Capa: Mais uma onda de xenofobia contra imigrantes africanos na África do Sul

Mais uma onda de xenofobia contra imigrantes africanos na África do Sul

Por João de Regina | | Atualizado em 02.06.2026
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Descrição da imagem de capa do texto: Reuters, 27 de maio de 2026. Ganeses aguardam embarque no Aeroporto Internacional O.R. Tambo, em Joanesburgo, durante o programa de repatriação.

Introdução

Nesta última semana de maio, no aeroporto Oliver Reginald Tambo, em Joanesburgo, trezentos ganenses, incluindo mulheres e crianças, aguardavam para embarcar em um voo de repatriação para Acra. Eles viveram anos na África do Sul, trabalhando intensamente e eventualmente abrindo pequenos negócios informais. Agora fazem o caminho inverso. Fogem de ondas de violência xenófoba contra africanos. Algumas semanas atrás, o governo da Nigéria anunciou que pelo menos 130 cidadãos haviam solicitado repatriação da África do Sul. Uma nova onda de mobilizações anti-imigração ocorridas entre o final de abril e o início de maio em cidades como Pretória, Joanesburgo e Durban explicam esses retornos apressados. Os protestos foram impulsionados principalmente pelo movimento March and March, com apoio de grupos como a Operation Dudula e setores ligados a partidos como ActionSA e Patriotic Alliance. A campanha exigia deportações em massa e maior repressão à imigração, responsabilizando estrangeiros pelo desemprego, pela sobrecarga dos serviços públicos e, como de praxe, pela criminalidade.

No início de maio de 2026, trabalhadores imigrantes moçambicanos tentaram bloquear a Ressano Garcia, principal conexão Maputo com o complexo econômico do Gauteng. Foi uma resposta de luta contra a March and March e aos episódios de violência na África do Sul. Embora o bloqueio não tenha se concretizado, gerou longas filas e a polícia dos dois países foi acionada forças. Durante mais de um século, Ressano Garcia foi a principal porta de entrada dos trabalhadores moçambicanos para as minas de ouro sul-africanas. Hoje ela segue sendo a entrada principal de uma comunidade de 300 mil cidadãos vivendo na África do Sul. Autoridades de Maputo reconheceram que milhares de moçambicanos já retornaram ao país diante do clima de insegurança criado pelos protestos anti-imigração e pelos ataques contra estrangeiros. 

Situação semelhante aflige trabalhadores do Malawi, outro país historicamente integrado aos circuitos de migração laboral. Mais de 200 malawianos também declararam interesse no retorno ao país. A preocupação possui uma lembrança dolorosa. Em 2025, a morte do filho de um ano de Grace Manda, uma trabalhadora migrante do Malawi residente em Alexandra, Joanesburgo, se tornou um símbolo trágico da xenofobia. Grace tentou levar sua criança, que sofria de diarreia e vômitos, ao hospital e membros da Operation Dudula a impediram de ser atendida. Como estrangeira, os vigilantes disseram que ela deveria buscar uma clínica particular e não o serviço público sul africano. Outras clínicas recusaram atendê-la com medo das inspeções violentas feitas pelo mesmo grupo que além dos ataques contra imigrantes africanos, assediava os trabalhadores, impedindo-os de realizar os atendimentos. Após sucessivas recusas e sem condições de pagar serviços privados, a criança veio a óbito.  

Os somalis, que formam uma comunidade de aproximadamente 70 mil pessoas, presentes no país sobretudo desde os anos 1990, se estabeleceram como pequenos comerciantes em townships, tornando-se alvos recorrentes de saques, destruição de lojas e ataques violentos. As organizações comunitárias somalis registraram dezenas de assassinatos e centenas de ataques contra comerciantes, frequentemente associados ao racismo e às campanhas afrofóbicas. Nos ataques de 2008, que deixaram 62 mortos, ao menos três somalis estavam entre as vítimas fatais, enquanto centenas de estabelecimentos pertencentes à comunidade foram saqueados ou destruídos. 

Entre os diferentes grupos atingidos pela atual onda xenófoba, os zimbabuanos ocupam uma posição de destaque. Diferentemente de comunidades menores e mais recentes, a migração zimbabuana é constitutiva da paisagem social e demográfica sul-africana. Milhares de trabalhadores atravessaram a fronteira em busca de emprego. Em abril, o consulado do Zimbábue na Cidade do Cabo foi acionado para dar assistência a 67 cidadãos zimbabuanos e 21 crianças expulsas de suas casas na região de East London, no Eastern Cape, após ações associadas a grupos vigilantes anti-imigrantes. Comerciantes, por sua vez, relatam o fechamento forçado de seus estabelecimentos. Os ataques de 2008, as ondas de violência de 2015 e 2019, assim como os ataques recentes da Operation Dudula e os discursos do March and March, miram especialmente seu ódio contra migrantes oriundos do Zimbábue. 

No fundo, a atual onda xenófoba na África do Sul não é resultado de supostos traços culturais das populações sul-africanas, muito menos uma reação espontânea. Por um lado, é produto da profunda crise econômica e social que atravessa a África Austral. Por outro, da instrumentalização constante por setores do Estado, por partidos políticos e por lideranças conservadoras. Atualmente, o ANC governa em coalizão com partidos de direita como a Democratic Alliance e a Patriotic Alliance, enquanto diferentes atores políticos disputam apoio popular responsabilizando migrantes africanos pelos problemas do país. O que existe, portanto, é uma forma de afrofobia que se desenvolve em meio a um contexto social crítico que desde muito tempo joga nas costas dos trabalhadores os efeitos da crise econômica. Segundo a Human Rights Watch, mais de 43% da população economicamente ativa sul-africana encontra-se desempregada ou desistiu de procurar trabalho, o que alimenta discursos que associam estrangeiros à deterioração das condições de vida ou à sobrecarga em escolas e hospitais. No entanto, os migrantes representam apenas 4% da população do país. Grupos como Operation Dudula e March and March, acompanhados por políticos de diferentes partidos, insistem em apresentá-los como responsáveis pela pressão sobre o mercado de trabalho e os serviços públicos.

Durante boa parte do século XX, milhões de africanos de todo o continente se solidarizaram ativamente  na luta contra o apartheid, imaginando a libertação sul africana como parte de um projeto de libertação continental. Décadas depois, após as promessas traídas do projeto de país de conciliação de classes do Congresso Nacional Africano (ANC), a afrofobia é um sintoma alarmante da incapacidade do capitalismo de resolver as mínimas demandas democráticas e de libertação nacional.

Operation Dudula: a expressão de extrema direita de uma afrofobia institucionalizada 

Lançada em Soweto em 2021, a Operation Dudula surgiu como uma campanha de vigilância “comunitária” voltada à expulsão de imigrantes de bairros populares através de métodos paramilitares. Ataques a estabelecimentos comerciais e assédios brutais em escolas e hospitais impedindo o acesso de imigrantes. Seu nome em isiZulu significa "empurrar para fora" ou "expulsar". Desde sua origem o movimento está associado a ações de intimidação, patrulhamento de bairros, exigência de documentos, invasões de pequenos comércios e expulsão de imigrantes africanos. Com o tempo, a organização expandiu-se para diversas províncias do país e hoje consegue inclusive participar das eleições. 

Em 2023, a organização registrou-se oficialmente junto à Comissão Eleitoral Independente (IEC) como partido político, passando a disputar eleições municipais e nacionais. A legalização não significou o abandono de sua agenda vigilante. Na verdade, o movimento passou a utilizar as eleições e as instituições do Estado como proteção legal para as ações criminosas. Simultaneamente formulam um programa de deportação em massa e criminalização. Estamos diante da institucionalização da extrema direita e de seus métodos que agora fazem parte cotidiana do parlamento, executivo e judiciário sul africano.

Entretanto, os resultados eleitorais da Operation Dudula são reveladores. Apesar da visibilidade obtida através da cobertura midiática e da economia das redes sociais altamente financiadas pela extrema direita global, o partido teve desempenho irrelevante nas eleições nacionais de 2024. Em Gauteng, província onde o movimento surgiu e concentra sua principal base de atuação, recebeu apenas 2.663 votos, correspondentes a 0,07% do total. Em KwaZulu-Natal obteve 736 votos, ou 0,05%, enquanto no Cabo Ocidental não ultrapassou 0,02%. O fracasso eleitoral indica que a Operation Dudula não constitui ainda um movimento de massas ou tem real legitimidade popular. Sua importância decorre da crescente institucionalização da xenofobia, que permite que parte de sua agenda seja absorvida por partidos maiores, autoridades estatais e novos movimentos anti-imigração como o March and March e o South African First. 

Partidos políticos e a institucionalização da afrofobia

Atualmente, o ANC governa através de uma coalizão denominada “Governo de Unidade Nacional” (GNU), que reúne partidos como a Democratic Alliance (DA), a Inkatha Freedom Party e a Patriotic Alliance (PA), entre outras legendas menores. A formação desse arranjo representou um deslocamento à direita do regime político. Embora o ANC tenha perdido sua maioria parlamentar absoluta nas eleições de 2024, uma parcela significativa do eleitorado votou em programas políticos que, ao menos em seu discurso, apresentavam-se como alternativas às políticas neoliberais dominantes, como o próprio ANC, o Economic Freedom Fighters (EFF) e o uMkhonto weSizwe (MK) do antigo presidente Jacob Zuma. A solução encontrada pela burguesia sul africana e pela pressão imperialista, através de seus aliados políticos, foi a constituição de uma ampla coalizão voltada à preservação da ordem neoliberal no país. Nesse sentido, o GNU revela tendências bonapartistas ao buscar arbitrar a crise de representação, preservando os pilares da ordem pós apartheid, que traiu as aspirações populares, limitando a expressão política do profundo descontentamento social acumulado nas últimas décadas. Não suficiente, abriu espaço a partidos tradicionais da direita sul africana, como o DA e ao populismo de direita como o PA. Ao mesmo tempo, o deslocamento do centro político para posições mais conservadoras abre espaço para a legitimação de discursos anti-imigração e para a crescente influência de organizações e lideranças de extrema direita. O resultado é um processo de institucionalização da afrofobia onde políticos naturalizam o programa antimigratório ocupando posições importantes no Estado e parlamento. Entre os casos mais explícitos encontra-se a Patriotic Alliance (PA), partido liderado por Gayton McKenzie, ex condenado por assaltos a banco na juventude, ascendeu economicamente fazendo discursos motivacionais e mobilizando uma base popular coloured, ascendeu na vida política, através de um discurso nacionalista e punitivista fortemente inspirado na extrema direira internacional. A PA tornou-se conhecida por slogans como abahambe ("eles devem ir embora"), frequentemente utilizados em manifestações contra imigrantes africanos. Durante a pandemia, McKenzie defendeu que diante da escassez de oxigênio hospitalar era importante impedir o acesso de pacientes estrangeiros. Nos anos seguintes, dirigentes e militantes do partido participaram de ações conjuntas com a Operation Dudula. Atualmente integrante do Governo de Unidade Nacional, o partido controla ministérios e administrações locais.

Posições semelhantes podem ser encontradas na ActionSA, fundada por Herman Mashaba após sua saída da Democratic Alliance. Desde sua criação, a questão migratória tornou-se um dos principais eixos de intervenção do partido. Mashaba construiu sua projeção nacional através de campanhas contra imigrantes indocumentados em Joanesburgo, defendendo operações policiais em comunidades migrantes.

Mais recentemente, o partido uMkhonto we Sizwe (MK), fundado pelo ex-presidente Jacob Zuma após sua ruptura com o ANC, também passou a incorporar elementos desse discurso. Embora o partido combine críticas ao Governo de Unidade Nacional e ao declínio socioeconômico do país com referências ao legado da luta de libertação, parte de sua retórica tem recorrido a temas associados ao nacionalismo conservador. Além de uma tradicional valorização da identidade étnica zulu e regional em KwaZulu-Natal. Essa estratégia dialoga com uma tradição política mais antiga da província, marcada pela influência histórica da Inkatha Freedom Party (IFP), organização que desde os anos finais do apartheid mobilizou elementos da identidade zulu como instrumento de disputa política contra o ANC.  Nesse contexto, dirigentes do MK defenderam políticas migratórias mais restritivas e recorreram a argumentos que associam a presença de estrangeiros à competição por empregos. O problema não reside na afirmação da identidade zulu, que possui uma longa história marcada pela resistência ao colonialismo. A questão é que existem formas de instrumentalização conservadora dessa identidade reforçando concepções exclusivistas de pertencimento nacional. O que aumenta a reverberação de discursos que apresentam migrantes africanos como “externos”. Em um contexto de forte polarização política e crise de representatividade a questão migratória converteu-se em instrumento de mobilização eleitoral para diferentes setores da oposição, incluindo o MK. 

Embora minoritário na África do Sul contemporânea, o nacionalismo afrikaner continua encontrando espaços de expressão institucional. Organizações como AfriForum e a comunidade de Orania defendem diferentes formas de autodeterminação para a população afrikaner e preservam estruturas sociais organizadas em torno de critérios linguísticos e culturais. Esses setores mantêm viva uma tradição política baseada na separação étnica e na defesa de direitos diferenciados para grupos específicos da população branca africânder. Nos últimos anos, esse discurso ultrapassou as fronteiras sul-africanas e encontrou eco na extrema-direita estadunidense. Donald Trump e Elon Musk passaram a promover denúncias sobre o inexistente "genocídio branco" na África do Sul. Em 2025, Trump chegou a conceder status de refugiado a grupos de africânderes que alegavam perseguição racial, ao mesmo tempo em que endurecia drasticamente as políticas migratórias para refugiados provenientes de outras regiões do mundo. O episódio evidencia a conexão entre uma imagética ainda existente do nacionalismo afrikaner com o repertório político da extrema direita que busca transformar uma minoria privilegiada da África do Sul em símbolo de campanhas globais da direita contra políticas de reparação racial.

Tomados em conjunto, esses diferentes fenômenos revelam que a afrofobia que aterroriza imigrantes africanos não constitui uma reação espontânea das camadas populares. Ela é produzida e legitimada pelo próprio regime político sul-africano, assumindo formas diversas que vão do vigilantismo da Operation Dudula ao discurso de partidos institucionalizados e às políticas defendidas por integrantes do próprio governo. Mesmo partidos que historicamente procuraram se apresentar como defensores do pan-africanismo não permaneceram imunes a essa pressão. Os Economic Freedom Fighters (EFF), de Julius Malema, embora mantenham uma posição contrária à xenofobia e frequentemente denunciem ataques contra migrantes, por vezes adotaram formulações ambíguas diante do crescimento do sentimento anti-imigrante em determinados setores populares defendo consignas como “primeiro garantir o emprego dos sul africanos”. 

A transformação mais significativa, entretanto, está no próprio ANC que encabeça o GNU. Herdeiro de uma tradição política que defendeu a solidariedade internacional africana durante a luta contra o apartheid e o colonislismo, o partido também passou gradualmente a incorporar elementos da agenda anti-imigração. Nos últimos anos, diferentes dirigentes governamentais defenderam operações contra estrangeiros indocumentados e endurecimento das políticas migratórias. Aaron Motsoaledi, enquanto Ministro da Saúde, em 2018, afirmou que os estrangeiros representavam um peso para os hospitais sul-africanos e defendeu a revisão das leis migratórias. A ironia é que anos depois o próprio governo foi obrigado a reconhecer não possuir dados demonstrando a quantidade de estrangeiros que utilizam os serviços públicos de saúde. No governo atual, figuras associadas a discursos anti-imigração passaram a ocupar posições centrais. O ministro do Interior, Leon Schreiber, da Democratic Alliance (DA), tornou-se um dos principais defensores do endurecimento da política migratória, promovendo campanhas contra imigrantes indocumentados e efetivação de tecnologias biométricas de controle populacional. Ao mesmo tempo, Gayton McKenzie (PA) é ministro dos Esportes, Artes e Cultura e manteve sua retórica reacionária antimigração. Não é por acaso que a operação Dudula e outros movimentos vigilantes frequentemente justificam suas ações afirmando apenas executar objetivos já presentes no discurso oficial do Estado.

De fato, hoje existe um amplo espectro político em torno da ideia de que a imigração constitui um dos principais problemas do país. Embora os partidos divirjam sobre a intensidade das medidas propostas, a responsabilização de estrangeiros por problemas estruturais tornou-se um elemento recorrente do debate público sul-africano. Nesse sentido, a afrofobia contemporânea não aparece apenas como produto de preconceitos sociais ou mesmo somente de grupos extremistas, mas como resultado de sua crescente legitimação no interior das próprias instituições políticas do país.

O que há por trás do discurso da "má governança": a hegemonia sul-africana na África Austral e a responsabilidade da burguesia sulafricana

Em um discurso virulento durante uma das recentes manifestações do movimento March and March, era possível ouvir um orador afirmar que “a África do Sul não pode sustentar todos os países e povos africanos” e que “foram exclusivamente os sul-africanos que lutaram contra o apartheid”. A declaração sintetiza uma das principais mistificações presentes no discurso afrofóbico contemporâneo. Ela não apenas apaga o papel desempenhado pelos movimentos anticoloniais e pelos países vizinhos no enfraquecimento do regime do apartheid, como também ignora o fato de que a África do Sul foi, durante décadas, a principal potência regional responsável por sustentar uma ordem econômica profundamente desigual na África Austral. O regime do apartheid não existiu isoladamente. Além de promover guerras de desestabilização em países como Angola e Moçambique, beneficiou-se sistematicamente da exploração do trabalho migrante e de relações econômicas assimétricas que subordinavam as economias vizinhas às necessidades do capital sul-africano. A ordem pós-apartheid liderada pelo ANC de Nelson Mandela rompeu com a segregação racial formal, mas preservou em grande medida as estruturas econômicas regionais herdadas desse período.

Outra expressão dessa mesma mistificação aparece na insistente narrativa da "má governança". Segundo essa explicação, os fluxos migratórios são consequência da corrupção, do autoritarismo ou da incompetência dos governos vizinhos. Obviamente os governos nacionais africanos são responsáveis por se submeterem ao imperialismo e conduzirem regimes autocráticos, repressores, aliados do extrativismo neoliberal e afundados em corrupção. Mesmo os partidos que assumiram o poder após a luta de libertação conduziram rapidamente seus paises a uma inserção altamente dependente na economia neoliberal traindo as expectativas dos processos de libertação. Mas essa narrativa, quando promovida por políticos e ideólogos de sul afriancos, possui uma importante função ideológica: ocultar o papel histórico da própria burguesia sul africana na estruturação de uma economia regional profundamente desigual e, inclusive, seu papel ativo na chamada “má governação”. 

A migração contemporânea não resulta apenas das crises dos países de origem, mas também da posição dominante ocupada pela burguesia sul-africana no desenvolvimento capitalista da África Austral, ainda que ela mesma também seja subordinada ao imperialismo e ao FMI. Durante mais de um século, o capitalismo sul africano se beneficiou da exploração sistemática de recursos naturais, infraestrutura e força de trabalho provenientes dos países vizinhos. O crescimento da mineração, da indústria e dos serviços no país esteve intimamente ligado à incorporação de trabalhadores migrantes recrutados em Moçambique, Lesoto, Malawi, Essuatíni, Botsuana e Zimbábue. Longe de constituírem uma presença externa ou acidental, esses trabalhadores foram uma condição necessária para a própria acumulação de capital que transformou a África do Sul na principal potência econômica da região. A atual criminalização dos migrantes contém, portanto, uma profunda inversão histórica. Aqueles que durante décadas migraram pelas necessidades do capital sul africana, são apresentados agora como uma ameaça. Para compreender essa contradição, é necessário examinar a herança do sistema de trabalho migrante e as formas pelas quais a hegemonia econômica sul-africana continuou a moldar o desenvolvimento desigual da África Austral mesmo após o fim do apartheid.   

O caso da Hidroeléctrica de Cahora Bassa ajuda a compreender como essas relações de dependência sobreviveram tanto ao colonialismo quanto ao apartheid. Em A Ilusão do Desenvolvimento: Cahora Bassa e a História de Moçambique Allen Isaacman e Barbara Isaacman demonstram que o megaprojeto foi concebido pelo regime colonial português como parte de uma arquitetura economica destinada a fornecer energia barata para os regimes de minoria branca, África do Sul e para a então Rodésia. Cahora Bassa foi estruturada para atender às necessidades do capital mineiro e industrial da África Austral, consolidando a posição dominante da África do Sul na região.

A independência de Moçambique e a ascensão da FRELIMO não romperam substancialmente essa lógica. Apesar da retórica socialista e das críticas ao legado colonial, o novo Estado manteve a exportação de energia para a África do Sul como uma das principais fontes de obtenção de divisas. Não suficiente, durante mais de trinta anos após 1975, Portugal manteve o controle acionário majoritário da Hidroeléctrica de Cahora Bassa. O resultado foi a preservação de uma estrutura herdada do período colonial na qual a principal riqueza energética do país continuou integrada às necessidades da economia sul-africana. Décadas após o fim do apartheid, essa arquitetura regional permanece em grande medida intacta. A África do Sul segue sendo um dos principais destinos da eletricidade produzida em Cahora Bassa, evidenciando como a ordem pós-apartheid preservou mecanismos de integração econômica profundamente desiguais entre a potência regional e seus vizinhos mais pobres.

Essa percepção apareceu explicitamente durante os protestos realizados na fronteira de Ressano Garcia. Em uma reportagem da DW Português, uma mulher moçambicana defendia que o país deveria interromper o fornecimento de eletricidade para a África do Sul como forma de resposta às agressões contra migrantes. Em contraste com a narrativa segundo a qual Moçambique seria apenas um país pobre dependente da África do Sul, a moçambicana de forma forma espontânea, que parte importante da energia consumida pela economia sul-africana continua a ser produzida em território moçambicano. Ironicamente, o capitalismo sul-africano também está longe de resolver suas contradições energéticas. A África do Sul continua convivendo com crises recorrentes de fornecimento elétrico e apagões, que como sempre, recaem sobre os trabalhadores sulafricanos. 

Outra contradição da narrativa da "má governança" reside na própria política internacional do ANC. Os países mais frequentemente apontados como fontes dos fluxos migratórios para a África do Sul são governados há décadas por partidos que mantêm estreitas relações históricas com o próprio ANC. É o caso da FRELIMO em Moçambique, do MPLA em Angola e da ZANU-PF no Zimbábue. Todos compartilham uma origem comum nas lutas anticoloniais e nos movimentos de libertação nacional e também compartilham a responsabilidade pela orientação global da África Asutral em direção ao neoliberalismo.

A posição hierárquica da África do Sul na economia regional vai além. Desde o fim do apartheid, grupos financeiros, empresas de telecomunicações, redes varejistas e conglomerados de mídia sediados no país expandiram-se por toda a África Austral e por outras regiões do continente. Bancos como o Standard Bank tornaram-se importantes agentes financeiros em dezenas de mercados africanos. Empresas como a MTN passaram a controlar infraestruturas estratégicas de telecomunicações em diversos países, enquanto grupos como Shoprite e MultiChoice consolidaram posições dominantes em setores do comércio. Essas corporações estão profundamente integradas ao capital internacional e possuam estruturas acionárias internacionalizadas, sua expansão, no entanto, contribuiu para reforçar o papel da África do Sul como principal centro financeiro da região.

Isso não significa que a África do Sul tenha superado sua própria condição de dependência em relação ao capitalismo global. A economia sul-africana continua subordinada ao imperialismo e atualmente administra aos trancos e barrancos uma dupla dependência com os Estados Unidos e com a China. Continua sendo um país estruturalmente semicolonial como uma burguesia nacional dependente e subserviente ao imperialismo. Mas a espoliação do imperialismo na África depende de manutenção de uma cadeia de subdesenvolvimento onde a África do Sul, sua burguesia e seu regime político, possui um papel fundamental, ocupando uma posição hierarquicamente superior à de seus vizinhos. 

É precisamente essa contradição que a narrativa da "má governança" busca ocultar. Ao apresentar a migração como simples consequência dos fracassos políticos de países como Moçambique, Zimbábue ou Malawi, ela esconde a agência da própria burguesia sul-africana.

Conclusão

Este artigo buscou demonstrar que a onda xenofóbica, no fundo uma afrofobia, na África do Sul não é uma reação espontânea das camadas populares. Ela é produto de contradições mais profunda da ordem construída após o apartheid e atualmente de um regime político degradado que abre espaço para institucionalização desses fenômenos conservadores. Enquanto a integração econômica regional continua reproduzindo formas históricas de dependência e segregação, a crise do capitalismo sul-africano passou a ser administrada incentivando a identificação de imigrantes africanos como inimigos e responsáveis pelas mazelas produzidas pelo capitalismo racial sulafricano.

É a partir dessa compreensão que nos solidarizamos com a luta dos imigrantes africanos contra a xenofobia e defendemos plenos direitos civis, políticos e trabalhistas para todos os trabalhadores e trabalhadoras do continente, independentemente de sua nacionalidade. Como afirmou a XIV Conferência da Corrente Revolução Permanente, a luta contra a xenofobia em todo o lugar no mundo é parte integral de um perfil antiimperialista e internacionalista. No caso, sul africano a luta contra a afrofobia não pode ser separada da luta contra o imperialismo, contra a espoliação econômica do continente e contra os governos e classes dominantes de cada país. Frente às tentativas de dividir trabalhadores sul-africanos, moçambicanos, zimbabuanos, malawianos, congoleses e de tantas outras nacionalidades, a única alternativa reside na reconstrução de uma perspectiva internacionalista capaz de enfrente o imperialismo e as burguesias nacionais que o sustentam.