma importante influência popular sobre a população afrodescendente devido à sua identificação histórica com Abraham Lincoln e a abolição durante a Guerra Civil. Ao contrário do Partido Democrata, que historicamente foi a principal representação política da oligarquia branca segregacionista do Sul (denominados “Dixiecrats”). Entre trabalhadores urbanos, imigrantes e setores médios populares, a influência republicana apoiou-se, além disso, no crescimento dos anos 1920.

Desse modo, com o New Deal, inaugura-se a construção de uma representação burguesa orgânica que pudesse incorporar esse novo movimento operário e que, por sua vez, atraísse para o Partido Democrata setores cada vez maiores da população negra, especialmente nas cidades do Norte.

Nas eleições de 1936, as principais direções do novo sindicalismo industrial apoiaram Roosevelt, enquanto uma parcela crescente do eleitorado negro do Norte deslocou-se de sua tradicional identificação com o Partido Republicano para o Partido Democrata. Esse foi um dos mecanismos centrais pelos quais o New Deal contribuiu para preservar o domínio capitalista durante os anos 1930. As organizações de massas foram reconhecidas como interlocutoras e integradas a um sistema de negociação econômica e representação política articulado em torno do Estado e do Partido Democrata. As direções da AFL e, posteriormente, do CIO, organizações negras como a NAACP, igrejas e dirigentes como A. Philip Randolph mantiveram diferentes graus de autonomia em relação a Roosevelt. No entanto, apesar de suas diferenças, constituíram as mediações capazes de conter e desviar as tendências à radicalização da luta de classes e à articulação entre luta negra e classe operária para dentro dos marcos da pressão institucional sobre o Estado capitalista.

Mas a nova coalizão preservou uma contradição fundamental, expressa em uma profunda assimetria no interior do Partido Democrata: tanto os setores crescentes do novo movimento sindical e do eleitorado negro do Norte quanto a oligarquia branca segregacionista que dominava o Sul consideravam-se “democratas”. Enquanto os primeiros começavam a estabelecer uma relação orgânica com o bloco rooseveltiano, milhões de negros do Sul permaneciam privados até mesmo do direito ao voto, e algumas das principais reformas sociais do New Deal inicialmente excluíram categorias como os trabalhadores agrícolas e domésticos, nas quais a população negra estava sobrerrepresentada.

O PD podia, portanto, reconhecer sindicatos e ampliar determinadas políticas sociais que incluíam os negros, enquanto preservava o poder dos Dixiecrats e o regime de Jim Crow. Como parte dessas contradições, o New Deal excluiu os setores doméstico e agrário da legalização dos sindicatos devido a concessões políticas para conseguir os votos dos democratas do Sul dos Estados Unidos, que queriam manter o controle econômico e social sobre os trabalhadores afro-americanos que predominavam nesses empregos. Essa exclusão histórica ficou estabelecida principalmente na Lei Nacional de Relações Trabalhistas de 1935 (conhecida como Lei Wagner), que concedeu o direito à sindicalização à maioria dos trabalhadores do setor industrial, mas deixou totalmente de fora o trabalho doméstico (em sua grande maioria realizado por mulheres negras) e o trabalho no campo. No conjunto, as reformas econômicas e sociais do primeiro governo Roosevelt buscavam impedir que as capacidades de organização e luta surgidas durante a crise se desenvolvessem em direção a uma alternativa política independente.

A partir do final dos anos 1930, o rearmamento voltou a mudar radicalmente as condições do movimento operário. O crescimento das indústrias vinculadas à defesa reforçou os setores que o novo sindicalismo industrial havia começado a organizar, sobretudo depois de Pearl Harbor. A reconversão automobilística, a expansão dos estaleiros, da aeronáutica e da indústria armamentista, o crescimento da logística militar; tudo isso colocou milhões de trabalhadores sindicalizados em posições cada vez mais decisivas para o funcionamento do Estado. Além de ocupar o centro da produção capitalista, a classe operária passou a ocupar o centro da maquinaria de guerra.

A guerra também modificou sua composição. Milhões de mulheres e migrantes internos ingressaram nas indústrias de defesa enquanto uma nova onda da população negra abandonava o Sul. A chamada Segunda Grande Migração, acelerada durante a década de 1940, aprofundou assim o deslocamento iniciado durante a Primeira Guerra Mundial. Milhares de trabalhadores negros ingressaram na siderurgia, na indústria automobilística, nos estaleiros, nos portos e em outros ramos industriais. A questão negra ficava, por essa via, ainda mais estreitamente ligada ao problema de quem controlava a produção nacional.

O governo e as patronais apresentaram a guerra contra o Eixo como um empreendimento nacional comum que exigia suspender a luta entre as classes. As direções sindicais assumiram o compromisso de não recorrer à greve enquanto durasse a guerra. No entanto, a “unidade nacional” não eliminou os conflitos. Milhares de lutas emergiram dos locais de trabalho por salários e condições de trabalho. Uma parte assumiu a forma de greves espontâneas ou “wildcats” (greves selvagens), realizadas à margem ou contra a vontade das direções sindicais comprometidas com o Estado. O caso mais espetacular foi o dos mineiros de carvão, quando cerca de meio milhão de trabalhadores protagonizaram uma série de paralisações em 1943. Enfrentando abertamente o congelamento salarial, fizeram com que o governo colocasse temporariamente as minas sob controle federal. As tendências à auto-organização surgiam repetidamente como capacidade persistente dos trabalhadores de agir coletivamente a partir da produção, inclusive contra os mecanismos por meio dos quais o Estado, as patronais e suas próprias direções tentavam discipliná-los. Essas greves mostravam elementos de organização clandestina e coordenação entre estabelecimentos.

O governo reivindicava unidade para combater o fascismo enquanto mantinha as leis de Jim Crow no Sul, a segregação das Forças Armadas e múltiplas formas de discriminação no acesso ao emprego industrial. A expansão militar necessitava incorporar trabalhadores negros às novas indústrias. Ao mesmo tempo, a ordem racial norte-americana limitava seu acesso a elas. A contradição entre as necessidades da acumulação militar e a estrutura racial do país abriu um terreno fértil para uma intervenção independente.

Em 1941, o dirigente sindical negro A. Philip Randolph, presidente da Brotherhood of Sleeping Car Porters, começou a impulsionar um movimento para realizar uma Marcha sobre Washington contra a discriminação nas indústrias de defesa e nas Forças Armadas. Randolph ameaçou realizar um protesto de dezenas de milhares de manifestantes negros na capital federal. Diante da possibilidade de que uma mobilização nacional negra irrompesse em meio ao processo de preparação bélica, Roosevelt assinou a Ordem Executiva 8802, que proibia a discriminação racial nas indústrias de defesa e no emprego federal e estabelecia um organismo encarregado de fiscalizar seu cumprimento. Randolph então suspendeu a marcha, embora tenha mantido o movimento que a havia preparado.

O episódio mostrava algo mais do que a capacidade de obter uma concessão do governo. A luta negra havia encontrado uma alavanca particularmente poderosa porque o imperialismo estadunidense precisava simultaneamente manter a ordem racial existente e mobilizar toda a força de trabalho disponível para se tornar o grande arsenal industrial dos Aliados. Por isso, uma reivindicação democrática contra a discriminação podia atingir diretamente a organização da produção de guerra.

Depois da entrada dos Estados Unidos no conflito, essa contradição adquiriu uma expressão popular na campanha da “Double V” (dupla vitória), que significava triunfar contra o fascismo no exterior e contra o racismo em casa. Sua força provinha da situação paradoxal de milhões de negros que eram convocados a produzir e combater em nome da democracia, enquanto continuavam submetidos à segregação, à discriminação e à violência racial em seu próprio país. No entanto, a luta encerrava duas opções estratégicas. Podia se converter em uma pressão para integrar plenamente a população negra à coalizão antifascista sob os auspícios do imperialismo norte-americano; ou podia questionar o caráter racista e colonialista do Estado.

Com a derrota da Alemanha e do Japão, desaparecia a justificativa fundamental do sacrifício pela pátria. Enquanto as grandes empresas haviam acumulado enormes lucros com o aumento da exploração, a reconversão da economia militar ameaçava com demissões e uma maior perda de renda. Nesse contexto, entre o final de 1945 e durante todo o ano de 1946, a acumulação dos anos anteriores explodiu: mais de cinco milhões de trabalhadores participaram de greves, na maior onda grevista da história do país. Automóveis, aço, mineração, eletricidade, petróleo, ferrovias, portos, frigoríficos e telecomunicações foram atingidos por conflitos que envolveram alguns dos pontos nevrálgicos da economia.

Uma de suas primeiras grandes expressões apareceu na General Motors. Em 1945, cerca de 225 mil trabalhadores da corporação iniciaram uma greve que se prolongou por 113 dias. Pouco depois, o movimento atingiu outros ramos fundamentais. Em 1946, cerca de 750 mil trabalhadores siderúrgicos iniciaram a maior greve do setor siderúrgico realizada até então nos Estados Unidos. A eles se somaram grandes conflitos na indústria elétrica e em outros ramos industriais. Em Stamford, Connecticut, uma greve iniciada na Yale & Towne encontrou a solidariedade de outros trabalhadores e gerou uma mobilização mais ampla na cidade. Em Oakland, Califórnia, o uso policial de fura-greves contra trabalhadoras de dois grandes estabelecimentos comerciais fez com que sindicatos da AFL paralisassem durante dois dias grande parte das atividades da cidade. Transporte, comércio e serviços foram afetados por uma greve geral que surgiu da solidariedade operária com um conflito inicialmente localizado.

O fim da guerra liberou, além disso, outra força social que a mobilização bélica havia concentrado sob uma forma diferente. Milhões de trabalhadores haviam sido arrancados das fábricas, bairros e comunidades para integrar um gigantesco exército de massas. Com a derrota do Eixo, começou a desaparecer a legitimidade que havia permitido mantê-los mobilizados e, desde o final de 1945, centenas de milhares de soldados exigiram seu retorno imediato por meio de petições, reuniões, cartas ao Congresso e manifestações em bases estadunidenses distribuídas por diferentes continentes.

“No boats, no votes” (Sem barcos, não há votos). Essa era a palavra de ordem que condensava a ameaça de transferir o descontentamento militar para o terreno político. Entre os soldados negros, a crise da disciplina militar combinava-se ao fato de que haviam sido mobilizados para combater o racismo nazista dentro de Forças Armadas segregadas. Terminada a guerra, até mesmo a desmobilização era racializada. Susan Carruthers documenta que 123 soldados negros que esperavam retornar de Le Havre foram excluídos do USS Croatan porque o navio não possuía instalações segregadas e tiveram de esperar outro transporte. No Pacífico, os manifestos de embarque distinguiam tropas “brancas” e “negras”, enquanto soldados afro-americanos com a pontuação necessária para serem licenciados denunciavam a espera por navios que nunca chegavam.

Durante a guerra, a contradição entre combater o racismo no exterior e sofrê-lo dentro do próprio Exército havia alimentado a denúncia do “Jim Crow em uniforme”. Nas Filipinas, um conselho de 240 delegados que afirmava representar mais de dez mil soldados reivindicou, em 1946, a aceleração da desmobilização. Era liderado por Emil Mazey, antigo operário automobilístico de Detroit e dirigente do Local 212 do UAW, que durante a guerra havia combatido o compromisso sindical de não realizar greves. Ativistas negros, comunistas e socialistas entre as tropas questionaram a permanência de um milhão de soldados mobilizados na Ásia, cumprindo funções de ocupação e participando da intervenção norte-americana contra movimentos anticoloniais.

Michael Cullen Green estima que quase dois milhões de afro-americanos passaram pelas Forças Armadas durante a década posterior à Segunda Guerra Mundial, em uma população negra total de cerca de quinze milhões. Ele assinala que, para numerosos jovens afro-americanos provenientes do Sul rural e de famílias trabalhadoras pobres, as Forças Armadas ofereciam alimentação, moradia, salários regulares e formação profissional inacessíveis sob o Jim Crow. Para alguns, tratava-se da renda que lhes permitia sustentar suas famílias. À medida que o imperialismo norte-americano avançava a passos largos, as ocupações do Japão e da Coreia, assim como a posterior rede de bases estadunidenses no Pacífico, serviam para projetar seu poder sobre a Ásia. Nesse contexto, Green mostra que a participação negra nessa expansão também produziu uma identificação com os interesses de rapina dos Estados Unidos.

Nesse sentido, a rebelião dos soldados de 1945-46 importa menos porque já tivesse constituído um movimento revolucionário. Não o foi. Mas revelou capacidades que ainda podiam se desenvolver em direções diferentes. No mesmo momento em que se desenvolvia a maior onda grevista da história estadunidense, setores do enorme exército de massas questionavam o prolongamento da disciplina militar. Que essas conexões pudessem se transformar em uma força política comum dependia, contudo, de uma articulação estratégica que não existia. Ao contrário, a simultaneidade da onda grevista, da mobilização dos soldados e da radicalização específica que atravessava setores das massas negras não produziu uma centralização política equivalente a partir de baixo. As capacidades que emergiam dessas experiências permaneceram fragmentadas. Não surgiram organismos de auto-organização e coordenação capazes de transformar as tendências revolucionárias que emergiam das próprias contradições do resultado da guerra em uma alternativa política independente.

Diante da enorme força social liberada pelo pós-guerra, operava também uma tendência consciente à sua reabsorção e estabilização. As direções da AFL e do CIO buscavam obter melhorias por meio da negociação com o sistema bipartidário. O governo de Harry S. Truman, que havia sucedido Roosevelt após sua morte em abril de 1945, combinou concessões, mediação e ameaças de intervenção estatal para impedir que a onda desorganizasse a reconversão econômica do pós-guerra. Quando os conflitos afetaram setores considerados vitais, como as ferrovias e as minas, o governo recorreu à repressão federal.

A capacidade do Estado e das direções sindicais para conter essa onda apoiou-se, além disso, em uma transformação mais profunda das condições econômicas e políticas do pós-guerra. A reconversão econômica desembocou, depois das dificuldades iniciais, em um período prolongado de expansão econômica, aumento da produtividade, crescimento do consumo e melhora relativa da renda de amplos setores da classe trabalhadora. A posição privilegiada alcançada pelo capitalismo norte-americano depois da guerra permitiu, assim, combinar a pressão sobre os setores mais combativos com concessões materiais a importantes parcelas do proletariado sindicalizado.

Em 1946, o governo estadunidense colocou em marcha programas destinados a investigar a suposta “deslealdade” dos funcionários públicos; em 1947, a perseguição adquiriu uma forma mais sistemática e começaram a se disseminar as listas negras, os interrogatórios de militantes, intelectuais e sindicalistas e as investigações sobre organizações consideradas comunistas ou próximas do comunismo. Entre 1950 e 1954, essa tendência alcançou sua expressão mais espetacular com o chamado macartismo, pelo protagonismo do senador republicano Joseph McCarthy, que transformou a denúncia pública de supostas infiltrações comunistas em um dos símbolos da ofensiva política da Guerra Fria. À medida que o crescimento econômico permitia incorporar parcelas crescentes do proletariado a uma relativa prosperidade, as correntes mais radicalizadas ficavam cada vez mais isoladas e podiam ser perseguidas com custos políticos menores. O macartismo não criou essa reação: ele a coroou. Sua eficácia dependeu das derrotas que haviam sido acumuladas nos anos anteriores.

Entre os convulsivos Estados Unidos das décadas de 1930 e 1940 e a ofensiva macartista dos anos 1950, no contexto de crescimento econômico excepcional, a questão decisiva não consistia unicamente em reconhecer a existência das tendências objetivas à articulação entre luta negra e operária, mas em determinar que orientação estratégica deveria ser dada ao seu desenvolvimento. A disputa pela direção do movimento operário e negro recorreu de maneira sistemática a demissões, fura-greves, violência policial, linchamentos, perseguições judiciais, espionagem, infiltração, burocratização sindical e utilização seletiva da repressão estatal. Sem necessariamente assumir a forma de uma guerra civil aberta, a fronteira entre a cooptação, a corrupção e a coerção organizada foi muitas vezes tênue. Nesse esquema hegemônico que combina chicote e cenoura, o stalinismo forneceu a força física de seus quadros para auxiliar no combate contra as tendências mais revolucionárias que emergiram de baixo.

Marxismo negro estadunidense

A estratégia que tornou possível a Revolução Russa de 1917 incluiu uma articulação determinada entre luta operária, opressão nacional e questão agrária. A constituição do proletariado como sujeito revolucionário pressupôs a existência de uma vanguarda de trabalhadores das indústrias disposta a combater, com as armas nas mãos, os privilégios do nacionalismo grão-russo sobre as nacionalidades oprimidas pelo centro moscovita, que constituíam a maioria da população sob o czarismo. Esses privilégios permitiam que a burguesia russa concedesse ao proletariado das posições estratégicas de seu poder econômico e político condições diferenciadas em relação às massas camponesas dos povos oprimidos do império, como forma de dividir as classes subalternas e maximizar as possibilidades de exploração.

A construção da hegemonia proletária pelo Partido Bolchevique exigiu um combate para que a vanguarda da classe operária renunciasse a qualquer forma de privilégio indireto em relação a outras partes da população consideradas inferiores como parte da construção da cultura czarista. Lenin sustentava que não era suficiente a luta pela igualdade de direitos políticos, econômicos e sociais dentro dos marcos de uma mesma formação estatal. A defesa do direito à autodeterminação nacional, incluindo a possibilidade da separação estatal no caso de existir esse desejo, era necessária porque se tratava de uma forma de garantir o pleno direito das populações oprimidas de decidir sobre seu próprio destino. Embora isso não implicasse necessariamente seu apoio à separação estatal como norma.

Lenin partia do pressuposto de que a integração das forças produtivas em nível internacional ampliava a produtividade social e que essa base material era essencial para uma verdadeira emancipação. Com base nisso, o direito à separação estatal só adquire um caráter historicamente progressista ou “positivo” na medida em que se associa a um movimento de massas que se autodetermina. Quando isso não existe, o objetivo da defesa do direito à autodeterminação é “negativo”, no sentido de que cumpre o papel de educar o proletariado da nação opressora contra os privilégios de “sua” própria burguesia.

Na tradição que deu origem à Revolução Russa de 1917, a auto-organização proletária e a defesa do direito à autodeterminação das nacionalidades oprimidas não constituíam princípios separados. O combate ao chauvinismo existente dentro das fileiras operárias dos países opressores exige o reconhecimento do direito dos oprimidos de ter seu próprio Estado, se assim decidirem. O direito à autodeterminação não era uma concessão ao nacionalismo dos países oprimidos porque partia da existência de uma desigualdade. No entanto, sem a luta contra essa desigualdade era impossível construir a confiança necessária para uma unidade voluntária.

Nos Estados Unidos, a articulação entre luta operária, antirracismo, opressão nacional e questão agrária seguirá um caminho muito distinto da história russa. Em grande medida, pela força do capitalismo norte-americano, incomparavelmente superior no que diz respeito ao poder de cooptar os trabalhadores situados em posições estratégicas do capital para a ideologia dominante, que incluía a naturalização do racismo.

O Partido Socialista da América (Socialist Party of America, SPA), fundado em 1901, estava atravessado desde suas origens pelo racismo inculcado na classe trabalhadora branca sindicalizada estadunidense. Sua evolução ocorre no contexto do crescente predomínio, no interior dos partidos de massas da Segunda Internacional europeia, da adaptação ao colonialismo e ao racismo de “suas” próprias burguesias imperialistas.

No Congresso de fundação houve um debate significativo sobre a questão negra. Foi aprovada uma resolução que se referia à igualdade de direitos “sem distinção de cor, raça ou sexo”, e assinalava que os trabalhadores negros sofriam uma opressão específica que deveria ser combatida. Além disso, o delegado negro William Costley apresentou uma resolução denunciando os linchamentos, o incêndio de moradias e a privação do direito ao voto, mas ela foi finalmente suavizada antes de ser aprovada. Apesar da mencionada resolução, vários delegados brancos sustentaram que não deveria existir uma política específica em relação aos afro-americanos porque todos os trabalhadores compartilhavam o mesmo interesse de classe.

Em 1903, em The Negro in the Class Struggle, Eugene Debs escreve a famosa frase de que os socialistas “não têm nada de especial a oferecer ao negro” (“we have nothing special to offer the Negro”), porque o problema fundamental seria o capitalismo e a solução residiria na emancipação de toda a classe trabalhadora. Embora Debs condenasse o racismo e criticasse os socialistas que o toleravam, sua formulação expressava precisamente a subordinação da questão negra ao problema geral de classe. Além disso, dentro do SPA conviviam posições muito mais reacionárias. Dirigentes como Victor Berger defendiam abertamente ideias racistas e colonialistas, enquanto outros setores promoviam campanhas contra a segregação.

Nessas condições, a construção de uma estratégia revolucionária capaz de articular organicamente a luta operária com a luta negra ficou reduzida a pequenas correntes minoritárias. Hubert Henry Harrison foi o primeiro dirigente negro do SPA a desenvolver uma crítica sistemática ao racismo existente dentro do próprio movimento operário. Imigrante proveniente de Saint Croix (atuais Ilhas Virgens), funcionário do serviço postal estadunidense e autodidata de extraordinária formação intelectual, na década de 1910 fez da luta contra o chauvinismo branco uma batalha política interna do socialismo estadunidense, sustentando que a unidade da classe trabalhadora só poderia ser construída combatendo ativamente a opressão racial [N7]. Impulsionou o Colored Socialist Club e desenvolveu uma intensa atividade dentro dos sindicatos organizados com os Industrial Workers of the World (IWW).

Durante esse período, o PSA atravessa fortes disputas internas. Sua ala direita, quando não era abertamente racista, subordinava a questão da opressão racial a uma concepção gradualista e predominantemente eleitoral da luta de classes, assimilando as pressões nacionalistas, colonialistas e racistas próprias da ascensão imperial dos Estados Unidos. No extremo oposto agrupavam-se os setores que eram críticos do parlamentarismo reformista e partidários de uma estratégia revolucionária de independência de classe. Ali se encontrava Harrison e numerosos dirigentes que posteriormente participariam da fundação do comunismo e do trotskismo norte-americano. Entre os dois polos encontrava-se Debs, que mantinha posições internacionalistas, antimilitaristas e profundamente anticapitalistas, embora privilegiasse a unidade do partido acima da luta contra o reformismo. Uma escolha que, diante de um movimento operário predominantemente racista, subordinava as demandas especificamente negras.

Nas páginas do jornal do PSA, Harrison elaborou uma interpretação marxista da função do racismo no capitalismo estadunidense, na qual afirmava que a opressão da população negra não era um simples preconceito moral herdado da escravidão, mas um mecanismo indispensável para preservar “o status econômico inferior da raça de cor, porque sempre podem usá-lo como um porrete contra os demais trabalhadores”. Sua crítica fundamental ao socialismo norte-americano baseava-se no fato de que os trabalhadores e dirigentes brancos colocavam “a raça primeiro, depois a classe” (“race first and class after”) [N8]. Enquanto o racismo dividia as classes subalternas e barateava o valor da força de trabalho negra, os privilégios raciais impediam a construção de uma verdadeira unidade proletária. Por isso, a luta contra o racismo era um problema estratégico. Suas posições, somadas à batalha contra o sindicalismo racista e contra a adaptação reformista do PSA, foram-no colocando cada vez mais claramente na ala esquerda da organização.

Somado ao anterior, a Primeira Guerra Mundial aprofundou sua ruptura. Harrison rejeitou a participação da população negra naquela que definia como uma “guerra mundial branca”, denunciando que “durante a guerra, a ideia da democracia foi amplamente difundida, especialmente no mundo de língua inglesa, principalmente como uma camuflagem conveniente atrás da qual os imperialistas rivais mascaravam seus sórdidos objetivos”. A seu juízo, aqueles que proclamavam a defesa da democracia “nunca tiveram a menor intenção de ampliar os limites ou as aplicações da democracia”. Esperava que, “lavada por seu batismo de sangue, a raça branca será menos capaz de empurrar a mão forte de sua vontade soberana pelas gargantas de outras raças”. Sua oposição ao militarismo imperialista, ao reformismo e ao racismo provocou sua punição e afastamento do PSA [N9].

Em 1917, Harrison fundou a Liberty League of Negro-Americans e The Voice. A organização era autônoma em relação às organizações brancas e proclamava a igualdade política, a luta contra os linchamentos, a organização operária, a independência política e a autodefesa. O dirigente negro saudou a Revolução Russa como “a primeira tentativa de estabelecer uma democracia real” e definiu o socialismo como uma forma de “aliviar o fardo do homem negro”, afirmando que “o socialismo está aqui para pôr fim à exploração de um grupo por outro, seja esse grupo social, econômico ou racial”.

Anteriormente, referindo-se ao Levante da Páscoa na Irlanda de 1916, Harrison sustentou que “o povo negro dos Estados Unidos nunca ascenderia a nada politicamente até que considerasse adequado imitar os irlandeses da Grã-Bretanha”. Assim, começa a utilizar a experiência da luta de libertação nacional irlandesa e seu lema “nós mesmos”, que lhe serve para explicar que os negros precisavam agir como uma força própria e independente e que quem aspirasse a dirigir os negros deveria colocar diante deles a ideia de “Race First”. Tomou o nacionalismo revolucionário irlandês como exemplo de ação política independente de um povo oprimido dentro de um Estado imperialista. Diante do Red Summer de 1919, interpreta a resistência negra armada de Washington e Chicago como demonstração de que estava surgindo um “New Negro” que já não aceitava passivamente a subordinação. Ao mesmo tempo, começa a colocar essa consciência negra dentro de uma dimensão mundial. A luta dos negros estadunidenses relacionava-se com a África e com os povos coloniais. Em agosto de 1919, formula de maneira particularmente enfática que o novo negro é “Negro first, Negro last, and Negro always”, politicamente independente dos partidos estabelecidos e decidido a se defender por si mesmo.

Harrison havia preparado uma parte importante do terreno sobre o qual cresceu Garvey. A biografia escrita por Jeffrey B. Perry documenta que ideias como “Race First”, “Negroes First”, “Africa for the Africans”, organização racial independente e solidariedade negra haviam sido utilizadas ou difundidas por Harrison antes da expansão da UNIA. Para Harrison, Garvey conseguiu mobilizar massas onde os socialistas negros não conseguiam fazê-lo. Em seu texto “Two Negro Radicalisms”, de outubro de 1919, explicou que Garvey levantava diante das massas precisamente aquilo que já existia em seus sentimentos e reivindicava que essas ideias haviam sido ensinadas desde 1917 por The Voice e pela Liberty League [N10].

Entre 1920 e 1922, Harrison começou a se afastar progressivamente de Garvey e rejeitou a perspectiva de que os afro-americanos construíssem “a state or empire in Africa”. Seu argumento era que a luta fundamental dos negros estadunidenses estava nos Estados Unidos, enquanto a libertação da África deveria ser obra dos próprios africanos, e não de afro-americanos que se mudassem para lá para governá-los. Em 1924, fundou a International Colored Unity League (ICUL). A “central idea” do programa da ICUL era fundar “um Estado negro, não na África, como teria feito Marcus Garvey, mas nos Estados Unidos”. Defendia uma “pátria racial nos Estados Unidos”, um “Estado racial ou Estados raciais”, uma “Comunidade negra”, sem especificar em que território seria estabelecida.

Harrison e a ICUL buscavam descobrir como os próprios negros poderiam deixar de depender dos brancos — incluindo os trabalhadores brancos — para resolver a questão de sua própria opressão. Nessa busca, o Estado negro aparecia como a culminação de uma lógica de autoatividade que canalizasse as energias da população negra para um destino político independente. Diferentemente do projeto burguês negro ao estilo de Garvey, seu programa de autodeterminação estava acompanhado por cooperativas, pela ideia da propriedade coletiva, pela autossuficiência econômica e pela organização independente dos setores populares negros [N11].

Harrison continuou considerando que o capitalismo deveria ser superado. Sua crítica dirigia-se ao socialismo branco realmente existente e à sua incapacidade de combater consequentemente a opressão racial, não à perspectiva da emancipação socialista. No entanto, em nossa opinião, em sua evolução posterior ocorreu um deslocamento estratégico. A luta para combater o racismo do proletariado branco e conquistá-lo para uma aliança revolucionária com as massas negras deixou de ocupar o lugar que havia tido em sua etapa socialista. Perderam-se crescentemente os elementos que buscavam articular a autodeterminação e a auto-organização negra com uma estratégia para conquistar o conjunto da classe trabalhadora para uma revolução comum. Desse modo, acabou produzindo-se um descolamento entre a luta democrática antirracista e a estratégia da revolução proletária.

O problema da autodeterminação nacional negra nos Estados Unidos, mesmo antes de ser assumido pelo fundador da ICUL, havia começado a ser elaborado por uma corrente do radicalismo negro que mais tarde convergiria com as tradições revolucionárias abertas pelo triunfo da Revolução Russa. Em 1919, no coração do chamado “Renascimento do Harlem”, surgiu a Irmandade de Sangue Africana para a Libertação e Redenção da África (African Blood Brotherhood, ABB), uma organização negra revolucionária e clandestina. Seu principal fundador foi Cyril Briggs. Nascido em 1888 na ilha caribenha de Nevis, nas Índias Ocidentais Britânicas, em 1905 emigrou para os Estados Unidos e, em 1912, ingressou na equipe do Amsterdam News, o mais antigo jornal negro da cidade de Nova York. Influenciado inicialmente pelo nacionalismo negro e pelo pan-africanismo, Briggs fundou em setembro de 1918 a revista mensal The Crusader, cujo lema era “África para os africanos” e que convocava a um “renascimento do poder e da cultura negros em todo o mundo”. Embora Briggs posteriormente recordasse que a organização já existia antes de seus primeiros contatos com os comunistas, sua evolução foi profundamente marcada pelo impacto da Revolução Russa. A partir da política bolchevique em relação às nacionalidades oprimidas e do anti-imperialismo soviético, vários de seus principais dirigentes acabaram se vinculando ao movimento comunista.

A ABB se concebia como uma organização revolucionária negra de orientação proletária, aberta a todas as pessoas de ascendência africana. Concebia a negritude como parte das massas exploradas do mundo, uma força potencialmente de vanguarda dentro da luta internacional contra o capitalismo e o imperialismo. Por esse motivo, colocava os trabalhadores negros no centro da estratégia e apresentava explicitamente a necessidade de combater tanto o capitalismo branco quanto os setores pequeno-burgueses negros que atuavam como intermediários desse sistema.

O despertar político da população negra era entendido como um momento particular da luta universal pela emancipação de todas as classes e povos explorados e oprimidos. A organização rejeitava que a libertação consistisse simplesmente em expulsar os exploradores brancos da África para substituí-los por uma burguesia ou um “imperialismo negro”. Essa possibilidade era entendida como uma traição à causa da emancipação, uma simples mudança da cor da coroa do opressor sem alterar as relações capitalistas de exploração.

Seu programa defendia a criação de uma “República Operária” e sustentava que somente um poder baseado nos trabalhadores poderia pôr fim tanto à exploração econômica quanto à opressão racial. Propunha uma aliança explícita com a Terceira Internacional, considerada a principal força revolucionária capaz de solapar o domínio dos poderes imperialistas que oprimiam a população negra em todo o mundo. Desse ponto de vista, criticava duramente organizações como o “Congresso Pan-Africano” ligado a W. E. B. Du Bois, que caracterizava como uma direção composta por setores pequeno-burgueses beneficiários do próprio sistema imperialista que, embora reivindicassem melhorias para as colônias, em última instância aceitavam a partilha da África e a continuidade de sua exploração pelas potências capitalistas europeias.

A ABB identificava o sistema imperialista como uma das causas fundamentais da escravidão econômica do povo negro e propunha sua destruição por meio da ação conjunta de forças revolucionárias. Defendia a criação de uma federação de organizações negras capaz de constituir uma frente única de combate contra os linchamentos e o sistema de peonagem. Após os confrontos de Tulsa de junho de 1921, as autoridades de Oklahoma acusaram a ABB de ter organizado e dirigido a resistência negra [N12]. A organização rejeitou ter provocado os distúrbios, mas deixou em aberto a questão de sua participação na organização da defesa uma vez iniciado o ataque e reivindicou as táticas que haviam permitido aos negros se defenderem do massacre, um marco que se opunha às características de episódios anteriores.

Em seu momento de maior desenvolvimento, a Irmandade chegou a reunir pouco menos de 3 mil membros organizados e seu principal órgão legal era a revista The Crusader, que alcançou uma circulação máxima de cerca de 36 mil exemplares e chegou a comunidades negras de diferentes regiões do país. Na elaboração de Briggs, a autodeterminação aparecia como um direito fundamental dos povos oprimidos, um princípio universal de justiça política baseado na premissa de que “qualquer povo é mais capaz de governar a si mesmo do que qualquer outro de governar esse povo”. Além disso, era uma questão estratégica para a sobrevivência e emancipação da população negra.

The Crusader reivindicava com admiração a luta da Irlanda contra o Império Britânico, qualificando-a como “a maior epopeia da história moderna” e propondo-a como exemplo para outros povos oprimidos, entre eles os da Índia e da África. Da mesma forma, celebrava que a Rússia soviética tivesse reconhecido precocemente o direito à autodeterminação das nacionalidades submetidas pelo antigo Império czarista — como Finlândia, Polônia e Ucrânia —, assim como de diversos povos da Rússia asiática considerados “atrasados”, contrapondo essa política à “hipocrisia” das democracias ocidentais.

A ABB desenvolveu a primeira reflexão sistemática do radicalismo negro estadunidense sobre a autodeterminação negra dentro dos Estados Unidos. Nas páginas de The Crusader, discutiu a possibilidade de entregar um dos quarenta e oito estados da União para garantir uma ampla autonomia territorial à população negra ou para constituir um Estado negro independente. No entanto, Briggs descartava ambas as alternativas como soluções viáveis, já que uma autonomia limitada a um único estado facilitaria a discriminação por parte do restante do país e deixaria a população negra em uma posição de permanente inferioridade diante de uma maioria branca no Congresso federal. Tampouco considerava viável um Estado negro independente, porque seria praticamente impossível deslocar a população branca residente nesses territórios, que previsivelmente resistiria pela força. Além disso, segundo Briggs, a configuração geográfica e política da América do Norte tornava vulnerável a existência de novos Estados soberanos, com exceção da Califórnia, que mencionava como um caso territorialmente mais defensável.

Para o fundador da ABB, a solução mais viável passava por uma migração orientada à construção de um Estado negro soberano na América do Sul, porque oferecia condições especialmente favoráveis devido à sua abundância de recursos naturais, seu clima e o peso demográfico das populações não brancas. Briggs considerava a África como uma pátria histórica e sentimental. Mas grande parte do continente permanecia sob domínio colonial europeu. Em seu entendimento, a Libéria carecia do desenvolvimento econômico e industrial necessário para absorver uma migração em massa. Nos anos seguintes, The Crusader voltou a considerar a Libéria e, mais amplamente, um Estado negro forte na África como possíveis pontos de apoio para a unificação e libertação da população negra.

A construção de um Estado negro forte, seja na África ou no Novo Mundo, aparecia nas elaborações da ABB como um ponto de apoio material para a emancipação da diáspora. Deveria garantir território, recursos e capacidade política própria, fortalecer a luta dos negros onde quer que permanecessem submetidos e modificar a correlação de forças diante das potências brancas. Desde 1918, a Irmandade de Sangue Africana defendia o princípio de uma “existência separada e independente”, condensada na fórmula de um “governo do povo (negro), para o povo (negro) e pelo povo (negro)” [N13].

O II Congresso da Internacional Comunista, de 1920, reflete de forma paradigmática a tensão entre a tradição que emergia da Revolução Russa e as pressões que o racismo inculcado na classe trabalhadora norte-americana exercia sobre o nascente comunismo desse país. As chamadas “Teses sobre a Questão Colonial” fazem uma generalização do direito à autodeterminação nacional para todos os povos oprimidos pelo imperialismo, tal como havia sido encarado pelos bolcheviques na Rússia. Nas teses preparatórias à resolução, Lenin incluiu expressamente os “negros da América” entre os problemas sobre os quais solicitava informação e elaboração específica. A referência adquiriu um significado maior no próprio desenvolvimento das teses. Ao abordar as obrigações particulares do proletariado das nações opressoras, Lenin sustentou a necessidade de prestar “ajuda direta aos movimentos revolucionários das nações dependentes e privadas de direitos (por exemplo, Irlanda, os negros americanos, etc.)”. Embora não detalhasse como deveriam ser implementadas as políticas específicas, a formulação colocava explicitamente a temática da opressão dos negros dentro do campo de problemas das relações entre povos opressores e oprimidos que a Revolução Russa havia enfrentado mediante o reconhecimento do direito à autodeterminação [N14].

Essa interpretação dentro da própria Internacional pode ser verificada na leitura que Sen Katayama fez do debate. O dirigente comunista japonês havia vivido e militado durante anos nos Estados Unidos e participou ativamente do trabalho da Internacional sobre a questão negra. Em maio de 1923, ao reconstruir os debates do II Congresso, escreveu: “O ponto de partida dos problemas negros são as teses do camarada Lenin sobre as questões coloniais. O camarada Lenin trata os negros americanos como uma nação submetida e os classifica na mesma categoria que a Irlanda”. A expressão “nação submetida” pertence a Katayama e não aparece literalmente no texto de Lenin. A distinção permite estabelecer o alcance que um dirigente da Internacional, diretamente relacionado ao problema, considerou legítimo extrair daquelas teses. Katayama havia estado lado a lado com Lenin nos debates sobre a questão colonial de 1920. Seu testemunho mostra como dirigentes políticos centrais da IC consideravam a questão negra estadunidense a partir das categorias elaboradas pelo bolchevismo para abordar a opressão nacional [N15].

No entanto, no próprio II Congresso apareceu outra forma de abordar esse mesmo problema, que refletia uma tendência que teria uma importância considerável na evolução posterior do comunismo estadunidense. John Reed, encarregado de informar especificamente sobre a situação dos negros nos Estados Unidos, partindo do reconhecimento da extraordinária profundidade de sua opressão, denunciando a segregação praticada por numerosos sindicatos e a incapacidade do Partido Socialista de organizar consequentemente a população negra, extraía dessa realidade uma conclusão diferente daquela que posteriormente formularia Katayama ao interpretar as teses de Lenin. O autor de Dez dias que abalaram o mundo sustentou diante do Congresso que “os negros não apresentam a demanda por independência nacional”; os movimentos orientados para “uma existência nacional separada”, como o retorno à África, “não teriam conseguido criar raízes entre as massas, que se consideram antes de tudo americanas”. Isso, afirmava Reed, “simplifica consideravelmente as tarefas dos comunistas”. Sua conclusão estratégica era que “a única política correta dos comunistas americanos em relação aos negros é considerá-los antes de tudo como trabalhadores” e procurar organizá-los “nos mesmos sindicatos que os brancos”, porque essa constituía “a melhor e mais rápida maneira de extirpar os preconceitos raciais e despertar a solidariedade de classe” [N16].

Não chegou a se desenvolver uma polêmica explícita sobre o direito à autodeterminação nacional negra nos Estados Unidos durante o Congresso de 1920. Lenin não respondeu a Reed explicitamente, mas as nuances expressas durante os debates deixaram colocada uma tensão estratégica de grande importância. Posteriormente, as “Teses sobre a Questão Negra”, aprovadas no IV Congresso da IC de 1922, recomendam explicitamente “aplicar as ‘Teses sobre a questão colonial’ à situação dos negros”. No entanto, o problema só receberá a devida atenção em 1928, durante os debates do VI Congresso. Até esse momento, é um grande consenso historiográfico o fato de que o comunismo norte-americano tratou a luta negra de forma marginal. Essa autocrítica foi desenvolvida pelos próprios comunistas.

Essa subvalorização durante quase toda a primeira década de fundação do PC dos Estados Unidos, inclusive em termos de luta pela igualdade de direitos dentro de um mesmo Estado, combinada com a negação do racismo como um problema nacional, tem duas raízes históricas que se retroalimentam. Por um lado, está aquela que corresponde à pressão do racismo assimilado pela classe trabalhadora branca sindicalizada e integrada à economia por meio de seu papel no funcionamento das posições estratégicas do capitalismo norte-americano. Por outro lado, aquela que tem a ver com a degeneração burocrática da URSS, que iria deformando crescentemente o legado estratégico da Revolução Russa.

Não obstante, as pressões oportunistas do comunismo estadunidense expressaram-se em outros terrenos. Desde 1922, o PC norte-americano impulsionou os chamados Farmer-Labor Parties ou partidos operário-camponeses, que eram frentes eleitorais relativamente permanentes que reuniam dirigentes sindicais reformistas, organizações de farmers endividados, cooperativistas, setores das camadas médias progressistas, pequenos proprietários rurais e políticos pequeno-burgueses. Seu programa denunciava o poder de Wall Street, dos monopólios e dos grandes bancos, mas propunha resolver esses problemas por meio de reformas democráticas e econômicas compatíveis com a continuidade do capitalismo norte-americano.

Apenas dois anos mais tarde, no V Congresso da Internacional Comunista realizado em 1924, poucos meses depois da morte de Lenin, a direção majoritária que começava a se constituir em torno de Stalin generalizou a orientação centrista de construir partidos operário-camponeses para todos os PCs. O paralelo entre ambas as iniciativas era claro. Os partidos comunistas eram subordinados a uma plataforma aceitável para dirigentes sindicais moderados, políticos reformistas e pequenos proprietários agrários. A inflexão preparava as condições para que a Internacional substituísse alianças táticas circunstanciais por subordinações estratégicas. Para além do que dissesse o programa, ficava diretamente deslocada a construção de organismos próprios de poder operário e camponês em favor de blocos políticos com direções pequeno-burguesas ou nacionalistas. Uma prática política que foi separando progressivamente as tarefas democráticas e anti-imperialistas da luta pelo poder independente da classe operária.

As orientações oportunistas que o estalinismo impôs à Internacional Comunista, que iriam substituindo os métodos da luta de classes no terreno internacional e priorizando a diplomacia geopolítica para a defesa da URSS, tiveram grandes implicações tanto na política externa quanto na interna. A Revolução Chinesa constituiu a primeira grande comprovação histórica desse deslocamento estratégico. A dissolução dos comunistas chineses no nacionalismo burguês demonstrou claramente suas consequências, com a trágica derrota de 1927. A lógica também influenciaria a política dos partidos comunistas diante da luta negra e dos movimentos de libertação nacional. De maneira mais geral, deformava a relação entre as tarefas democráticas e a revolução socialista. O mesmo tipo de deformação do internacionalismo verificou-se em outros testes decisivos da luta de classes, nos quais a Comintern priorizava os acordos que ampliavam o arco de apoios circunstanciais à URSS, ainda que isso fosse em detrimento do desenvolvimento de processos revolucionários em outros países. Na greve geral britânica de 1926, isso significou o apoio à burocracia sindical, em nome da manutenção do Comitê Anglo-Russo que havia sido constituído para a colaboração entre os sindicatos dos dois países.

Paralelamente, dentro da União Soviética, aprofundaram-se as tendências burocráticas que haviam começado a se consolidar sob o impacto do isolamento da revolução e das derrotas do movimento operário europeu, especialmente da Revolução Alemã de 1923. O enfraquecimento político do proletariado soviético foi acompanhado por uma crescente autonomização do aparelho estatal e partidário. No terreno econômico, a direção estalinista-bukharinista subestimou o atraso da industrialização e a crescente diferenciação social provocada pela NEP; ao impulsionar como orientação o fortalecimento econômico dos camponeses ricos e dos intermediários privados, aumentou sua capacidade de pressão sobre o Estado soviético. Para fortalecer a aliança entre a classe operária e a massa camponesa, a Oposição de Esquerda contrapôs a essa orientação a proposta de acelerar a industrialização com o objetivo de aumentar a oferta e reduzir os preços das mercadorias industriais destinadas ao campo, apoiar-se nos camponeses pobres, conter o crescimento do kulak e favorecer formas voluntárias de cooperação e coletivização. Esses três processos se desenvolviam em terrenos distintos, mas tinham em suas raízes uma contradição comum. Diante das dificuldades e do retrocesso da revolução, a direção estalinista passa a buscar crescentemente pontos de apoio distintos da atividade independente do proletariado revolucionário e dos métodos da luta de classes.

Na China, a subordinação ao Kuomintang terminou com o massacre dos comunistas. Na Inglaterra, a política do Comitê Anglo-Russo subordinou o Partido Comunista da Grã-Bretanha a uma aliança com os dirigentes sindicais que haviam contido e traído a greve geral. Na URSS, a insuficiência de mercadorias industriais terminou deteriorando as bases materiais da aliança entre a cidade e o campo; a subestimação do atraso industrial e do crescimento do kulak contribuiu para preparar a crise de abastecimento e de recolhimento de grãos de 1927-1928. Quando as consequências dessa orientação se tornaram inegáveis, a burocracia respondeu por meio de uma brusca virada. No interior, começou a recorrer a medidas administrativas extraordinárias contra os camponeses ricos, que posteriormente desembocariam na coletivização forçada. Em vez de corrigir a situação por meio de uma recuperação da democracia soviética, da atividade independente da classe operária e de uma estratégia revolucionária internacional, o novo curso reforçou os métodos administrativos de uma burocracia cada vez mais autonomizada.

No terreno internacional, o oportunismo da orientação anterior deu lugar à virada simetricamente oposta que entrou para a história conhecida como “Terceiro Período”: uma radicalização discursiva que passava a denunciar seus antigos aliados reformistas e nacionalistas, mas conservando intacto o mesmo método burocrático que havia produzido as derrotas anteriores. As políticas de colaboração com direções reformistas e pequeno-burguesas do período precedente foram substituídas por um radicalismo do discurso que rejeitava a luta sistemática pela frente única operária, identificava a social-democracia como “socialfascismo” e tendia a substituir a paciente disputa pela direção das organizações de massas pela construção de organizações comunistas paralelas.

Essas viradas não constituíam simplesmente erros táticos sucessivos. Os “ziguezagues” expressavam um modo de direção no qual a elaboração estratégica era substituída por respostas administrativas diante dos golpes da realidade. Perde-se a articulação entre as tarefas democráticas, nacionais e sociais na revolução dos países oprimidos. A questão negra permite observar, com particular clareza, as consequências das derivas estalinistas. Cada virada modificou não apenas as palavras de ordem dos partidos comunistas, mas sua relação com as capacidades de organização independente que começavam a desenvolver as massas negras em todo o mundo.

É nessa perspectiva que deve ser lido o VI Congresso de 1928 da Internacional Comunista e sua relação com a negritude. Ali, o estalinismo tentou transformar em doutrina geral as conclusões estratégicas extraídas de toda a experiência anterior. Nesse marco ocorreram os debates sobre a defesa do direito à autodeterminação nacional nos Estados Unidos, na África do Sul e no conjunto do mundo colonial e semicolonial. A profundidade com que o tema foi tratado representava um avanço em relação aos congressos anteriores. No entanto, essa ampliação do tratamento ocorreu dentro da deriva estratégica construída pelo estalinismo.

Dirigentes negros do comunismo norte-americano, como Harry Haywood, desenvolveram a tese de que a população negra do Sul reunia as características de uma nação oprimida. Com base nisso, defenderam que o PCUSA deveria impulsionar o direito à autodeterminação nacional negra na região do Black Belt. A posição encontrou resistências dentro do próprio comunismo negro e norte-americano. Otto Hall, irmão de Haywood, rejeitava a tese, e James W. Ford a considerava demasiadamente acadêmica e pouco vinculada ao trabalho concreto entre as massas. No entanto, dirigentes provenientes da African Blood Brotherhood, como Cyril Briggs, Harry Haywood e Lovett Fort-Whiteman, sustentavam, de diferentes maneiras, que a população negra possuía uma dinâmica política própria.

Havia pelo menos duas posições distintas da de Haywood no PCUSA. Havia aqueles que reduziam a luta negra a preconceitos raciais que desapareceriam com o socialismo. Outros reconheciam a especificidade da opressão, considerando artificial a proposta de separação territorial. Outros ainda temiam que a demanda por autodeterminação dividisse os trabalhadores negros e brancos. Fort-Whiteman defendeu priorizar a organização dos negros que estavam se tornando proletários urbanos no Norte. Ou seja, reconhecia a necessidade de uma orientação política especial, mas com centro estratégico no proletariado negro integrado às indústrias do país.

Embora o VI Congresso tenha decidido a favor da tese de Haywood, a resolução de 1928 ainda guardava ambiguidades sobre como articular a autodeterminação e sua relação com o programa geral do partido. A linha política nunca foi unânime no PCUSA. Entrou no partido como uma orientação respaldada pelos métodos burocráticos da Internacional estalinizada. Haywood atacou as resistências como adaptações ao “chauvinismo branco”. Em muitos casos, tinha razão. Mas não no sentido de transformar isso em um critério de “lealdade” à Internacional. Fort-Whiteman, por exemplo, foi afastado da direção do trabalho negro acusado de posições “nacionalistas pequeno-burguesas” e mais tarde foi perseguido na URSS. Por isso, seria reducionista identificar toda crítica à tese do Black Belt com racismo ou economicismo chauvinista. Havia objeções legítimas, sobretudo em razão das deformações estratégicas impostas pelo estalinismo.

Durante quase dois anos, continuaram as discussões sobre como concretizar a orientação do Black Belt na Comissão Negra da IC, da qual participavam Harry Haywood, Otto Huiswoud, James Ford, outros dirigentes do PCUSA e quadros da Internacional. Somente em outubro de 1930, a Resolução sobre a questão negra adotada pelo Comitê Executivo da Internacional Comunista (ECCI) precisou as indefinições presentes nas discussões anteriores. Ali, diferenciou-se com maior clareza a situação dos negros do Norte — crescentemente proletarizados e integrados às cidades industriais — da população negra do Sul, cujo centro continuava sendo o Black Belt. A resolução, ao menos em termos formais, vinculou a libertação nacional à revolução agrária, à terra para os meeiros e trabalhadores rurais, ao fim do poder dos proprietários de terras brancos e ao direito de constituir um poder político próprio.

O aspecto progressivo da orientação residia em convencer o movimento operário branco a romper politicamente com o chauvinismo racial como condição para construir uma unidade revolucionária. Mas o esquema do VI Congresso concebia a revolução agrária e nacional negra como uma etapa democrática diferenciada da revolução socialista, deixando em aberto o problema de quais forças sociais e políticas dirigiriam sua realização. Assim, a questão nacional tendia a se autonomizar da luta pela construção de organismos comuns de auto-organização revolucionária capazes de articular as demandas democráticas e nacionais com a luta do conjunto das classes subalternas pelo poder. Nessa separação encontrava-se a lógica etapista: a direção da luta pela emancipação nacional ficava nas mãos de forças sem caráter de classe definido, deixando aberta a possibilidade de alianças estratégicas com nacionalismos burgueses e pequeno-burgueses; enquanto a revolução socialista ficava relegada a uma etapa posterior indefinida.

O Terceiro Período teve consequências diretas para a intervenção do PCUSA no movimento negro. O American Negro Labor Congress (ANLC), fundado em 1925 pelos comunistas negros norte-americanos, foi substituído. Em 1930 foi fundada a League of Struggle for Negro Rights (LSNR). Enquanto o ANLC incluía tentativas de construir amplos organismos de massas entre os trabalhadores negros, a LSNR foi o instrumento do novo curso ultraesquerdista. Seu programa incorporou como eixo central a autodeterminação do Black Belt, a revolução agrária no Sul, a igualdade política e social da população negra e a luta contra o linchamento e o terror racial.

Em sua autobiografia, Harry Haywood reconheceria que a LSNR nunca conseguiu se transformar em uma verdadeira organização de massas. O problema, segundo seu próprio balanço, residia no fato de que, desde sua fundação, a organização exigia a aceitação de um programa praticamente idêntico ao do PC — incluindo a revolução agrária, o confisco da terra e a autodeterminação — como condição prévia para ingressar. O resultado foi que terminou funcionando quase exclusivamente como uma organização composta por militantes comunistas. Independentemente da interpretação que o próprio Haywood extraiu dessa experiência, seu testemunho confirma um dos problemas estratégicos centrais do Terceiro Período [N17].

A orientação adquiriu no Alabama uma forma particularmente reveladora. Alguns dos traços ultraesquerdistas tiveram ali, paradoxalmente, um efeito inicialmente libertador. Na medida em que empurraram o estalinismo a se organizar de forma separada do movimento operário institucional profundamente atravessado pelo racismo, permitiram que os comunistas potencializassem as capacidades previamente acumuladas dos diferentes setores das massas negras nos quais estavam inseridos. Isso contribuiu para articular as resistências parciais nas redes de famílias, igrejas, bairros e comunidades rurais e urbanas submetidas ao terror racial, favorecendo as ações coletivas de autodefesa.

O desenvolvimento da luta negra no Alabama também se explica porque seus comunistas não aplicaram mecanicamente os aspectos mais sectários da linha nacional. As necessidades da própria luta os levaram repetidamente a buscar formas de ação comum com forças que estavam fora de sua influência. A campanha contra os linchamentos reuniu inclusive garveyistas. Militantes negros buscaram o apoio de pastores. Sobretudo, Scottsboro transformou-se em um enorme movimento de frente única, com comitês de defesa, atos e conferências que incorporavam milhares de pessoas que estavam muito longe de ser comunistas. A própria descentralização do partido no Alabama favoreceu essas tendências opostas aos desígnios do Terceiro Período.

Essa contradição foi assinalada naqueles mesmos anos por James P. Cannon, a partir da Oposição de Esquerda. Em abril de 1932, o dirigente do trotskismo norte-americano polemizou com a forma sectária como o PC pretendia desenvolver a campanha pelos Scottsboro Boys, sustentando que o problema central era transformar a defesa dos jovens negros em um enorme movimento de massas. O comunismo deveria ser capaz de mobilizar, junto às massas negras, setores cada vez mais amplos de trabalhadores brancos. Para isso, Cannon propunha envolver ativamente os sindicatos, organizar congressos operários e manifestações comuns.

Isso permite observar com maior clareza o limite imposto pelo ultraesquerdismo. Por um lado, a orientação oficial da “frente única por baixo” combinava a mobilização das bases com ataques que apresentavam a direção da NAACP praticamente como parte do campo inimigo, o que tornava mais difícil a luta para tentar impor ações comuns. Ao mesmo tempo, a construção de organizações sindicais separadas pelos comunistas permitiu incorporar trabalhadores negros excluídos ou relegados por estruturas sindicais racistas. No entanto, o sindicalismo dual tendia a transformar essa separação em uma estratégia geral de organizações paralelas, enfraquecendo a possibilidade de disputar as massas dos grandes sindicatos ligados à AFL, justamente quando, a partir de 1933, começava uma ascensão operária dentro dos sindicatos tradicionais.

O problema não era a falta de combatividade de seus militantes, nem que as demandas que levantavam fossem radicais demais. A orientação dificultava transformar esse heroísmo e essa inserção em uma política capaz de conquistar a direção das grandes organizações de massas. O sectarismo, ao impedir o desenvolvimento de políticas orientadas para a frente única, obstaculizou a confluência entre os elementos de radicalização operária e a luta negra, e desperdiçou as capacidades de auto-organização que haviam se desenvolvido em ambos os processos políticos. A tragédia do estalinismo norte-americano residiu nessa contradição, especialmente evidente no Alabama: a conquista de um enorme capital político e moral entre setores dos explorados e oprimidos, submetida a orientações que o impediram de se converter em direção revolucionária.

Na lógica do estalinismo de separação entre as tarefas democráticas da revolução e as anticapitalistas, o resultado prático — independentemente da vontade de seus militantes — era uma crescente cisão entre a luta negra e a operária. A separação entre ambas as dimensões tendia a transformar a autodeterminação em um problema essencialmente nacional, facilitando que sua direção pudesse ser disputada ou até monopolizada pelas próprias elites negras. A reivindicação democrática conservava legitimidade e inclusive centralidade, mas o caminho estratégico para sua conquista não passava pela construção de organismos de auto-organização comuns entre os diferentes setores das classes subalternas, como haviam sido os sovietes na Revolução Russa.

O VI Congresso não elimina os sovietes da linguagem política da IC. Durante o Terceiro Período, pelo contrário, a referência aos sovietes, à insurreição e à ditadura proletária torna-se ainda mais frequente. O que muda é seu papel estratégico. Na tradição dos quatro primeiros congressos da IC, os sovietes não eram concebidos unicamente como a futura forma estatal da ditadura do proletariado. Constituíam também o mecanismo por meio do qual poderia ser construída a hegemonia revolucionária da classe trabalhadora sobre o conjunto das classes exploradas e oprimidas. Sua função consistia em articular, desde baixo, as lutas democráticas, nacionais, agrárias e econômicas, em torno de organismos comuns capazes de unificar reivindicações diversas contra um inimigo também comum.

Essa concepção baseia-se na caracterização estratégica de que o capitalismo e o imperialismo não distribuem homogeneamente seus mecanismos de dominação. Pelo contrário, concentram seus maiores recursos de integração material, corrupção política e cooptação precisamente onde se encontram suas posições estratégicas de poder: os grandes centros industriais, com sindicatos estatizados e suas respectivas burocracias; onde se encontram os setores do proletariado cuja paralisação poderia afetar mais diretamente a reprodução do sistema. Em termos de Clausewitz, poderia-se dizer que o capitalismo “protege” seus principais “centros de gravidade” por meio de complexos mecanismos de estabilização política e social.

Justamente por esses métodos adotados pela construção da hegemonia burguesa, a teoria da revolução permanente problematiza qual estratégia pode permitir que a construção da hegemonia proletária vença os mecanismos de cooptação e corrupção que estabilizam a ordem de dominação. Por isso, a construção de organismos de tipo soviético não necessariamente começa por esses “centros de gravidade” do poder burguês-imperialista, mas se abre a encontrar um terreno mais fértil nas margens dos setores mais explorados e oprimidos do sistema.

Assim, a estratégia soviética busca mobilizar a energia revolucionária situada na base da pirâmide — camponeses pobres, trabalhadores precarizados, povos coloniais, nacionalidades oprimidas e, nos Estados Unidos, a população negra submetida ao regime de Jim Crow —, cujas condições de exploração e opressão poderiam contribuir para romper parcialmente o “bloqueio” político construído pelas classes dominantes em torno dos setores estratégicos do proletariado. Esse raciocínio estratégico partia da premissa de que a unidade revolucionária não surgia espontaneamente da posição econômica objetiva da classe operária, mas exigia um trabalho político permanente orientado a transformar a energia acumulada nas margens em uma força capaz de disputar a direção do conjunto da sociedade.

Nessa perspectiva, a hegemonia proletária deixa de ser o simples reflexo político da localização econômica do proletariado dentro do processo produtivo. Converte-se, pelo contrário, em uma construção estratégica. Seu desenvolvimento depende precisamente da capacidade de articular as reivindicações das camadas mais exploradas e oprimidas com aquelas frações do proletariado localizadas nos centros nevrálgicos da produção e da circulação, onde o imperialismo desenvolve com maior intensidade seus mecanismos de integração e controle.

A orientação do Terceiro Período recusava especialmente a construção de frentes únicas operárias com direções reformistas influenciadas pela social-democracia, que teria sido necessária para lutar contra o nazismo na Alemanha. Essa política sectária foi um dos fatores que abriram caminho para que Hitler assumisse o poder sem uma grande resistência. Essa derrota provocou uma nova virada na IC. Para enfrentar a ameaça fascista, que passaria a projetar sua sombra sobre a URSS, o estalinismo impulsionou uma política de alianças com as potências imperialistas que se opunham a Hitler, dando lugar ao que passou à história como a virada para a “Frente Popular” antifascista. A nova orientação foi consolidada no VII Congresso da Internacional Comunista, realizado em 1935.

Se durante o Terceiro Período o estalinismo havia respondido às derrotas provocadas pelas políticas de colaboração de classes da década anterior por meio de uma virada ultraesquerdista — rejeitando as frentes únicas com as organizações reformistas e denunciando suas direções como inimigos a serem combatidos —, agora realizou uma virada praticamente simétrica. Em nome da luta contra o fascismo, os partidos comunistas passaram a impulsionar amplas coalizões não apenas com as organizações reformistas da classe trabalhadora, mas também com setores da burguesia imperialista considerados “democráticos”.

Para a luta negra, a virada para a Frente Popular foi particularmente nociva. Nos países imperialistas, isso significava subordinar a independência política da classe trabalhadora à aliança com setores de sua própria burguesia, em nome da defesa da democracia diante do fascismo. Isso implicava que as massas negras na África e na diáspora agora deveriam apoiar as potências que as haviam colonizado durante séculos e continuavam submetendo-as a formas de exploração e opressão que não ficavam devendo nada aos métodos do nazifascismo.

Nos Estados Unidos, essa orientação traduziu-se em uma aproximação crescente com o campo político do New Deal: embora o PC tenha apresentado Earl Browder e James W. Ford como candidatos nas eleições presidenciais contra Roosevelt em 1936, foi abandonando progressivamente a perspectiva de construir uma alternativa política independente da classe trabalhadora e passou a considerar o presidente e os setores liberais que o cercavam como aliados potenciais na luta contra a reação e o fascismo.

Essa virada levou o PC a buscar alianças com a NAACP, com representantes das igrejas, dirigentes negros de classe média e setores liberais vinculados ao New Deal. Nesse contexto, a palavra de ordem de autodeterminação territorial tornou-se um obstáculo para a ampliação dessas alianças e foi retirada da agitação central, embora não tenha desaparecido completamente dos documentos. Em sua autobiografia, Haywood reconhece que resistiu a esse deslocamento. Para ele, abandonar o Black Belt significava voltar a uma política integracionista que reduzia a questão negra a direitos civis dentro da ordem existente.

Com o surgimento do National Negro Congress em 1936 e do Southern Negro Youth Congress no ano seguinte, expressou-se a contradição característica do novo período aberto pela Frente Popular. Ambas as organizações refletiam objetivamente o amadurecimento de uma nova vanguarda negra — operária, juvenil, estudantil, sindical e popular — que buscava coordenar em escala nacional as lutas contra o racismo, a exploração e a exclusão política. Mas essa enorme energia social começou a se desenvolver sob uma orientação diferente daquela que havia caracterizado as melhores experiências do período anterior. A direção de Browder foi reorientando o trabalho negro para a coalizão antifascista. O apoio inicialmente crítico e depois cada vez mais aberto a Roosevelt marcou a construção do National Negro Congress.

Foi um novo zigue-zague. O ultraesquerdismo anterior deu lugar à sua contraface oportunista. Ao avaliar a Frente Popular, Haywood reconheceu que o partido havia confiado excessivamente na construção da frente única por meio de acordos com as direções de igrejas, sindicatos, lojas e outras organizações negras, relegando a segundo plano o trabalho sistemático entre suas bases. Uma lógica de fundo presente também na construção de organizações comunistas paralelas durante o Terceiro Período, que reapareceu na nova fase sob a adaptação às direções reformistas e liberais em nome da unidade antifascista.

Se observado a partir de uma perspectiva estratégica mais ampla, seja por meio da autoproclamação sectária ou da adaptação oportunista a correntes pequeno-burguesas ou burguesas, em ambos os casos, a luta paciente pela construção de frações revolucionárias entre as massas era substituída por atalhos. Por caminhos aparentemente opostos, ambas as orientações negam a construção da hegemonia por meio da intervenção política independente nas organizações reais que reuniam as classes exploradas e oprimidas. A virada para a Frente Popular termina de consolidar a cisão entre as tarefas democráticas e anticapitalistas da revolução que já vinham sendo construídas pela lógica etapista, dando um novo passo decisivo no abandono das tradições revolucionárias construídas pela Revolução Russa e pelos quatro primeiros congressos da Internacional Comunista.

A experiência do Alabama permite submeter essa crítica à prova dos fatos e ver de forma concentrada a magnitude de suas consequências. Robin D. G. Kelley registra a profunda transformação ocorrida no comunismo estadunidense daquela região depois de 1935. A política da Frente Popular permitiu sair parcialmente da clandestinidade, ampliar relações políticas e intervir no extraordinário processo de sindicalização industrial aberto pelo CIO. No entanto, essa ampliação teve como contrapartida a busca por “respeito” e por alianças com liberais sulistas, dirigentes sindicais moderados e setores vinculados ao New Deal. Dessa maneira, uma organização que havia se desenvolvido a partir das margens mais exploradas da sociedade começa um processo de deslocamento de seu centro de gravidade.

As consequências podem ser medidas materialmente. Kelley identifica um claro retrocesso da militância operária do PC de Birmingham como resultado de sua entrada no mundo do liberalismo sulista. A Share Croppers’ Union, que havia organizado meeiros e trabalhadores rurais negros em condições de clandestinidade, violência dos proprietários de terras e terror racial, desarticulou-se durante os anos da Frente Popular e, com isso, perdeu-se a capacidade de organização e luta independente que os comunistas haviam construído durante o período precedente. Isso se traduziu, por sua vez, em uma diminuição da filiação negra ao Partido.

O PCUSA contra as tendências revolucionárias

Fundado em 1919 como uma pequena organização surgida da cisão revolucionária do Partido Socialista, o PC dos Estados Unidos condensa em sua trajetória tanto as possibilidades revolucionárias que marcaram o período entre guerras quanto a responsabilidade do estalinismo nos desvios e derrotas que atravessaram o século XX. Durante os anos 1920, o PCUSA permaneceu reduzido a alguns milhares de militantes, atuando muitas vezes em condições de semiclandestinidade. A crise de 1929 e o crescimento das lutas operárias na década de 1930 impulsionaram um crescimento sem precedentes.

O paradoxo histórico é que a virada para a Frente Popular ocorreu precisamente quando as tendências à radicalização política do movimento operário e sua articulação com a luta negra começaram a apresentar maiores possibilidades revolucionárias. Apesar dos limites impostos pela orientação do Terceiro Período, o capital político conquistado pelos comunistas durante os anos mais duros da Depressão poderia ter servido para disputar a direção do processo. No entanto, a virada para a Frente Popular orientou progressivamente essa acumulação na direção contrária, ou seja, para a integração do movimento operário e negro ao bloco político do New Deal.

Os estudos de Michael Goldfield e Robert Korstad demonstram que a incorporação maciça de trabalhadores negros ao novo sindicalismo industrial modificou o caráter da ascensão operária. Como vimos no caso da greve dos estivadores de São Francisco em 1934, os lugares onde o CIO conseguiu organizar de maneira estável trabalhadores negros e brancos em uma mesma estrutura sindical coincidem com as experiências mais profundas de democracia operária, solidariedade interracial e radicalização política de toda a década de 1930.

No entanto, as tendências à articulação entre luta negra e classe operária foram minoritárias em relação à preservação e até mesmo ao aprofundamento das hierarquias raciais profundamente arraigadas dentro do próprio proletariado branco. Ao multiplicar a demanda por força de trabalho, a guerra incorporou os negros a empregos industriais aos quais até então não tinham acesso. As classes dominantes exploraram essa mudança para estimular a concorrência, reduzir o preço da força de trabalho e acentuar as divisões raciais. A resistência de setores de trabalhadores brancos adquiriu formas violentas, como demonstrou a rebelião racial de Detroit em 1943. O fim da guerra fez reaparecer brutalmente a disputa pelos postos de trabalho, descarregando sobre os negros uma parte desproporcional das demissões. As burocracias sindicais da AFL continuavam sendo a correia de transmissão do racismo dominante no movimento sindical. Embora setores do CIO tenham combatido a discriminação, suas direções tenderam a administrar as divisões existentes. Em ambos os casos, as principais direções do movimento operário foram responsáveis por frear e, em algumas ocasiões, combater as tendências em direção a uma unidade interracial mais profunda que emergiam de baixo.

Esse papel das direções permite medir com maior precisão as consequências da virada política do PC norte-americano durante a segunda metade da década de 1930 e, sobretudo, durante a Segunda Guerra Mundial. O deslocamento do PC em direção à colaboração com o Estado do New Deal durante a Frente Popular, assim como sua posterior defesa dos esforços de guerra, desempenharam um papel decisivo: impediram o desenvolvimento das tendências que poderiam ter transformado a classe operária norte-americana na vanguarda da luta para frear a maquinaria de guerra imperialista.

Como documenta detalhadamente Daniel Guérin em seu livro Estados Unidos 1880-1950. Movimento obrero y campesino, o deslocamento em direção à Frente Popular significou muito mais do que o apoio eleitoral a Roosevelt ou a busca de acordos com a burocracia sindical e as direções liberais do movimento negro. A nova orientação transformou o próprio PC em um fator de disciplinamento do movimento operário, passando a defender a subordinação das reivindicações operárias às necessidades do imperialismo norte-americano, da produção bélica e da colaboração de classes.

Essa mudança pode ser acompanhada passo a passo na atuação pública dos dirigentes estalinistas em auxílio aos burocratas sindicais que assumiram a liderança do CIO para frear suas tendências à radicalização. A John Lewis, o chefe dos burocratas que assumiu a direção do trabalho de contenção, chamaram de “Sansão do Labor”. Em 1938, o principal dirigente do PCUSA, Earl Browder, tratou-o como “o maior dirigente sindical norte-americano”. Em seus escritos de 1937 e 1939, Foster, o outro dirigente central do partido, lisonjeia Lewis com admiração. Não poucos ex-comunistas abandonaram diretamente o PC e passaram, com armas e bagagens, para o aparato da burocracia [N18].

Com o início da guerra, as greves foram colocadas fora da lei pela renúncia “voluntária” dos dirigentes sindicais. Para os eventuais recalcitrantes, recorreu-se a leis que limitavam o direito de greve ou até mesmo à intervenção da força armada, de capangas e de grupos fascistas paramilitares. Os salários foram congelados e os operários ficaram acorrentados ao seu trabalho. Colocou-se em marcha todo um procedimento de arbitragem obrigatória para impedi-los de apresentar livremente suas reivindicações.

Durante o período compreendido entre o pacto germano-soviético de agosto de 1939 e a agressão hitlerista à URSS em 1941, o PCUSA denunciou o imperialismo norte-americano e a “união sagrada”. Quando esse acordo foi rompido e o estalinismo se alinhou a Roosevelt, o PC inverteu completamente sua orientação. Desde então, passou a combater sistematicamente as greves, defender o “no-strike pledge” (os sindicatos e os trabalhadores se comprometiam a não realizar greves, paralisações ou interrupções do trabalho durante a guerra), exortar ao aumento da produtividade, justificar a intervenção do governo contra conflitos operários e denunciar como irresponsáveis ou provocadores aqueles que impulsionavam ações de luta que pudessem afetar o esforço de guerra. Os principais dirigentes estalinistas chegaram inclusive a apresentar o aumento da produção como a principal tarefa patriótica dos sindicatos e a transformar a disciplina laboral em um dever político da classe trabalhadora.

Guérin documentou como, na imprensa estalinista, a “guerra imperialista” metamorfoseou-se em “guerra de libertação”. Foster escreveu em 1942: “Os trabalhadores devem dar o exemplo aceitando voluntariamente todo sacrifício necessário à condução da guerra; devem fazer da defesa da nação nesta crise o objetivo supremo de todas as suas atividades”. No mesmo ano, Earl Browder afirma que, para ganhar a guerra, cabia aos trabalhadores fazer “o principal sacrifício”. Os estalinistas denunciaram como traidores todos aqueles que entravam em greve ou defendiam as greves [N19].

O comunista Harry Bridges declarou em 1942: “Para dizer sem rodeios, penso que nossos sindicatos devem se transformar hoje nos instrumentos do speed-up (intensificação do ritmo de trabalho) da classe operária norte-americana”. No Sindicato dos Automóveis, especialmente, os estalinistas fizeram propaganda a favor do trabalho por peça, ao qual a organização sempre havia se oposto, ao mesmo tempo em que apoiaram com entusiasmo o congelamento dos salários [N20].

Levados por seu próprio impulso, os estalinistas ofereceram estender o no-strike pledge ao pós-guerra. Albert Fitzgerald, presidente do sindicato dos trabalhadores da Indústria Eletrotécnica, controlado pelo PC, afirmou em 1945: “O no-strike pledge não foi declarado somente para a duração da guerra”. Em uma discussão entre membros do Sindicato dos Automóveis, um filiado do PC declarou que “assalariados e patrões seriam amigos depois da guerra e que era necessário então comprometer-se a não declarar greves depois da guerra”.

Para Guérin, a atitude dos estalinistas durante esse período repugna profundamente e de maneira duradoura os setores de vanguarda dos trabalhadores norte-americanos, dissipando as ilusões que haviam criado sua fraseologia esquerdista de épocas anteriores e sua participação ativa na fundação do CIO. Posteriormente, foi impossível ao PCUSA reparar o prejuízo que eles próprios haviam causado. O sucesso da campanha “anticomunista” posteriormente realizada conjuntamente pelo Big Business e seus lugar-tenentes no movimento operário ocorreu, em parte, por causa de sua política prévia de defesa ativa da “união sagrada” durante a Segunda Guerra.

A subordinação estalinista ao esforço de guerra teve um alcance internacional. O PC contribuiu para construir a maquinaria econômica e militar por meio da qual os Estados Unidos emergiriam da guerra como potência hegemônica. Sua política, em vez de explorar a negritude como ponte revolucionária com a diáspora negra na África, no Caribe e na América Latina, converteu-se em uma força auxiliar do racismo colonialista da política externa norte-americana. A política de Frente Popular alcançava aqui sua forma extrema: a defesa da URSS era identificada com a vitória militar de Roosevelt; o antifascismo, com o fortalecimento do Estado norte-americano; e a igualdade negra, com o acesso subordinado às suas indústrias e forças armadas. Uma política que se opunha frontalmente à articulação entre a luta contra o fascismo, a defesa do Estado operário, a revolução proletária nas potências imperialistas e a libertação nacional dos povos coloniais.

A conferência de Yalta, que selou o fim da guerra, reuniu Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e Ióssif Stalin na Crimeia, em fevereiro de 1945. A conferência de Potsdam, que concluiu o acordo, reuniu o chefe da URSS com o novo presidente estadunidense Harry S. Truman e o britânico Clement Attlee, entre julho e agosto do mesmo ano. Os pactos celebrados nessas duas instâncias não constituíram apenas uma delimitação diplomática de zonas de influência entre as grandes potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial. Expressaram a construção de uma nova ordem internacional destinada a estabilizar o capitalismo mundial em um contexto no qual a guerra havia provocado uma profunda crise de legitimidade das classes dominantes e aberto enormes possibilidades revolucionárias em todos os continentes. Enquanto os Estados Unidos haviam emergido como principal potência imperialista, a burocracia soviética aceitou consolidar um sistema internacional baseado na coexistência entre os dois blocos, subordinando o desenvolvimento de novas revoluções à preservação do equilíbrio alcançado entre as potências vencedoras.

A extraordinária autoridade conquistada pelo estalinismo depois de 1945 só pode ser compreendida se distinguirmos cuidadosamente entre a política da burocracia e a ação histórica das massas soviéticas. A invasão nazista colocou dramaticamente em evidência essa contradição. A direção estalinista chegou à guerra profundamente enfraquecida pelas grandes purgas que haviam destruído boa parte da velha guarda bolchevique e do alto comando do Exército Vermelho, enquanto o pacto germano-soviético havia contribuído para gerar graves ilusões acerca das intenções de Hitler. A ofensiva alemã de junho de 1941 encontrou a burocracia vacilante, desorientada e surpreendida pela magnitude do ataque.

A vacilação inicial do estalinismo foi superada pela mobilização das massas soviéticas. Estas transformaram a defesa da URSS em uma guerra de defesa das conquistas materiais e sociais da Revolução de 1917. Embora a burocracia tenha terminado dirigindo militarmente esse imenso esforço coletivo, a fonte da vitória residiu na disposição ao sacrifício do proletariado e do campesinato que derrotaram a ofensiva nazista em seu território.

O prestígio adquirido pela derrota do nazismo foi utilizado para aprofundar a orientação dos partidos comunistas em direção à conciliação de classes. O capital político gerado pelas massas soviéticas foi convertido em um instrumento para estabilizar a nova ordem internacional surgida de Yalta. Seu heroísmo foi utilizado para conter os processos revolucionários do pós-guerra e reconstruir a autoridade das burguesias europeias profundamente desprestigiadas por sua colaboração com o fascismo.

O papel do estalinismo nos acordos de Yalta e Potsdam só pode ser compreendido à luz da ascensão revolucionária que, em vários países, seguiu-se à derrota do Eixo. As burguesias europeias ficaram em crise por sua colaboração ou capitulação diante da ocupação alemã. Na França, na Itália e na Grécia, as massas operárias e populares que protagonizaram a resistência armada foram decisivas na derrota do nazifascismo. A estabilização capitalista da Europa no imediato pós-guerra seria impossível se o estalinismo não tivesse usado sua influência para garantir que as massas entregassem as armas e aceitassem submeter-se a condições renovadas de exploração para permitir a reconstrução dos Estados burgueses. Essa foi a contrapartida que Moscou ofereceu aos Estados Unidos em troca do reconhecimento da esfera de influência soviética na Europa Oriental.

O PC norte-americano desempenhou dentro dos Estados Unidos a função correspondente a esse dispositivo estratégico internacional. No entanto, a evolução do estalinismo na potência imperialista que emerge como principal vencedora da guerra seria muito diferente do desenvolvimento dos PCs nos outros países do mundo. Enquanto na Europa e na periferia do sistema as classes dominantes necessitavam dos partidos comunistas para desviar e derrotar as tendências revolucionárias, dentro da América do Norte a burguesia pôde prescindir de tal colaboração.

Apesar da política de colaboração de classes, em meados da década de 1940 o PCUSA havia alcançado entre setenta e cinco e oitenta mil filiados — segundo diferentes estimativas historiográficas —, editava um dos principais jornais de esquerda do país, exercia influência decisiva em numerosos sindicatos do CIO e possuía importante autoridade política entre intelectuais, artistas e amplos setores do movimento negro organizado. Durante vários anos, o comunismo estadunidense conservou uma força considerável, importantes posições sindicais e uma autoridade pública muito superior à que havia tido nos anos 1930 e aparecia, diante de milhões de pessoas, como a expressão política interna da URSS.

No entanto, apenas uma década depois, quando a prisão de Rosa Parks em Montgomery, em 1955, inaugurava a grande ascensão das lutas pelos direitos civis, o PC encontrava-se reduzido a uma organização muito debilitada, golpeada pela repressão do macartismo, expulsa da maior parte dos sindicatos onde havia construído influência e praticamente incapaz de intervir como direção política do novo movimento negro. Quando a luta negra dá um salto em amplitude de massas e radicalização durante os anos 1960, o PCUSA já havia se transformado em uma sigla vazia, com um punhado de burocratas que buscavam se posicionar como satélites do Partido Democrata. Compreender as razões desse colapso constitui um problema estratégico muito mais profundo do que a simples história de uma organização particular.

Uma interpretação muito difundida atribui o colapso essencialmente ao macartismo. Sem desconhecer a importância da repressão, essa explicação minimiza o papel da própria orientação política do PCUSA em seu afundamento. O boom de crescimento econômico posterior à guerra, assim como o prestígio decorrente da fama de ter derrotado o nazifascismo, permitiram que as classes dominantes estadunidenses se apoiassem diretamente na aristocracia operária e nas classes médias embaladas pelo “sonho americano”. À medida que se desenvolvem as diferentes etapas da Guerra Fria, a melhoria relativa das condições de vida de amplos setores de massas estabelece as bases para que os governos norte-americanos implementem uma repressão cada vez mais forte contra todos os setores de vanguarda e, em especial, contra aqueles que simpatizavam com a URSS.

Earl Russell Browder foi o Secretário-Geral do PC durante seu período de maior crescimento e influência, entre 1930 e 1945. Foi o responsável por levar até suas últimas consequências a política da Frente Popular. Sustentava que a aliança entre Roosevelt, Churchill e Stalin não era uma necessidade exclusivamente militar, mas o início de uma nova etapa histórica; na qual, depois da guerra, seria possível uma colaboração estável entre capitalismo e socialismo. Segundo sua visão, as contradições entre capital e trabalho nos Estados Unidos poderiam se atenuar durante um longo período. Por isso, o PCUSA deveria abandonar seu caráter de partido revolucionário e se transformar em uma ampla associação política.

Em 1944, Browder foi responsável por dissolver formalmente o PCUSA e criar a Communist Political Association (CPA). Esse era um passo muito mais profundo do que a Frente Popular de 1935. Era praticamente a renúncia explícita a construir um partido independente da burguesia norte-americana. A nova constituição partidária eliminou toda referência à luta de classes, não mencionou o imperialismo, não falou do papel revolucionário do proletariado, não propôs o estabelecimento do socialismo e definiu a CPA como uma associação apartidária de estadunidenses. As novas fronteiras organizativas estabeleceram como motivo para expulsão pertencer a grupos que buscassem “enfraquecer ou derrubar” as instituições da democracia estadunidense.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a subordinação ao esforço bélico terminou de esvaziar a política de autodeterminação negra. Desde a dissolução do partido, a palavra de ordem foi explicitamente abandonada. Foster reconhece que o National Negro Congress, o Southern Negro Youth Congress e a Southern Conference for Human Welfare chegaram ao pós-guerra “em forma esquelética”.

Ao final da guerra, o estalinismo obrigou o PC norte-americano a destituir Browder da direção e abandonar a tese de uma colaboração duradoura entre o capitalismo norte-americano e a União Soviética, restaurar sua estrutura partidária e afastar aquele que havia dirigido a organização durante mais de uma década. O famoso artigo de Jacques Duclos (“Sobre a dissolução do Partido Comunista dos Estados Unidos”), publicado em Cahiers du Communisme em abril de 1945, marca essa inflexão. Duclos foi um dos principais dirigentes do PC Francês durante quase meio século e, depois de Maurice Thorez, provavelmente foi o dirigente estalinista mais importante da Europa Ocidental. No entanto, sua relevância histórica excede amplamente a França; durante décadas atuou como um dos principais executores da política internacional definida por Stalin para os partidos comunistas ocidentais.

Em seu artigo, Duclos sustentava que Browder havia cometido três erros fundamentais: dissolver o PC e substituí-lo pela Communist Political Association, exagerar as possibilidades de colaboração duradoura entre capitalismo e socialismo e abandonar a perspectiva da luta de classes depois da guerra. O texto marca a inflexão para um novo momento do estalinismo, que passa a combinar elementos do velho Terceiro Período com elementos da Frente Popular, com características variadas, dependendo das conveniências da burocracia soviética em cada país. No entanto, a Frente Popular agora não tinha como fundamento o perigo nazifascista já derrotado, mas se justificava pela aposta na influência que os partidos comunistas poderiam adquirir dentro das democracias parlamentares burguesas, inclusive nos países imperialistas.

Entre o final de 1944 e o início de 1945, a URSS via que o Exército Vermelho ocupava a Europa Oriental, a Alemanha estava derrotada, Roosevelt estava gravemente doente, começavam as tensões com Churchill e os Estados Unidos preparavam a nova ordem mundial sob sua hegemonia. Ou seja, a burocracia soviética compreendeu que a aliança de guerra estava chegando ao fim. A Guerra Fria ainda não existia, mas suas condições já começavam a se formar.

A Doutrina Truman, o Plano Marshall e o endurecimento da política estadunidense em relação à URSS foram interpretados pela direção comunista como sinais de uma rápida marcha em direção à guerra e ao fascismo. Essa caracterização colocou as questões de política externa no centro de todas as políticas do PCUSA no movimento operário. Como reconheceria posteriormente John Gates, diante do início da Guerra Fria, o partido fez precisamente o contrário do que precisava para evitar seu isolamento. Em vez de preservar as alianças construídas durante anos dentro do CIO em torno das lutas comuns dos trabalhadores, subordinou crescentemente sua política sindical à defesa das posições internacionais da União Soviética. As diferenças sobre o Plano Marshall e outros conflitos entre Washington e Moscou passaram, assim, a se transformar em linhas divisórias dentro do próprio movimento sindical, facilitando o isolamento dos comunistas e a ofensiva posterior da burocracia do CIO contra eles.

Stalin não precisava de mais do que os partidos comunistas aparecessem como completamente integrados ao sistema político burguês. Para fortalecer sua capacidade de negociação, empurrou-os a existir como partidos independentes. Não para fazer a revolução, mas para funcionar como instrumentos de pressão diplomática diante de Washington e Londres. Depois de ter dissolvido a Comintern em 1943, o estalinismo buscou reconstruir minimamente o aparato internacional. Além disso, para conter os processos revolucionários que eclodiram na Europa depois da Segunda Guerra, os PCs não podiam aparecer completamente fundidos aos governos burgueses.

Depois de passar anos adaptado às burocracias sindicais e praticamente dissolvido no liberalismo imperialista ligado ao Partido Democrata, o partido voltou a rejeitar alianças nos sindicatos com forças não comunistas. O novo giro ultraesquerdista coincide com a ofensiva macartista. Justamente quando as condições nacionais exigiam a construção de uma ampla frente democrática contra a ofensiva repressiva, a orientação do PC seguiu o rumo contrário. A defesa do direito do próprio PC de se organizar adquiria, nessas condições, um conteúdo que excedia amplamente o destino de sua organização. A mobilização contra a perseguição política, os expurgos sindicais e a criminalização do comunismo poderia transformar a defesa de liberdades democráticas elementares em uma experiência de organização independente diante de um regime bipartidário que estreitava os limites da atividade política legítima. Nesse marco, vários dos principais dirigentes sindicais que haviam colaborado com os comunistas durante o período da Frente Popular se afastaram.

Maurice Isserman e outros historiadores do comunismo norte-americano mostram que a expectativa de uma colaboração estável entre Washington e Moscou foi substituída, da noite para o dia, pela convicção de que uma nova guerra entre ambas as potências era praticamente inevitável. Quando emergia o boom de crescimento econômico que passou para a história como os “anos dourados”, Foster sustentava que o capitalismo norte-americano caminhava rapidamente em direção ao fascismo. A direção comunista denominou internamente essa orientação como a linha dos “cinco minutos para a meia-noite”.

Em termos programáticos, depois de 1945, o discurso relativamente mais esquerdista tampouco significou o retorno à expropriação da burguesia como objetivo concreto diante da crise que anunciavam. O programa fosterista propunha primeiro controlar os monopólios, ampliar a intervenção estatal e construir um “governo popular” sem definição de classe, que, na linguagem estalinista, significava justamente um governo de conciliação de classes nos marcos da democracia burguesa. A socialização dos meios de produção ficava postergada para uma etapa posterior.

A campanha presidencial de Henry Wallace em 1948 concentrou essas contradições. O PCUSA ajudou a formar e impulsionar a campanha eleitoral do novo “Partido Progressista”, junto com setores liberais provenientes do New Deal. Esta reuniu um descontentamento real contra a Guerra Fria, o racismo e a política conservadora de Truman. Atraiu intelectuais, trabalhadores e destacadas figuras negras. Conseguiu fazer com que importantes reivindicações democráticas ingressassem na campanha nacional. Mas foi construída em torno de Wallace, ex-vice-presidente de Roosevelt. Desse modo, embora rompesse eleitoralmente com Truman e o Partido Democrata, o PC voltava a conduzir as tendências de ruptura com o bipartidarismo para uma política de conciliação de classes.

Após a derrota eleitoral, Philip Murray, Walter Reuther e as demais direções do CIO utilizaram o apoio ao Plano Marshall, a candidatura de Wallace e as declarações anticomunistas exigidas pela lei Taft-Hartley para isolar e expulsar a ala esquerda da central sindical. Entre 1949 e 1950, onze sindicatos dirigidos por comunistas foram afastados do CIO, destruindo a implantação do PCUSA no proletariado industrial. Os processos sob a Smith Act, as listas negras, a perseguição de funcionários, artistas e intelectuais e a expansão do aparato de vigilância golpearam o partido com enorme dureza. No entanto, a resposta de sua direção agravou o problema. A preparação de uma estrutura clandestina, iniciada antes das principais condenações, converteu a preservação física do aparato no centro da atividade. Dirigentes afastados da vida pública davam orientações a uma organização cada vez mais reduzida. Numerosos militantes abandonaram o trabalho aberto e o partido começou a se comportar como se a ilegalização total e a guerra fossem iminentes. O Estado destruiu aparatos, encarcerou dirigentes e semeou o medo. Assim, a repressão macartista golpeou uma organização que ainda conservava milhares de militantes e um importante capital histórico, mas carecia de um programa e de uma estratégia capazes de enfrentar a ofensiva repressiva e recuar de forma ordenada, preparando setores de vanguarda para a posterior ascensão negra, que começaria em 1955.

Desde 1952, o PCUSA já não propõe a conquista do poder pelo proletariado nem como uma formalidade propagandística. Em seu lugar, Foster formula a necessidade de uma ampla coalizão pela paz e contra o fascismo e de um governo de frente popular ou popular-democrático que amplie o controle estatal sobre os monopólios. As declarações de intenção socialista ficavam como expressões de um desejo distante. A noção de hegemonia proletária também continua aparecendo, embora subordinada a uma coalizão de conciliação de classes.

Em 1955, restavam, no máximo, cerca de vinte mil militantes; no final de 1958, aproximadamente cinco mil; em 1959, cerca de três mil. A influência eleitoral também despencou. O aproximadamente um milhão de votos de Wallace em 1948 caiu para pouco mais de cem mil em 1952. A imprensa seguiu a mesma trajetória: o Daily Worker, publicado diariamente durante trinta e dois anos, deixou de circular em 13 de janeiro de 1958 e foi substituído pelo semanário The Worker; na Costa Oeste, People’s World também passou de diário a semanário. Não se tratava apenas de uma crise financeira; a redução da imprensa expressava a perda de influência pública comunista.

A morte de Stalin em 1953 abriu dúvidas que se aprofundaram com o XX Congresso do PCUS, em fevereiro de 1956. O discurso secreto de Khrushchev destruiu a explicação segundo a qual os crimes atribuídos a Stalin eram simples invenções anticomunistas. A posterior invasão soviética da Hungria agravou a crise. Nesse marco, a “via pacífica”, o constitucionalismo e a estratégia de ampla coalizão democrática adquiriram ainda mais peso. Mas, mesmo então, o PCUSA não necessariamente apagou de um dia para o outro a referência a uma transformação socialista em um futuro distante. Em 1959, o partido eliminou formalmente a autodeterminação nacional negra de seu programa.

Dentro do PCUSA surgiu uma corrente reformadora em torno de John Gates, Eugene Dennis, Joseph Clark e setores do Daily Worker. Queriam uma organização mais democrática, uma via estadunidense ao socialismo e maior autonomia em relação a Moscou. Foster e, posteriormente, Gus Hall, defenderam a continuidade com o estalinismo anterior. A convenção de 1957 evitou resolver as questões fundamentais. Adotou uma fórmula ambígua segundo a qual o comunismo estadunidense se basearia nos princípios marxista-leninistas “interpretados” pelo próprio partido. Os reformadores a consideravam insuficiente, e os “ortodoxos” desconfiavam de qualquer autonomia nacional. Foster acabou se impondo não porque convencesse a maioria, mas porque seus opositores abandonaram a organização. Starobin sintetizou o desfecho assinalando que os ortodoxos conservaram a “franquia”, mas praticamente já não tinham partido. John Gates renunciou em janeiro de 1958, ao mesmo tempo em que desaparecia o Daily Worker.

Nos anos 1940, o PCUSA conservava uma base negra considerável. Em Los Angeles, por exemplo, havia cerca de 500 militantes negros no final daquela década, aproximadamente 10% da organização local. Mas, em 1965, a situação era radicalmente distinta. Isserman reproduz um relatório sobre uma reunião que Gil Green manteve com comunistas negros de Los Angeles, realizada em abril de 1965. Green reconhecia que a força do partido entre a população negra era “muito fraca”, que quase não se recrutavam negros e que, apesar da ascensão do movimento, os afro-americanos representavam apenas entre 1 e 2% da militância nacional. Supondo cerca de cinco mil filiados em todo o país, isso equivaleria a entre cinquenta e cem comunistas negros.

Pela primeira vez no século XX, os Estados Unidos ficaram sem uma organização socialista nacional de peso. Quando o boicote de Montgomery começou em 1955, as antigas organizações comunistas de intervenção no movimento negro haviam sido reduzidas à quase inexistência. A chamada “nova esquerda”, que começou a crescer em torno dos sit-ins, SNCC, SDS e da oposição ao Vietnã, em grande medida influenciada pela Revolução Cubana e pela Revolução Cultural Chinesa, desenvolveu-se quase completamente fora do PCUSA.

Muitos dos quadros ex-comunistas que desempenharam papéis importantes nos anos 1960 o fizeram como indivíduos, não como parte de uma política do partido. Isserman menciona, entre outros, Oliver Leeds no CORE e Bettina Aptheker no Free Speech Movement. Suas capacidades provinham em parte da formação comunista anterior, mas sua atividade não produziu crescimento nem influência para o PCUSA. Os comunistas participaram das redes que convergiram na Marcha sobre Washington de 1963. Pete Seeger, antigo membro do partido, atuou ali diante de centenas de milhares de pessoas. No entanto, o estalinismo não teve relevância estratégica diante do acontecimento.

A distância tornou-se ainda maior quando o movimento se radicalizou e ressurgiram tendências ao nacionalismo e ao separatismo negro. Enquanto o SNCC evoluía em direção ao movimento Black Power e surgiam organizações negras independentes, a direção do PCUSA reagiu com hostilidade diante de seus símbolos e tendências nacionalistas. James Jackson, editor negro de The Worker, criticou o separatismo de Malcolm X, inclusive depois de sua ruptura com a Nação do Islã. Quando a organização de Lowndes County, impulsionada pelo SNCC, adotou em 1966 a pantera negra como símbolo, Jackson afirmou que teria preferido “uma águia norte-americana com penas negras e brancas”. A imagem resume a orientação do partido, que defendia uma integração interracial dirigida por uma ampla coalizão democrática dentro das estruturas imperialistas e via com desconfiança as novas formas autônomas de poder negro.

Esse enfoque se reproduz diante das grandes rebeliões urbanas negras da segunda metade dos anos 1960, desde Watts, em 1965, até Newark e Detroit, em 1967. O estalinismo não as interpreta como embriões de auto-organização negra, que voltavam a surgir de baixo, alimentados pela profunda crise social de um Estado institucional e estruturalmente racista. Ao contrário, o PCUSA as criticou como parte das expressões de ruptura com as organizações liberais. Isserman mostra que o partido manteve uma relação ambivalente e, em geral, crítica com as milícias negras de autodefesa. De acordo com sua estratégia subordinada às instituições do imperialismo norte-americano, o PCUSA se recusou a ver a formação de milícias negras como componentes de uma estratégia proletária. Alguns militantes jovens, como Angela Davis, sentiram-se atraídos pelo Partido Pantera Negra e pelas correntes mais militantes do movimento Black Power; mas essa aproximação produziu tensões com a direção partidária.

A trágica história do papel contrarrevolucionário desempenhado pelo PC nos anos 1930 e 1940 permite ver com maior clareza a magnitude das capacidades revolucionárias da classe operária e da luta negra que foram contidas, separadas, desviadas e finalmente reprimidas ao longo de todo esse período. Ter presentes as lições estratégicas que levaram ao afundamento do estalinismo justamente quando, a partir de meados da década de 1950, começaria a se desenvolver a maior ascensão negra da história do país permite avaliar de forma muito mais precisa o papel exercido pelas diferentes tendências políticas que influíram sobre esse processo ao longo dos anos 1960 e 1970. Essa será a matéria-prima das partes subsequentes deste livro.


*** A revisão deste artigo contou com a colaboração de Emilio Salgado.

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Goldfield, Michael. The Color of Politics: Race and the Mainsprings of American Politics. Nova York: New Press, 1997; The Southern Key: Class, Race, and Radicalism in the 1930s and 1940s. Nova York: Oxford University Press, 2020; “The Decline of the Communist Party and the Black Question in the US: Harry Haywood’s Black Bolshevik”, Review of Radical Political Economics, vol. 12, n.º 1, 1980, pp. 44–63; “Worker Insurgency, Radical Organization, and New Deal Labor Legislation”, American Political Science Review, vol. 83, n.º 4, 1989, pp. 1257–1282; “Race and the CIO: The Possibilities for Racial Egalitarianism During the 1930s and 1940s”, International Labor and Working-Class History, n.º 44, 1993, pp. 1–32.

Green, Michael Cullen. Black Yanks in the Pacific: Race in the Making of American Military Empire after World War II. Ithaca: Cornell University Press, 2010. Utilizado para analisar a experiência contraditória dos soldados negros no Pacífico, a segregação militar, as possibilidades de mobilidade social oferecidas pelas Forças Armadas e sua incorporação à construção do novo império militar estadunidense. Este livro é especialmente importante para os novos parágrafos que acrescentamos sobre os soldados negros.

Guérin, Daniel. Estados Unidos 1880-1950. Movimiento obrero y campesino. Buenos Aires: Centro Editor de América Latina, Biblioteca Fundamental del Hombre Moderno, 1972. Tradução de Adolfo A. Malvagni. Edição em castelhano baseada em uma seleção de capítulos de Où va le peuple américain? (Paris: Julliard, 1950-1951).

Haywood, Harry. Black Bolshevik: Autobiography of an Afro-American Communist. Chicago: Liberator Press, 1978. Edição em castelhano consultada: Bolchevique negro. Autobiografía de un comunista afroamericano. Fonte fundamental para as discussões sobre o Black Belt, a Internacional Comunista, a League of Struggle for Negro Rights e a evolução do PCUSA.

Harrison, Hubert H. When Africa Awakes. Nova York: Porro Press, 1920; escritos reunidos em Jeffrey B. Perry (ed.), A Hubert Harrison Reader. Middletown, CT: Wesleyan University Press, 2001.

International Communist League / Communist International. Resoluções e teses sobre a questão negra, especialmente as adotadas pelo IV e VI Congressos da Internacional Comunista e a resolução do ECCI de 1930 sobre a questão negra nos Estados Unidos.

Isserman, Maurice. Which Side Were You On? The American Communist Party During the Second World War. Middletown, CT: Wesleyan University Press, 1982. Utilizado especialmente para a evolução do PCUSA durante a guerra, o browderismo, a dissolução do partido em 1944 e sua relação com o esforço bélico e o antifascismo. A própria bibliografia histórica consultada confirma esta edição.

James, C. L. R. Escritos sobre a questão negra nos Estados Unidos, particularmente “The Revolutionary Answer to the Negro Problem in the United States”, “Jim Crow in Uniform” e os debates mantidos com Trotsky em Coyoacán, em 1939.

Kelley, Robin D. G. Hammer and Hoe: Alabama Communists During the Great Depression. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1990. Fonte central para a implantação comunista no Alabama, Birmingham, Scottsboro, os desempregados, a Sharecroppers’ Union e as formas comunitárias de organização, clandestinidade e autodefesa. Sua reconstrução permite, além disso, acompanhar a evolução posterior do comunismo do Alabama em direção ao browderismo.

Perry, Jeffrey B. Hubert Harrison: The Voice of Harlem Radicalism, 1883–1918. Nova York: Columbia University Press, 2009; Hubert Harrison: The Struggle for Equality, 1918–1927. Nova York: Columbia University Press, 2021.

Preis, Art. Labor’s Giant Step: Twenty Years of the CIO. Nova York: Pioneer Publishers, 1964. Para a formação do CIO, as greves industriais e as transformações do sindicalismo norte-americano.

Trotsky, León. Stalin, el gran organizador de derrotas. La III Internacional después de Lenin; escritos sobre Estados Unidos e a questão negra, especialmente as discussões de 1933 e 1939; textos sobre a revolução permanente, a frente única e o Programa de Transición; e Manifiesto de la Cuarta Internacional sobre la guerra imperialista y la revolución proletaria mundial (1940). Stalin, el gran organizador de derrotas, escrito em 1928 como crítica ao projeto de programa apresentado ao VI Congresso da Internacional Comunista, foi utilizado particularmente para analisar o etapismo, a relação entre tarefas democráticas e socialistas e o problema de uma estratégia revolucionária internacional.

Womack Jr., John. Working Power over Production: Labor History, Industrial Work, Economics, Sociology, and Strategic Position. Berlim/Boston: De Gruyter Oldenbourg, 2015. Utilizado para o conceito de “posição estratégica” dos trabalhadores: a capacidade potencial derivada de sua localização em pontos particularmente sensíveis e interdependentes do processo de produção.