O que é a AfD e para onde ela está indo?
Januskopf im Vatikan. Foto: Fubar Obfusco (Public Domain)
Texto publicado originalmente em alemão na página do Klasse Gegen Klasse, organização da CRP na Alemanha, no dia 12/07/2026.
A AfD ultrapassa a CDU nas pesquisas. Isso bagunça consideravelmente o sistema partidário alemão. O partido está numa encruzilhada entre o alinhamento com o Ocidente ou um soberanismo orientado para o Leste, entre nacional-conservadorismo e fascismo.
Nunca antes na história da República Federal houve um partido à direita da CDU que a ultrapassasse nas pesquisas. Mas hoje em dia a AfD consegue, no mínimo, desafiar seriamente a CDU como representante política indiscutível da burguesia alemã. É apenas uma questão de tempo até que governos estaduais estáveis sem a participação da AfD se tornem impossíveis, e também no plano federal se coloca cada vez mais a questão de como um governo sem a AfD ainda poderia funcionar. É verdade que, ao longo da história da República Federal, houve repetidas tentativas de diferentes partidos políticos de ocupar o espaço à direita da CDU — como o Partido Socialista do Reich (SRP), logo proibido, no início dos anos 1950; o NPD nos anos 1970; os Republikaner nos anos 1990; ou o “Partido da Ofensiva do Estado de Direito” de Roland Schill, ativo sobretudo em Hamburgo no início dos anos 2000. Mas, até agora, o modelo da CDU/CSU de governar a Alemanha sempre demonstrou força de integração suficiente para que a ascensão de um partido de direita relevante ao lado da CDU não fosse duradoura. Isso está mudando agora.
Friedrich Merz é provavelmente o chanceler mais impopular da história da República Federal, e as vozes que pedem sua renúncia estão ficando mais altas. A Süddeutsche Zeitung estampou em 29 de maio: “Em torno de Friedrich Merz, a solidão aumenta”. Mesmo dentro do próprio partido, setores das alas direita e esquerda parecem trabalhar por sua deposição. A menor Grande Coalizão da história da República Federal parece não conseguir implementar rápido o suficiente os ataques aos trabalhadores exigidos pela burguesia para saneamento da lucratividade do capital alemão. Discute-se muito sobre a supressão da jornada de oito horas, o aumento da idade de aposentadoria, os cortes no sistema de saúde e assim por diante, mas o governo federal parece não ter coragem suficiente para impor plenamente essas medidas mesmo contra a possível resistência da classe trabalhadora. A burguesia espuma de raiva com o papel “freador” que o SPD supostamente desempenharia no governo, enquanto Lars Klingbeil tenta, com todas as forças, ir o mais para a direita possível dentro da margem da parceria social.
Mas o SPD não é o único problema. A CDU está hoje provavelmente tão fraca quanto nunca esteve em sua história, e a condição precária do compromisso de classe alemão também se reflete numa divisão interna dentro da própria CDU. A ala econômica da grande burguesia pressiona, com cada vez mais “propostas de reforma”, por uma luta de classes aberta desde cima e estaria disposta, sob certas condições de política externa, a cooperar com a AfD para isso — enquanto as forças cristão-social-conservadoras, profundamente enraizadas na tradição do movimento trabalhista cristão dentro da CDU, não querem ultrapassar os limites da parceria social. De fato, as muitas décadas de equilíbrio de interesses entre capital e trabalho baseado na parceria social, sobre o qual a República Federal foi construída, aproximaram cada vez mais os dois partidos de Estado também quanto ao seu caráter social: hoje o SPD tem, com o Círculo de Seeheim e outros grupos, uma ala econômica, e a CDU tem uma ala trabalhista. Na verdade, a parceria social não é apenas uma fraternização espiritual de interesses, mas um sistema sofisticado de equilíbrio de interesses, profundamente ancorado materialmente na sociedade alemã. Nos conselhos de administração das empresas alemãs mais produtivas sentam, em paridade, representantes do capital e do trabalho; na maioria das grandes empresas há conselhos de fábrica poderosos e sindicatos fortes. Todas essas são barreiras que ainda contêm a luta de classes de cima.
Mas o que outrora foi o motivo da estabilidade extraordinária da sociedade de classes alemã agora encontra limites e se torna cada vez mais um grilhão para o saneamento do capital alemão. Por isso a burguesia se radicaliza, exige cada vez mais o fim do equilíbrio e um homem forte que, por métodos bonapartistas, finalmente imponha ordem e coloque a classe trabalhadora em seu lugar.¹ Merz será o último chanceler que ainda tentou administrar a Alemanha no antigo modo da República Federal. Seu governo está na transição entre o passado alemão de sociedade de classes pacificada e o futuro alemão de luta de classes aberta e duramente conduzida. O melhor candidato da burguesia para o cargo de (fraco) Bonaparte é certamente o atual ministro do Interior e número dois da CSU, Alexander Dobrindt, que já provou, com seus controles fronteiriços ilegais, que não recua diante de uma violação aberta da lei. Assim, a CSU, fiel à sua tradição — pense-se em figuras como Franz Josef Strauß —, poderia num futuro próximo voltar a ser o principal esteio de um experimento bonapartista.
Merz, porém, teme a ruptura da coalizão, que o expulsaria da chancelaria mais rápido do que aconteceu com Scholz. Mas ele também teme a ruptura de seu próprio partido, que poderia dividir e assim enfraquecer novamente a representação política dos interesses da burguesia alemã, como na República de Weimar. A pressão para libertar a CDU de seus apêndices trabalhistas também cresce internamente. Merz, por sua vez, tenta assustar a ala direita com o fantasma da AfD e só consegue assustar a si mesmo. Parece, portanto, que não está apenas para acontecer o fim do atual governo, mas uma reestruturação fundamental de todo o sistema partidário alemão. A ascensão da AfD é aqui um forte catalisador, pois quase diariamente a presidente da AfD, Alice Weidel, repete na imprensa e em talk shows que, com a AfD, haveria uma maioria de direita no Bundestag com a qual todos esses ataques poderiam ser feitos — se a CDU finalmente se dispusesse a isso.
Como será o próximo governo e o futuro do sistema partidário alemão é incerto, mas está claro que a AfD desempenhará um papel decisivo neles. Por isso é importante para os/as marxistas analisar essa nova estrela no firmamento partidário alemão, para poder determinar como será a Alemanha do futuro e o que o movimento operário precisa fazer para impor seus próprios interesses contra os cortes sociais e a “capacidade de guerra”.
A AfD: representante de um novo (velho) soberanismo
A AfD surgiu em 2012 como uma cisão de direita da CDU, em decorrência e como resultado da grande crise financeira e econômica de 2008/9. Ela representava o ressurgimento de uma antiga corrente histórica da burguesia alemã: o soberanismo nacionalista orientado para o Leste. A ideia fundadora da AfD era que a integração europeia não representa hoje o pressuposto, mas um obstáculo ao desdobramento de poder do capital alemão. Os pais fundadores da AfD, Bernd Lucke, Konrad Adam e Alexander Gauland, argumentavam que a crise do euro havia mostrado que a Alemanha fora rebaixada a financiadora de toda a Europa e teria de se sustentar de sua própria substância nacional para isso. A Alemanha teria cedido parte de sua soberania à UE e agora teria de pagar as dívidas de outros. Isso deveria ser encerrado com a saída o mais rápido possível da Alemanha da zona do euro e, se possível, também da UE. Eles imaginavam uma Alemanha “soberana”, isto é, não alinhada a blocos, que deveria se manter sobre os próprios pés em todas as questões. Isso significava também uma Alemanha que deveria fazer uma política de alianças própria em direção à Rússia, para se desvincular da “má influência” dos EUA e da OTAN. Essa orientação ideológica fundamental se manteve ao longo dos muitos conflitos internos e cisões partidárias, das quais ainda falaremos, mesmo que sempre tenha havido, nesse aspecto, uma ala “realpolitisch” e uma ala linha-dura dentro do partido. Essa crítica ao alinhamento ocidental e à integração da Alemanha em estruturas supranacionais como OTAN, ONU e UE é também o que hoje impede uma cooperação dos partidos estabelecidos com a AfD. Ela é, na verdade, muito mais um obstáculo do que a postura obscurantista de guerra cultural contra o “multiculturalismo” e contra a “loucura de gênero”, mais até do que seus planos racistas de “remigração”. É esse o verdadeiro conteúdo do “muro corta-fogo” (Brandmauer), quando não nos deixamos confundir pela hipocrisia humanitarista sobre direitos humanos, democracia e Estado de direito. Se essa questão da orientação ocidental ou oriental da Alemanha é a questão central que separa a CDU da AfD, então vale a pena examiná-la mais de perto.
O soberanismo orientado para o Leste não é, de fato, um novo fenômeno ideológico na burguesia alemã, mas desde 1945 esteve quase invisível na esfera pública alemã. Ele hibernou nos setores mais à direita da CDU e só nos últimos anos voltou com mais força ao domínio público, à medida que ficou cada vez mais claro que a ordem mundial estabelecida pelos EUA se torna cada vez mais disfuncional para os interesses do capital alemão. Na forma da BSW, essa ideia também encontrou uma correspondência social-democrata, que por sua vez remonta a certas linhas de continuidade na social-democracia alemã.
Depois que a tentativa do Reich Alemão de vencer, com forças próprias, a guerra em duas frentes contra as potências ocidentais e a Rússia na Primeira Guerra Mundial fracassou por pouco, e os devaneios imperialistas da burguesia alemã foram enterrados sob o jugo do Tratado de Versalhes, cristalizou-se na jovem República de Weimar uma nova ala da burguesia. Esta queria firmar uma aliança temporária com a (Rússia) Soviética para neutralizar o Tratado de Versalhes e eliminar seus concorrentes ocidentais. Apesar de as elites alemãs considerarem os bolcheviques inimigos mortais, e de a Comintern, por sua vez, trabalhar ativamente pela derrubada da República de Weimar, esses dois derrotados da Guerra Mundial se aproximaram ao longo dos anos 1920. O grande capitalista e futuro ministro das Relações Exteriores Walter Rathenau (membro do Partido Democrata Alemão de esquerda liberal, DDP), por exemplo, já visitou em 1920 o diplomata soviético Karl Radek na prisão de Berlim-Moabit e preparou o terreno para a cooperação.² A partir de 1921, o alto-comando da Reichswehr, sob o comando-geral do general Hans von Seeckt, organizou uma cooperação militar secreta com o Exército Vermelho.³ Soldados alemães, sobretudo pilotos — proibidos pelo Tratado de Versalhes — puderam ser treinados em território soviético. Em janeiro de 1922, foram criadas representações comerciais mútuas em Berlim e Moscou, e em abril de 1922 Rathenau e o comissário soviético do povo para Relações Exteriores, Georgi Tchitcherin, surpreenderam o mundo com o Tratado de Rapallo, que incluía relações diplomáticas, renúncia mútua a reivindicações de reparações e cooperação econômica.⁴
Além do KPD (Partido Comunista), esse rumo de política externa foi apoiado sobretudo, por outros motivos, pelos partidos de direita de Weimar, como o Partido Nacional do Povo Alemão (DNVP), de base agrária no leste do Elba, e os partidos fascistas Partido Völkisch da Liberdade Alemã e o NSDAP. Toda a sua concepção de política externa visava neutralizar o Tratado de Versalhes e, portanto, era dirigida principalmente contra a França. Para isso, até anticomunistas convictos como Joseph Goebbels e Adolf Hitler estavam dispostos a firmar alianças temporárias com a Rússia soviética. Goebbels escreveu em 1925: “[…] a Rússia [é] a aliada que a natureza nos deu contra a infecção e a corrupção diabólicas do Ocidente […]”.⁵ E Hitler esbravejava em Mein Kampf contra a França “influenciada pelos judeus”.⁶ O ministro das Relações Exteriores Gustav Stresemann, presidente do grande-burguês e liberal de direita Partido do Povo Alemão (DVP), começou, porém, a conduzir também com os Aliados ocidentais uma política de distensão. Com a assinatura dos Tratados de Locarno no final de 1925, foram até renunciadas as reivindicações alemãs no Ocidente, confirmando assim mais uma vez o Tratado de Versalhes. Em seguida, os ministros do DNVP até saíram do governo do chanceler Fritz Luther em protesto e conclamaram, junto com os nazistas, a protestos contra Locarno.
Quando a burguesia alemã finalmente se decidiu, no final de janeiro de 1933, a alçar os nazistas ao poder, estes voltaram a explorar estrategicamente a aliança com a União Soviética para derrubar o Tratado de Versalhes, sua potência protetora França, e suas marcas fronteiriças no leste europeu, Polônia e Tchecoslováquia. Com o Pacto Hitler-Stalin de 1939, a Alemanha nazista se apoiou em seu vizinho oriental para vencer os ocidentais. Mas essa aliança com a União Soviética foi, para Hitler, sempre apenas um meio para um fim. “Tudo o que empreendo”, declarara em agosto de 1939, está direcionado contra a Rússia; se o Ocidente for burro e cego demais para compreender isso, serei obrigado a me entender com os russos, derrotar o Ocidente e, depois de sua derrota, voltar-me com minhas forças reunidas contra a União Soviética.⁷
O ímpeto alemão para o Leste finalmente foi quebrado em Stalingrado. Quando os aliados vitoriosos, União Soviética e EUA, deram as mãos em Torgau, em abril de 1945, a segunda tentativa alemã de travar uma guerra em duas frentes contra Ocidente e Oriente havia fracassado, e a burguesia alemã estava por terra. Depois de 1945, a questão da posição da burguesia alemã entre Ocidente e Oriente foi decidida por outras potências. No Leste, parte da burguesia alemã foi expropriada; outra parte perdeu seus bens com a fuga forçada da Polônia e da Tchecoslováquia. O restante da Alemanha burguesa esteve sob a soberania dos Aliados ocidentais e foi cada vez mais fortalecido economicamente e equipado militarmente como posto avançado contra o bloco soviético. Aqueles setores da burguesia alemã que, já na época de Weimar, buscavam a aliança com a Rússia para vencer o Ocidente, encontravam-se agora num beco sem saída histórico e, em sua esmagadora maioria, viraram para uma linha pragmaticamente pró-ocidental. De fato, na República de Bonn, além de uma pequena corrente neutralista representada pelo Partido do Povo Pan-Alemão (GVP), que rejeitava o rearmamento e a filiação à OTAN, foram sobretudo social-democratas e o DKP que buscaram um acordo com a União Soviética. Defenderam essa posição contra a resistência quase unânime da burguesia alemã, que ainda por muitas décadas se apegou à revisão das fronteiras orientais. Dessa linha de tradição também deriva a atual BSW, com sua “política oriental razoável” que invoca Willy Brandt. Não obstante, a ideia do soberanismo hibernou na ala de direita nacional-alemã da CDU, que na nova República de Bonn logo se tornou o partido indiscutível da grande burguesia alemã e, com isso, o primeiro partido de Estado da República Federal.
Após o colapso do bloco oriental e a restauração capitalista na Alemanha Oriental, essa questão inicialmente não se colocava. A Alemanha havia recuperado sua plena soberania e havia se acomodado, entrementes, com vantagem própria, nas instituições internacionais OTAN, ONU e Espaço Econômico Europeu. Ao mesmo tempo, a nova Rússia, que sofrera um forte colapso interno com a restauração capitalista, deixou de ser uma rival ou aliada equiparável ao capital alemão, e chegou a se rebaixar temporariamente quase a uma semicolônia do Ocidente. A Rússia se tornou para a economia alemã um mercado consumidor importante, e fornecia combustível e energia baratos à Europa Ocidental. Enquanto isso, a Alemanha, “campeã mundial de exportação”, ampliava sua posição no mercado interno da UE e logo dominava economicamente toda a Europa Centro-Oriental e do Sul. Os lucros do capital alemão cresceram nesse período de forma incomensurável. Parecia que, com sua inserção nas estruturas supranacionais, a burguesia alemã havia conseguido aquilo pelo qual antes desencadeara duas guerras mundiais. Como os EUA, como resquício da Guerra Fria, continuavam a arcar com o lado militar dessa ordem mundial, a Alemanha nem precisava assumir sozinha os imensos gastos com armamento que seriam necessários, sem a proteção dos EUA, para policiar o imenso espaço econômico que ela dominava. Além disso: a Alemanha finalmente deixou de ser uma pária no cenário mundial, podendo agora, como nação supostamente redimida, invocando o direito internacional, declarar outros Estados párias. Podia até voltar a travar guerras, como na Iugoslávia ou no Afeganistão, e ainda assim em nome de evitar um segundo Auschwitz (Joschka Fischer) e da defesa do bem e do nobre no mundo. Parecia que a burguesia alemã havia finalmente concluído seu “longo caminho para o Ocidente” (Winkler)⁸ e, com isso, um afastamento dos “caminhos especiais” soberanistas, encontrando seu lugar entre as repúblicas liberal-democráticas. Quase toda a burguesia alemã se tornou então transatlântica, identificando o próprio sucesso econômico com o sucesso do Ocidente liderado pelos EUA.
Mas esse modelo econômico integrado já esbarrava em limites no início dos anos 2000. O crescimento desacelerou, os mercados pareciam saturados, e a expansão da UE para o Leste chegou aos poucos a uma paralisação diante da contrapressão de uma Rússia que voltava a se fortalecer. A burguesia alemã reagiu a isso logo com uma pressão reformista neoliberal reforçada internamente, e encontrou no governo Schröder um executor disposto. Com a Agenda 2010, os lucros alemães foram mais uma vez saneados às custas dos trabalhadores. Mas a grande crise financeira de 2008/9 empurrou novamente o modelo até seus limites. O colapso iminente do sistema financeiro europeu obrigou o governo federal alemão a gastar somas imensas para salvar os bancos e estabilizar o euro, condição essencial para o sucesso econômico da Alemanha na UE. Os países do sul da Europa foram particularmente afetados pela crise, e a Alemanha “resgatou” seus orçamentos estatais com créditos bilionários vinculados a condições neoliberais, que empurraram esses países para uma dependência ainda maior da Alemanha. Embora a economia alemã tenha saído comparativamente bem da crise, houve uma rachadura no modelo econômico da RFA, e revelou-se pela primeira vez o lado sombrio da inserção da Alemanha na ordem mundial ocidental. Para assegurar seu próprio sucesso nacional, a Alemanha havia participado da criação da UE, na qual, porém, não apenas seus próprios interesses, mas os de muitas burguesias nacionais diferentes, precisavam ser constantemente negociados, e na qual, de tempos em tempos, também podia acontecer de os próprios interesses serem submetidos a determinados compromissos necessários para preservar o conjunto lucrativo. O resgate do euro era, como formulou a então chanceler Angela Merkel: “sem alternativa” (alternativlos), porque o euro era (e continua sendo) a condição do sucesso econômico alemão na Europa. Isso, porém, não tornou esses pacotes de resgate menos dolorosos para o orçamento federal alemão. Essa contradição, a burguesia alemã a comprara conscientemente, ao concluir, a partir da experiência de Verdun e Stalingrado, que doravante abandonaria os caminhos especiais nacionais.
Não é de admirar, portanto, que justamente na esteira da crise de 2008/9 tenha surgido no cenário partidário alemão um novo partido que se dedicava ao soberanismo. Passando por algumas formas preliminares, a AfD se constituiu em fevereiro de 2013 como uma associação reacionária de notáveis burgueses e, com seu soberanismo latentemente racista temperado com ideias radicais de livre mercado, conseguiu alcançar, do nada, 4,7% nas eleições para o Bundestag de setembro de 2013. Fiel a seu conceito de uma política de alianças autônoma, o segundo congresso federal da AfD em Aschaffenburg, na primavera de 2014, rejeitou sanções contra a Rússia. O desenvolvimento subsequente da situação mundial só trouxe mais água ao moinho do soberanismo. Na Alemanha Oriental, onde, devido aos antigos laços da RDA com a União Soviética, se manteve uma certa orientação para o Leste na população e na política, o soberanismo da AfD, combinado com uma demagogia social cada vez mais acentuada, se conectou bem, garantindo-lhe ali grandes ganhos eleitorais.
O modelo econômico alemão entrou numa crise histórica com o início da pandemia de Covid a partir de 2020, e ainda mais desde o início da guerra da Ucrânia na primavera de 2022, crise da qual não saiu desde então. Como reação, o governo federal, no âmbito da política da OTAN, impulsionou um doloroso processo de desvinculação total dos fornecimentos de energia russos. Isso atingiu duramente sobretudo os lucros de pequenas e médias empresas e também fez disparar os preços de energia para os trabalhadores, o que por sua vez deu impulso à ideia de uma reorientação para o Leste. Também foram enviadas quantidades gigantescas de armas a Kiev, com o objetivo de prender geopoliticamente o novo rival russo da OTAN na lama de Donbass. Com a guerra, ficou cada vez mais claro que os EUA já não estavam dispostos ou em condições de assegurar com suas próprias armas, contra transgressões de concorrentes, a ordem mundial que eles próprios haviam estabelecido militarmente, incluindo o direito internacional — que também é o pressuposto da existência da UE. Essa constatação levou o governo de coalizão semáforo (Ampel) a declarar também a “Zeitenwende” militar, ainda mais acelerada pela nova presidência de Donald Trump, que anunciou querer se retirar da Europa a médio prazo. Desde então, a AfD se conecta habilmente ao cansaço crescente da guerra na população alemã e defende, como o BSW, uma política externa “razoável” e um acordo com a Rússia. Isso lhe garantiu, além dos votos de pequenas e médias empresas que sofriam muito com o aumento dos preços, também um gigantesco contingente eleitoral proletário — mas também impõe limites mais estreitos às suas próprias possibilidades políticas, do que ainda falaremos.
Hoje, portanto, se coloca de forma aguda a questão da posição da Alemanha entre Ocidente e Oriente. De um lado estão os EUA, suas instituições internacionais e o direito internacional, que se tornam tanto mais desdentados quanto mais veementemente os EUA tentam salvar com aventuras militares sua posição de potência mundial perdida. Do outro lado estão a China, seus aliados e suas organizações internacionais em estágio embrionário. No meio está a UE, com a Alemanha como uma de suas potências líderes. A condição de existência da UE até agora sempre foi a concorrência não violenta dentro do imperialismo ocidental, garantida pelo hegemon EUA. Essa base agora desmorona com a retirada dos EUA da Europa, e a Alemanha ainda não conseguiu criar um substituto viável na forma de um poder militar próprio. Assim, o governo federal ainda se apega à OTAN, à ONU e à UE, e planeja colocar seu rearmamento a serviço desses conjuntos institucionais. No entanto, a ideia de um soberanismo — agora, porém, virado para a Europa — já chegou até ele. Merz, junto com outros chefes de Estado europeus, aparece cada vez mais frequentemente com uma postura enfaticamente autônoma, retomando retoricamente a tão tradicional comunidade dos europeus, que deveria se apresentar o mais coeso possível como ator autônomo num mundo de nova concorrência entre grandes potências. Mas essa coesão europeia está sendo justamente minada pelo fato de que agora todos os países da UE começam a se equipar com seus próprios meios de coerção. Como será possível no futuro uma negociação pacífica de interesses, se não houver mais um hegemon supremo (como os EUA até agora) como árbitro a manter os Estados da UE coesos, mas sim de 20 a 30 Estados pequenos e médios se apoiando cada vez mais em seus próprios exércitos? Não, a UE é historicamente um modelo em extinção, e justamente por isso os partidos soberanistas crescem nas urnas em todos os Estados da UE. Mais cedo ou mais tarde, a UE se romperá por suas próprias contradições, e então a questão de para qual direção a burguesia alemã se voltará se tornará uma questão de vida ou morte para o imperialismo alemão. Essa ruptura ainda deve demorar bastante — pelo menos ninguém quer enfrentá-la a sério por enquanto. Os países líderes da UE ainda tentam modificar o quadro comum de modo que continue a corresponder a seus interesses.
A AfD: a favor ou contra a grande burguesia alemã?
A AfD, como representante de um novo (velho) soberanismo alemão, poderia, portanto, no período que vem, influenciar decisivamente a posição da Alemanha entre Ocidente e Oriente. Mas quanto mais perto ela chega das alavancas do poder, mais fortemente é confrontada com as exigências da burguesia alemã, que reivindica uma certa autonomia, mas quer se organizar o máximo de tempo possível dentro do quadro da UE e da OTAN. De fato, atualmente ainda é assim que a maioria da burguesia alemã adverte explicitamente contra uma participação da AfD no governo, e com argumentos econômicos bem concretos. Segundo uma pesquisa do instituto grande-burguês da Economia Alemã (IW) de 2024, 69% das empresas consideravam a AfD um risco para o local de investimento. O Instituto de Economia Mundial de Kiel calculou que governos populistas custariam a seus Estados nacionais um crescimento econômico de 0,7% ao ano. Peter Leibinger, presidente da Federação da Indústria Alemã (BDI), que representa o grosso do capital industrial alemão, declarou no início de 2025, sobre uma eventual participação da AfD no governo: “Isso seria catastrófico para a economia alemã.” A última coisa de que a Alemanha precisa agora, segundo ele, é de um partido que divide. E Marie-Christine Ostermann, presidente da Associação de Empresas Familiares, escreveu ainda em janeiro de 2025, referindo-se ao programa de política europeia da AfD:
Com uma saída da UE, a Alemanha perde seu papel de campeã comercial, pois mais da metade de nossas exportações vai para Estados da UE. Uma saída do euro está, além disso, associada a uma enorme valorização de nossa então nova moeda nacional — os produtos alemães ficariam impagáveis no exterior e, portanto, encalhados nas prateleiras.⁹
Ironicamente, foi a mesma Marie-Christine Ostermann quem, no final de novembro de 2025, revogou a proibição de contato da Associação de Empresas Familiares com a AfD. Em seguida, Rossmann e Vorwerk deixaram a associação. Também no que diz respeito a doações partidárias, a maioria da burguesia alemã ainda se mantém reticente por enquanto. Existe, é verdade, o bilionário germano-suíço Henning Conle, que doou milhões à AfD por vias indiretas, e as grandes doações à AfD, em geral, estão aumentando. Mas os grandes capitalistas mais importantes e suas associações, sobretudo os que dependem do negócio de exportação, continuam a apoiar materialmente a CDU. Apenas do setor alemão de alimentos e varejo houve recentemente um interesse crescente pela AfD como possível representante de um capital alemão mais orientado para o mercado interno. O milionário Theo Müller (Müllermilch), por exemplo, mantém contatos amistosos com a AfD. E o sócio da Hans-im-Glück, Hans-Christian Limmer, participou do encontro sobre “remigração” em Potsdam. Sob pressão pública, ele teve de devolver suas participações.
Como único verdadeiro grande capitalista, Elon Musk apoia a AfD. Ele escreveu, no final de 2024, um artigo de opinião no jornal Welt no qual chamou a AfD de “última centelha de esperança para a Alemanha”. Na campanha eleitoral para o Bundestag de 2024/25, ele entrevistou em uma live a presidente do partido, Alice Weidel, e também falou ao vivo no lançamento da campanha eleitoral da AfD. Os motivos disso são claros: Musk espera que um governo da AfD facilite seus próprios investimentos na Alemanha. Até agora, o grande capitalista sempre encontrou barreiras consideráveis em suas investidas no mercado alemão, não por último porque ele segue uma política histericamente antissindical. Ele e suas empresas representam um afastamento total da parceria social. Na fábrica da Tesla em Grünheide, em Brandemburgo, ele e a gerência travam uma verdadeira guerra de “union-busting” contra o IG Metall e conseguiram mais uma vez, nas eleições de conselho de fábrica de março de 2026, com uma campanha maciça de intimidação contra sindicalistas, impedir uma maioria do IG Metall no conselho. Musk e a AfD compartilham a visão de que a parceria social na Alemanha é um freio para o crescimento econômico e querem destruí-la, independentemente das grandes convulsões políticas e possíveis greves de massa que um ataque histórico desses à classe trabalhadora, sem dúvida, traria consigo. A presidência de Trump e o apoio de Musk à ala nacional-conservadora da AfD são uma derrota amarga para os soberanistas em torno de Höcke e cia., e fortalecem as tendências transatlânticas dentro do partido. Além disso, a campanha eleitoral de Musk pela AfD teve grande participação no fato de o “muro corta-fogo” (Brandmauer) estar cada vez mais se esfacelando.
Apesar das exceções mencionadas, parece continuar sendo o caso de que a AfD (ainda) não é percebida pelo grosso da burguesia alemã como “seu” partido. Uma implementação plena de seu programa soberanista precisaria, neste momento, ser imposta pela AfD contra a maioria da burguesia alemã, para o que ela não teria nem vontade nem condições. É mais provável que ela chegue ao poder na forma de um governo federal preto-azul (CDU-AfD), mas teria de fazer grandes concessões em questões de política externa, sobretudo no que diz respeito à UE e à OTAN. Esse desenvolvimento também pode ser observado atualmente no partido: algumas partes da AfD brincam com a ideia de se “transatlantizar”, seguindo o modelo de Giorgia Meloni na Itália, tornando-se assim aptas para governar. Essa tendência foi melhor representada pela participação da presidente do partido, Alice Weidel, na “Conservative Political Action Conference” de direita conservadora em Budapeste, em maio de 2025. Ali estiveram presentes as grandes figuras da direita europeia, que, em seu conjunto, não representavam a ruptura, mas a continuidade com a UE e o quadro da OTAN — só que agora não mais sob sinais liberais, mas sob sinais de direita conservadora. Isso não foi bem recebido pelos linhas-duras soberanistas da ala direita da AfD. Götz Kubitschek, o ideólogo da “nova direita”, escreveu em sua revista Sezession:
[…] a conferência da CPAC […], essa revista de tropas real-política transatlântica de grandes figuras patrióticas de partidos e lobbies em Budapeste, pela primeira vez com Weidel de forma proeminente no microfone, tudo cercado por israelenses conservadores e americanos judeus, que designo assim apenas porque não deixam a menor dúvida quanto à sua dupla lealdade. Há relatos de participantes dessa conferência […]. Esses relatos são, por um lado, evidências de uma mudança de rumo da AfD e, por outro, a crítica a tal mudança de rumo. Esse rumo é caracterizado pela orientação transatlântica, o alinhamento ocidental, uma separação clara da Rússia, o conservadorismo liberal, o estreitamento do problema da “estrangeirização” à imigração islâmica radical, a adoção da razão de Estado israelense, modelos comunitaristas e aquilo que, como “nacionalismo cívico”, ainda é pouco conhecido. Em outras palavras: esse não é um ponto de vista alemão. Mas: talvez ele seja, como ponto de vista que evidentemente é oferecido à AfD, um máximo realpolítico. Talvez seja necessário assumir um ponto de vista não decididamente alemão para sequer ganhar margem de manobra.¹⁰
Nisso se expressa todo o dilema da AfD em seu caminho ao poder de Estado. De um lado, a pressão crescente das instituições e da burguesia por adaptação ao Ocidente — aqui distorcido por Kubitschek de maneira antissemita. De outro, aqueles que querem se apegar a um “ponto de vista alemão” soberanista, mas talvez não consigam manter essa postura por motivos táticos, porque só por meio dessa adaptação se torna possível participar do governo. Kubitschek claramente quer alcançar mais do que apenas um governo de direita conservadora nos moldes dos governos ÖVP-FPÖ na Áustria, mas orientou todo seu projeto político para o uso e a corrosão gradual das instituições da república parlamentar por meio da AfD, e é regularmente criticado por essa tática pelos pequenos partidos fascistas como um conciliador. Portanto, é bem possível que os “realistas” (Realos) dentro da AfD prevaleçam assim que a questão da participação no governo se aproximar. Mas com isso a AfD se exporia a todas as coações e necessidades de governar uma grande potência imperialista, e seria forçada a revisões muito abrangentes de seu programa. Esse processo poderia prejudicar a AfD não apenas nas urnas, por se revelar apenas mais uma administradora do sistema — poderia até levar a sua cisão, pois é incerto se a ala fascista de Höcke aceitaria sem luta uma “melonização” do partido.
Precisamente nessa cisão da ala Höcke e numa cooperação com os setores “razoáveis” da AfD aposta, porém, uma parte crescente da burguesia alemã. No maior grupo de mídia alemão, a Springer, já se passou a bombardear quase diariamente o “muro corta-fogo”. A redatora-chefe do BILD, Marion Horn, escreveu recentemente num comentário:
O [Brandmauer] deveria manter a AfD pequena. Entretanto, todos os partidos se escondem atrás dele. Eles simplesmente não aprendem com seus próprios erros: infraestrutura quebrada, escolas decadentes, investimento insuficiente em pesquisa, defesa e no local de investimento, dinheiro demais para um Estado social cada vez maior e uma transição energética que muitos já vivenciam apenas como um fardo. É claro que a AfD precisa mudar. Fora com os radicais. Postura clara sobre UE e OTAN. Respostas claras sobre serviço militar, economia, segurança. Sem o Brandmauer, ficará mais desconfortável também para a AfD. Ela teria então de entregar resultados, não apenas berrar.¹¹
Um comentário do Handelsblatt estampou, no final de maio de 2026: “O muro corta-fogo contra a AfD fracassou politicamente”, e exigiu um trato pragmático com o partido: também governos minoritários burgueses tolerados pela AfD deveriam ser considerados. O riquíssimo fabricante de salsichas e dirigente de futebol Uli Hoeneß também declarou, no final de maio, numa entrevista à Spiegel, que “alguém como Höcke” não passaria “pela porta de sua casa”. Mas seria hora de deixar a AfD entrar no governo em um ou outro estado, para que pudesse se provar ou se desmascarar. O que Hoeneß, que é adepto de Friedrich Merz, propõe aqui parece ser o compromisso rumo ao qual a burguesia alemã está se encaminhando: deixar a AfD, num cenário controlado como um governo estadual, se defrontar com todas as contradições de governar, e ao final poder incorporá-la, como um partido transformado, ao gabinete federal — ou torná-la supérflua, ao provar sua incapacidade de administrar o Estado alemão.
Mas também pode acontecer que, a partir de determinado ponto, se os EUA continuarem trabalhando tão ativamente na própria desmontagem como grande potência, a alternativa soberanista representada pela ala direita da AfD se torne rapidamente uma alternativa realista — mesmo uma necessidade de sobrevivência — para a burguesia alemã, o que poderia proporcionar à AfD uma posição de negociação bem melhor para entrar no governo. Até lá, Höcke ainda está na “sala de espera do capital”.
A AfD entre grande e pequena burguesia
O objetivo da ala nacional-conservadora da AfD é permanecer como uma associação clássica reacionária de notáveis, que após a eleição se apoia apenas nas instituições do Estado burguês, nos parlamentos, na burocracia e na polícia. Eles querem ser respeitáveis representantes de interesses da grande burguesia e consideram a população apenas como massa de manobra eleitoral. Höcke e seus seguidores, por sua vez, querem fazer uma política de clientela para a pequena burguesia alemã, apoiam-se em seu movimento e não querem se associar totalmente nem a uma nem a outra classe principal. Precisam da aprovação da grande burguesia para chegar ao poder de Estado, mas consideram isso apenas um meio para cumprir seu próprio programa. Este externaliza todas as contradições da sociedade de classes como problemas decorrentes da “estrangeirização” e da “multiculturalização”. Ele quer, em vez disso, remover os elementos “estranhos” do “corpo do povo” (portanto, “remigração”) e combater a influência cultural nociva dos “ocupantes” americanos. Quer conduzir, em vez de uma política econômica internacionalmente entrelaçada, uma política econômica nacional que favoreça pequenas e médias empresas e aposte mais no mercado interno e na autarquia. Para restaurar a “unidade do povo alemão” perdida, a ala Höcke almeja uma unificação do capital (alemão) e do trabalho (alemão) por meio da ideologia nacionalista e de organizações corporativistas, seguindo o modelo da “Frente de Trabalho Alemã” (DAF). Todos os alemães devem prestar seu serviço à nação e ao Estado que ele se propõe a “salvar”. Esse programa é, evidentemente, utópico. Não se pode fazer a crise desaparecer com a nação num passe de mágica. Mas certamente se pode tentar mitigá-la com aventuras de política externa, o que em última instância poderia resultar numa nova guerra. Enquanto as forças völkisch ainda não tomaram o leme, porém, Höcke se coloca numa oposição praticamente fundamental — chegando a rejeitar até o serviço militar obrigatório, elemento central do projeto de grande potência alemão, “porque somos governados por loucos”.¹² Ele considera o estacionamento de soldados americanos na Alemanha como “ocupação”. Assim como as ideias do fascismo histórico, essas ideias da ala emergem da situação de classe pequeno-burguesa de seus portadores: antes de sua carreira partidária, Höcke era professor funcionário público; Andreas Kalbitz, consultor de TI autônomo; André Poggenburg dirigia uma oficina de reparo de radiadores de automóveis, hoje insolvente; e o atual homem da ala e porta-voz de política cultural da bancada da AfD na Saxônia-Anhalt, Hans-Thomas Tillschneider, era docente universitário. Dificilmente se encontraria um retrato mais representativo da pequena burguesia alemã.
A heterogênea pequena burguesia foi historicamente particularmente forte na Alemanha e, até bem entrada a história da República Federal, a maior classe social. A industrialização e racionalização em constante avanço, porém, reduziram progressivamente essa classe e diminuíram seu peso social. Ainda hoje ela é economicamente significativa, sobretudo na construção civil e na hotelaria e gastronomia, onde pequenas e médias empresas continuam a gerar dois terços do faturamento. No total, a participação no faturamento da pequena e média burguesia foi de cerca de 26% do faturamento total alemão em 2023. Um setor pequeno-burguês ainda importante hoje é o pequeno campesinato da Alemanha Ocidental, mantido vivo por meio de extensos subsídios muito além de sua data de validade histórica, e que, nos últimos anos, mostrou repetidamente, nos grandes protestos de agricultores, que continua a dispor de grande peso social, apesar de sua fraqueza numérica.
Os setores mais importantes da pequena burguesia alemã hoje são, além dos pequenos agricultores, pequenas empresas artesanais, proprietários de lojas e restaurantes, donos de estabelecimentos gastronômicos, prestadores de serviços de todo tipo — por exemplo, cabeleireiros —, autônomos, intelectuais, médicos e psicoterapeutas com consultório próprio, e advogados com escritório próprio. O funcionalismo público de alto escalão, bem como policiais e oficiais, poderia ser descrito como assalariados pequeno-burguesados. Devido à sua fragmentação social e à sua posição sempre incerta entre as duas classes principais nos tempos de crise, essas diversas camadas pequeno-burguesas não conseguem conduzir uma política de classe autônoma. Por isso oscilam sempre entre a subordinação à grande burguesia ou a subordinação ao proletariado. No processo de acirramento das contradições sociais, porém, grandes setores da pequena burguesia que antes estavam em bloco com a grande burguesia se desprendem, porque nada mais têm a esperar dela além da falência e do rebaixamento social. Quando não há um movimento operário forte capaz de canalizar seu descontentamento em direções revolucionárias, essas camadas empreendem a tentativa utópica de uma “terceira via” entre capitalismo e socialismo. Esse caminho fascista oscila entre a demagogia social contra os grandes conglomerados, tachados de internacionais ou estrangeiros, que “arruínam os preços”, e o medo de uma economia planificada e do rebaixamento social para a classe trabalhadora ou, passando por ela, para o crescente exército de desempregados.
Essas classes intermediárias, esbravejando simultaneamente contra cima e contra baixo, se apegam cada vez mais ao Estado como único salvador que deveria estabilizar sua situação com leis. Esse mesmo Estado deveria protegê-las, por um lado, da concorrência da grande burguesia e de créditos caros demais e, por outro, de sindicalistas incômodos que exigem salários altos demais ou até a socialização da empresa. Deveria pacificar de vez a contradição entre capital e trabalho, entre a qual são trituradas, dissolvê-la na nação. Por isso a pequena burguesia sempre foi a classe mais nacionalista, e continua sendo, hoje, a base social do fascismo dentro e fora da AfD. Mesmo que seu peso hoje seja menor do que antes, ela continua capaz de grandes explosões sociais, como demonstraram de forma impressionante os protestos de agricultores dos últimos anos.
A AfD e o proletariado
A AfD não representa os interesses da classe trabalhadora. No entanto, num país como a Alemanha, onde a classe trabalhadora constitui a esmagadora maioria da população, ela depende do apoio eleitoral de pelo menos alguns de seus setores. Mas a AfD não considera esses membros e eleitores como trabalhadores, e sim, em primeiro lugar, como eleitores e, em segundo lugar, como alemães. Ela não desenvolve uma política operária decididamente orientada por interesses, com organizações e programa específicos dos trabalhadores. No entanto, a AfD é, em parte, muito bem-sucedida entre os trabalhadores, especialmente na Alemanha Oriental — mas não só ali. A Fundação Hans-Böckler, por exemplo, calculou em 2019 que, na Saxônia, 41% dos votos na AfD vinham de trabalhadores, e 30% de autônomos.¹³
A isso se soma o fato de que os representantes políticos tradicionais da classe trabalhadora — sindicatos, a Esquerda (Linke) e o SPD — foram fortemente enfraquecidos no Leste. O grau de sindicalização e a cobertura de convenções coletivas são aqui significativamente mais fracos do que no Oeste, porque a DGB, durante os anos da reunificação, apoiou o desmonte da indústria da RDA, para impedir o surgimento de uma concorrência ao capital da Alemanha Ocidental e assim preservar sua própria posição como apêndice do imperialismo alemão. O Partido de Esquerda (Linke), que até poucos anos atrás ainda tinha seus redutos na Alemanha Oriental, se autodestruiu com suas numerosas participações em governos e os compromissos de sustentação do Estado associados a elas. Os eleitores migraram, em busca de uma alternativa política, para a AfD ou, mais recentemente, também para a BSW, que é uma reedição mais chauvinista da esquerda oriental. As participações imediatas da BSW nos governos da Turíngia e de Brandemburgo, porém, prejudicaram-na severamente nesse aspecto. A AfD é, aos olhos desses eleitores, a única força remanescente que ainda não “sujou as mãos”. Essa parcela majoritariamente precária de eleitores proletários da AfD na Alemanha Oriental limita a margem de manobra política da AfD. Se ela quiser levar adiante seu programa de cortes sociais brutais, deve contar com o fato de que grandes camadas de eleitores se afastarão dela. O mesmo poderia acontecer assim que surgir uma alternativa de esquerda viável. Com isso, o partido se revelará, também no que diz respeito à sua base eleitoral, mais fortemente como representante da pequena e média burguesia — o que já sugere a proporção acima da média de eleitores autônomos da AfD.
Além desses setores precários da classe trabalhadora, o outro foco da AfD está nas maiores e mais produtivas empresas industriais alemãs. Os trabalhadores da VW, BMW, Daimler e Benz estão na linha de frente na luta pelos mercados mundiais. Seu nível salarial, resultado de superlucros imperialistas parcialmente repassados a eles em decorrência de muitas lutas vencidas, é hoje muito acima da média. Por uma longa tradição de parceria social, esses trabalhadores se identificam fortemente com a direção de suas empresas. Representantes do capital e do trabalho ocupam paritariamente os conselhos de administração, e, como essas empresas são a garantia do sucesso alemão no mundo, os trabalhadores consideram seu dever defender o “local Alemanha” (Standort Deutschland). Os lucros desses gigantes do capital alemão são, de fato, o pressuposto de sua própria posição relativamente privilegiada no topo da pirâmide salarial. Esses trabalhadores, muitos dos quais já trabalham na mesma empresa por várias gerações, são em sua maioria pequeno-burguesados, possuem em parte diversos imóveis e também atuam como pequenos locadores. Tradicionalmente, esses setores da classe trabalhadora eram representados pela CDU/CSU.
Devido à crescente pressão concorrencial no mercado mundial, sobretudo por parte das montadoras chinesas, e aos cortes maciços de empregos como reação aos livros de encomendas vazios, cresce nesses setores o medo do rebaixamento social. Esse medo é ainda mais reforçado pelas (tentadas) medidas de política climática, também impulsionadas pela CDU sob Merkel — como o fim do motor de combustão, a taxação de CO₂ e a conversão da produção para carros elétricos, que exigem qualificações totalmente diferentes dos trabalhadores. A AfD, com sua demagogia social de tom nacionalista contra a “desindustrialização” e a “loucura climática”, consegue se conectar muito bem a esses medos e conquistou certa influência nessa classe trabalhadora industrial, o que também se expressou nos resultados crescentes do pseudo-sindicato de direita Zentrum nas eleições de conselhos de fábrica na primavera de 2026.
A AfD tenta desviar, de forma obscura, a energia potencialmente rebelde dos trabalhadores desesperados e assustados para campos alheios, como a política migratória. Nisso, tenta apoiar-se simultaneamente nos setores mais precários e mais privilegiados do proletariado. É claro que a AfD decepcionará essas massas, pois mesmo depois da deportação de alguns milhões de pessoas, os salários e as aposentadorias ainda não estarão um centavo mais altos, e os cortes e os preparativos de guerra continuarão sem freios.
Também a política sindical de direita do Zentrum ainda não conseguiu agrupar mais do que pequenas minorias para esse projeto. Isso também é comparável à política de fábrica dos nazistas por meio da “Organização Nacional-Socialista de Células de Fábrica” (NSBO), que no início dos anos 1930 chegou a alcançar aproximadamente 300 mil membros — número, porém, insignificante frente aos cinco milhões de membros da Federação Geral dos Sindicatos Alemães (ADGB). Nas eleições de conselhos de fábrica, a NSBO era, como o Zentrum hoje, mais um fenômeno marginal. Os resultados eleitorais da NSBO nas únicas eleições de conselhos de fábrica após a tomada do poder, em fevereiro de 1933, foram tão decepcionantes para a liderança do partido que, em seguida, os conselhos de fábrica foram simplesmente abolidos, ou incorporados à DAF, perdendo assim seu caráter de representações dos trabalhadores.
“Realos” vs. “Fundis”
De modo especular a sua divisão em política externa entre Leste e Oeste e a sua posição social entre todas as cadeiras, a AfD também se encontra numa encruzilhada internamente. “Realos”, que trabalham com todos os meios para uma coalizão com a CDU, e “Fundis”, que querem forjar da AfD um partido fascista, encontram-se numa trégua incerta. Enquanto um choque externo grave não perturbar esse equilíbrio relativo entre as facções dentro da AfD, o partido não é nem inteiramente um partido conservador de direita, nem uma segunda NSDAP. Ainda assim, a tendência geral de sua história partidária até agora é de uma radicalização cada vez maior para a direita.
Logo depois da fundação da AfD, ela se desenvolveu num ponto de atração para a direita radical, até então muito dispersa. Götz Kubitschek já entendera o potencial desse novo partido em março de 2013: o euro seria “o tema que abre a porta, e nossos temas vêm rufando atrás, se apenas colocarmos o pé na porta com rapidez e consequência suficientes”.¹⁴ Assim, já em 29 de março de 2014, fundou-se em Weimar a “Plataforma Patriótica”, cujo presidente se tornou Tillschneider. Essa rede, que marcou sobretudo as seções estaduais na Alemanha Oriental, tratou logo no início de 2015 de orientar a AfD para o movimento racista Pegida, que se desenvolvia. Vários políticos de alto escalão da AfD, entre eles Alexander Gauland e também Frauke Petry, buscaram igualmente a aproximação com a Pegida, na esperança de conseguir votos com isso, enquanto o radical de mercado Bernd Lucke se distanciava publicamente. Lucke também se opôs com sucesso, por enquanto, à filiação de Kubitschek ao partido. Este continua até hoje sem ser membro.
Em março de 2015, as forças nacional-alemãs sob a liderança de Björn Höcke e André Poggenburg redigiram, com a Resolução de Erfurt, a declaração fundadora da chamada “Ala” (Flügel), uma união não oficial da ala direita do partido. Exigiram preservar o “espírito de renovação” que se expressava no partido, porque a “AfD está num caminho que ameaça terminar relativamente rápido nas trilhas dos partidos estabelecidos”, segundo Höcke numa entrevista à Deutschlandfunk.¹⁵ Aqui se torna visível apenas em que tipo de partido Höcke e seus seguidores querem transformar a AfD. A resposta de Lucke, que queria manter o partido não como um partido de rua de extrema direita, mas como uma associação burguesa de notáveis, foi então a fundação da plataforma Weckruf 2015. Ambas as facções lutaram em seguida pela liderança do partido. No congresso de julho de 2015, houve uma votação decisiva entre Lucke e Petry. Petry e Jörg Meuthen, como co-presidente, que haviam se aliado com a direita, venceram. Lucke, assim como quase 2.000 outros membros, saiu do partido em seguida. A partir daí, o partido se radicalizou ainda mais.
Em janeiro de 2017, Björn Höcke, ao lado de Kubitschek, proferiu seu infame discurso no Ballhaus Watzke, no qual chamou o Memorial do Holocausto em Berlim de “monumento da vergonha” e, pouco depois, conclamou a uma “virada de 180 graus na política de memória”.¹⁶ Em seguida, a executiva do partido, sob pressão da opinião pública, iniciou um processo de expulsão contra Höcke, que, no entanto, se dissolveu no vazio. A presidente Petry começou então a criticar Höcke publicamente. O jornal de direita Junge Freiheit a citou com as palavras: “Björn Höcke se tornou um fardo para o partido com suas ações solo e constantes tiros pela culatra.”¹⁷ Ela não sobreviveu politicamente ao ataque aberto à “Ala”: no congresso de Colônia, em abril de 2017, ela antecipou sua derrota e retirou sua candidatura à liderança da chapa para as eleições ao Bundestag. Gauland e Weidel foram eleitos em seu lugar. Poucos meses depois, Petry também saiu do partido.
Até 2022, Meuthen permaneceu então como último representante proeminente da ala radical de mercado, na presidência. Ele ainda conseguiu, na primavera de 2020, levar a “Ala” a se dissolver oficialmente e excluir do partido seu segundo rosto, o presidente estadual da AfD em Brandemburgo, Andreas Kalbitz — mas essas medidas tiveram efeito apenas temporário e não conseguiram deter a tendência geral para a direita. Em janeiro de 2022, também Meuthen deixou o cargo.
O partido permaneceu, após a derrota definitiva da ala radical de mercado, marcado por sérias contradições políticas. No congresso de Riesa, em junho de 2022, onde Alice Weidel e Tino Chrupalla foram eleitos para as presidências que ainda ocupam hoje, houve sérias rupturas nas questões da UE e da Ucrânia. Nisso se cristalizou uma nova ala “realista” (Realo), orientada para a capacidade de governar, também apoiada pelos próprios presidentes. A ala “fundamentalista” (Fundi), por sua vez, em continuidade essencial com a “Ala” oficialmente dissolvida, rejeitou a UE como projeto “globalista” oposto aos Estados nacionais e buscou aproximação com a Rússia. O conflito não foi resolvido (até hoje), e o congresso foi encerrado antecipadamente.
De certa forma, a história da radicalização da AfD é única na República Federal. O paralelo já implicitamente traçado com os Verdes, de cuja linguagem partidária foram tomados os termos “Fundi” e “Realo”, só é útil sob sinais invertidos, pois os Verdes passaram por uma radicalização na direção oposta: de um partido de movimento pacifista, crítico da OTAN e ao menos fortemente influenciado por forças de esquerda, para um partido de Estado profundamente burguês do transatlantismo fanatizado. A AfD pôde seguir a direção oposta porque, primeiro, foi sempre mantida fora do aparelho de Estado pelo Brandmauer e, portanto, não esteve tão diretamente sujeita a sua pressão de adaptação, e porque, segundo, se conectou à consciência de uma grande minoria proletária que havia perdido a confiança na política até então vigente devido à crise do imperialismo alemão, somada ao desmonte acelerado dos sistemas sociais — enquanto simultaneamente não havia contrapressão correspondente vinda da esquerda.
A contradição entre “Realos” e “Fundis” continua sendo, até hoje, o conflito determinante dentro do partido, e se tornará ainda mais evidente na superfície assim que a participação no governo estiver próxima. O cerne desse conflito foi e continua sendo, menos a política migratória e as ideias delirantes fibrosas da “remigração”, como vieram à tona depois do encontro de Potsdam em novembro de 2023 (após o qual não houve cisão do partido), mas sempre a questão de soberanismo ou transatlantismo. Temas como a migração só levaram a disputas dentro da AfD quando havia dano de imagem a tratar.
Björn Höcke: o fascista parlamentar
Björn Höcke é hoje o rosto do fascismo alemão. Como presidente estadual da AfD na Turíngia e líder da bancada no parlamento estadual de Erfurt, Höcke construiu passo a passo sua seção estadual como uma espécie de “Gau modelo”, apoiando-se sempre primeiro nessa base de poder local nos embates internos do partido. Isso também tornou tão complicado expulsar Höcke do partido, porque a AfD certamente teria perdido, com sua saída, uma de suas seções estaduais mais fortes. Outra característica marcante do processo de radicalização do partido é que Höcke nunca quis assumir ele mesmo a liderança do partido — até hoje não é sequer membro da executiva. Sempre se encontraram representantes da ala nacional-conservadora do partido, dispostos a acompanhar os radicais de direita um trecho do caminho em seu avanço dentro do partido, servindo de rosto público para eles, enquanto se apoiavam nos votos da “Ala”. Depois, após algum escândalo (uma saudação hitlerista deliberadamente posicionada e um comentário sobre “culto à culpa”), esses presidentes, sobressaltados pela crescente pressão da mídia e dos outros partidos, tentavam recuar, e nesse processo eram empurrados para fora do partido e substituídos por alguém ainda mais à direita, disposto a marchar ainda mais um trecho do caminho com a “Ala”.
Essa estratégia de uso mútuo se baseia na percepção de que os líderes da “Ala” apareceram, de certa forma, cedo demais no palco da história. As condições alemãs simplesmente ainda não estão maduras para um hitlerismo aberto. Negar publicamente o Holocausto hoje, ou pior, elogiá-lo abertamente, fazer saudações hitleristas e se referir de forma positiva à Wehrmacht, à SA e à SS não levaria à construção de um partido de influência de massas. Esses senhores entenderam isso, e também abandonam todos os seus companheiros de convicção que se arriscam retoricamente demais, como aconteceu, por exemplo, com o ex-cabeça de chapa europeu Maximilian Krah. Este havia, em maio de 2025, defendido a SS. Isso levou, apesar das sanções contra Krah, a que outros partidos de direita soberanistas na UE, como o Rassemblement National na França, se distanciassem da AfD, e o partido está atualmente bastante isolado no plano europeu. Depois desse desastre de relações públicas, os senhores Höcke e seus seguidores certamente se sentiram reforçados em sua tática de usar por mais um tempo a máscara burguesa que fala de modo respeitável e democrático. Retoricamente, moderaram-se, ao mesmo tempo em que introduziram deliberadamente termos como “remigração”, cujo significado pode ser radicalizado arbitrariamente, junto com as condições, até o genocídio. Ao mesmo tempo, esses representantes da ala nacional-conservadora conseguem, apesar de estarem indubitavelmente em minoria no partido, disciplinar repetidamente a ala Höcke. Para isso, apoiam-se mais em forças fora do partido: na mídia, na pressão da burguesia e dos outros partidos. Essa disciplina, até agora, a ala Höcke teve de aceitar, se não quisesse abandonar a aliança ainda necessária que lhe confere força. Assim, “Realos” e “Fundis” tentam usar um ao outro, e nisso reside o segredo de sua unidade e sinergia até agora.
A estratégia de Höcke em relação ao Estado visa, dada a ausência de um movimento de massas fascista, conquistar as instituições do Estado burguês pela via eleitoral e reformá-las por dentro. Ele exige a “despolitização” da administração e do judiciário, que, na tradição da Alemanha integrada à OTAN, de fato se opõem ao projeto soberanista da AfD e se apegam a uma noção cívica de povo. O objetivo é a conquista de certos postos no aparelho de Estado, sendo a polícia, os serviços de inteligência, as escolas e as universidades os alvos mais cobiçados — daí a mira, primeiramente, na ocupação dos ministérios do Interior e da Educação. Isso deve iniciar um processo de reforma que, gradualmente, transformará todo o aparelho de Estado numa Alemanha nacional, baseada numa noção “racial” de povo. Nisso, a participação em governos estaduais e, no horizonte, federais, é o eixo central dessa estratégia. Numa entrevista que Höcke deu em novembro de 2025 à publicação próxima à AfD, Deutschland Kurier, ele declarou que, para iniciar essa “Renovatio Germaniae”, para libertar o “povo alemão” de sua “casta política que se tornou disfuncional”, “precisamos chegar à responsabilidade de governo o mais rápido possível” — primeiro no nível estadual.¹⁸ Em seguida, ele descreveu, usando o exemplo histórico do golpe da Prússia de 1932, como imagina a tomada do poder governamental e quais lutas espera em decorrência.
O chamado “golpe da Prússia” refere-se à destituição, pelo governo do Reich, do gabinete social-democrata liderado pelo primeiro-ministro Otto Braun no Estado Livre da Prússia. A Prússia havia sido governada por anos por uma coalizão de SPD, DDP e Zentrum, mas, após as eleições estaduais de 24 de abril de 1932, não se conseguiu mais formar maioria. O NSDAP e o KPD já eram fortes demais e conseguiram impedir uma nova formação de governo. Por meio de uma alteração precavida no estatuto, Braun conseguiu vincular a destituição do governo a uma maioria de dois terços, de modo que seu gabinete pôde permanecer no cargo em regime de gestão de transição, mesmo depois de ter perdido sua maioria parlamentar. O chanceler do Reich Franz von Papen, então, interveio nas relações internas do Estado Livre e convocou o NSDAP a formar um novo governo junto com o DNVP e o Zentrum. O NSDAP, porém, diante de seus grandes sucessos eleitorais em todo o Reich, mostrou-se intransigente e caminhava para um governo próprio isolado. Papen buscou então um pretexto para derrubar o governo e substituí-lo por um comissário do Reich, como já havia sido testado no outono de 1923 com os governos operários de SPD e KPD na Saxônia e na Turíngia. Encontrou a oportunidade no “Domingo Sangrento de Altona”, em 17 de julho de 1932.¹⁹ Ali houve confrontos entre comunistas e nazistas. Sob o pretexto de que o governo prussiano teria perdido o controle da situação política, Papen declarou, apoiando-se num decreto de emergência de Hindenburg, o governo prussiano destituído em 20 de junho, decretou estado de exceção e transferiu o poder executivo à Reichswehr.
Essa ação bonapartista, tão juridicamente questionável quanto as execuções do Reich em 1923, Höcke agora desenha como cenário do que poderia acontecer caso a AfD assuma o governo num Estado federado, e menciona possibilidades de como poderia organizar sua “defesa”. Um governo da AfD primeiro enfrentaria um bombardeio de “sociedade civil colorida” e imprensa; se isso não fosse suficiente, o governo federal, com a aprovação do Conselho Federal (Bundesrat), poderia decretar a “coerção federal” (Bundeszwang) segundo o Artigo 34 da Lei Fundamental, medida que pode ser empregada contra Estados que violem suas obrigações para com a Federação. Com isso, o governo federal poderia retirar recursos financeiros do Estado e até, se necessário, colocar a polícia estadual sob seu comando. Também a polícia de outros Estados poderia ser empregada numa “execução federal” desse tipo; apenas o emprego das Forças Armadas (Bundeswehr) é excluído pela Lei Fundamental.
A resposta estratégica de Höcke a tal cenário é, “além da defesa” — que ele não define mais detalhadamente —, “apresentar resultados o mais rápido possível”, capazes de dar mais impulso à AfD junto à população. E como Höcke considera a “migração como a mãe de todos os problemas”, pode-se presumir que isso significaria, sobretudo, uma implementação muito rápida de seus planos de “remigração”. Não está claro como Höcke se posiciona quanto à política social, da qual depende grande parte de sua base eleitoral proletária. Ataques em larga escala aos trabalhadores dificilmente poderiam ser compensados, mesmo entre trabalhadores atualmente incitados racialmente, por uma deportação em massa, e constituem o principal obstáculo para sua estratégia atual de conquista do Estado pela via das eleições.
Até que ponto tal cenário do “golpe da Prússia” é realista é outra questão. Provavelmente a burguesia alemã e seu governo adotariam, primeiro, uma postura de espera. É interessante que Höcke, nessa analogia histórica, não se identifica com o NSDAP e sua estratégia de conquistar todo o poder por meio de uma participação no governo do Reich. Em vez disso, ele quer colocar seu bastião, a Turíngia, ou, após as próximas eleições estaduais, a Saxônia-Anhalt, em posição de confronto com a Federação. Só depois, quando a posição da AfD estiver consolidada no plano estadual, quando houver vários Estados com primeiros-ministros da AfD, é que ele quer arriscar o salto para o plano federal. Por um lado, essa concepção estratégica se deve ao fato de que a Alemanha é um Estado federal, e sem uma maioria no Bundesrat, uma virada política fundamental, incluindo mudanças constitucionais, dificilmente é possível. Por outro lado, essa tática “reformista” se deve à situação social ainda relativamente estável — é, por assim dizer, uma solução de emergência. Justamente porque o quadro da ordem republicana ainda está tão estável, e porque, por outro lado, ainda não existe uma luta de classes tão acirrada a ponto de já se ter formado um polo abertamente contrarrevolucionário nas ruas, a “marcha pelas instituições” continua sem alternativa para Höcke e seus companheiros de convicção. Ao fascista subjetivo, cujo momento ainda não chegou, que ainda espera na “sala de espera do capital” por sua chance e que ainda não dispõe de um movimento de massas fascista combativo nem de uma SA, resta apenas a tática de forjar, a partir das unidades de polícia estadual, uma tropa semelhante à SA, complementando-a, aos poucos, com auxiliares policiais fascistas das próprias fileiras. Com todas as limitações constitucionais que essa tentativa trará consigo.²⁰
Nisso, porém, a AfD, mesmo no plano estadual, evidentemente não estará na posição confortável de simplesmente remodelar todas as relações segundo sua vontade. Um governo próprio isolado é improvável, pois seu reservatório de eleitores já está bastante esgotado. Além disso, o próprio aparelho de Estado tem vida própria e é uma coisa recalcitrante. Os ministros da AfD colocados à frente dos antigos ministérios sentirão isso rapidamente. Seria necessária uma verdadeira depuração dos aparelhos e uma substituição dos funcionários republicanos por seus próprios seguidores para conseguir, a longo prazo, atrair os poderes para o próprio lado — algo que, por sua vez, deve ser extremamente complicado enquanto as condições ainda não estiverem tão acirradas a ponto de se poder simplesmente passar por cima do direito vigente sem consequências por parte dos tribunais e da Federação. O fato de que o ex-professor Höcke, embora afastado, continua sendo funcionário público, e todas as tentativas de demiti-lo do serviço público até agora terem fracassado, deve dar uma ideia de quão complicada será essa “Renovatio Germaniae”, ou primeiro a “Reformatio Thuringiae”, nas condições dadas. Independentemente, portanto, da consciência fascista subjetiva de Höcke e de seus próprios objetivos políticos, um governo estadual da AfD ainda estará tão preso na camisa de força da ordem republicana que ainda não poderá ser mais do que um governo “normal” de direita conservadora, com margem de manobra relativamente limitada. Mas a AfD certamente encontrará meios e caminhos para pelo menos iniciar a reforma desejada da polícia, do judiciário e da educação.
Esse cenário tem, de fato, uma correspondência histórica na primeira participação do NSDAP num governo estadual, no Estado Livre da Turíngia em 1930. Sobre os escombros do governo operário de 1923 e a profunda decepção associada a ele entre as massas, as relações políticas ali foram, passo a passo, deslocando-se para a direita. Primeiro, a coalizão contrarrevolucionária “Ordnungsbund” da Turíngia, composta pelo DVP, a Liga Rural da Turíngia (agrária-reacionária), o DNVP e o DDP, assumiu, apoiando-se na Reichswehr, o governo em fevereiro de 1924. Seguiram-se então outros gabinetes, aproximadamente nessa mesma constelação, até que o primeiro-ministro Erwin Baum (Liga Rural) incorporou, em janeiro de 1930, dois ministros do NSDAP a seu gabinete. O futuro ministro do Interior do Reich, Wilhelm Frick, recebeu os ministérios do Interior e da Educação, e Willy Marschler tornou-se conselheiro de Estado sem pasta própria. Frick começou imediatamente, por decreto, a depurar o aparelho de funcionários públicos, centralizar a polícia e preenchê-la com nazistas confiáveis, demitir do serviço escolar professores social-democratas e comunistas, e instalar o nazista Paul Schultze-Naumburg como diretor da Escola Superior de Artes de Weimar, bem como o nazista versado em “ciência racial” Hans F. K. Günther como professor na Universidade de Jena. O projeto durou apenas cerca de um ano e foi então derrubado por um voto de desconfiança, mas essa primeira participação no governo foi um projeto-modelo de Hitler, que, após sua tentativa fracassada de golpe em 9 de novembro de 1923, compreendera que um movimento fascista precisa, em seu caminho ao poder de Estado, primeiro preparar as condições para sua ascensão ao poder e cortejar a classe dominante com uma política consequentemente antissocialista, para chegar às alavancas do poder de Estado. Certamente a reforma que um Höcke poderia empreender hoje seria ainda mais modesta, de modo que essa analogia é apenas parcialmente conclusiva. Mas ela traça, ao menos em seus contornos, o cenário esperado caso a AfD chegue a um governo estadual.
Höcke, Kubitschek e cia., portanto, não devem ser subestimados, mesmo que sua política, nas circunstâncias sociais atuais, ainda não possa assumir, para usar as palavras de Kubitschek, um “ponto de vista decididamente alemão [isto é, fascista, L.S.]”. Não obstante, representam a ponta de lança da reação alemã — apenas não são eles mesmos senhores de suas circunstâncias. Mas são, de todo modo, perigosos. Esses homens dedicaram sua vida ao projeto da contrarrevolução, e são pacientes. Kubitschek escreveu, após o sucesso eleitoral da AfD nas eleições estaduais em vários Estados federados em setembro de 2019, na Sezession:
Sim, na verdade quase tudo já está presente para uma virada política na Alemanha: eleitores, descontentamento, contornos de um programa, mandatários em todos os níveis, uma equipe que chega aos milhares, um entorno cada vez mais diferenciado, teoria, livros e revistas, iniciativas, fundações, conceitos, rostos apresentáveis. Quando o próximo grande choque frio da realidade atingir os alemães, haverá para o descontentamento um reservatório muito melhor e mais amplamente organizado do que havia quatro ou cinco anos atrás. Isso era inimaginável há dez anos, e agora está aí e não pode mais ser simplesmente destruído. Paciência, portanto, paciência, paciência e mais uma vez paciência. Fura-se devagar, isso todos nós sabemos.²¹
Uma paciência semelhante devem ter também aqueles que, ao contrário, dedicaram sua vida à revolução. Na luta, precisam aprender a forjar sua organização e se preparar para o inevitável combate decisivo com a contrarrevolução.
A AfD e o movimento fascista de rua
Por longas décadas, o fascismo militante de rua existiu na República Federal como um meio amplamente isolado de pequenas e diminutas organizações de extrema direita. Na antiga República Federal, eram significativas apenas as associações de expulsos (Vertriebenenverbände), repletas de antigos nazistas. Também em fraternidades estudantis (Burschenschaften), clubes esportivos e de tiro se reuniam nazistas. Entre eles havia um pântano de organizações, editoras, clubes esportivos, torcidas de futebol e outras entidades bastante diversas, que se identificavam mais ou menos com a ideologia fascista. Característica dessa fase da história era a fragmentação política da direita fascista. Ali disputavam fascistas unitaristas e separatistas sobre se deveria haver uma Alemanha fascista unida, ou se a Baviera (ou, em tempos mais recentes, a Saxônia) não deveria, afinal, “se livrar de Berlim”. Ali disputavam hitleristas convictos com strasseristas, negacionistas do Holocausto com defensores do Holocausto, e “frentistas transversais” (Querfrontler) com puristas.
De tempos em tempos, alguma organização neonazista conseguia crescer a certa proeminência política, como o NPD no final dos anos 1960, como reação ao crescimento global das lutas de classes, ou os Republikaner nos anos 1990, como reação ao colapso causado pela restauração na Alemanha Oriental. Mas esses voos altos eram temporalmente limitados e não conseguiam estabelecer o fascismo como movimento de forma duradoura nas ruas alemãs. Havia, porém, sempre episódios mais curtos em que o fascismo também aparecia como movimento militante de rua e demonstrava seu potencial destrutivo persistente.
Os grupos fascistas de “esporte de defesa” (Wehrsportgruppen), que entraram na moda como reação a 68, cometeram, ao longo de anos, atentados políticos. Com a desmontagem da economia planificada na RDA e o consequente colapso econômico catastrófico (o desemprego era de 15,4% em 1993), começaram no Leste os chamados “anos dos tacos de beisebol”. Jovens deslocados socialmente e desesperançados se aglomeravam em turbas violentas e caçavam estrangeiros. Em Rostock-Lichtenhagen, em agosto de 1992, uma turba de várias centenas de radicais de direita incendiou um abrigo de refugiados. Mais de 3.000 moradores assistiram jubilosos e atrapalharam os bombeiros e equipes de resgate. O pogrom fez escola. Em outras catorze cidades (da Alemanha Oriental) houve ataques a solicitantes de asilo em 1992. Quando, em novembro do mesmo ano, em Mölln, atentados incendiários contra duas casas habitadas por famílias turcas deixaram três mortos e nove feridos graves, e pouco depois, em maio de 1993, em Solingen, outro atentado incendiário matou cinco pessoas de origem turca, o clima social começou lentamente a se voltar contra a turba de rua. Manifestações com correntes de velas, com centenas de milhares de participantes, marcaram o fim desse fantasma. Neonazis organizados também participaram desses pogroms; muitos deles se mudaram para a Alemanha Oriental após a reunificação e construíram ali suas organizações entre os jovens desempregados incitados racialmente.
Também os membros do posterior “Núcleo Nacional-Socialista Clandestino” (NSU) se radicalizaram nessa fase e cometeram, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, nove assassinatos de migrantes, um assassinato de uma policial e dezenas de outras tentativas de assassinato. Do meio deles também veio o futuro assassino de Walter Lübcke. Só no final de 2011 o NSU pôde ser localizado e desmontado. O terrorismo de direita dos anos 1970 e 1980, portanto, nunca havia realmente desaparecido.
Dez anos depois de Mölln e Solingen, fundou-se a AfD. Ela nasceu num clima incendiado racialmente pelas graves consequências da crise de 2008/9, e assumiu imediatamente as ideias de Thilo Sarrazin em “A Alemanha se autodestrói”. No partido também afluíram neonazis que anteriormente atuavam em organizações bem diferentes do pântano fascista. No final de 2014, Lutz Bachmann, que exibia a saudação hitlerista, fundou em Dresden o movimento Pegida. A Pegida atraiu, nos meses seguintes, dezenas de milhares de pessoas, que protestavam contra uma suposta “islamização” e o afluxo de refugiados das zonas de guerra da Síria, do Iraque e do Afeganistão. Ramificações se fundaram em toda a Alemanha e, encorajados pelo clima racista, os atentados contra abrigos de refugiados voltaram a aumentar rapidamente. Se, segundo a Pro Asyl, houve 199 crimes contra abrigos de refugiados em 2014, esse número cresceu para 924 em 2015. Em muitos lugares da Alemanha Oriental, o NPD fundou iniciativas “Não ao Abrigo” (“Nein zum Heim”). Isso culminou, em 2016, em Bautzen, num atentado incendiário contra um abrigo de refugiados, e em setembro neonazis de Bautzen caçaram refugiados menores de idade em plena rua.
Em 2015, também foi fundado na Alemanha o Movimento Identitário (IB), que já existia desde 2012 na Áustria. Construiu-se a partir do movimento racista e apareceu repetidamente na imprensa com bloqueios e ocupações. Os identitários se esforçaram, além disso, para culturalizar ao máximo seu racismo, e se conectaram habilmente, com seu conceito de “etnopluralismo”, à guerra cultural geral contra o islã. Dessa variante modernizada do racismo, Höcke e cia. também aprenderam bastante. Sua palavra de ordem política hoje (ainda) não é, em primeira linha, “luta racial”, mas sim luta contra a “multiculturalização”.
Nas chamadas “caminhadas de segunda-feira” (Montagsspaziergänge), que acompanhavam os pogroms e atentados, neonazis marchavam ao lado de políticos de destaque da AfD. Höcke buscou desde o início, demonstrativamente, a proximidade com a turba de rua, enquanto outros políticos da AfD, como Lucke ou Petry, olhavam com desdém para o movimento, considerando-o pobre demais, radical demais de forma aberta. A então presidente saxônica da AfD, Petry, via, para fins de captação de votos, “interseções” com a Pegida, mas seu foco político sempre esteve no parlamento, não na rua. O movimento de massas racista deu ânimo às forças fascistas dentro das estruturas da AfD e influenciou decisivamente o primeiro embate de facções entre Höcke e Lucke. Sem a autoconfiança que a ala direita extraiu de abrigos de refugiados em chamas, não seria possível explicar por que Lucke foi derrotado tão rapidamente em toda a linha e expulso do partido. A turba racista atuou como catalisador, acelerando o desenvolvimento da AfD para a direita.
Especialmente na ala juvenil, que tinha seus tentáculos mais diretamente ligados ao movimento racista, ocorreu em 2015 uma revolução política. No congresso federal da Jovem Alternativa (JA) em janeiro de 2015, o radical de mercado Philipp Meyer ainda havia conseguido se impor contra o representante da ala Höcke, Markus Frohnmaier. Mas já em maio, a convenção federal da JA deu um golpe contra Mayer, porque este havia apoiado o processo de destituição de Höcke e o Weckruf 2015 de Lucke. Em junho, então, Mayer e cerca de mais 40 membros da ala Lucke saíram da organização juvenil. A JA se tornou, assim, até sua dissolução forçada em 2025, um bastião da ala Höcke. Tinha grandes sobreposições de pessoal com fraternidades estudantis (Burschenschaften) e mantinha contatos tanto com o IB quanto com diversas organizações de apoio de direita.²² Com isso, funcionava como charneira da AfD para dentro do pântano fascista. Fascistas parlamentares e vândalos de rua estavam conectados por essa correia de transmissão política.
Após o refluxo do movimento Pegida ao longo do ano de 2016, o avanço dos fascistas dentro da AfD também desacelerou. O novo presidente Meuthen conseguiu manter Höcke sob controle durante anos, e forçou repetidamente os fascistas a autonegações, distanciamentos e, no início de 2020, até à autodissolução formal de suas estruturas. Mas o regime liderado por Meuthen se manteve exatamente enquanto não houve nenhum movimento de rua de direita relevante em que Höcke pudesse se apoiar. Um novo impulso na radicalização da AfD surgiu com o início da pandemia de Covid e a ascensão do movimento Querdenken, do qual a AfD também participou. A princípio, a incerteza da pandemia levou a AfD a perder força nas pesquisas, e a CDU, que prometia estabilidade, ganhou massivamente. Os lockdowns da Covid atingiram duramente sobretudo a pequena burguesia alemã, que enlouqueceu literalmente com isso. Isso foi água no moinho da ala Höcke. O movimento Querdenken, que surgiu daí, não era em si fascista, mas trazia um caráter de classe pequeno-burguês nitidamente claro, e tinha, por seu obscurantismo e sua crença amplamente difundida em teorias conspiratórias, pontos de conexão favoráveis para a agitação fascista. Os fascistas voltaram a ter vento a favor internamente no partido, e Meuthen foi perdendo, ao longo dos anos de 2020 e 2021, gradualmente suas posições no partido. No início de 2022, ele foi finalmente empurrado para fora do partido.
A ala Höcke não apenas se orienta para as turbas racistas de rua, ela depende essencialmente delas para o sucesso de seu projeto político. No pogrom se forja o movimento fascista, e para a estratégia de Höcke o cultivo desse “campo de apoio” sempre teve importância especial. Ali não devem apenas ser formados futuros quadros da AfD, mas também as células germinativas de uma versão moderna da SA. Assim que os homens de Höcke chegarem a postos ministeriais, tentarão transformar o movimento fascista de rua em milícias cidadãs ou outras polícias auxiliares, conferindo-lhes assim o caráter de paramilitares tolerados.
Pequenos partidos fascistas, como o “Terceiro Caminho” (Der III. Weg), “die Heimat” (ex-NPD) ou os “Freie Sachsen” (Saxões Livres), desprezam a AfD como “partido do sistema” — acusando-a, por exemplo, de se comportar de forma “não alemã” em 8 de maio, ao se referir positivamente ao Exército Vermelho. Mas eles também se beneficiam do clima político alterado que a ascensão da AfD trouxe, e são encorajados por suas altas pesquisas eleitorais a entrar em ação eles mesmos. Em 2025, por exemplo, no contexto do debate racista sobre a “paisagem urbana” (Stadtbild) e dos até então mais altos resultados eleitorais da AfD nas eleições antecipadas para o Bundestag, houve centenas de ataques a paradas do orgulho LGBT (CSD), como, por exemplo, em Bautzen, onde 680 neonazis uniformizados atacaram o CSD. Tais ações são possibilitadas pelo clima racista que Merz e a AfD preparam, mas a iniciativa é tomada então pelos neonazis.
Em parte, pequenos partidos como os Freie Sachsen, que vêm da tradição do fascismo separatista, já conseguem até superar a AfD nas urnas. Nas eleições municipais de junho de 2026, em Aue-Bad Schlema, na região do Erzgebirge, os candidatos dos Freie Sachsen e da CDU disputaram uma corrida acirrada, enquanto o candidato da AfD já estava fora da disputa. Isso mostra que a AfD, no desenvolvimento do fascismo alemão, só pode ser sempre uma estação intermediária, que mais cedo ou mais tarde será superada. Além disso, mostra que o pântano fascista e o partido de Estado externamente respeitável estão numa relação dialética entre si.
A AfD: contrarrevolução realmente existente
Do que foi dito, fica claro: a AfD, em sua forma atual, é um partido de transição, que não é claramente nem um partido fascista, nem claramente um partido conservador de direita nos moldes do DVP ou do DNVP — sendo que, para um novo DNVP, já não há mais base social, pois a nobreza agrária do leste do Elba foi duradouramente exterminada pelo Exército Vermelho. Alguns resquícios dessa nobreza expropriada certamente ainda se encontram na AfD, representados, por exemplo, por Beatrix von Storch. O partido contém ambos os momentos e continuará a se desenvolver num ziguezague contraditório. Sua próxima etapa de desenvolvimento começará com a entrada de ministros da AfD em governos estaduais. Isso colocará o partido diante de desafios até agora desconhecidos, e acirrará ainda mais a contradição entre tendências de adaptação e de radicalização. Nisso, o desenvolvimento interno da AfD representa o desenvolvimento das relações políticas no plano geral. A Alemanha também está em transição de uma sociedade de classes pacificada pela parceria social para uma luta de classes aberta. A crise orgânica do imperialismo alemão se combina com uma série de choques externos e empurra a burguesia alemã cada vez mais além do quadro tradicional de suas representações políticas. A busca da burguesia alemã por soluções autoritárias para a crise transformará tanto a CDU quanto a AfD, que precisará decidir cada vez mais se quer agir a favor ou contra a burguesia alemã.
Nisso, a burguesia também será cada vez mais colocada diante da escolha de se pode continuar no caminho integrado à OTAN e à UE, ou se caminha mais fortemente para alternativas soberanistas e um acordo com a Rússia. A entrada da AfD em governos estaduais seria, de todo modo, um enorme salto bonapartista e teria grandes repercussões sobre a correlação de forças em toda a Alemanha, além de desestabilizar a base do governo federal. Uma queda de Merz seria, com isso, ainda mais provável. O próximo governo não teria outra escolha senão agir de forma mais fortemente bonapartista e tentar, por meio de decretos de emergência, os ataques necessários à parceria social. Isso, por sua vez, provocaria resistência da parte do movimento operário, hoje mantido tranquilo pelos aparelhos burocráticos do DGB. Tendências tímidas nessa direção já são perceptíveis: o Partido de Esquerda, por exemplo, organizou manifestações contra os cortes sociais, que, porém, deixaram de fora a crítica aos preparativos de guerra e, por isso, tiveram pouca participação. Mas, se a classe trabalhadora quiser rebater os ataques, mais cedo ou mais tarde será forçada à greve. Isso, por sua vez, tornará necessária a resistência dos capitalistas e de seus aparelhos estatais de repressão. E assim a contradição se acirrará, e também a AfD sentirá esse desenvolvimento. Höcke ainda não reivindica a liderança do partido; um partido sem “Realos”, ou seja, um partido claramente fascista, ainda não teria, nas condições atuais, chance de conquistar uma base de massas. Os “Realos” e os “Fundis” tentam, portanto, se usar mutuamente. Essa aliança de conveniência terá de se romper algum dia. A AfD, em sua forma atual, não existirá mais daqui a alguns anos. A AfD é justamente a única forma possível e realmente existente da contrarrevolução hoje. Ela é a ponta de lança da reação alemã, ainda não um partido claramente fascista em si mesmo, mas dela emergirá, ao longo das lutas que virão, cada vez mais claramente um polo fascista, que em algum momento terá de se estabelecer como partido fascista autônomo. Esse polo certamente emergirá de uma fusão da ala Höcke, uma vez cindida, com grupos e pequenos partidos do pântano fascista. O mesmo acontecerá do lado da revolução. O ressurgimento do Partido de Esquerda desde o início de 2025 expressa a crescente vontade de resistência das massas contra a ofensiva do capital, independentemente de todas as suas contradições e mecanismos burocráticos de desvio. Sob as condições de uma luta de classes radicalizada, ele também terá de se romper, e, num processo de cisões e fusões, se cristalizará um novo polo revolucionário, que, para além das relações da república burguesa, tenderá a uma solução socialista para a crise.
Contra dois tipos de unilateralização
A ascensão da AfD tem sido respondida, nos últimos anos, repetidamente com mobilizações massivas de contrapeso. Já é quase uma tradição política que os congressos da AfD, onde quer que aconteçam, se deparem com manifestações de massa e bloqueios, e que toda tentativa de integrar a AfD encontre resistência acirrada das massas. Em fevereiro de 2020, o deputado do FDP Thomas Kemmerich foi eleito primeiro-ministro no parlamento estadual da Turíngia com votos da AfD. Em seguida, houve um clamor por toda a República Federal, e grandes manifestações de massa colocaram tanta pressão sobre Kemmerich que ele teve de renunciar pouco depois. Depois que, no início de 2024, a divulgação de uma investigação da Correctiv sobre o encontro de “remigração” em Potsdam desencadeou novamente grandes protestos de massa, a aliança de ação Widersetzen organizou, em maio de 2024, uma manifestação com cerca de 50 mil participantes contra o congresso da AfD em Essen. No início de 2025, ocorreu então a segunda grande tentativa de dar um salto na integração da AfD ao regime. O chanceler designado Friedrich Merz tentou, com votos da AfD, empurrar a racista “Lei de Limitação do Afluxo” (Zustrombegrenzungsgesetz) pelo Bundestag já derrotado nas urnas. Contra isso, centenas de milhares de pessoas foram às ruas sob o lema “Nós somos o Brandmauer”. Isso colocou o parlamento sob tanta pressão que a lei foi rejeitada no Bundestag e, com isso, está fora de pauta. Uma vitória das massas e, ao mesmo tempo, um mau presságio para a chancelaria de Merz. Ainda em 2025, ocorreram em Riesa e Gießen mais bloqueios de massa contra a AfD e sua organização juvenil recém-fundada, a Generation Deutschland. Participaram, respectivamente, 15 mil e 50 mil pessoas. Para o congresso federal da AfD no início de julho de 2026, em Erfurt, a aliança anunciou novos protestos e bloqueios. Sindicatos também participam dos protestos.
Para o Widersetzen, a AfD é um “partido fascista em seu núcleo” (im Kern faschistische Partei), ou, como diz o documento estratégico da aliança de 2025, um “partido fascista em grande parte” (in weiten Teilen faschistische Partei). Com isso, o Widersetzen e seus mentores políticos na rede Marx21 acentuam demasiadamente, dentro da contradição que constitui a AfD, o momento fascista, abstraindo assim das condições sociais atuais, que ainda impossibilitam uma vitória plena desse lado. O alarmismo daí derivado, do tipo “faltam cinco minutos para 1933” — sobre o qual nos detivemos aqui longamente — serve para justificar uma aliança o mais ampla possível de todos os adversários da AfD, sob o lema “Todos juntos contra o fascismo”, com o objetivo de proibir a AfD. Essa frente popular de todos os “democratas”, segundo a vontade do Widersetzen e da Marx21, vai do Partido de Esquerda, passando por sindicatos e igrejas, até a CDU. Se a classe trabalhadora seguir essa lógica do Brandmauer, torna-se dependente de seus aliados sustentadores do Estado, isto é, dos partidos da burguesia, que no Brandmauer articulam, em primeira linha, a contradição entre dois modos diferentes de administrar o imperialismo alemão. Esses partidos têm grandes interseções com o programa da AfD e, caso esta se “melonize”, se coligarão com ela de bom grado, para abrir totalmente as comportas da ofensiva do capital e da restauração da “capacidade de guerra” alemã. Os trabalhadores, por sua vez, não podem realizar seu próprio programa — que precisa incluir a defesa incondicional contra essa ofensiva — com esses aliados. O lema “Todos juntos contra o fascismo” prende a classe trabalhadora aos partidos e instituições da república burguesa. Ora, são justamente esses partidos, e as instituições por eles controladas, que, no último governo e no atual, impulsionam os ataques ao Estado social, a “capacidade de guerra” e o esvaziamento do direito de asilo — não a AfD. Esta, até agora, ainda não deportou uma única pessoa. Além disso, tal frente popular com partes da classe exploradora obriga os explorados a renunciar à sua arma mais poderosa na luta contra a virada à direita e a militarização: a greve política de massa. Em vez disso, é necessária uma frente única de todos os sindicatos e partidos operários, que defenda em conjunto os interesses da classe trabalhadora sem concessões, tanto contra a AfD quanto contra o governo. Um governo da AfD só poderá ser detido por meio de greves políticas generalizadas.
Do outro lado, dentro da esquerda social, há também de vez em quando vozes que, invocando a política da AfD hoje de fato (ainda) não fascista, querem apresentar esse partido, em princípio, como uma segunda CDU — e que, especularmente, consideram os protestos do Widersetzen como inteiramente estatistas e, portanto, não dignos de apoio. Quem pensa assim acentua demasiadamente, dentro da contradição que constitui a AfD, simplesmente o momento oposto. Ao verificar, de maneira formal-lógica e não dialética, os critérios do fascismo apenas na aparência superficial, e ao chegar à conclusão de que o partido atual não é, de fato, um partido fascista, ignora-se assim o processo dinâmico subjacente que ocorre dentro da AfD, podendo, portanto, dizer apenas coisas insuficientes e unilaterais sobre o caráter da AfD.
Naturalmente é correto que tanto a AfD quanto o movimento Widersetzen ainda permanecem hoje inteiramente dentro do quadro das relações republicano-burguesas, e também aceitam esse quadro. Mas o processo de acirramento das contradições não vai apenas dilacerar a AfD — ele também ocorre, naturalmente, dentro do movimento Widersetzen. O movimento, no processo de seu desenvolvimento, vai inevitavelmente esbarrar nos limites de sua própria política de sustentação do Estado. A cada passo, a liderança do Widersetzen (Marx21), o Partido de Esquerda e a burocracia sindical combaterão o processo de formação de um polo revolucionário consciente, para não ter de abandonar a frente popular com a burguesia — assim como, especularmente, Weidel e cia. combaterão, a cada passo, a formação de um partido realmente aberto e fascista. Já demonstraram isso diversas vezes. Os nazistas, com sua atual liderança nacional-conservadora — mas ainda assim republicano-burguesa —, terão de romper a partir de um determinado ponto, assim como os comunistas terão de romper com as atuais lideranças do movimento antifascista e, de modo mais geral, do movimento operário.
Assim, o processo de formação de um polo verdadeiramente revolucionário e de um polo verdadeiramente contrarrevolucionário é especular. Assim como os nazistas apoiarão energicamente e radicalizarão cada passo na direção da formação de tal polo contrarrevolucionário, os comunistas devem fazer o mesmo sob sinais invertidos. Esse acirramento ocorrerá com a necessidade histórica de uma lei natural, e não poderá levar a lugar nenhum além da guerra civil aberta. O desfecho dessa guerra civil, por sua vez, não é algo predeterminado, mas depende essencialmente de a classe trabalhadora ter conseguido antes formar uma liderança política consciente ou não. Os/as revolucionários/as podem e devem, desta vez, conduzir o desfecho dessa luta em direção à revolução e à libertação da classe trabalhadora de toda a Europa do capitalismo. Mas o lado oposto já está bem mais avançado em seus preparativos de guerra. Ainda temos muito a recuperar, e o tempo corre.
Notas de rodapé
Bonapartismo é um termo cunhado por Karl Marx. Designa, seguindo o modelo de Napoleão Bonaparte e Louis Bonaparte, um “homem forte” que equilibra as classes apoiando-se no exército e na polícia. Cf. Karl Marx: O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte, in: Karl Marx e Friedrich Engels: Obras, vol. 8, Dietz Verlag, Berlim 1960, p. 111–207.
Cf. Edward H. Carr: Berlim-Moscou, Alemanha e Rússia entre as duas Guerras Mundiais, Stuttgart 1954, p. 28–36; Gutjahr, Wolfgang-Dietrich: Revolution muss sein, Karl Radek – Die Biographie, Colônia/Weimar/Viena 2012, p. 378–419.
Cf. Winkler: Weimar 1918–1933, A História da Primeira Democracia Alemã, C.H. Beck, Munique 2018, p. 170; Sergej Gorlov: Geheimsache Moskau-Berlin. Die militärpolitische Zusammenarbeit zwischen der Sowjetunion und dem Deutschen Reich 1920–1933, in: Vierteljahreshefte für Zeitgeschichte (1996), 1, p. 133–165; Olaf Groehler: Selbstmörderische Allianz. Deutsch-russische Militärbeziehungen 1920–1941, Berlim, Vision Verlag, 1992.
Cf. Winkler: Weimar, p. 168–173.
Joseph Goebbels: Das russische Problem, in: Die zweite Revolution, Briefe an Zeitgenossen, Zwickau 1926, p. 46.
Adolf Hitler: Mein Kampf, dois volumes em um, Munique/Berlim 1936, p. 704.
Volker Ulrich: Unheilvoller Pakt, 2009, Deutschlandfunk, disponível em: https://www.deutschlandfunk.de/unheilvoller-pakt-100.html (acesso em 23.6.2026).
Cf. Heinrich August Winkler: Der lange Weg nach Westen, vol. 1: Deutsche Geschichte vom Ende des Alten Reiches bis zum Untergang der Weimarer Republik. C.H. Beck, Munique 2000; Idem: Der lange Weg nach Westen, vol. 2: Deutsche Geschichte vom “Dritten Reich” bis zur Wiedervereinigung. C.H. Beck, Munique 2000.
Ingo Malcher/Kolja Rudzio/Jens Tönnesmann/Marc Widmann: Alice im Wirtschaftswunderland, Die Zeit nº 2/2025, 9.1.2026, disponível em: https://www.zeit.de/2025/02/wirtschaftspolitik-afd-wahlprogramm-elon-musk (acesso em 23.6.2026).
Götz Kubitschek: Die Fließrichtung der Partei, Sezession, 10.6.2025, disponível em: https://sezession.de/70260/die-fliessrichtung-der-partei (acesso em 23.6.2026).
Marion Horn: Wann begreifen die endlich, dass die Brandmauer nur die AfD schützt?, BILD, 24.5.2026, disponível em: https://www.bild.de/politik/meinung-kommentare-kolumnen/brandmauer-reicht-nicht-deutschland-braucht-den-befreiungsschlag-6a11d0f23b7096456ac80c03 (acesso em 23.6.2026).
Entrevista de Björn Höcke ao redator-chefe do Deutschland Kurier, David Bendels, YouTube, 9.11.2025, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lzkEacSkJng (acesso em 23.6.2026).
A estatística padece de uma noção não marxista de trabalhador/a. Ela define trabalhadores/as como todos aqueles que recebem um salário-hora (Lohn), em contraste com os empregados que recebem um salário mensal (Gehalt). Essa distinção não existe na definição marxista, pois esta não parte de uma classificação artificial, mas da posição real da pessoa no processo de produção.
Eva Kienholz: Eine kurze Geschichte der AfD. Von der Eurokritik zum Remigrationsskandal. Rowohlt, Hamburgo 2024, p. 196. O livro de Kienholz se inscreve num antifascismo liberal “impotente” (Haug), dedicado à defesa da democracia burguesa, sem perceber que a ascensão da AfD é um produto orgânico dessa própria ordem democrática burguesa. Nesse sentido, suas análises políticas devem ser lidas com cautela; metodologicamente, porém, seu trabalho é rigoroso. O livro é, portanto, bastante útil no que diz respeito à compilação e apresentação dos fatos históricos.
Entrevista com Björn Höcke, conduzida por Thielko Grieß, Deutschlandfunk, 24.4.2015, disponível em: https://www.deutschlandfunk.de/fluegelkaempfe-bei-der-afd-das-projekt-ist-in-gefahr-100.html (acesso em 25.6.2026).
Kienholz: Geschichte der AfD, p. 65–68.
JF-Online: AfD-Chefin Petry: “Höcke ist eine Belastung für die Partei”, Junge Freiheit, 18.1.2017, disponível em: https://jungefreiheit.de/politik/deutschland/2017/petry-hoecke-ist-eine-belastung-fuer-die-partei/ (acesso em 25.6.2026).
Entrevista, Höcke, 9.11.2025.
Cf. Winkler, Weimar, p. 492. Altona, na época, ainda não pertencia à cidade de Hamburgo, mas ao Estado Livre da Prússia.
Na Grã-Bretanha, o desenvolvimento de um movimento de massas fascista está muito mais avançado do que na Alemanha. A crise de declínio do imperialismo britânico, ainda mais agravada pelas consequências econômicas do Brexit, é o terreno fértil ideal para o fascismo. Ao mesmo tempo, é muito grande a decepção com o fracassado projeto reformista de esquerda “Your Party”. O fascista Tommy Robinson se prepara, à frente de manifestações de massa racistas, para se tornar o novo Oswald Mosley. Do equivalente britânico da AfD, o Reform UK, entrementes se separou uma ala direita, que forma, com o Restore UK, o embrião de um novo partido fascista com influência de massas. Em Belfast ocorreram recentemente pogroms. Com isso, a Grã-Bretanha expressa o futuro da Alemanha.
Götz Kubitschek: Nach den Wahlen: fünf Anmerkungen, Sezession, 2.9.2019, https://sezession.de/61545/nach-den-wahlen-fuenf-anmerkungen (acesso em 25.6.2026).
Kienholz: Geschichte der AfD, p. 59–64.