MALI E A RESISTÊNCIA AO IMPERIALISMO: UMA ANÁLISE DA ORIGEM COLONIAL DO CONFLITO E AS CONTRADIÇÕES NO ENFRENTAMENTO AO IMPERIALISMO FRANCÊS
No dia 26 de abril deste ano, homens armados pertencentes a diferentes grupos terroristas ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islamico e separatistas do norte agrupados na Frente de Libertação de Azawad (FLA), protagonizaram ataques coordenados a instalações militares e à residência do principal líder do regime que governa o país desde o golpe de estado em maio de 2021, culminando com a morte deste e de vários militares e civis. Desde então, retomou-se o debate sobre o papel que Mali tem desempenhado contra o imperialismo francês numa das regiões mais conflituosas no continente Africano.
Estamos falando de um país fundador da Aliança dos Estados do Sahel (AES), ao lado de Burkina Faso e Níger, Estados historicamente marcados pela forte influência da França desde o período colonial. Durante décadas, essas nações permaneceram inseridas em estruturas de dependência política, econômica e militar que muitos analistas classificam de neocolonialismo. Nesse contexto, Mali, Burkina Faso e Níger passaram a liderar um movimento de ruptura com a influência francesa no Sahel, defendendo soberania nacional, controle sobre seus recursos naturais e autonomia nas decisões políticas e militares. Esse movimento ganhou força sobretudo após sucessivas crises de segurança, intervenções estrangeiras e o crescimento do sentimento popular antifrancês na região.
Embora não deixe de ser legítimo as reivindicações citadas, aliás são legítimas e dignas de apoio da classe trabalhadora mundial, no entanto não podemos deixar de levantar debate sobre como esses governos que resultaram de golpes militares com apoio popular, têm tratado as principais pautas do movimento: Segurança, soberania e controle dos recursos naturais. Temos assistido a uma substituição do algoz ou uma transição popular com naturais contradições?
A ORIGEM COLONIAL DO CONFLITO
Antes da invasão europeia, a parte oeste da atual Sahel, era governada pelo império de Mali, que concentrava a sua presença na zona sul e ao centro da atual República de Mali, embora exercendo certa influência no norte, esta região nunca teve forte presença do império tendo a diferença na organização social das etnias de ambas como principal motivo, com sul dominado pelos Bambaras e Norte principalmente pelos Tuaregues, que são nômades, a administração imperial se baseava mais em alianças e influência indireta.
Com a chegada dos franceses em 1855, começou o processo de colonização que estabeleceu um modelo administrativo diferente daquele exercido na época de império, a conferência de Berlim agravou ainda mais a situação ao impor a homogeneidade destes territórios sob a mesma administração colonial, fundindo povos e territórios historicamente distintos. Durante a colonização, a região centro ao sul do país foi a mais privilegiada com infraestruturas e políticas públicas, fato que se manteve mesmo depois da independência. Formou-se uma burguesia nacional, aliada a França, composta majoritariamente pelas etnias do sul, isolando ainda mais o norte, o que criou ressentimento por parte das lideranças étnicas e religiosas nortenhas. Aliás, podemos ver cenários idênticos em Ruanda, República Democrática de Congo e Sudão, em que aconteceram conflitos da mesma natureza depois da independência. A literatura aponta para um incentivo sistêmico ao confronto da parte das ex-colónias.
Esse conjunto de fatores criaram ambiente propício para um sentimento de revolta contra o governo central de Bamako que culminaria com a criação do Mouvement National de Libération de l'Azawad (MNLA), em 2011, protagonista do ataque em janeiro de 2012 que daria início ao chamado Guerra Civil de Mali, em que o governo central enfrentou MNLA e seus aliados terroristas vinculados ao Al-Qaeda. Essa guerra teve vários cenários e é responsável até hoje pela permanente instabilidade na região.
As reivindicações do MNLA são complexas e conflituosas e talvez voltemos em outra oportunidade para explorá-las de forma mais exaustiva. Digo isso porque, depois dos ataques de janeiro de 2012, o MNLA e os aliados controlavam boa parte das cidades do norte - Timbuktu, Quidal e Gao, chegando a proclamar a independência de Azawad do Mali, porém entraram em conflito entre si quando Ansar Dine, um grupo terrorista aliado, começou a impor a lei islâmica nas cidades dominadas, o que acendeu confronto entre os dois grupos, culminando com a perda de boa parte das cidades para Ansar Dine e outros sub grupos terroristas. Por um lado temos o MNLA buscando reconhecimento político e cultural do povo tuaregue e a independência do norte, do outro os grupos jihadistas interessados em estabelecer um estado islamico, portanto podemos presumir que há múltiplos interesses em causa, porém convenientemente aliados.
AS CONTRADIÇÕES NO ENFRENTAMENTO AO IMPERIALISMO FRANCÊS
Com o golpe aos governos eleitos e a criação da Aliança dos Estados do Sahel (AES), Mali, Burkina Faso e Níger empreenderam importantes derrotas ao imperialismo francês com o encerramento das suas bases militares e outras atividades na região. Mas, para isso, precisou-se fazer alianças com uma outra potência europeia, a Rússia, através do Grupo Mercenário Wagner. Em Mali particularmente, o grupo se estabeleceu no final de 2021 com o mote de ajuda no combate aos insurgentes e separatistas do norte, quando na verdade mirava o mesmo que a França: a exploração dos minerais malianos. Mas isso só foi possível graças ao forte sentimento anti frança (françafrique) na região, sentimento inclusive que moveu a maioria das juntas militares que detêm o poder na região. A conivência da França com governos autoritários para salvaguardar os seus interesses neocolonialistas somada à ineficiência das ditas ajudas de defesa, alicerçaram a retórica das juntas e abriram caminho para acordos com a Rússia.
Não se trata de uma retórica simplista ou de colocar a França como bode expiatório, os dados apontam para uma interferência sistêmica nas suas ex-colônias com o intuito de proteger seus interesses. Durante décadas, consolidou uma rede de dependência económica, militar e política entre Paris e os países africanos ditos francófonos, sobretudo no Sahel. Essa relação envolve apoio diplomático e militar a governos alinhados aos interesses franceses, acesso privilegiado a recursos naturais e forte influência sobre as decisões econômicas locais. Em contrapartida, muitos desses países são marcados por pobreza estrutural, instabilidade política e baixa industrialização, apesar da enorme riqueza mineral existente em seus territórios.
O caso do Níger é emblemático. O país possui uma das maiores reservas de urânio do mundo e, durante décadas, foi um dos principais fornecedores do mineral utilizado nas usinas nucleares francesas. A França depende historicamente da energia nuclear para abastecer cerca de 60% a 70% da sua eletricidade, e parte significativa do urânio que alimentou esse sistema energético veio justamente do Sahel, sobretudo do Níger através da antiga empresa francesa Areva, atualmente denominada Orano . Enquanto isso, paradoxalmente, grande parte da população nigerina encontra-se sem acesso adequado à eletricidade. Esse desequilíbrio alimentou o ressentimento popular contra a presença francesa. Muitos setores sociais e políticos passaram a enxergar a França como potência interessada em preservar um modelo de dependência econômica herdado do período colonial e responsável pelos problemas que a região enfrenta.
Além do urânio, o Sahel possui reservas estratégicas de ouro, manganês, fosfato e outros minerais fundamentais para as economias globais contemporâneas. O Mali e o Burkina Faso, por exemplo, estão entre os maiores produtores de ouro da África, e empresas estrangeiras, muitas das europeias, historicamente tiveram fortes presenças nesses setores. Assim, o discurso soberanista das juntas militares encontrou respaldo popular ao defender a nacionalização dos recursos naturais e a revisão dos acordos firmados com potências estrangeiras.
O Grupo Wagner, ligado aos interesses estratégicos russos, expandiu-se justamente nesses contextos de instabilidade política e fragilidade institucional, oferecendo apoio militar em troca de concessões econômicas e acesso privilegiado a recursos minerais. Entretanto, o que ocorre no sahel está longe de ser classificado como um processo anti imperialista e progressista, estamos perante uma substituição do algoz, da influência francesa para presença russa, mantendo assim a lógica de exploração externa. Dessa forma, a disputa geopolítica no Sahel demonstra uma reorganização das influências imperialistas sobre a África em um contexto multipolar.
ver depois: https://shs.cairn.info/journal-revue-internationale-et-strategique-2024-1-page-163?lang=en