Há momentos em que reivindicações aparentemente elementares adquirem uma força explosiva porque condensam um vasto conjunto de experiências. Pedir professores, salas de aula em bom estado, funcionários em número suficiente e horários suportáveis poderia ter sido o ponto de partida de um conflito escolar limitado. No entanto, quando essas reivindicações se espalham de um estabelecimento para outro, quando aqueles que as formulam se reconhecem na indignação de jovens que nunca viram e quando o Estado responde com uma repressão selvagem, a mobilização levanta uma questão mais profunda: por quanto tempo uma geração pode aceitar as condições de vida e o futuro degradado que lhe são impostos?
A revolta dos colégios (lycées) que se estende pela França convida a considerar essa possibilidade de uma mobilização que atinja toda uma geração. Seria prematuro atribuir-lhe um programa acabado ou anunciar o seu desfecho. Mas a sua dinâmica inicial reúne reivindicações imediatas, uma vivência de desigualdade e uma contestação, ainda dispersa, da ordem existente. É nessa combinação que reside a sua potência política. A comparação com os coletes amarelos (gilets jaunes) permite lançar luz sobre essa configuração. Não porque se trate do mesmo sujeito social ou porque a dinâmica iniciada em 17 de novembro de 2018 esteja prestes a se reproduzir de forma idêntica, mas porque permite identificar um mecanismo de transbordamento comum: um protesto que nasce da base, em torno de questões materiais concretas, e através da qual começa a se expressar um mal-estar que nenhuma organização havia conseguido reunir.
Quando as margens tomam a iniciativa
A origem da mobilização nos colégios populares da periferia parisiense revela-se decisiva. Como destaca Ulysse Rabaté, a contestação torna visível uma "experiência particular das desigualdades" vivida nos estabelecimentos de Seine-Saint-Denis e Val-de-Marne, de onde partiu o movimento. Habitualmente tratados como um problema a ser gerido, atingidos pelo racismo de Estado, esses jovens surgem como os protagonistas de uma luta pela educação e a iniciativa política surge de meios dos quais geralmente se nega a capacidade de agir por si mesmos.
No centro da raiva, uma promessa de "igualdade" que se choca com a realidade das condições materiais. O que significa exigir o mesmo esforço escolar a todos os jovens quando faltam professores, os prédios se deterioram e os recursos para acompanhar os alunos se mostram insuficientes em parte dos estabelecimentos? Como atribuir o fracasso ao comportamento individual quando as condições de aprendizagem são tão desiguais? A questão ultrapassa o âmbito de um estabelecimento escolar. Com efeito, a escola é um dos locais onde os filhos das famílias de trabalhadores experimentam a contradição entre as promessas de ascensão social e os obstáculos que encontram para concretizá-las. Quando essa contradição deixa de ser vivida como uma dificuldade privada e começa a se expressar coletivamente, o que parecia ser um fracasso pessoal surge como uma injustiça compartilhada.
A maneira como esses jovens se representam também tem a sua importância, como observa ainda Ulysse Rabaté: "os códigos dos bairros compõem a estética dessa mobilização, das palavras aos trajes escolares." Os códigos culturais, as formas de se expressar e as redes sociais tornam-se recursos para a mobilização. O forte sentimento de pertencer aos seus bairros é um cimento que lhes permite se fazerem ouvir. Nesse contexto, a extensão do movimento aos estabelecimentos escolares dos centros urbanos, seja em 29 de setembro em Bordéus, 30 de setembro em Rennes ou nesta quinta-feira em Paris, reveste-se de um significado particular. As primeiras observações sobre o movimento sugerem que a solidariedade com os jovens dos bairros populares e o rechaço à repressão transcendem as diferenças sociais entre os colégios. Se essa tendência se confirmar, tornará difícil uma manobra clássica: confinar a contestação e os seus métodos à juventude dos bairros populares, apresentada como alheia ao resto da sociedade.
Um mal-estar que ultrapassa as reivindicações escolares
A ausência de uma reforma única à qual se opor distingue este movimento de outras grandes lutas da juventude. Se existem reivindicações comuns, como a rejeição massiva do horário "8h – 18h" ou a questão das condições de estudo, a sua combinação varia de um estabelecimento para outro. Essa diversidade pode complicar a unificação, mas, ao mesmo tempo, também permite que muitos jovens encontrem as suas próprias razões para se juntar ao movimento. Uma característica que ecoa a experiência dos coletes amarelos, onde a multiplicidade de reivindicações expressava um acúmulo de queixas que já não encontravam resposta pelas vias habituais. Nestes últimos dias, cada estabelecimento se junta à mobilização por conta de suas próprias dificuldades, mas a dimensão dos bloqueios mostra que existe, sim, uma condição comum. A falta de professores remete ao abandono dos serviços públicos; os horários e a disciplina, à impossibilidade de decidir sobre a própria vida; a seleção escolar, à incerteza quanto ao futuro. Como em 2018, a contestação começa a reunir o que, até então, era vivido separadamente, e as reivindicações concretas abrem caminho para um questionamento mais geral das condições de existência.
Os depoimentos, reunidos pelo Le Monde nesta quinta-feira, 1º de outubro, expressam essa ampliação do horizonte. O jornal nota, por exemplo: "no colégio Faidherbe em Lille, esta aluna do primeiro ano olha para as grandes lixeiras queimando no meio da rua ao lado do seu estabelecimento. Claro, há 'as condições de trabalho degradadas, as salas lotadas e o prédio que precisa de reformas', mas logo outro mal-estar se revela. Prestes a completar 17 anos, Fanny enumera as angústias que pesam no seu cotidiano: 'As catástrofes climáticas, a IA que vai engolir todos os empregos, o risco de o RN vencer as eleições...' Ela se reconhece 'bastante privilegiada, com dois pais que trabalham e ganham bem, mas isso não muda nada no futuro que nos espera. Não há por que se surpreender que alguns surtem'." Da mesma forma, em muitos bloqueios, o apoio à Palestina se expressa com força, enquanto um cartaz levantado em 25 de setembro afirma: "eles rearmam o país, eles desarmam o nosso futuro." Por fim, enquanto a data de 17 de outubro circulava nas últimas semanas nas redes sociais para denunciar o preço do combustível, impulsionada por jovens trabalhadores dos bairros populares, muitos secundaristas fazem referência a ela. Vários exemplos que mostram que, embora as reivindicações escolares sejam claramente um motor da raiva dos secundaristas, ela não para por aí. Um mal-estar profundo atravessa diversos setores da juventude.
A especificidade da revolta poderia residir nessa tensão: a juventude exige poder estudar com dignidade, mas começa a colocar em questão a ideia de que estudar e se esforçar garantirão uma vida melhor. O colégio concentra essa contradição, pois é ali que parte do futuro dos jovens se decide. Ora, na França, as promessas de Macron de um progresso pelo esforço individual estão profundamente desacreditadas, enquanto o neoliberalismo mostra nos últimos anos a sua face autoritária e repressiva, em particular contra a juventude dos bairros populares. Elementos que permitem compreender a intensidade da contestação, sem contudo considerar a sua radicalidade política como algo estático. De fato, a indignação pode coexistir com expectativas institucionais, reivindicações locais e ideias contraditórias. A sua evolução dependerá das respostas do poder, dos laços que a mobilização tecerá com outros setores explorados e oprimidos, bem como das experiências coletivas que conseguir construir.
A repressão amplifica o conflito
Nesse contexto, a resposta policial violenta e massiva, com 1.949 detenções só nesta quinta-feira, introduz uma nova experiência comum. À desigualdade escolar soma-se a descoberta da repressão de Estado contra aqueles que tentam lutar. A denúncia das intervenções violentas em frente aos estabelecimentos, das detenções e dos alunos feridos toca não apenas a consciência dos mobilizados, mas vai muito além. A defesa do direito de se mobilizar ocupa, assim, um lugar central nestes últimos dias. A repressão tem como objetivo imediato dispersar, intimidar e desestimular a participação, mas também cumpre uma função política. Ela desvia o debate para a questão do comportamento daqueles que protestam. Em vez de prestar contas sobre a deterioração da educação, o governo exige dos jovens que justifiquem os seus métodos, não sem se apoiar, para isso, em um imaginário racista, como se viu com a fake news sobre "jatos de ácido" divulgada por Sébastien Lecornu.
As acusações de manipulação por parte do LFI ou da "ultra-esquerda" inserem-se na mesma estratégia. Partem do princípio de que adolescentes, embora claramente capazes de descrever o que acontece em seus colégios, não teriam a capacidade de decidir se mobilizar. Esse argumento permite desacreditar a sua palavra e transformar o conflito social em uma disputa entre o executivo e os seus adversários. Ora, se a intimidação pode funcionar e a repressão desgastar um movimento, especialmente se os seus participantes se encontrarem isolados, ela também pode reforçar a solidariedade e transformar uma reivindicação escolar em um confronto no terreno dos direitos democráticos.
Trata-se de um impasse importante. Daí a necessidade de impedir que se instale uma divisão entre os alunos cuja luta seria "legítima" e os jovens dos bairros populares ou os "vândalos" que poderiam ser reprimidos sem consequências. A defesa dos secundaristas mobilizados deve se estender a todos os estabelecimentos e se prolongar após as manifestações: acompanhando as famílias, oferecendo apoio jurídico, denunciando pública e coletivamente as sanções. O destino da mobilização também se joga quando as câmeras desaparecem. Ao mesmo tempo, o fechamento de centenas de estabelecimentos para quebrar a mobilização constitui outra forma de repressão a ser combatida, na qual os professores poderiam ter um papel fundamental ao recusar ministrar aulas à distância, como fizeram os professores do colégio René Cassin em Gonesse.
"Não toquem nos secundaristas!": o movimento estudantil deve marcar presença
Apesar dos pontos de semelhança, existe uma diferença importante entre o movimento e uma característica dos coletes amarelos. O caráter autônomo da mobilização secundarista não se traduz em uma hostilidade contra qualquer intervenção partidária. Ulysse Rabaté observa que alguns representantes políticos são acolhidos como apoios úteis. É o caso por parte do LFI, por exemplo com Louis Boyard ou o prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, mas também do Révolution Permanente, seja com Anasse Kazib, Elsa Marcel ou Christian Porta em Saint-Avold. Essa abertura pode traduzir uma vontade de encontrar aliados, como evidencia também a simpatia que o apoio dos professores desperta nos alunos.
Esse apoio deve agora se ampliar graças ao envolvimento ativo dos estudantes universitários. As cenas de alegria no encontro entre os secundaristas do colégio Paul Éluard e os estudantes de Paris 8 nas ruas de Saint-Denis constituem um primeiro passo, assim como os primeiros elementos de mobilização estudantil, com um apelo de Rennes 2 para bloquear a universidade e se juntar aos colégios, e ações do mesmo tipo na Universidade Paris Cité ou no campus La Chapelle da Universidade Paris 1. O envolvimento dos estudantes universitários pode, além disso, trazer experiência, oferecer locais de reunião e permitir a construção de alavancas organizacionais com os secundaristas, por meio de assembleias e coordenações democráticas. As organizações políticas e sindicais deveriam contribuir para reforçar essas ferramentas e fazer propostas nesse sentido, como é o caso do Le Poing Levé.
A necessidade estratégica do apoio do movimento operário
Outro desafio situa-se do lado do movimento operário. Nesta quinta-feira, trabalhadores de diferentes empresas de Le Havre formaram um cordão em frente ao colégio François Ier para proteger os jovens da polícia. Um episódio que oferece uma ilustração da aliança que poderia mudar a correlação de forças. Assim, para além do seu alcance local, esse gesto abre uma perspectiva estratégica. A juventude deixa de estar sozinha quando setores organizados de trabalhadores consideram a sua defesa como uma missão própria.
Essa solidariedade tem, inclusive, uma base material. As condições de estudo dos filhos dos trabalhadores e as condições de trabalho dos funcionários da educação dependem de recursos, quadros e decisões orçamentárias comuns. Os professores e os assistentes de educação, que vimos inaugurar essa prática dos cordões de proteção em Paul Éluard, conhecem por dentro o que os alunos denunciam. Os pais sofrem as consequências da deterioração do sistema escolar, paralelamente às dificuldades ligadas ao trabalho, à moradia e aos serviços públicos. No entanto, uma base comum não desemboca automaticamente em uma luta comum.
Para que a solidariedade mude o jogo, ela deve se traduzir em presença em frente aos estabelecimentos, assembleias comuns, laços com sindicatos de outros setores e ações decididas coletivamente. A proteção contra a polícia deveria ser o início de uma relação mais duradoura. O apelo do Le Poing Levé para uma "semana negra" a partir de 5 de outubro e a vontade de várias organizações de juventude de organizar uma manifestação dos colégios e universidades em 6 de outubro podem, por exemplo, ser a oportunidade para organizar delegações de trabalhadores para começar a participar ativamente do movimento. A mobilização contra o CPE (Contrato de Primeiro Emprego), cujo vigésimo aniversário se celebra este ano, oferece um precedente importante. Na época, a irrupção dos secundaristas e universitários, as assembleias e a coordenação estudantil, associadas à participação dos trabalhadores nas jornadas de greve e manifestação, permitiram criar uma correlação de forças que forçou o governo Villepin a retirar a medida. Essa experiência mostra o que pode mudar quando a revolta dos jovens encontra um eco ativo no seio do movimento operário.
Em frente aos portões do colégio Faidherbe de Lille nesta quinta-feira, uma faixa proclamava: "Tu nous la mets à l’envers, on te la Mai 68" ("Se você nos passar a perna, a gente te manda um Maio de 68"). Esse desafio abre uma perspectiva que devemos contribuir para construir: fazer com que a revolta dos jovens encontre a força do movimento operário. Até porque a iniciativa dos jovens poderia devolver a confiança a setores que viveram, nos últimos anos, derrotas ou mobilizações cujos resultados raramente estiveram à altura.
Do transbordamento à organização da contra-ofensiva
O movimento dispõe de uma força inicial evidente: ele se espalha de maneira espontânea em escala nacional, e até mesmo na Bélgica! Essa característica torna a sua contenção difícil, mas também coloca um problema. Os laços entre alunos que permitem lançar um bloqueio não são suficientes para coordenar centenas de estabelecimentos, elaborar reivindicações comuns ou preparar um plano para passar à ofensiva. As redes sociais aceleram a circulação das experiências. No entanto, apenas a organização permite discutir e decidir o que fazer. Nesse sentido, uma coordenação construída a partir de assembleias poderia unir as reivindicações comuns — relativas, por exemplo, aos meios educativos, ao fim do Parcoursup ou à luta contra a repressão —, sem apagar as reivindicações particulares de cada colégio.
Para os militantes revolucionários do Révolution Permanente e do Le Poing Levé e todos os seus simpatizantes, o desafio consiste em contribuir para essa perspectiva a partir de pontos de apoio concretos. Onde quer que existam laços entre os alunos, o pessoal educativo e os trabalhadores de outros setores, é preciso promover iniciativas que sirvam de exemplo e possam ser reproduzidas. A questão decisiva é saber se a indignação que se difunde hoje nos colégios pode se transformar em organização e em uma solidariedade duradoura, ao mesmo tempo em que se estende a novas camadas dos explorados e oprimidos. Os cordões de trabalhadores em frente aos portões dos colégios carregam em si uma perspectiva estratégica: que a defesa da juventude se transforme em uma luta comum contra as políticas que deterioram os seus estudos, as condições de trabalho dos seus pais e o futuro de uns e de outros. O desafio consiste, portanto, em transformar essa solidariedade inicial em uma força organizada capaz de passar à contra-ofensiva.