Os luxemburguistas no Brasil e as origens do PT
Este trabalho compõe um dos capítulos do livro "Rosa Luxemburgo: a águia da revolução", de Diana Assunção, cuja síntese foi apresentada na Conferência do Historical Materialism, realizado no Rio de Janeiro entre os dias 21 e 23 de julho.
Os impactos de Rosa Luxemburgo no Brasil são de importância histórica. Para além do interesse causado por sua recepção em múltiplas tendências de pensamento, alguns estudos apontam que haveria certa influência das ideias de Rosa no surgimento do Partido dos Trabalhadores (PT). Mais amplamente, suas ideias foram importantes para a formação de parte da esquerda brasileira. Aqui denominamos como “luxemburguistas” uma série de intelectuais que se referenciam em sua obra com leituras próprias, e não como uma “corrente teórica”, como tenta categorizar o stalinismo.
Partindo do rico processo histórico que significa a conformação de um partido de massas da gigante classe operária brasileira depois de um ascenso como o de 1978-1980, é emblemático que se busque nas tradições mais avançadas do marxismo revolucionário a referência histórica para dialogar com uma potente classe trabalhadora que quase colocou a ditadura de joelhos. Por outro lado, é importante também analisar as distintas defesas sobre a concepção de “socialismo democrático”, atribuídas a Rosa Luxemburgo por parte de setores desta intelectualidade, e também por parte de correntes internas do PT, como a Democracia Socialista (DS), que vamos abordar aqui levantando hipóteses sobre os caminhos traçados por essas posições, bem como as origens da recepção de Rosa no Brasil.
Do que a historiografia aponta, é possível dizer que os primeiros textos de Rosa Luxemburgo que alcançaram a intelectualidade de esquerda brasileira foram apresentados por Mário Pedrosa através do jornal Vanguarda Socialista. Essa análise pode nos ajudar no estudo sobre os conceitos de “socialismo democrático” ou “via democrática ao socialismo” como vertente atribuída a Rosa Luxemburgo no Brasil, e as relações deste conceito com as origens do PT. Isabel Loureiro aponta que o:
“Vanguarda Socialista, jornal editado por Mário Pedrosa no Rio de Janeiro, de 1945 a 1948, elabora uma proposta política socialista e democrática como alternativa à concepção bolchevique, que acredita superada pela história. Nessa medida, a “questão russa” encontra-se no centro das preocupações do grupo.”1
Com esse objetivo, Mário Pedrosa introduziu o pensamento de Rosa Luxemburgo nos círculos de vanguarda no Brasil, buscando a “filiação do grupo” às ideias da revolucionária polonesa. Como também apontou Antonio Candido:
“Naquele mesmo ano, fundou no Rio o jornal Vanguarda Socialista e começou a difundir uma nova orientação, antistalinista, não mais trotskista, com destaque para a democracia e a valorização das posições de Rosa Luxemburgo, cuja obra contribuiu para difundir entre nós e de quem publicou em opúsculos Reforma social ou revolução? e [Sobre] a Revolução Russa, não lembro se ambos ou apenas um deles.”2
Resgatemos a trajetória de Mário Pedrosa para a compreensão deste estudo. Pedrosa tem sua primeira experiência partidária em 19/5, quando ingressou no PCB e, em 19/7, é enviado pelo partido para a formação política na Escola Leninista na União Soviética, sob a direção de Stálin, mas não chega a concluir a viagem por questões de saúde. Estabeleceu-se na Alemanha e assumiu tarefas partidárias no PCA, em contato direto com os oposicionistas franceses que já contestavam, sob a influência de Trótski, os rumos de burocratização do partido. Pedrosa, que possuía influência nos intelectuais do PCB, passa a organizar uma fração em torno das principais críticas feitas pela Oposição de Esquerda diante das teses do “socialismo num só país”, da política econômica da URSS, da adaptação da III Internacional ao Partido Trabalhista Inglês no Comitê Anglo-Russo e da capitulação stalinista ao Kuomintang na Revolução Chinesa. Essas discussões serão feitas entre 1927 e 1929, período em que Pedrosa está na Europa, constituindo o GCL (Grupo Comunista Lenine), a partir de correspondências principalmente com Lívio Xavier, que depois seguiram com outros militantes como Rodolpho Coutinho, Aristides Lobo, Benjamin Péret e Fúlvio Abramo. Também reuniu dirigentes da juventude do PCB, como Hilcar Leite, e as rupturas sindicais que vão se desenvolver no partido depois da “Cisão de 1928”.
Em 1931, após essa primeira acumulação de quadros, fundam a Liga Comunista, uma fração externa do PCB de oposição à direção que, em 1933, vai passar a se chamar Liga Comunista Internacionalista (LCI), em base à orientação da Oposição de Esquerda (OIE) de constituir organizações políticas independentes das direções degeneradas dos PCs, fruto do balanço da capitulação diante da ascensão do nazifascismo. No mesmo ano da famosa “Revoada dos galinhas verdes”, em que Mário Pedrosa é baleado na brava resistência contra os fascistas e que os trotskistas cumprem um papel fundamental com a tática de frente única operária para desarticular a organização crescente dos integralistas da Ação Integralista Brasileira (AIB), de Plínio Salgado. Em 1938, como parte da organização que agora leva o nome de POL – resultado da fusão da LCI com a oposição classista do PCB – Mário Pedrosa foi o único delegado de todas as oposições de esquerda da América Latina presente na fundação da IV Internacional com Trótski. Contudo, em 1940, antes do assassinato de Trótski, Pedrosa já expressava seu alinhamento com a ala pequeno-burguesa do SWP norte-americano e, então, rompe com o trotskismo aderindo junto a Max Shachtman às equivocadas teses de Capitalismo de Estado na URSS.
Esta trajetória de Pedrosa antes do lançamento de Vanguarda Socialista é importante para se compreender seus objetivos com a introdução de Rosa Luxemburgo no Brasil. Tratava-se não apenas de alguém que já havia integrado uma experiência em uma organização de orientação stalinista, como o PCB, como também um militante que fez parte de uma oposição trotskista e rompeu com esta corrente com conclusões que igualavam a União Soviética a outras experiências capitalistas, abandonando o programa de revolução política defendido por Trótski – que podemos resumir como um programa para defender as conquistas da revolução e do Estado operário, enfrentando a burocracia com sua derrubada revolucionária a partir da luta de classes. Neste sentido podemos concluir que a introdução de Rosa Luxemburgo no Brasil via Vanguarda Socialista se dá em um contexto de um Mário Pedrosa após sua experiência no PCB e já depois de sua ruptura com o trotskismo, o que o leva a buscar em Rosa justamente essa figura “entre” estas duas correntes como uma tentativa de resposta ao stalinismo e ao bolchevismo. Essa leitura de Rosa dá o tom da sua apropriação na intelectualidade brasileira pré-fundação do PT e é o que também explica, frente à experiência com um PCB como um partido de orientação stalinista supostamente defensor do “leninismo”, que nas origens do PT essa intelectualidade tenha buscado referências marxistas que pudessem se afastar do stalinismo e do bolchevismo diante da construção de um “socialismo democrático” para fundamentar um partido de massas, buscando deixar para trás a lógica de um partido que para eles seria “leninista” quando, em realidade, era a versão stalinizada de partido ultracentralizado.
Ao mesmo tempo, queremos abordar também a atualidade e, por isso, é importante destacar que Isabel Loureiro traz uma leitura crítica importante sobre o PT no livro Rosa Luxemburgo: os dilemas da ação revolucionária, especialmente nos renovados textos de apresentação onde analisa essa relação entre as origens do PT e a influência de Rosa Luxemburgo quando, segundo ela, “[...] no papel de coadjuvante dos governos Lula/Dilma (2003/2015), o PT se transformou num partido da ordem, para o qual a perspectiva socialista-democrática-revolucionária de Rosa Luxemburgo não faz mais sentido [...]”3. Esta leitura é particularmente interessante porque expressa uma reflexão viva por parte de Loureiro no decorrer da experiência com os governos do PT:
“Desde então, mais de dez anos se passaram. No que respeita a esse ponto específico, o livro se tornou inatual: ao que parece, os dilemas foram resolvidos a favor da contemporização. A esquerda no poder, limitando-se a aplicar automaticamente o programa do capital, aderiu ao mais puro pragmatismo, tal como nos anos 1920 a ala majoritária do Partido Social-Democrata Alemão.”4
Neste sentido, nos parece que há dois enfoques importantes na reflexão: um resgate sobre os impactos do pensamento de Rosa na conformação de parte da intelectualidade brasileira nas origens do PT e a própria discussão sobre uma possível influência na fundação deste partido; e também as conclusões posteriores à experiência do PT no governo. Essas discussões em algum sentido se cruzam. No livro Socialismo ou Barbárie, podemos ver uma compilação de entrevistas editadas por Isabel Loureiro na qual aponta que “Poderia começar essa apresentação dizendo que Rosa Luxemburgo is alive, and well and living in São Paulo”5 em uma definição que dá o “tom” do livro e das entrevistas. Nelas vemos alguns dos intelectuais que foram parte de um período no qual, segundo Michael Löwy, existia na cultura de esquerda brasileira uma corrente luxemburguista subterrânea que veio a desaguar no início do PT. Interessa-nos o estudo desta possível confluência entre as posições radicais de Rosa Luxemburgo, que explicitamos no conjunto do livro, com a formação de um partido que expressava um processo histórico novo. Processo esse que tinha a classe operária brasileira à frente, em busca de uma ferramenta para sua luta e, por vezes, pensando no horizonte da revolução, mas com uma direção que nunca teve como “fim último” a revolução socialista nem em seus objetivos, nem no programa com o qual fundou o partido. Afinal, teria nas ideias de Rosa Luxemburgo um projeto que influenciou o que foi o PT? As lições da vida e obra da revolucionária polonesa podem dar base para as ideias fundadoras do petismo no Brasil? É o que queremos abordar aqui.
As discussões intelectuais que se referenciaram em Rosa Luxemburgo possuem uma de suas origens na fundação da Liga Socialista Independente que, segundo Michael Löwy, tinha na revolucionária polonesa uma referência quase única e, também, já sob influência de Vanguarda Socialista. Esta era uma organização fundada pelo próprio Löwy junto com Paul Singer, Hermínio Sacchetta, Maurício Tragtenberg, Alberto Rocha de Barros, entre outros. Nas palavras de Löwy, “era, como se diz em português, meia dúzia de gatos pingados; doze pessoas, às vezes quinze, às vezes oito”6. E como apontam Egas Moniz Bandeira e Luccas Eduardo Maldonado,
“A organização era marcada por uma forte presença das ideias de Luxemburgo, expressa na postura assertivamente contrária ao nacionalismo e ao centralismo democrático, sendo, na prática, a manifestação de uma severa oposição aos preceitos do Partido Comunista Brasileiro (PCB).”7
Esta definição, como abordamos, explica em parte a busca pelo referencial em Rosa Luxemburgo para superar a experiência com o PCB, mas igualando, por vezes, a ideia de “centralismo democrático” com o burocratismo próprio do stalinismo. Vale dizer que parte da LSI vai fundar a POLOP em 1961, com referência já não somente em Rosa Luxemburgo.
Paul Singer, um dos entrevistados, aponta que o que atraiu todos para o pensamento de Rosa foi seu radicalismo e sua profunda rejeição à ditadura burocrática que, segundo ele:
“[...] ficou evidente em um texto que ela nunca publicou, mas que depois Paul Levi divulgou. E transformou-se em uma das coisas mais importantes que ela fez. Nesse texto ela uniu uma posição socialista-democrática e uma crítica à Revolução Russa, já em 1918, praticamente nos primeiros meses da revolução – ela mostrou-se brilhante, porque tudo aquilo que ela apontou se agravou ao longo das décadas e deu hoje no que deu.” 8
Como já analisamos, há uma sobrevaloração no Brasil do texto de Rosa sobre a Revolução Russa, que em nossa visão é acompanhado de uma secundarização de suas conclusões ao calor da Revolução Alemã de 1918. Nas afirmações de Singer, apesar disso, é preciso identificar a ênfase que cria o elo entre esta leitura de Rosa e a ideia de um “socialismo democrático” que seria a profunda rejeição de Rosa à ditadura burocrática. Neste ponto é necessária uma primeira análise antes de seguir, uma vez que aqui mora uma utilização da figura de Rosa contra o stalinismo, mas a partir de um viés que pode considerar que o stalinismo tem origem no bolchevismo. Inclusive Singer, em outros textos, aponta que “Rosa Luxemburgo era radical em sua paixão tanto pela liberdade como pela igualdade, sendo companheira e ao mesmo tempo crítica dos revolucionários bolcheviques”9, porém enfatizando este espectro crítico. Em algum sentido é possível dizer que parte dos que se referenciam em Rosa Luxemburgo tem motivações antistalinistas, mas o fazem com um conteúdo antibolchevique ou, como mínimo, de separação do bolchevismo e utilizam a definição de “socialismo democrático” como uma clivagem entre o bolchevismo leninista e a burocracia stalinista de maneira a não oferecer tamanha diferença entre ambos. Voltaremos a este tema algumas vezes e por distintos caminhos. Sobre a primeira hipótese podemos nos basear na definição que Isabel Loureiro aponta acerca das intenções de Mário Pedrosa:
“Contra a petrificação autoritária do stalinismo, Pedrosa divulgava a concepção socialista democrática da revolucionária polonesa, ideário que, embora marginal na esquerda brasileira, acabou por encontrar acolhida no PT que nascia abrigando esperanças de refundação da esquerda.”10
Que também se verificam nesta passagem quando Isabel diz que:
“O primeiro responsável pela minha trajetória foi então Mário Pedrosa, que introduziu na cultura brasileira de esquerda Rosa Luxemburgo e a ideia de partido democrático de massas. Por isso ele ficou tão entusiasmado com o PT, e por isso foi o primeiro a assinar a ficha de fundação do PT. Claro que se ele fosse vivo hoje estaria extremamente decepcionado com a trajetória do partido, mas o fato é que quando o PT foi fundado ele o considerava o partido com o qual sempre havia sonhado.”11
Vale ressaltar que o próprio Pedrosa redigiu uma carta a Lula, em 1978, invocando o SPD das origens como exemplo de partido12. No ano seguinte publica uma elaboração onde analisa a discussão sobre imperialismo e o pensamento de Rosa com o título “A crise mundial do imperialismo e Rosa Luxemburgo”. Muito tempo depois, Lula reconhece a influência de Pedrosa na fundação do PT: “Foram argumentos como os de Mário Pedrosa que fizeram com que nos dotássemos de motivação para continuar acreditando que era possível criar o PT”13.
Mas esta leitura sobre uma Rosa Luxemburgo como ferramenta “antiautoritarismos” se apoia em algumas de suas definições de maneira por vezes esquemática, sem analisar a continuidade histórica e o desenvolvimento das suas reflexões ao longo das próprias experiências, especialmente na Revolução Alemã de 1918. Paul Singer segue argumentando:
“E o legado me parece ser este: para Rosa Luxemburgo, quem dirige a revolução é o que ela chama “as massas”; são os próprios trabalhadores, os homens, as mulheres, os camponeses, os jovens, enfim. A direção política, que é tão importante para Trótski e Lênin, não é tão importante para ela. Ela acha que essa direção tende a segurar, tende a refrear porque – desculpa, agora é uma coisa minha, é uma nota de rodapé até melancólica porque ela morre tentando fazer isso – porque foi o levante infeliz, lá em Berlim, que propiciou as condições do assassinato dela. Ela foi contra porque sabia que não havia nenhuma perspectiva de o levante ser vitorioso. Como dirigente ela tentou segurar “as massas”, mas não conseguiu.”14
Nesta passagem, em nossa visão, Singer desconsidera parte das elaborações de Rosa em 1918 e em 1919, quando ela faz experiência com as direções centristas do USPD naquele momento e também com a falta de preparação do KPD que, sendo um partido de vanguarda construído em cima da hora não era uma referência para as massas. Ao contrário de negar o papel da direção, Rosa, ao longo da sua experiência, desenvolve uma visão muito mais clara sobre o papel das direções – questão que aparecia, ainda que não no centro dos debates em suas primeiras elaborações, quando estava em luta frontal contra o revisionismo de Bernstein, assim como contra as consequências políticas que atravessavam fronteiras, como o “ministerialismo socialista” na França ou os primeiros debates sobre a greve de massas na Bélgica. Neste sentido, há uma apropriação de elementos que certamente são pontos fortes de Rosa Luxemburgo, como seu impulso à ação espontânea das massas e o questionamento às burocracias, para transformar esses elementos em uma fórmula que se opõe ao que seriam “diferentes tipos de totalitarismo” – incluindo entre eles o bolchevismo, de forma equivocada, para colocar um sinal de igual com o stalinismo.
A busca que essa intelectualidade pré fundação do PT faz de Rosa Luxemburgo aparenta ser uma forma de explicação da burocratização da Revolução Russa sem se confrontar diretamente com a degeneração stalinista, apresentando uma resposta não ortodoxa de um “socialismo democrático” frente à uma tentativa que teria “fracassado como um todo”, – no caso, a Revolução Russa – para poder tirar conclusões para o futuro e para novos empreendimentos políticos. Isso dá base para a conformação de correntes internas do PT como a Democracia Socialista posteriormente. Vale notar também, como pano de fundo, que, no Brasil, o próprio PCB, que também era um partido operário com peso de massas em 1964, tinha assumido a linha de apoiar alternativas nacionalistas burguesas, como expressão de sua orientação stalinista, e aceitou o golpe de 1964 sem combate. Essa derrota, ainda que sem a extração de lições profundas, também abriu espaço posteriormente à construção de um novo partido operário no Brasil, como o PT. Assim Loureiro enfatiza o papel de Pedrosa na introdução do pensamento de Rosa no Brasil, influenciando seu próprio pensamento como alternativa ao bolchevismo “cujas soluções democráticas supostamente resolveriam os eternos problemas da esquerda”15, mas também aponta um contraponto no sentido da elaboração política de uma compreensão de Rosa a partir do estudo da prática política dos espartaquistas na Revolução Alemã, o que Loureiro definiu como um momento que a levou a uma “mudança de perspectiva que me obrigou a nuançar ideias assentadas, levando a mais um cansativo e doloroso ajustes de contas”16. No caso de Loureiro, aponta para uma leitura mais dialética do que a da intelectualidade que aqui abordamos desde Pedrosa, acerca das definições de “socialismo democrático” de Rosa Luxemburgo como ferramenta antistalinista que, na prática, buscava uma oposição de Rosa aos bolcheviques, questão que Loureiro, e também Löwy, em geral discordam.
Ainda sobre a definição da cultura luxemburguista subterrânea no início da fundação do PT, Michael Löwy aponta na entrevista que estava se referindo a militantes que vinham de uma tradição “luxemburguista” e que haviam participado da tradição do PT em referência particular a duas figuras: Paul Singer e Mário Pedrosa. Löwy explicita isso de forma bastante concreta: “Também a corrente que ele formou depois de 1945, através do jornal Vanguarda Socialista, era bastante inspirada nela. Ele [Pedrosa] foi o aderente número 1 do PT”17. Aqui é importante resgatar os elementos que já apontamos sobre o contexto no qual se dá o surgimento do jornal Vanguarda Socialista. Trata-se de um momento no qual Pedrosa vinha de uma experiência com o PCB stalinizado e depois de ruptura com o trotskismo e, nesse sentido, com o bolchevismo.
É bastante marcado o tom claramente antistalinista de Vanguarda Socialista, mas como subproduto também desta ruptura com o trotskismo – o que leva a uma concepção de ligar stalinismo e bolchevismo, exagerando e supervalorizando as diferenças de Rosa com os bolcheviques. Não é à toa que Mário Pedrosa, com essas conclusões que tira acerca de Rosa Luxemburgo, tenha se afastado do trotskismo e buscado uma concepção mais “social-democratizante”. Efetivamente, Pedrosa termina apoiando a fundação do PSB em 1947, militando nele até sua extinção em 1965 – partido que surge da esquerda democrática da UDN, de caráter nacionalista burguês e que abrigou, especialmente em São Paulo, com adesão do grupo de Pedrosa, uma juventude com perfil marxista crítico ao stalinismo. Esta trajetória também é uma mostra de que as conclusões de “socialismo democrático” desaguaram em concepções de partido diretamente alheias à classe trabalhadora por parte de Pedrosa neste primeiro momento.
Para esta discussão é elucidativo o robusto estudo feito por Isabel Loureiro sobre o jornal de Mário Pedrosa em sua dissertação de mestrado “Vanguarda Socialista (1945-1948): Um episódio de ecletismo na história do marxismo brasileiro”. Ressaltando a importância histórica e política deste jornal, do papel de Mário Pedrosa, suas contribuições e a introdução dos textos de Rosa Luxemburgo no Brasil, Loureiro também traz à tona, como o próprio título introduz, parte das posições ecléticas de Pedrosa neste jornal que expressavam já naquele momento um afastamento do marxismo. Ela aborda o apoio de Vanguarda Socialista ao candidato das oposições liberais para presidência da República, o Brigadeiro Eduardo Gomes da UDN, apontando como uma importante contradição de quem se dizia “defensor das massas trabalhadoras”18, levando o grupo a se aproximar da política udenista e que acaba sendo a antessala da entrada de Mário Pedrosa no PSB. Trata, também, da discussão sobre o Partido Trabalhista na Inglaterra, o que contribui para uma compreensão mais profunda dos objetivos de Mário Pedrosa com Vanguarda Socialista. É notório que, através de suas edições, Pedrosa divulga as linhas gerais do que poderia servir de base para a criação de um partido socialista de massas no Brasil. Isso ficou popularmente atrelado à concepção de partido que se atribuía a Rosa Luxemburgo. Entretanto, os elogios de Pedrosa e Vanguarda Socialista ao Partido Trabalhista na Inglaterra, um partido imperialista, apontam a realidade do que se defendia implementar no Brasil, que não tinha nenhum ponto de contato com as posições de Rosa Luxemburgo.
Loureiro aponta que, naquela conjuntura dos anos 1940, a Inglaterra trabalhista representava para Vanguarda Socialista a possibilidade de um socialismo com democracia pela via pacífica, sem revolução. Faz este apontamento de maneira crítica, indicando que este exemplo tomado empiricamente para sua nova proposta socialista entrava em contradição com as propostas teóricas do próprio jornal e que não tinham a ver com a autoemancipação dos trabalhadores19. Nas palavras de Vanguarda Socialista, o que ocorre na Inglaterra poderia se resumir em:
“Na Inglaterra, com a subida do Partido Trabalhista ao poder, o processo de estatização da economia se acelerou, iniciando-se assim a fase de capitalismo de estado neste país. A existência dos sindicatos autônomos, a democracia política que prevalece, as diversas formas de organizações sociais e econômicas independentes do estado (sindicatos, comitê de fábrica, cooperativa etc.) são fatores que atuam no sentido de desenvolvimento democrático e, portanto, socialista.”20
Apenas para dado de constatação, a direção do Partido Trabalhista (Labour) apoiou a burguesia imperialista britânica na Primeira Guerra Mundial tendo, inclusive, o dirigente trabalhista Arthur Henderson integrado o gabinete de guerra do governo britânico durante a guerra. Isso nos remete diretamente aos combates de Rosa Luxemburgo com o ministerialismo francês. Além disso, o trabalhismo inglês já havia sido governo em 1923, com o gabinete Ramsay MacDonald, e já havia cometido inúmeras atrocidades contra a classe operária britânica e mundial, como a traição da greve geral britânica de 1926 que havia aberto uma situação revolucionária na Inglaterra. O Partido Trabalhista voltou ao poder em maio de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, com cerca de um terço dos assentos no governo de coalizão sob o comando do conservador Winston Churchill. Clement Attlee, líder trabalhista, ocupou o cargo de vice-primeiro-ministro. Era um partido completamente atado aos interesses imperialistas da Inglaterra. Este era o modelo de partido que Mário Pedrosa e Vanguarda Socialista tomavam para pensar um partido de massas no Brasil.
Por isso só podemos concordar com a forma contundente com a qual Loureiro critica a posição de Pedrosa explicitando que se tratava, na prática, de um “socialismo sem revolução”:
“Em resumo, o elogio do PTI revela que, para Vanguarda Socialista, as conquistas socialistas podem ser alcançadas sem violência, nos quadros das instituições existentes que, aos poucos, e de forma segura, iriam se transformando até alcançar o Socialismo. Mário Pedrosa, por exemplo, afirma que, na Inglaterra, o proletariado chegou ao poder, mas de forma pacífica, sem insurreição armada, numa palavra, sem revolução.”21
Loureiro aponta que o democratismo de Mário Pedrosa tem fruto em sua leitura unilateral de Rosa Luxemburgo sobre a questão da ditadura do proletariado exigir a mais ampla liberdade das massas. Enfatiza que Rosa considerava que a violência seria empregada contra o inimigo de classe, ainda que apenas contra o inimigo de classe. Mas aponta que Pedrosa leu Rosa Luxemburgo e sua definição sobre as “situações concretas” considerando que, a depender da situação, a revolução poderia ser pacífica – como no caso da Inglaterra22.
É sintomático que esta discussão se dê em torno justamente de um partido que, segundo Vanguarda Socialista, era justamente um “representante do proletariado”. Loureiro também enfatiza que essa admiração se dá pelo fato de não ser fruto de uma teoria externa à classe, mas sim um resultante das forças internas do proletariado britânico. Este entusiasmo é subproduto da busca de Vanguarda Socialista por um exemplo de partido que se oponha às experiências stalinistas, como o caso do PCB brasileiro, mas também a toda a experiência bolchevique, apoiando-se em Rosa Luxemburgo. Loureiro demonstra justamente como a admiração pelo PTI tinha um interesse nacional:
“Além disso, não julgamos que o determinante na admiração que Vanguarda Socialista vota ao trabalhismo inglês seja a chegada ao poder através das eleições, ou a via reformista para o socialismo. O trabalhismo aparece como alternativa ao stalinismo pelo tipo de organização que constitui: partido de massas, organicamente ligado a classe operária. Ou seja, o PTI aparecia como uma alternativa, em termos organizatórios, aos partidos oriundos do bolchevismo. E era uma organização desse tipo, nos moldes do PTI, que o grupo de Vanguarda Socialista esperava ver constituir-se no Brasil, um partido de massas, criado pelos trabalhadores, sem que fosse previamente definido se seria ou não revolucionário. A essa questão só a prática poderia dar resposta.”23
Em observação a esta definição Loureiro aponta que o Partido dos Trabalhadores no Brasil “realizou na prática a concepção que Pedrosa tinha a respeito de um partido de massas em 1945”, relembrando inclusive a definição de Pedrosa no texto “Sobre o PT” quando diz “Ninguém pode traçar aprioristicamente e ainda menos doutrinariamente qualquer ação ou comportamento prévio para o nosso Partido dos Trabalhadores. O empirismo salutar será no fundo a sua força para a ação”24. É claro que, no processo de desenvolvimento de um novo partido há elementos de empirismo da própria fricção com a realidade, a questão é se este empirismo surge de uma premissa já não revolucionária e, no seu desenvolvimento, desloca-se da luta de classes.
Neste estudo, concordamos com Loureiro em sua crítica frontal à concepção pacifista de Pedrosa, que ao defender a via pacífica da Inglaterra ao socialismo, ainda que estivesse trazendo os textos de Rosa Luxemburgo ao Brasil, na realidade estava transmitindo pela via de Vanguarda Socialista as ideias de Eduard Bernstein que Rosa tanto combateu. Como apontou Loureiro “Numa palavra, se se permanece marxista – o que Vanguarda Socialista pretende – não parece possível defender a passagem pacífica do capitalismo ao Socialismo.”25
Toda essa discussão joga luz sobre os debates em torno das origens do PT e a leitura de Rosa Luxemburgo no Brasil. Enquanto publicava Rosa Luxemburgo, Vanguarda Socialista tinha como modelo um partido imperialista na Inglaterra que defendia de forma bernsteiniana a via pacífica ao socialismo. Esse estudo profundo das posições de Vanguarda Socialista é importante porque foi o jornal responsável por introduzir o suposto “socialismo democrático” de Rosa Luxemburgo no Brasil e influenciar toda uma camada da intelectualidade pré-fundação do PT. Como aponta Loureiro, o retorno de Vanguarda Socialista a Rosa Luxemburgo não era suficientemente claro, uma vez que os elementos ecléticos do jornal pesaram bastante para uma compreensão da política luxemburguista26 que, na prática, era uma diluição das ideias de Rosa. Era o resgate de elementos libertários e basistas do pensamento de Rosa, mas sem a tomada do poder.
Isso permite também encarar futuras afirmações, como de Löwy, que sustenta não somente a existência de uma cultura luxemburguista subterrânea no início da fundação do PT, mas “uma espécie de afinidade [...] algumas sensibilidades presentes no PT na sua origem, com certas ideias de Rosa Luxemburgo”27. Para ele:
“desde as correntes sindicalistas, as oposições sindicais, as comunidades de base [...] havia alguma coisa que às vezes se chamava com certo desprezo de basismo – a ideia de que a luta, o partido e o socialismo vêm de baixo; constrói-se de baixo, a partir da base. Aqui também vemos certa afinidade com as ideias de Rosa Luxemburgo.”28
Entretanto, é importante apontar que, se Rosa exacerbava em suas primeiras elaborações na atenção ao impulso espontâneo das massas e à autoatividade criadora da classe trabalhadora, isso estava diretamente conectado a uma defesa intransigente do programa socialista e do “fim último” do socialismo, rechaçando qualquer outra “via” ao socialismo que não fosse a revolucionária. Como apontou Loureiro, Rosa Luxemburgo está no polo oposto de John Holloway com seu ensaio “Mudar o mundo sem tomar o poder”: para Rosa “[...] é indispensável a tomada do poder”29. Também na discussão com o trabalhismo inglês fica evidente que Rosa está no polo oposto ao de Mário Pedrosa.
Sendo assim, é interessante o apontamento sobre a afinidade do pensamento de Rosa com as origens do PT porque expressa a força de suas ideias. Bem observado, isso é mais mérito da base operária do que das direções. Há, entretanto, muitas contradições neste apontamento, pois se torna parcial se visto somente do ponto de vista de um “basismo” que marcaria tanto o PT como o pensamento de Rosa Luxemburgo, quando a origem do PT é marcada não apenas pelo menosprezo da atuação independente das bases, mas também pela não existência de um programa abertamente socialista. Nesse sentido, não é possível concordar com essa tese em seu “todo”, ainda mais quando vemos que, em suas origens, a recepção de Rosa no Brasil por Vanguarda Socialista teve como correlato a referência de um partido como o trabalhismo inglês. Mas analisemos o caso brasileiro.
O Manifesto de Fundação do PT, datado de 10 de fevereiro de 1980, não contém as palavras “socialismo” e “revolução”30, ainda que documentos anteriores, do período de formação do partido, contenham algumas definições mais à esquerda, que desaparecem a partir da fundação partidária, em fevereiro de 1980. Por exemplo, as Teses de Santo André-Lins, aprovadas no Congresso dos Trabalhadores Metalúrgicos, Mecânicos e de Material Elétrico do Estado de São Paulo, em 24 de janeiro de 1979, ainda que não falassem de socialismo, apontam um conteúdo claramente mais à esquerda do que o Manifesto de Fundação do PT: falam explicitamente da necessidade de independência política dos trabalhadores e de “um instrumento de luta pela conquista do poder político”31. A “Carta de Princípios” do PT, divulgada em 10 de maio de 1979, poucos meses depois das Teses de Santo André-Lins, diz que o partido a ser fundado entende que “a emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores” – disseminando a ideia de uma democracia participativa, o partido buscaria “apoderar-se do poder político e implantar o governo dos trabalhadores”32. Essas referências partiam de posições e interpretações equivocadas dos clássicos marxistas e já continham uma certa confusão interessada entre a ideia de um governo dos trabalhadores e a noção da chegada do PT ao governo do Estado atual, coisas que, sem dúvida, não são sinônimas. Mas é a partir do Manifesto de Fundação do PT que se passa a associar explicitamente as duas coisas, sem qualquer menção ao socialismo ou aos métodos de luta essenciais para alcançá-lo – o que passa pela derrubada revolucionária do Estado burguês33. Como apontou Isabel Loureiro sobre a entrada de Mário Pedrosa: “Aliás, ao entrar no Partido dos Trabalhadores, em vez de lamentar a inexistência de um programa socialista prévio, Mário via no ‘empirismo salutar’ do partido ‘a sua força para a ação’”34, como já havíamos apontado.
Naquele momento, quando Lula menciona o “socialismo”, trata de transformá-lo em um apêndice político de um regime democrático no interior do Estado capitalista, uma espécie de “socialismo democrático” semelhante àquele defendido pelas direções dos partidos comunistas europeus na virada eurocomunista de finais da década de 1970. Espelhando-se na compreensão da “democracia como valor universal”, incorporada ao cânone do PT pela obra homônima de Carlos Nelson Coutinho35, de 1979, Lula concebe um socialismo que não ofenda a ordem que se criava a partir da transição pactuada, um socialismo que cresceria na medida da integração do PT ao novo regime36. Não espanta que, no programa de fundação e posteriormente à própria fundação do PT, toda e qualquer alusão mais radical à conquista do poder, ou mesmo à independência de classe, sejam completamente abandonadas.
Analisando as posições de Rosa – não ao final de sua vida, mas no início –, por exemplo acerca da experiência de greve de massas na Bélgica, vemos que sua afinidade estaria muito mais em criticar a burocratização do PT e seu peso nos sindicatos já desde sua origem do que qualquer outra coisa. Seria mais fácil “identificar Rosa Luxemburgo” em uma crítica à posição de Lula e dos sindicalistas autênticos em conter e derrotar as greves de 1978-1980, que se negaram a levantar a bandeira “Abaixo a ditadura” mostrando uma política aberta de conciliação de classes, que separa as demandas econômicas das demandas políticas. Neste sentido seria possível dizer que havia um estado de espírito “luxemburguista” de combate à burocracia sindical por parte de setores da oposição. Assim também, um espírito de impulso à construção de um partido operário, pela necessidade de ligar a batalha econômica contra as patronais e a burocracia com a luta política contra a ditadura que as sustentava.
Dissociar a defesa de Rosa acerca do impulso espontâneo das massas de sua intransigente luta política contra o revisionismo é uma parte da utilidade em defender a existência de um socialismo democrático de Rosa Luxemburgo em oposição ao bolchevismo, como frágil resposta à degeneração stalinista. Rosa Luxemburgo, sem sua luta contra o revisionismo e o oportunismo, não seria Rosa Luxemburgo. Ao mesmo tempo suas elaborações sobre o impulso espontâneo das massas são por vezes interpretados “a bel prazer”. Em um país com uma classe operária que produziu tamanho processo histórico como a fundação de um partido de massas da classe trabalhadora, as elaborações de Rosa acerca da espontaneidade servem muito mais para enfatizar a necessidade de enfrentamento com as burocracias e seus freios ao impulso e à autoatividade das massas do que para enfatizar de forma esquemática formulações sobre um basismo que, sem a luta ferrenha programática, seria apenas sindicalismo.
A partir de outro ponto de vista Löwy também aponta, como uma similaridade com Rosa Luxemburgo, a importância da democracia e da liberdade no que ele define como projeto socialista do PT. Em suas palavras:
“Se pegarmos aquele belo texto de 1990, do socialismo petista, temos temas parecidos com Rosa Luxemburgo: que não pode existir socialismo que não seja baseado na liberdade, mas numa verdadeira democracia. E, por outro lado, que o capitalismo é intrinsecamente antidemocrático e que você não pode ter uma verdadeira democracia sem o socialismo. Essa ideia forte, que está no programa socialista do PT, encontra eco nas ideias de Rosa Luxemburgo.”37
Löwy considera que o PT tinha um projeto socialista em sua origem, o que é uma definição, em nossa visão, equivocada. Essa compreensão de um “PT socialista e democrático” é, em verdade, da corrente a qual ele se associa posteriormente, a Democracia Socialista, que integrava o Secretariado Unificado. Trata-se de uma posição diferente da ala majoritária de Lula, José Dirceu, Aloizio Mercadante, que defendiam abertamente uma concepção de administração e humanização do capitalismo. Na análise da posição da DS se cruzam dois debates que estamos abordando. A compreensão de que Rosa Luxemburgo defenderia um “socialismo democrático” em oposição a stalinistas e bolcheviques, e a compreensão de que as origens do PT expressariam, ou como mínimo deveriam expressar, essa mesma concepção. O texto elucidativo de Tarso Genro, aliado da DS e opositor da ala “lulista” dentro do PT, aponta sua visão sobre este conteúdo de Rosa:
“Rosa também renega o jacobinismo leninista e busca uma superação imediata da distinção prática entre “chefes e massas”, introduzindo um elemento fortemente democrático nestas relações, em detrimento do movimento de centralização característica da experiência bolchevique. A crítica de Rosa vem da sua convicção de que o estilo bolchevique de partido levaria à ditadura do Comitê Central e, depois, a uma ditadura unipessoal.”38
Mais uma vez, ao enfatizar a suposta “centralização” da experiência bolchevique, busca-se apagar os sovietes e a relação entre o partido e a democracia soviética, em nome de um vago “socialismo democrático”. Mas, ainda que algumas correntes tivessem a visão de um “PT socialista”, e mesmo que na base toda a discussão sobre a formação de um partido dos trabalhadores, desde 1978, se desse em termos de independência de classe e radicalização política dos trabalhadores em greve, o mesmo não pode se dizer do programa com o qual o PT foi de fato fundado. As consequências da própria atuação dessas protoburocracias nas greves de 1978-1980, em que as direções sindicais buscaram separar os elementos econômicos/sindicais da luta política, expressam o erro fatal que Rosa Luxemburgo apontou diversas vezes em todos os momentos em que analisou a greve geral de massas e, em particular, nas discussões contra o oportunismo kautskiano. O surgimento do PT, então, trazia a tensão entre as tendências espontâneas de uma classe operária efervescente com as tendências burocráticas que queriam conter o caminho da independência de classes, o único que poderia apresentar um programa e um projeto socialista. Como aponta Thiago Rodrigues Flamé: “Desde as origens, a direção lulista do PT defendia uma estratégia da conciliação de classes e preservação da institucionalidade burguesa, que terminou se impondo e resultou no tipo de relação íntima com a grande burguesia que agora vem à luz.”39
Apesar de enfatizar o que acredita serem similaridades entre o pensamento de Rosa Luxemburgo e a fundação do PT, Löwy também aponta os limites posteriores quando diz que “isso infelizmente foi se diluindo, se perdendo, foi sendo substituído por uma cultura de outro tipo, social-democrata reformista – hoje em dia social-liberal. No PT atual estamos a vários anos-luz de Rosa Luxemburgo”. A contradição dessa tese é ver similaridades entre o pensamento de Rosa e as origens do PT por fora da dialética da luta de classes, sem confrontar o pensamento dela com o balanço histórico do ascenso que se iniciou em 1978. Este ascenso teve consequências concretas na fundação do PT e foi parte importante da formação de uma burocracia que conteve os processos mais espontâneos das massas, impedindo de se levar adiante a “greve geral de massas”40 no sentido que tomava Rosa Luxemburgo, por exemplo, em Greve de massas, partido e sindicatos. Rosa não falava apenas da “base” ou de “ser espontâneo”, mas de como colocar em movimento uma classe que pudesse enfrentar o peso das burocracias sindicais e partidárias para levar adiante a revolução operária e socialista. Por isso empreendeu lutas teóricas e políticas frontais em defesa de um partido que pudesse cumprir um papel efetivamente revolucionário, agitando e preparando essa necessidade.
A experiência de Rosa com a social-democracia alemã foi trágica do ponto de vista da traição em 1914, e suas conclusões sobre o papel dos partidos como mediações que podem terminar contendo a revolução avançaram entre 1918 e 1919. Neste sentido, não se pode dizer que haja uma confluência direta entre o pensamento de Rosa e a fundação do PT, ainda que o surgimento de um partido de massas da classe trabalhadora exigisse uma atuação audaz por parte dos revolucionários naquele então.
Da mesma forma, é possível afirmar que o esforço de Mário Pedrosa em introduzir o pensamento de Rosa no Brasil com o jornal Vanguarda Socialista, ao mesmo tempo em que buscava no trabalhismo inglês o exemplo de partido de massas para os trabalhadores brasileiros, é uma expressão categórica desse ecletismo não marxista em uma tentativa de retornar ao que ele definia como marxismo original contra a experiência ossificada e stalinista do PCB. E também uma constatação de que a sua leitura de Rosa era bastante limitada.
Isabel Loureiro ao longo dessas discussões enfatiza a necessidade de rechaçar duas interpretações do pensamento de Rosa Luxemburgo: uma interpretação social-democrata e liberal, que vê Rosa unilateralmente como a defensora da “liberdade de quem pensa de modo diferente”41; e uma interpretação do que considera como “marxismo oriental”42, que quer aprisioná-la ao esquema dos que “pensam da mesma maneira”43. Aqui Loureiro parece confluir com a definição de que Rosa seria uma “socialista entre o Oriente e o Ocidente”44. Nesse caso é possível considerar que a autora, em partes, se distancia da leitura de Pedrosa. Sem negar em geral a definição de socialismo democrático, nos parece que Loureiro dá outro conteúdo ao mesmo, que não corrobora com a tentativa de separação de Rosa dos bolcheviques – mesmo enfatizando suas diferenças. Por outro lado, optou por uma polêmica específica com a interpretação de György Lukács sobre Rosa Luxemburgo, também em torno de uma leitura que considera antibolchevique, mas a partir outro ângulo:
“O filósofo húngaro [...] [atribuía os erros de Rosa] a uma concepção teórica orgânica da revolução proletária que, levando ao espontaneísmo em termos políticos, a opunha aos bolcheviques. Assim, Lukács foi o primeiro a sintetizar teoricamente e de maneira refinada o que mais tarde, na época de Stálin, passou a ser chamado de “luxemburguismo”: uma tática política errada, que negava a necessidade da organização política na luta pelo socialismo, baseada em uma teoria mecanicista do colapso do capitalismo.”45
Nesta passagem, mais uma vez Loureiro se distancia de leituras simplistas do legado da revolucionária polonesa. Não obstante, também rechaça uma visão sobre ela que serviu de subsídio para transformá-la em opositora do bolchevismo por suas críticas e pensamento, o que antecipava a concepção stalinista sobre Rosa Luxemburgo, tão rechaçada por Trótski posteriormente. Cumpre dizer que, no que diz respeito a Lukács, Isabel defende essencialmente as definições que consideramos equivocadas de Rosa na brochura sobre a Revolução Russa. Mas Isabel se apoia na leitura de Trótski, especialmente em seu texto Balanços e perspectivas, de 1906, para defender Rosa Luxemburgo das definições feitas por Lukács acerca de suas posições46.
Seguindo os caminhos do surgimento da concepção de “socialismo democrático” e da busca por uma corrente ou figura que pudesse se contrapor ao stalinismo, é importante destacar que não se trata nem de longe de uma originalidade, digamos, “brasileira”. Como apontou Peter Nettl:
“A antítese Stálin/Trótski, que ambas partes ajudaram a transformar em uma divisão fundamental e irrevogável entre os marxistas revolucionários, na realidade subsumiu todos os debates anteriores e os empurrou ao limbo. Simplesmente, não sobrou lugar pra mais ninguém. Mas Rosa Luxemburgo, fervorosa apoiadora e ao mesmo tempo crítica profunda e imediata dos bolcheviques, poderia ter proporcionado justamente o ponto aglutinador de uma oposição mais ampla do que restrita à Stálin: não contaminada pela participação original, mas totalmente revolucionária por direito próprio.”47
Por exemplo, também temos um outro caminho pelo qual a ideia de “via democrática ao socialismo” atribuída a Rosa Luxemburgo foi popularizada, neste caso através de Nicos Poulantzas – com uma posição muito mais próxima da ilusão gradualista bernsteiniana do que de Rosa Luxemburgo48, quando defendia um “movimento de rupturas reais” no “campo estratégico do Estado” para inclinar uma mudança na correlação de forças. O fundamental aqui é partir de que as críticas de Rosa aos bolcheviques não a transformam em antibolchevique, e isso é um divisor de águas fundamental.
Por todos esses elementos, ainda que seja notório haver aspectos “luxemburguistas” que estivessem dentro do clima geral de efervescência operária pré-fundação do PT, os elementos que são atribuídos a Rosa do ponto de vista do programa do PT são, na realidade, a leitura que uma parte da intelectualidade influenciada por ela faz de sua trajetória, como buscamos explicitar. Essa definição de “socialismo democrático”, em nossa visão, terminou sendo funcional a uma compreensão mais reformista de Rosa Luxemburgo no Brasil, unilateralizando aspectos do seu pensamento. Cabe ressaltar, mais uma vez, que essa assimilação reformista de Rosa Luxemburgo ocorre em um contexto internacional de crise do “socialismo real” e da ofensiva do projeto eurocomunista, isto é, a deriva stalinista para a defesa da democracia burguesa “como valor universal”49. Do ponto de vista ideológico, é um contexto em que as direções políticas dos partidos comunistas e social-democratas se empenham em buscar recortes nos clássicos do marxismo – distorcendo-os, portanto – para fundamentar o giro estratégico que os levaria a compor os governos capitalistas aplicadores de ajustes neoliberais contra a população – tudo em nome da defesa da democracia capitalista como “alternativa ao totalitarismo”. A queda dos ex-Estados operários, em primeiro lugar da URSS, foi alertada por Trótski já nos anos 1930, quando corretamente antecipou essa possibilidade trágica como reflexo da política stalinista. Antes mesmo desse desenlace, entretanto, os partidos comunistas do Ocidente colaboraram com a burguesia na repressão dos processos de luta de classes e na estabilização dos regimes capitalistas do pós-Segunda Guerra.
Nesse sentido, pensando o Brasil, é necessário concluir que o programa das origens do PT junto com as estratégias das direções não podem ser definidos como um “projeto socialista”. Em realidade, comporta mais similaridades com o programa da social-democracia pré-1914, aquele cujos defeitos Rosa sempre combateu. A forte influência que Rosa exerceu sobre a intelectualidade que esteve na fundação do PT se mostrou limitada pela tentativa de unilateralizar suas posições acerca da Revolução Russa como críticas ao bolchevismo que poderiam ser utilizadas posteriormente como críticas à degeneração stalinista, renovando a equivocada tese de que o stalinismo teve origem no bolchevismo. Por outro lado, leva também a suavizar as posições de Rosa. Se a influência dela prosperasse durante o efervescente momento de fundação do PT certamente seria no sentido da conformação de uma ala revolucionária neste processo, e não na reafirmação da experiência da ala majoritária no ascenso, completamente oposto a tudo que batalhou Rosa, ou em um programa que negava o combate ao revisionismo e ao oportunismo. É sintomático também parte das conclusões posteriores de Singer quando diz:
“[...] Digamos, eu desisti da ideia de que é preciso acabar com o capitalismo, eu acho que não dá para acabar com o capitalismo, a não ser quando ninguém mais estiver interessado em desempenhar o papel de patrão e ninguém mais quiser ser assalariado. O que hoje e no futuro próximo – o único que conseguimos vislumbrar – podemos enxergar é que vai ainda levar muito tempo até que ninguém mais se interesse pelo capitalismo.”50
Ou quando diretamente nega a máxima “socialismo ou barbárie” de Rosa Luxemburgo, passando da defesa de um “socialismo democrático” para um “capitalismo democrático”:
“Quer dizer, não estou achando, como Rosa formulou há muitos anos atrás, em outras circunstâncias históricas, que a alternativa é ou acabar com o capitalismo ou cair na barbárie. Eu acho que o que nós temos, e volto a ser otimista, é a possibilidade de construir um capitalismo democrático, que é uma conquista operária e, nesse espaço, avançar para um socialismo autogestionário.”51
Já ficou evidente que toda essa reflexão acerca da definição sobre “socialismo democrático” tem suas raízes de fundo no debate de conteúdo sobre as diferenças de Rosa Luxemburgo em relação à Revolução Russa. Neste campo, Loureiro traz luz à discussão para separar dois temas que se misturam, ainda que tenham significados não necessariamente completos. Ela enfatiza que a diferença de Rosa se dava especialmente no que dizia respeito ao tema do “terror”, e não da violência. Isso porque, em partes, essa definição de “socialismo democrático” que por vezes é acompanhado de “humanitário” se opõe a definições como “totalitarismo”, identificando-o inadequadamente como conceito de “ditadura do proletariado”, com o qual Rosa sempre concordou. Quanto a isso Loureiro é categórica sobre a posição de Rosa em relação não somente à tomada do poder, mas sobre a defesa da ditadura do proletariado, o que comparece em distintas elaborações de Rosa. Inclusive Loureiro busca fazer uma diferenciação, citando as palavras da própria Rosa: “A recusa do terror por parte de Rosa funda-se precisamente na ideia da diferença entre a revolução burguesa e a proletária: esta ‘não combate indivíduos, mas instituições’”. E continua:
“Mas não a violência revolucionária, imprescindível para “quebrar” as “resistências” da contrarrevolução com “mão de ferro e uma brutal energia”. Em termos concretos significa armar o povo e desarmar as classes dominantes, organizar a massa proletária para exercer “vigilância e constante atividade”, pois “A luta pelo socialismo é a mais prodigiosa guerra civil conhecida até hoje pela história do mundo”, e o proletariado precisa preparar-se para vencê-la. Na brochura Sobre a Revolução Russa, Rosa Luxemburgo também apoia explicitamente “todas as medidas de pressão para quebrar com mão de ferro a resistência” dos que boicotam a revolução, dizendo que “a ditadura socialista [...] não deve recuar perante nenhum meio coercitivo para impor ou impedir certas medidas no interesse de todos”. Algumas dessas medidas seriam a privação dos direitos políticos e dos meios de subsistência, jamais a eliminação física dos adversários.”52
Nessa passagem Loureiro também deixa clara a defesa de Rosa sobre o apoio às medidas de exceção e sua negativa em relação à “eliminação física de adversários”, sem entrar na necessária discussão sobre o comunismo de guerra e os ataques imperialistas em curso. Isso permite verificar que Rosa não tinha uma posição unilateralmente purista em relação à necessidade de defender a revolução contra os que a boicotam interna ou externamente, apesar de apresentar uma posição distinta dos bolcheviques em algumas questões. De todo modo, não há bases para a ideia da defesa de um “socialismo democrático” em oposição aos bolcheviques e à essência do que podemos definir como um mesmo marxismo integrado por Rosa, Lênin e Trótski, como apontamos anteriormente. Lembrando que Rosa concebe a ideia de democracia das massas como parte da conquista do poder, e não em oposição a mesma ou “abstraindo” a questão em chave reformista, como sugere o conteúdo do conceito de “socialismo democrático”.
Essas reflexões permitem uma crítica muito mais apurada ao PT de hoje e às reedições dos erros cometidos pelo PT, como faz o PSOL que, sem base na classe operária, busca se submeter a um projeto de administração do capitalismo que absolutamente nada tem a ver com a trajetória de Rosa Luxemburgo. Permitem também um campo de dúvidas como apresentou Isabel Loureiro em sua entrevista no próprio livro Socialismo ou Barbárie, quando diz:
“Rosa só vai romper com os independentes no final de 1918, por absoluta necessidade e muito contra vontade, pois, para ela, viver em um grupelho político pretensamente dono da verdade não fazia o menor sentido. Para ela era importante continuar dentro do partido, conquistando espaço por meio do debate de ideias. Daí a ideia de esclarecimento que você mencionou. Sempre achei que esta era a posição correta, mas confesso que atualmente não sei mais. Depois do que aconteceu com o PT, voltei a ter grandes dúvidas a esse respeito. Há militantes bem intencionados dentro do PT, mas não podemos esquecer que partidos como o Partido Social-Democrata Alemão, e como o PT hoje, são aparelhos burocráticos, rígidos, dominados por uma cúpula que não dá espaço real para a divergência, nem permite compartilhar o poder interno. Ou seja, só na aparência são partidos democráticos.”53
Em nossa visão esses problemas já estavam em suas origens, ainda que em uma forma germinal. Um dos debates no processo de fundação do PT foi o seu vínculo com os sindicatos, projeto ao qual Lula sempre se opôs para afastar o máximo possível setores da base dos processos de decisão do partido. Com o passar dos anos, e mais ainda hoje em dia, com o PT administrando o capitalismo brasileiro ao lado da burguesia, isso fica em claro relevo. Os movimentos sociais, como o MST, ainda que possam em certo momento ter uma localização mais crítica ao governo, têm relações diretas com o PT e com o próprio Estado. E, nesse cenário, ainda assim, nas direções desses partidos, Rosa Luxemburgo segue sendo para alguns uma referência, pela força de sua figura, mas como se não houvesse um rio de sangue que separasse as ideias pelas quais lutou em toda sua vida e a política implementada de administrar o capital ao lado da burguesia.
Ao contrário, em nossa visão, o legado de Rosa Luxemburgo, com seus acertos e equívocos, fornece à classe trabalhadora brasileira na atualidade uma contribuição para sua tarefa histórica de superação do PT pela esquerda, caminho necessário na luta pela revolução operária e socialista.