Capa: Os sofrimentos do povo, os ocupantes gringos e as condições da crise na Venezuela

Os sofrimentos do povo, os ocupantes gringos e as condições da crise na Venezuela

Por Ángel Arias |
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Através da Liga de Trabalhadores pelo Socialismo (LTS), organização irmã do MRT na Venezuela, além de participar das tarefas de voluntariado e do trabalho jornalístico em função da tragédia do terremoto, temos feito discussões coletivas sobre a situação. Nesse sentido vai este artigo, elaborado por Ángel Arias, do comitê editorial de La Izquierda Diario Venezuela, mas que sistematiza várias dessas discussões que queremos colocar à disposição de nossos leitores.

Quando se entra em La Guaira e se olha para a esquerda, em direção ao porto, é possível ver os navios militares norte-americanos, com seus radares funcionando a todo vapor. Outros voluntários se depararam com colunas de marines caminhando. O principal aeroporto do país, o Simón Bolívar, em Maiquetía, está sob “cogestão” entre militares dos EUA e pessoal venezuelano, ou seja, os gringos mandam e os daqui obedecem, sejamos claros. No conjunto, há de fato uma ocupação militar imperialista em La Guaira.

Isso ocorre enquanto, quase duas semanas após o contundente duplo terremoto, os familiares continuam tentando abrir espaços e remover escombros para tentar resgatar alguém com vida, ou pelo menos os corpos — expressão que já se tornou mais comum por lá nesses dias. No boletim oficial de 11 de julho, computam-se quase 4.400 mortes, evitando dar números de desaparecidos, que são vários milhares a mais e que, à medida que os dias avançam, para nosso pesar e especialmente para o dos familiares, aumentarão a primeira cifra.

O trabalho segue sendo feito, na maioria dos casos, pelas próprias famílias, com ferramentas precárias à mão, com ajuda solidária (há 28.362 voluntários registrados, segundo dados oficiais) e um fraco apoio estatal. As famílias com dinheiro conseguiram pagar por máquinas, a maioria continua desesperadamente pedindo ajuda, enquanto o repúdio à atuação do Estado é generalizado — tanto pelo que não fez nos primeiros dias, pelo que não faz hoje, como também por parte do que faz.

Ao mesmo tempo, aprofunda-se a crise social, tanto das famílias diretamente afetadas — além dos falecidos, falamos de 16.740 feridos, quase 856 edifícios afetados além dos colapsados, e quase 18 mil pessoas que agora não têm onde viver — como do povo trabalhador em geral, com a inflação galopante e o dólar disparando em saltos cada vez mais agressivos.

Também se completaram os 180 dias que a Constituição permitiria de uma presidência encarregada, figura sob a qual Trump, Rubio e os dirigentes chavistas do governo que permaneceu em Caracas após o 3 de janeiro, acordaram dar um verniz de “formalidade” ao regime político de tutela neocolonial que se estabeleceu. Já a permanência de Delcy no governo estaria violando as disposições constitucionais, seria necessário convocar eleições, clamam alguns setores da oposição de direita — como se o ataque imperialista que sequestrou o então chefe de Estado e impôs o governo atual estivesse previsto em algum artigo da Constituição Nacional! Há muito tempo a disputa pelo poder no país deixou de se resolver pelos canais da própria legalidade burguesa, para passar a se definir abertamente pelas ações de força, incluindo as bombas norte-americanas.

O certo é que o descontentamento social com o governo e sua falta de legitimidade na população são grandes. María Corina Machado, sabendo que é uma situação chave para seus próprios propósitos de chegar ao poder, insiste em querer voltar ao país, “é o momento”, diz. Trump não concorda, por ora prefere manter o protetorado com Delcy.

Agora, será possível que, após o luto, a crise social se transforme em crise política? Se isso acontecer, recorrerá o imperialismo a Maria Corina Machado como um “plano B” para continuar a sujeição nacional, seguirá sustentando seus atuais fiéis aliados, tentará com um “outsider” como Lorenzo Mendoza? E a classe trabalhadora, o povo pobre, como ficamos em tudo isso? Como fazer para não ficarmos presos a toda essa disputa de interesses nas alturas que nada têm a ver com os nossos?

Mais fuzileiros navais que pás

A indignação com o governo nacional está mais do que justificada: respondeu tarde e mal, querendo impor seu controle burocrático, autoritário e frequentemente ineficiente sobre aquilo que já o próprio povo estava resolvendo. Temos denunciado isso das mais variadas formas em La Izquierda Diario, tanto replicando denúncias da população como com reportagens próprias e conteúdos com nossa visão, como parte do voluntariado espontâneo e como militantes com consciência social e política. De acordo com uma pesquisa recente, 6 em cada 10 afetados direta ou indiretamente pelos terremotos consideram ruim (8,3%) ou muito ruim (52,4%) a resposta governamental; apenas 2 em cada 10 aprovam a gestão a respeito.

No entanto, há um ator fundamental que vem saindo quase ileso da raiva popular diante da tragédia: o governo dos Estados Unidos. O mal-estar está concentrado quase totalmente nos que mandam no Palácio Miraflores [Casa do governo venezuelano, NdT]… mas acaso os de Miraflores não recebem ordens da Casa Branca? O governo de Delcy Rodríguez é tutelado, subordinado em essência às diretrizes imperiais dos Estados Unidos. Por que os EUA não teriam responsabilidade na situação?

O chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, Francis Donovan, e o encarregado de negócios John M. Barrett, da embaixada norte-americana, em reunião com marines ocupantes em La Guaira.

De fato, uma crítica semelhante à que um voluntário fez, indignado, a um guarda nacional venezuelano, poderia ser dirigida aos EUA: trouxeram mais marines [fuzileiros navais, NdT] do que pás, mais militares do que socorristas. Segundo os relatos, vieram 250 especialistas em resgate, ao mesmo tempo que, no mínimo, 900 marines — há informes que indicam um número ainda maior. Marco Rubio, o mesmo a quem o governo de Delcy deve passar mensalmente um orçamento para que autorize o desembolso do nosso próprio dinheiro, prometeu uma ajuda “grande, rápida e eficaz”, mas o que foi realmente grande e eficaz foi o posicionamento militar sobre o país. Enquanto familiares e voluntários estão concentrados em remover concreto para encontrar pessoas e atender às necessidades urgentes dos sobreviventes, os militares norte-americanos foram rápidos em conquistar mais do que uma cabeça de praia em nosso território; tudo em conivência com o governo colaboracionista.

Te asfixio, te roubo o petróleo, controlo teus recursos… e te ofereço algo de ajuda

Mas a responsabilidade do imperialismo norte-americano é anterior e mais direta: não se trata apenas de fazer demagogia com promessas de ajuda e aproveitar a desgraça para ocupar militarmente parte do país. Além da incapacidade demonstrada pelos que estão à frente do Estado venezuelano para gerir uma situação como esta, é um fato objetivo que estamos diante de um Estado com capacidade de resposta bastante reduzida — resultado da soma das corrupções internas, da transferência da renda petroleira ao capital privado para fuga de divisas e de longos anos de agressões dos EUA contra a economia nacional.

Já se vão quase dez anos desde a implementação, em 2017, das primeiras sanções econômicas contra o país, que se intensificaram sobretudo a partir de 2019, sob a primeira presidência do mesmo personagem que hoje tutela o governo venezuelano. Impedimentos para vender petróleo, para obter crédito, para adquirir produtos e insumos, represálias contra quem comerciasse com a Venezuela, e uma infinidade de obstáculos, incluindo a confiscação direta de recursos nacionais no exterior. Tudo isso antes do bombardeio de janeiro, após o qual se roubaram meses de produção petroleira acumulada que o país não havia podido exportar devido ao bloqueio naval norte-americano, passando a controlar a maioria das exportações venezuelanas. É aos EUA que, desde há seis meses até hoje, chegam os pagamentos dessas vendas, das quais o governo Trump entrega apenas uma pequena fração ao país.

Como não relacionar todo esse banditismo e pilhagem imperialista com a redução das capacidades nacionais para responder a uma crise como a gerada pelos terremotos? Como não ver a conexão disso, por exemplo, com a falta de pessoal, equipamentos e ferramentas nos corpos de bombeiros e na Proteção Civil?

É certo que hoje essa responsabilidade não aparece claramente na consciência média da população; inclusive um setor considerável manifesta confiança nos EUA para liderar um processo de “reconstrução” pós-terremotos. Essa é outra responsabilidade política atribuível ao chavismo e à forma como terminou: a profundidade dos ataques econômicos e repressivos do governo chavista contra a classe trabalhadora e os setores populares, enquanto a casta governante seguia enriquecendo e desfrutando de uma vida de luxo, facilita a demagogia e a propaganda por meio das quais o imperialismo oculta sua responsabilidade nas calamidades nacionais.

Venezuela não "estar chévere"

Quando Bill Clinton visitou a Venezuela em 1997, em plena ofensiva neoliberal e crise terminal do pontofijismo (o regime burguês da época), fez-se jovial pronunciando uma expressão em espanhol: “Venezuela estar chévere” [a Venezuela está muito bacana, NdT], disse — com o típico mau uso do verbo to be. Mas não caiu bem, pois eram os anos das privatizações, dos demissões em massa, do aumento da informalidade e da pobreza, da repressão cotidiana às manifestações. Quase 30 anos depois, outro presidente norte-americano, expressão da decadência desse imperialismo, repete que a Venezuela está melhor que nunca, que os venezuelanos estão felizes e dançando, mesmo após os terríveis sismos — afirmações que não agradam em nada ao venezuelano comum.

A realidade é que, como se constata em qualquer conversa no país, os venezuelanos não consideram que estejam melhor do que antes da incursão militar imperial, mesmo entre muitos que, cansados do governo e da crise interminável, aplaudiram o 3 de janeiro, já se ouve dizer: “estamos até pior que com Maduro”, o que já é bastante dizer. A economia vinha crescendo, e continua crescendo, ao custo de aprofundar como nunca as desigualdades sociais: um pequeno setor concentra riquezas, outro amplia seu consumo, e a maioria sobrevive mês a mês, semana a semana. De acordo com a pesquisa Atlas & Bloomberg, apenas 3 em cada 10 venezuelanos consideram boa a situação econômica de sua família; 8 em cada 10 afirmam que a situação econômica do país é ruim; 6 em cada 10 acreditam que no futuro a economia seguirá igual ou piorará.

A inflação, que havia desacelerado — não que tivesse parado, mas seguia avançando em ritmo menos agressivo — voltou a ganhar impulso no último mês. O empobrecimento causado pela constante desvalorização do bolívar dá grandes saltos a cada dia, ao som da política governamental, que decidiu fixar a taxa de venda dos dólares oficiais à banca (as “intervenções cambiais”) o mais próximo possível do preço que o “livre mercado” marca para o dólar nas transações do país. É tão simples quanto drástico: busca “fechar a brecha cambial” aproximando aceleradamente o dólar oficial ao paralelo — cuja principal referência no país é o USDT da Binance — para, dizem, desestimular a revenda de dólares no mercado paralelo e frear esse componente-chave da formação dos preços em alta.

Essa política se traduz em golpes diários sem piedade ao bolso dos assalariados e dos setores mais empobrecidos do povo, com a promessa de que assim o dólar se unificará em um preço máximo no qual se estabilizará e virá, então, o sossego, a economia se estabilizará e virão os benefícios. É a mesma receita que vêm tentando desde 2018 quando, no marco do “Plano de recuperação, crescimento e prosperidade”, executaram a megadesvalorização que levou o dólar oficial ao mesmo preço do paralelo; logo o paralelo voltou a se distanciar, e assim continua a dinâmica até hoje, com o oficial seguindo-o como sombra ao corpo. Enquanto isso, a angústia das famílias trabalhadoras não cessa.

Um governo sem apoio popular. Quem o sustenta?

A Maduro, esvaziado de apoio popular, sustentava a repressão interna; o de Delcy também é um governo sem maior base de sustentação em algum apoio de massas. A situação econômica do país faz com que a desaprovação ao governo venha aumentando nos últimos meses, e sua atuação diante da tragédia acelerou esse processo. As manifestações de rejeição se sucedem diariamente, já não são anedotas isoladas, mas expressões numerosas que revelam uma raiva que já não se contém nem diante da presença dos corpos repressivos, que cada vez mais a população se atreve a desafiar.

No entanto, o regime político mudou na Venezuela após o 3E. Apesar da estridência da direita tradicional sobre “ficamos iguais”, “segue a ditadura chavista”, etc., o regime político hoje no país é o regime neocolonial imposto pelos EUA e pela colaboração local. O Executivo, o parlamento e as Forças Armadas venezuelanas estão subordinados a Washington, votam as leis que o norte exige, dão os passos que Trump e Rubio ditam.

Numerosos gestos e decisões mostram o apoio dos EUA ao atual governo. Quando perguntaram a um funcionário norte-americano sobre algum manejo inadequado do governo venezuelano diante das cifras e da tragédia em geral, este disse que o governo estava indo bem e que os números estavam cuidadosamente administrados. Quando veio à tona um impasse numa rua entre o ministro do Interior, Diosdado Cabello, e alguém dos “voluntários” norte-americanos, o governo Trump minimizou e afirmou que tudo estava esclarecido. Aqueles que, em sua mentalidade colonial, aspiram que o exército norte-americano também sequestre Diosdado, estão irritados e pedindo explicações sobre por que, ao contrário disso, e estando vigente uma recompensa dos EUA por sua captura, John Barret (principal figura diplomática dos EUA no país) e os altos comandos norte-americanos se reúnem cordialmente com ele.

O mais recente desencanto para os que depositam toda esperança de mudança de governo nas decisões imperiais foram as declarações de Trump nas quais, explicitamente, disse que não estão previstas eleições por ora na Venezuela. O país desceu ao terceiro mundo, não está em condições de ir a eleições, Washington seguirá dirigindo o país até considerar que há estabilidade e maturidade suficientes para escolher seu governo — foi o que disse, palavras mais, palavras menos, o energúmeno imperial.

No país podemos estar entrando em um humor social em que se esgota a paciência diante dos males sofridos e das promessas de “melhoria” após a incursão imperialista. Por ora, a distância entre os planos de Trump e a ala de María Corina parece se aprofundar, após as pequenas manifestações — mas que não deixam de ser um gesto — de alguns burocratas sindicais vinculados a María Corina Machado (da Coalizão Sindical) diante da embaixada norte-americana, questionando o apoio dos EUA ao governo de Delcy Rodríguez. No entanto, se a crise social der um salto, não se pode descartar que o imperialismo recorra a María Corina como plano B para manter a estabilidade do protetorado. De qualquer forma, o resultado das eleições de meio termo nos EUA em novembro, nas quais é provável uma derrota de Trump, incorporará mais elementos a essa situação.

Confiar apenas em nossas próprias forças, diferenciar bem amigos de inimigos, lutar pelo que é nosso

A ausência da classe trabalhadora e dos setores populares, como sujeitos com personalidade própria na disputa política nacional, é o que fez com que todas as saídas e opções fossem reacionárias, contrárias aos interesses do país e de suas maiorias. Hoje continuam nas alturas definindo entre eles nossos destinos: desde quem deve governar até a chamada “reconstrução” de La Guaira, tudo passa pelos acordos e desacordos entre os ocupantes norte-americanos, os políticos locais subordinados aos EUA — sejam os do governo ou María Corina —, as vergonhosas Forças Armadas venezuelanas, os representantes do Estado genocida de Israel e as grandes construtoras privadas.

Neste momento, mais do que nunca, devemos confiar apenas em nossas próprias forças como povo trabalhador. Ninguém nas alturas vai olhar por nossos interesses! Depois do 3E todos os poderosos garantiram seus interesses: os norte-americanos o controle do país, a casta governante sua sobrevivência como camarilha, os empresários um governo que lhes dá tudo o que pedem. As necessidades da classe trabalhadora foram as que ficaram totalmente de fora desse jogo de poderes. Hoje, após os terremotos, não será diferente, a menos que coloquemos de pé nossa força contra todos esses interesses.

Se algo demonstrou a enorme resposta de socorro e solidariedade desde baixo diante da tragédia, é do que somos capazes quando se mobiliza em massa uma vontade. Convém tomar consciência dessa potencialidade. A massiva autoatividade que milhares desenvolveram nos bairros e comunidades é um ponto de apoio central para buscar colocar de pé instâncias de auto-organização das massas. Desenvolver esse potencial de contrapoder desde baixo é a única forma de ir construindo uma saída de fundo própria.

Com essa consciência e firmados numa perspectiva de independência política como classe trabalhadora, devemos seguir firmes em negar a este Estado o direito de controlar, com sua burocracia e autoritarismo, os processos de atenção e organização pós-terremotos — um governo que, além de tudo o que já era ruim, agora também é vassalo dos interesses imperialistas sobre o país. O destino das famílias afetadas não pode ficar nas mãos do governo que respondeu tarde e mal; as famílias devem ter o direito de escolher democraticamente seus porta-vozes em cada abrigo e coordenar-se com os porta-vozes dos outros abrigos, para expressar organizadamente e com força seus interesses.