Já se passaram pouco mais de dois meses desde o ato de 1º de Maio em Ferro, e as primeiras reuniões dos comitês já foram realizadas em todo o país, tema que discutimos na Conferência do partido. Que balanço você faz dessa primeira etapa?
Como sempre, vou te dar minha posição pessoal. Estamos nas etapas iniciais de todo esse processo e temos muitos debates sobre como avançar, tanto em nosso partido quanto em nossa corrente internacional, a Corrente Revolução Permanente (CRP). Em nossa conferência participaram delegações de companheiros de suas diferentes organizações na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa, que estão acompanhando e discutindo a experiência que estamos desenvolvendo aqui, porque em seus países enfrentam, com suas particularidades e em diferentes níveis, o mesmo problema de como transformar fenômenos políticos de esquerda em organização revolucionária.
Dito isso, o balanço desses dois meses é muito animador. Partimos do ato em Ferro com 6 mil pessoas; depois vieram os atos de Jujuy, com mil companheiros, e de Neuquén, com 1.500, e ainda restam atos em importantes regionais, como Santa Fé, Córdoba e Mendoza. No momento da Conferência, já haviam sido realizadas mais de 100 reuniões de comitês em cerca de 90 cidades do país, com aproximadamente 7 mil participantes em seus primeiros encontros. Se considerarmos o conjunto das atividades, entre atos e comitês passaram cerca de 14 mil pessoas. A isso é preciso acrescentar o dado de que cerca de 13 mil pessoas se inscreveram pela internet em nossa Comunidade, entre elas aproximadamente 1.600 docentes, mais de mil trabalhadores do comércio, dos serviços, do funcionalismo público e da saúde, respectivamente, 2.300 estudantes universitários, mil estudantes de institutos superiores, 800 secundaristas e centenas de companheiros da indústria, do transporte e dos estaleiros.
Outro aspecto notável desse início dos comitês é sua extensão geográfica. Estão sendo formados comitês em províncias e cidades menores onde quase não temos presença ou, em alguns casos, nunca estivemos. Em Chubut, quase uma centena de companheiros independentes se agrupou em diferentes localidades; em Comodoro Rivadavia, que é um polo industrial inclinado à direita, o comitê reuniu petroleiros, docentes e trabalhadores da construção civil. Em províncias onde nosso trabalho político ainda é mais inicial, ele está se fortalecendo rapidamente, como San Luis, San Juan, La Pampa, Catamarca, Misiones, Chaco, Santiago del Estero, Corrientes e Entre Ríos, onde, em alguns casos, os comitês se ligaram desde o início a lutas concretas da região. Também se observa uma dinâmica qualitativa nas localidades de províncias onde a presença do PTS está mais concentrada nas grandes cidades, como ocorre na província de Buenos Aires, Córdoba, Mendoza, Neuquén, Tucumán, Jujuy, Santa Fé e Río Negro. Ou seja, há uma geografia da esquerda que está sendo redesenhada, e isso a esquerda argentina nunca havia conseguido com essa profundidade.
Como discutimos na Conferência, um dos desafios centrais dos comitês é enfrentar e lutar para romper a passividade imposta pelas direções do peronismo, pela burocracia sindical e estudantil, que deixam passar todos os ataques de Milei apostando nas eleições de 2027. Por isso, além de impulsionar com todas as forças a mobilização deste 6 de agosto contra a escandalosa "lei de terras", a Conferência aprovou propor, nas instâncias de frente única e coordenação, nos próprios comitês, à FIT-U e às demais organizações combativas, o impulso de uma grande mobilização no marco de uma jornada nacional de luta em setembro, que unifique as reivindicações das lutas em curso — salários, aposentadorias, anulação da reforma trabalhista, orçamento para saúde e educação, atendimento à emergência na área da deficiência, fora o FMI — com o enfrentamento político ao governo. Os comitês também precisam ser avaliados por sua capacidade de colocar forças nas ruas, colaborar com os conflitos, impulsionar a coordenação e não apenas por sua capacidade de realizar reuniões. A partir dessas primeiras experiências com os comitês, como você caracterizaria esse movimento político mais amplo com o qual estamos lidando?
Essa é uma pergunta importante, porque tudo o que eu dizia antes seria simplesmente impossível se não existisse um fenômeno subjetivo muito mais amplo do que os comitês. E aqui precisamos ser claros: os comitês não criaram esse movimento; o movimento já existe. Nós contribuímos para que ele surgisse por meio da política que o PTS e a FIT-U desenvolveram ao longo de anos. É o que conversávamos na primeira entrevista: a intervenção nas lutas mais duras, a construção de bastiões, o La Izquierda Diario e toda a batalha para ter uma voz própria na cena nacional, os anos de prática de um parlamentarismo revolucionário — seguindo os termos da III Internacional —, o trabalho teórico, a luta do feminismo socialista, o papel da esquerda na resistência a Milei. Tudo isso foi conformando um espaço político que hoje reúne milhões de trabalhadores, estudantes, mulheres e jovens que veem, de algum modo, uma alternativa nesse campo.
Os comitês são a parte politicamente mais ativa de um fenômeno que envolve milhões de pessoas. O nível mais amplo é o da simpatia política ou da "imagem". Já comentamos anteriormente a pesquisa da Atlas Intel, que atribuía a Myriam 47% de imagem positiva. Mas continuam surgindo levantamentos desse tipo, o que demonstra que o fenômeno permanece claramente. Se tomarmos a média de todas as pesquisas compiladas pelo Observatório de Pesquisas do La Izquierda Diario, Myriam alcançou, em maio, 40,7% de imagem positiva, ocupando o primeiro lugar no ranking nacional, à frente de Milei, Kicillof, Cristina Kirchner e Bullrich. É a primeira vez, em décadas, que uma dirigente da esquerda lidera uma pesquisa nacional de imagem, e ela é a única referência do espectro político com crescimento líquido ao longo do semestre, enquanto Milei perdeu mais de seis pontos. Nossa impressão é que esse número expressivo é uma resposta à coerência da esquerda em geral, e particularmente sob o governo Milei. Enquanto o peronismo oscilou entre acompanhar e deixar passar os ataques, apostando no desgaste do governo, a esquerda encarnou uma oposição sem ambiguidades. Esses 40,7% constituem o universo mais amplo que podemos considerar como expressão, senão de apoio, ao menos de um certo grau de reconhecimento político.
Há um segundo nível, mais preciso, que é o da eventual intenção de voto, que na média das consultorias gira em torno de 9%, com pesquisas que chegaram a registrar picos superiores a 14%. Em termos absolutos, esse 9% corresponde a cerca de 2,5 milhões de pessoas; se fosse 14%, seriam aproximadamente 4 milhões. Trata-se de um dado mais preciso do que a imagem, porque reflete um certo nível de apoio político, e não apenas uma avaliação positiva.
Não é possível discutir seriamente os comitês sem levar em conta que eles representam a organização de alguns milhares de pessoas dentro desse universo muito mais amplo. Consideradas em conjunto, a imagem e a eventual intenção de voto demonstram a existência objetiva de um fenômeno político que é, em certa medida, uma resposta aos ataques de Milei, à profunda crise do peronismo e ao reconhecimento de que não estamos apenas no parlamento, mas que nossas principais referências e nossa militância estão nas ruas, na linha de frente de cada luta. Partindo disso, os comitês constituem uma tentativa de convocar, organizar e nos fundir com a ala mais ativa de todo esse universo.
Como você vê, então, a relação entre esse fenômeno político e as formas de organizá-lo? Pergunto isso porque, nos fóruns da FIT-U, surgiram respostas bastante diferentes para essa questão.
A primeira coisa que é preciso dizer é que, se desde 1º de Maio conseguimos convocar essa quantidade de companheiros, e não mais, isso não se deve aos limites do fenômeno objetivo, mas sim ao fato de que, neste início, ainda não dispomos de forças suficientes para organizar todos aqueles que estariam dispostos a participar. O limite, hoje, é nosso, não do movimento. Por isso nos parece muito conservadora a posição do PO e da IS, que defendem a criação de comitês da FIT-U, negando a possibilidade de que de todo esse processo possam surgir as bases de um verdadeiro partido revolucionário. Esse grande movimento da consciência de massas em direção à esquerda não pode ficar limitado a uma organização puramente eleitoral, que se ativa apenas a cada dois anos; isso significaria desperdiçar uma oportunidade histórica.
Com os companheiros do MST, a situação é diferente. Historicamente, eles defendem uma política de construção de um "partido amplo", dividido em tendências permanentes, sobre a qual já expliquei, na entrevista anterior, nossas críticas à luz de experiências como a do NPA francês. No entanto, eles afirmaram que desejam discutir conosco e impulsionar conjuntamente experiências de coordenação, e estamos estabelecendo uma agenda de debates para verificar se podemos avançar em comum, embora tenhamos muitas divergências programáticas, algumas bastante importantes, como a questão da guerra na Ucrânia. Consideramos isso um passo positivo.
Agora, para todos os setores — tanto para as forças da FIT-U quanto para o conjunto dos setores combativos — nós colocamos uma proposta que vai além da discussão sobre o partido e que foi um dos pontos mais destacados de nossa Conferência: a proposta que apresentamos no último fórum da FIT-U de avançar, desde já, na coordenação da vanguarda, dos setores avançados, como dizia Lenin, por meio de instituições capazes de coordenar e buscar influenciar de maneira decisiva os próximos combates. Independentemente do processo de debate no interior da FIT-U, fazemos essa proposta tanto a ela quanto aos setores combativos de todo o país. Porque, como venho afirmando nas entrevistas anteriores, nossa tarefa não é apenas organizar os comitês e debater programaticamente com os setores que se aproximam, mas também tentar criar novas instituições de coordenação que articulem os volumes de força que hoje permanecem dispersos.
Que contradições você vê nesta primeira etapa dos comitês?
A principal contradição é que nem todas as pessoas que chegam estão convencidas da necessidade de construir um partido, e nem há motivo para que estejam desde o início, obviamente. Nestes dois meses, há quem tenha participado para conhecer a proposta e há outros que querem participar, se envolver e fazer algo, com diferentes níveis de atividade. Existem setores que comparecem reunião após reunião e outros mais esporádicos, que também fazem parte ativa desse movimento, mas não com a mesma intensidade. E há algo muito positivo que já está surgindo com clareza na Cidade de Buenos Aires, na Província de Buenos Aires, em Jujuy e em outros lugares: muitas das pessoas mais ativas querem mais do que participar de uma reunião de comitê de vez em quando ou de uma discussão programática; elas buscam uma dinâmica mais militante.
É aí que surge a necessidade de dar um novo passo em relação ao que vínhamos propondo. Não se trata apenas de organizar uma grande reunião de comitê por zona ou região uma vez por mês ou a cada quarenta dias, mas de destacar os companheiros e companheiras mais ativos — que, em muitos casos, já assumem a dianteira na construção dos comitês — como uma nova militância do movimento por um partido da nova classe trabalhadora. Embora estejamos apenas começando, isso abre enormes possibilidades, tanto para construir uma organização muito superior ao PTS quanto para dialogar com amplos setores do movimento nas lutas, nas eleições sindicais e nas eleições nacionais. Ou seja, haveria uma dialética entre essa faixa mais ativa, que tentaremos transformar em militância desse novo partido que estamos propondo, e o movimento amplo do qual ela faz parte.
Mas há um segundo fenômeno ao qual muitos ainda prestaram pouca atenção e que gostaria de destacar. Se é verdade que o número de pessoas dispostas a votar na esquerda é tão elevado, então ocorreu, neste último período, um grande avanço na consciência, não apenas dos setores mais ativos que participam dos comitês, mas também de setores muito mais amplos do que aqueles que tradicionalmente a esquerda conseguia mobilizar. Evidentemente, não sabemos que parcela desse movimento mais amplo poderá se organizar em coordenadoras de luta, por exemplo. No entanto, uma coisa é clara: qualquer processo de ascenso da luta de classes contará, desde o início, com um grande número de pessoas que veem com simpatia as ideias da esquerda. Em outras palavras, os ataques de Milei e a crise do peronismo não passaram em vão; provocaram, no polo oposto, uma evolução da consciência em direção à esquerda, cujos alcances e limites, para além das pesquisas de opinião, ainda precisamos explorar.
Esse fenômeno é a forma concreta que assume, em nosso país, um movimento de deslocamento à esquerda que, em outros países, como Alemanha, França, Estados Unidos ou Reino Unido, é canalizado por setores neorreformistas, enquanto, na Argentina, tem a particularidade de se organizar em torno de uma corrente que defende a independência de classe, se reivindica abertamente trotskista e luta pelo socialismo.
Há um debate internacional sobre a relação entre os atuais processos de politização e a questão da organização. O intelectual belga Anton Jäger desenvolveu a ideia de "hiperpolítica", com a qual busca explicar um momento histórico marcado por uma politização extrema, porém muito volátil, profundamente influenciada pela lógica do mundo digital e que não se traduz em organizações duradouras. Independentemente da forma como Jäger aborda essa questão, é evidente que existe um problema aí. Agora, trazendo essa discussão para o nosso terreno, fazer com que a politização se traduza em uma organização duradoura dificilmente será algo resolvido de maneira espontânea; depende muito da orientação que nós, revolucionários, formos capazes de dar para forjar e influenciar esse processo.
Nesse sentido, diante do movimento de deslocamento à esquerda que estamos presenciando na Argentina, coloca-se a tarefa de que, ao menos, os trotskistas do PTS se fundam com essas alas mais ativas do movimento, convoquem-nas e as organizem em torno de um programa e de uma estratégia revolucionários para intervir na realidade e buscar um peso decisivo nas batalhas que temos pela frente.
E em que etapa concreta você diria que estamos desse processo?
Nos seus primeiros passos. Mas já é possível perceber os primeiros sinais dessa dinâmica, como os que mencionei anteriormente, em que, em muitos comitês, começam a se destacar setores mais ativos, que querem ir além das reuniões gerais e da discussão programática e que colocam para nós a necessidade de formar, com eles, novas equipes militantes oriundas dos próprios comitês. Destacar esses setores mais ativos é um passo imediato muito importante que precisamos dar agora.
Não se trata apenas de uma questão de quantidade. Como eu dizia, em muitos comitês participam ativistas e até mesmo dirigentes, por exemplo, dirigentes de centros acadêmicos de estudantes secundaristas, delegadas de escolas ou fábricas, referências de campanhas, de conflitos ou de seus locais de trabalho e de seus bairros. À medida que os comitês forem crescendo, isso não apenas fortalecerá quantitativamente a perspectiva de um partido da nova classe trabalhadora, mas também elevará a qualidade desse partido.
Como sabemos, um partido leninista não é um partido qualquer. Seu objetivo é organizar os setores mais conscientes e mais decididos da classe trabalhadora, da juventude e da intelectualidade para cumprir esse papel de multiplicador de que falávamos. Em outras palavras, os dirigentes políticos e sociais que venham a se integrar como futuros dirigentes partidários são aqueles que podem nos ajudar a exercer esse papel multiplicador sobre setores muito mais amplos. Por isso, no momento imediato, coloca-se um duplo movimento: continuar reunindo os comitês e convocando, por meio de uma ampla agitação, novos setores para que o movimento cresça cada vez mais; e, ao mesmo tempo, selecionar, entre aqueles que chegam, os melhores, os que desejam militar, os que podem dirigir.
Nesse contexto, onde você situa a proposta de um movimento por um partido da nova classe trabalhadora?
Ela ocupa o centro de toda a perspectiva. Se essa fusão da qual estamos falando prosperar, estarão sendo lançadas as bases do novo partido. Esse deve ser o conteúdo estratégico de tudo o que vimos discutindo em torno dos comitês: a formação de uma nova militância e de novos dirigentes. Como eu dizia no início, esta é a minha visão pessoal. Estamos apenas começando esse processo e temos muitos debates, tanto no PTS quanto na CRP, sobre como transformar fenômenos políticos de deslocamento à esquerda em organização revolucionária.
Ao contrário do que defende uma parte da esquerda, nosso objetivo não é a "autoconstrução do PTS". Nossa meta é muito mais ambiciosa. Queremos construir um partido leninista de vanguarda, no sentido estrito do termo: um partido que organize dezenas de milhares de militantes em diálogo com milhões de pessoas; que impulsione instituições de auto-organização; que lute pela frente única. Esclareço isso porque muitas organizações têm a palavra "partido" em seu nome, mas um partido no sentido propriamente leninista é exatamente isso. Se quiséssemos apenas fortalecer nosso próprio aparato, não estaríamos abrindo todas essas instâncias de debate, fóruns, comitês e coordenações, nem expondo publicamente o que pretendemos fazer e convidando qualquer pessoa a apresentar suas divergências. Para nós, esses são os primeiros passos na construção de um partido leninista capaz de organizar milhares ou dezenas de milhares de militantes e de abrir um caminho em direção às grandes massas.
Em uma carta dirigida ao jornalista norte-americano Harold R. Isaacs — que, naquela época, estava próximo da política de um movimento pela IV Internacional —, Trotsky afirmava, em polêmica com aqueles que aderiram à colaboração de classes durante a Revolução Espanhola, que 20 mil ou mesmo 10 mil militantes, dotados de uma política revolucionária clara, decidida e ofensiva, poderiam encontrar um caminho para conquistar as massas, tomando os bolcheviques como exemplo. Nós partimos dessa convicção. Ninguém pode determinar quando se abrirá uma situação revolucionária na Argentina, mas o que podemos afirmar é que, quanto mais preparados e organizados chegarmos a essa situação, com um partido forjado na teoria, no programa e na experiência comum da luta de classes, maiores serão as possibilidades de vitória. Essa é a aposta estratégica que está no fundo de tudo o que vimos discutindo.
Emilio Albamonte é dirigente e fundador da Fração Trotskista–Quarta Internacional, atualmente Corrente Revolução Permanente–Quarta Internacional, e do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) da Argentina. É coautor dos livros Estratégia Socialista e Arte Militar e Debates e Fundamentos sobre a Luta pelo Socialismo Hoje.