Capa: O efeito tóxico de Trump, os sonhos tecno-autoritários de Peter Thiel e uma cúpula progressista sem perspectivas

O efeito tóxico de Trump, os sonhos tecno-autoritários de Peter Thiel e uma cúpula progressista sem perspectivas

Por Matías Maiello , Josefina L. Martínez | | Atualizado em 22.07.2026
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Vários governos de ultradireita atravessam importantes dificuldades. Donald Trump parece cada vez mais isolado e alguns de seus aliados internacionais estão sofrendo fortes golpes políticos. Enquanto isso, a Palantir Technologies de Peter Thiel lança seu “manifesto” por um tecnoautoritarismo reforçado que reafirme a “superioridade” do Ocidente. Nesse cenário, a “cúpula progressista” de Pedro Sánchez, Luiz Inácio Lula da Silva, Claudia Sheinbaum e Gustavo Petro busca se posicionar como alternativa ao trumpismo, tentando reeditar o desgastado discurso do “mal menor”. Mas qual é a alternativa diante da direita?

Trump: um ativo tóxico?

No último 12 de abril, Viktor Orbán sofreu uma derrota eleitoral na Hungria que também foi uma derrota para a “Internacional reacionária”, essa rede de forças de extrema direita que, até pouco tempo atrás, muitos supunham imparável. A intervenção do vice-presidente dos EUA, JD Vance, para apoiar Orbán não apenas não foi suficiente, como parece ter jogado contra. O vencedor na Hungria foi Péter Magyar, político conservador que rompeu há dois anos com o partido de Orbán, a partir de uma posição pró-europeia.

O desgaste da ultradireita também afetou Giorgia Meloni: aquela que tentava se colocar como elo entre Donald Trump e a União Europeia acabou presa em fogo cruzado. A oposição majoritária da população italiana ao genocídio na Palestina e à guerra com o Irã, junto ao descontentamento com a estagnação econômica, geraram um mal-estar popular que se expressou na derrota de Meloni no recente referendo sobre a reforma judicial. Segundo pesquisas de opinião do Le Grand Continent, a popularidade de Trump caiu fortemente na Itália: passou de 35% em março de 2025 para 19% em março de 2026, um indício de que ele se tornou um peso para seus aliados de direita. O ponto de inflexão foi a disputa de Trump com o Vaticano, que colocou Meloni contra a parede: ela saiu em defesa do Papa e rompeu sua relação privilegiada com a Casa Branca, na mesma semana em que também se distanciou de Israel. Isso não significa que não busque caminhos para recompor os vínculos, mas já não será o mesmo.

No plano interno, a crise de Trump se aprofunda com fortes divisões dentro de seu próprio movimento MAGA. Sua figura, que antes funcionava como elemento unificador da ultradireita, está cada vez mais desgastada. Com uma aprovação interna baixa, de apenas 35%, e envolvido na gestão de seus fracassos na guerra com o Irã, Trump enfrenta também outras fraturas em sua base de apoio. A mais recente, motivada pelo conflito com o Papa Leão XIV, que criticou a guerra com o Irã, atinge o núcleo de sua base política.

Trump chegou ao poder com forte apoio do eleitorado católico, especialmente hispânico, em um país como os Estados Unidos, onde há 53 milhões de católicos que representam cerca de 20% da população adulta. Dentro do MAGA, o conflito tensionou a ala católica “America First”, cada vez mais oposta às “guerras eternas” e na qual o discurso do Papa encontra eco. A partir do Vaticano, busca-se reafirmar o papel da Igreja como instituição de moderação e contenção no plano geopolítico e social. Trata-se de outro projeto sobre como deveria se articular a dominação capitalista, algo cada vez mais difícil em um mundo mais convulsionado.

Como apontava há alguns dias Pablo Stefanoni, a ultradireita não é uma onda imparável, nem as batalhas culturais garantem uma “hegemonia infinita” — ainda mais quando o governo é corrupto e não consegue fazer a economia crescer — como ocorreu na Hungria com Orbán. De fato, a ideia de um avanço inevitável da ultradireita, que muitos aceitaram, expressa certo impressionismo superficial.

No entanto, é mais discutível a conclusão que Stefanoni tira de sua análise: a ideia de que as extremas direitas podem ser expulsas do poder pela via eleitoral “se houver um compromisso de encontrar formas de vencê-las”. Uma forma de dizer que seria necessário construir frentes amplas “anti-direita” com diferentes forças políticas mais ou menos moderadas. Mas o que aconteceu na Hungria? Lá, o Parlamento ficou totalmente dominado pela direita e pela extrema direita, porque os partidos de centro (liberais, socialistas e verdes) nem sequer se apresentaram, para apoiar Magyar como “mal menor” contra Orbán. A primeira coisa que Magyar fez depois de ser eleito foi reafirmar que manterá as políticas anti-imigração de Orbán.

O neoliberalismo autoritário e o sonho da Palantir

Mesmo que os cenários pós-eleitorais fossem melhores do que o apresentado pela Hungria de Magyar, as derrotas eleitorais não significam o fim das tendências que impulsionam a direita e que emergem como produto de uma crise de fundo. Elas são expressão de um neoliberalismo cada vez mais autoritário, que surge da própria crise do neoliberalismo e de uma classe capitalista cada vez mais oligárquica. Segundo um relatório da Oxfam publicado em janeiro deste ano, durante 2025 os bilionários do mundo triplicaram o crescimento anual de suas fortunas em relação ao que vinham registrando nos anos anteriores. E a relação com o poder político é cada vez mais evidente. Segundo o jornal El País: “Nas eleições estadunidenses de 2024, apenas 100 famílias contribuíram com um em cada seis dólares gastos por candidatos, partidos e comitês. Elas investiram naquele ano 2,6 bilhões de dólares, mais do que o dobro dos 1 bilhão investidos durante as eleições de 2020; e 160 vezes mais do que investiam antes de que, em 2010, a Suprema Corte dos EUA eliminasse os limites ao financiamento de campanhas”.

A questão de fundo é o que estamos pensando enfrentar quando falamos de extrema direita. Como exemplo, dentro da oligarquia dos megabilionários, temos Peter Thiel. Junto com Alex Karp, lançou esta semana, a partir da conta na plataforma X da empresa Palantir Technologies, um manifesto autoritário tecno-capitalista. Eles defendem que, para superar a decadência do Ocidente, o Vale do Silício deve reajustar suas prioridades e se dedicar ao desenvolvimento de armamentos baseados em Inteligência Artificial. Afirmam que já não é momento de se perguntar se se deve fabricar armas com IA, mas quem as fabricará primeiro. Trata-se de um aceleracionismo tecnológico a serviço da guerra e dos mais ricos. A Palantir presta serviços de IA a agências como o ICE (contra migrantes) e ao exército de Israel para o genocídio em Gaza.

Peter Thiel financiou as campanhas de Donald Trump e JD Vance, e está envolvido em uma campanha de “teologia política”, com seminários que alertam para a chegada do Anticristo (que ele identifica com regulações estatais sobre a tecnologia, movimentos ecológicos ou instituições como a ONU). Vários desses tecno-oligarcas, como Thiel ou Elon Musk, se veem como salvadores da humanidade e querem fundir as elites tecnológicas com o poder do Estado estadunidense.

O governo de Trump é uma tentativa bonapartista que se articula muito bem com o ideal oligárquico dessa elite capitalista — ainda que haja conflitos pontuais com alguns de seus membros. O problema é que não consegue se consolidar como tal, atravessado por todo tipo de contradições: desde problemas com o aparato do Estado (inteligência, forças armadas, Suprema Corte etc.) até o descontentamento popular expresso nas mobilizações massivas “No Kings” ou no movimento mais radicalizado de Minneapolis, que acabou desferindo um golpe duríssimo no ICE; panorama ao qual agora se soma a derrota na guerra com o Irã, da qual não encontra saída.

Romper o círculo eterno da decepção progressista

Enquanto isso, aqueles que estão se preparando para aproveitar a crescente impopularidade de Donald Trump e os reveses de seus aliados, sob a lógica de frentes “antidireita”, são os participantes da “cúpula progressista” que ocorreu em Barcelona entre os dias 17 e 19 de abril passado. Convocada pelo presidente espanhol Pedro Sánchez, abundaram discursos contra a extrema direita, ideias de multilateralismo, a “luta contra a desigualdade”, o “respeito ao direito internacional” e coisas do tipo. A cúpula contou com a participação de figuras do progressismo europeu e estadunidense e, como convidados de destaque, vários presidentes latino-americanos como Claudia Sheinbaum, Luiz Inácio Lula da Silva e Gustavo Petro. Não é por acaso: a América Latina é um dos laboratórios globais mais prolíficos no que diz respeito a frentes antidireita e “males menores”.

Um dos discursos mais duros da “cúpula progressista” foi feito por Lula — atualmente em modo eleitoral —, que ensaiou uma espécie de confissão autocrítica: “Fomos gestores dos males do neoliberalismo”, “nos tornamos o sistema”, “não podemos ser eleitos com um programa para implementar outro”. A questão é quais consequências isso traz. Hoje, no Brasil, o filho de Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, está praticamente empatado com Lula nas pesquisas para as eleições presidenciais de outubro. Ou seja, o pai, Jair Bolsonaro, está preso, o bolsonarismo parecia afundado, mas novamente se discute a possibilidade de sua vitória. Como analisava Danilo Paris, o governo Lula não apenas manteve, como fortaleceu os pilares que sustentam o bolsonarismo: consolidou o poder da burguesia agroindustrial; partidos com forte presença bolsonarista como Republicanos, MDB, PP, União Brasil e PSD controlam ministérios e recursos dentro do governo; todas as reformas aprovadas nos governos de Michel Temer e Bolsonaro foram mantidas; e a política econômica, essencialmente neoliberal, continuou guiada pela busca do “equilíbrio fiscal” para satisfazer o mercado financeiro em detrimento das maiorias. Como resultado, amplos setores da população não percebem mudanças em suas condições de vida — marcadas pela precarização do trabalho e pelo endividamento —, o que alimenta o descontentamento e permite ao bolsonarismo recuperar base social.

O resultado desses “frentes amplas antidireita” é que acabam dando nova vida à extrema direita. É o círculo infinito do mal menor. Há mais de uma década, o que predomina na região, mais do que uma guinada à direita ou à esquerda, é a derrota dos governos de turno. De 2015 a 2025, de 44 eleições, 30 foram derrotas dos governos, cerca de 70%. Há uma espécie de ecossistema político em que se alternam governos mais à direita ou mais “progressistas”, que acabam sendo a forma de sustentar regimes burgueses em crise, enquanto se aprofunda a degradação das condições de vida das maiorias. A questão é como romper esse ecossistema em que a direita fracassa, depois surge um “mal menor” cada vez pior, permitindo sua recuperação.

Da cúpula progressista também participou o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, que pretende emular o modelo de frente ampla brasileira na Argentina contra Javier Milei — outro aliado de Trump que enfrenta dificuldades crescentes. Trata-se de um grande bloco anti-Milei com direitistas de todos os tipos — dentro e fora do peronismo —, muitos dos quais foram e/ou são pilares da governabilidade de Milei. Em contraste, na Argentina há um fenômeno político relevante de reconhecimento à esquerda por estar na linha de frente da luta contra Milei. Uma expressão dessa rejeição ao “mal menor” é que Myriam Bregman hoje figura entre as lideranças políticas com maior imagem positiva no país, com pesquisas que lhe atribuem cerca de 10% em nível nacional (13,8% na Hugo Haime, 11,4% na Tendências, 9% na Opina Argentina). A questão é transformar esse reconhecimento em militância, em uma grande força política que supere o peronismo e desenvolva um contrapoder a partir de baixo, capaz de derrotar efetivamente a direita e os poderes reais que a sustentam, impulsionar a unidade na luta, mas ao mesmo tempo defender um programa que enfrente de forma radical os interesses dos capitalistas e do imperialismo. É o que se exige para estar à altura de figuras como Peter Thiel, Trump ou seus equivalentes como Milei.