Capa: Trótski, a Revolução e um legado diante da barbárie capitalista

Trótski, a Revolução e um legado diante da barbárie capitalista

Por Daniel Lencina |
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Trótski, dirigente-chave na Revolução Russa de 1917, forjou a teoria da revolução permanente e reivindicou a ação revolucionária consciente, a auto-organização operária e a necessidade de uma direção. Hoje se completam 86 anos de seu assassinato. Seu legado, ainda vigente, enfrenta a barbárie capitalista atual.

Por que, se “tão morto está”, sua vigência é uma ameaça à ordem burguesa? Suas ideias estão realmente “mortas” e seu legado – como disse Isaac Deutscher, seu biógrafo mais importante – encontra-se “sob uma montanha de cães mortos”? Por que o Programa de Transição, documento fundacional da Quarta Internacional de 1938, continua tendo vigência quando falamos de “controle operário” e “auto-organização” da nova classe trabalhadora e do povo pobre? Por que a “independência política” da classe trabalhadora continua causando alergia àqueles que preferem falar do “mal menor” e buscar uma saída dentro dos marcos do sistema capitalista? A Revolução socialista é possível, impossível ou necessária?

Cada vez que aflora a luta de classes e vem à superfície, rompendo a rotina dos “dias normais”, o fantasma de Trotsky sobrevoa, ameaçador, palácios, escritórios de multinacionais e centros de poder. Cada vez que os trabalhadores tomam em suas mãos a direção de suas próprias lutas, se auto-organizam, deliberam democraticamente e se propõem a expulsar as burocracias de seus sindicatos, talvez sem saber, o nome de Trotsky tremula como o principal estandarte. E não qualquer estandarte: falamos de uma tradição histórica e internacional que transcende todo tipo de fronteiras e regimes políticos.

Quando se cumpre um novo aniversário de sua morte às mãos de um sicário de Stalin, em 20 de agosto de 1940, revisitamos algumas chaves para conhecer seu legado e pensar sua atualidade no século XXI.

Trotsky e a história da Revolução nas veias

León Trotsky não foi apenas um teórico da revolução: foi, sobretudo, um dirigente de massas, forjado na clandestinidade czarista, na repressão das prisões e nos combates decisivos que marcaram a primeira metade do século XX.

Desde sua juventude, Lev Davidovich Bronstein (seu verdadeiro nome) viveu a dureza da repressão: foi preso aos 19 anos, sobreviveu a 20 prisões diferentes, à fome e ao frio mortal da Sibéria. Nesse contexto nasceu um revolucionário que, junto com Lenin, organizaria a insurreição de Outubro de 1917 e o Exército Vermelho, abrindo vitoriosamente a era das revoluções.

A experiência forjada na primeira Revolução Russa de 1905 e na greve geral política o levou a ser presidente e melhor orador do primeiro Soviet (conselho) de deputados operários. A insurreição de Outubro marcou profundamente sua estratégia: a auto-organização operária, o poder das massas e a necessidade de uma direção revolucionária capaz de guiar e unificar essas forças para formar um governo operário, camponês e popular.

A Revolução Francesa: espelho e herança

Para Trotsky, a história foi sempre mestra, nunca museu, e dizia que os livros são o alimento dos revolucionários. Estudou e escreveu intensamente em sua estadia na prisão e também na guerra civil posterior à tomada do poder em 1917. Seus escritos estão repletos de referências à Grande Revolução Francesa de 1789.

Em textos como Resultados e Perspectivas e em sua monumental obra História da Revolução Russa, Trotsky comparou os processos revolucionários russos com as grandes revoluções burguesas da Inglaterra e da França. Analisou o Termidor francês (a reação contra a ala mais radical da revolução) para compreender o retrocesso “termidoriano” sob Stalin, que traiu o impulso revolucionário e submeteu a classe trabalhadora ao sangue e ao fogo.

Ao mesmo tempo, criticou a traição posterior da burguesia, que se vestiu de fraseologia revolucionária apenas para frear o ímpeto plebeu dos sans-culottes, trabalhadores e camponeses pobres, e proteger sua propriedade.

Para Trotsky, o proletariado deveria recolher essa herança de radicalidade, mas superar a burguesia traidora para empurrar em direção ao socialismo. Tal como assinalou Marx, a história se repete: primeiro como tragédia, depois como farsa. No século XX, a burguesia mundial mostrou, sem máscaras, seu caráter absolutamente reacionário.

Direção, auto-organização e a chave do triunfo

As revoluções não caem do céu, e Trotsky demonstrou que a auto-organização das massas (os soviets, por exemplo), embora seja uma condição necessária, não é suficiente para mudar a história. Sem uma direção consciente, sem um partido de trabalhadores revolucionário, a oportunidade pode se perder como água entre os dedos. Assim o confirmou a experiência russa: a dualidade de poderes entre o Governo Provisório e os Soviets, entre fevereiro e outubro de 1917, só se resolveu favoravelmente pelo peso do Partido Bolchevique e pela intervenção decisiva de dirigentes como Lenin e Trotsky.

Na noite de 24 para 25 de outubro de 1917, o Comitê Militar Revolucionário, sob direção de Trotsky, organizou a insurreição e, quase sem derramamento de sangue, os bolcheviques tomaram o poder. O entusiasmo popular foi tão grande quanto o temor da velha Rússia aristocrática e burguesa, que não percebeu seu próprio fim ou, quando percebeu, já era tarde demais. Esse processo revolucionário não foi mecânico: dependeu do nível alcançado pela subjetividade das massas trabalhadoras, isto é, da consciência e da organização, mas também da audácia de milhões, dirigidos por um partido revolucionário.

“As revoluções são momentos de arrebatadora inspiração da história.” — León Trotsky

Perseguição, exílio e a batalha contra o fascismo

A vida de Trotsky é também a história da perseguição da revolução. Após a ascensão de Stalin, o mundo se tornou uma prisão sem visto para Trotsky: não havia lugar para ir nem para escapar. Do exílio, manteve intensa correspondência com seus camaradas de diversos países e continentes, acompanhou pela imprensa a realidade europeia, denunciou a política suicida do Partido Comunista Alemão (stalinista) e previu a ascensão do nazismo.

Trotsky foi um dos poucos que compreendeu a natureza do fascismo como instrumento do grande capital, destinado a esmagar fisicamente a classe trabalhadora e suas organizações, e junto delas todos os povos e nacionalidades oprimidas, inclusive a comunidade LGBT.

Sua aposta estratégica foi clara: diante do avanço do fascismo, propôs a Frente Única Operária, que significa: “Marchar separados, golpear juntos”. Trotsky chamou à defesa mútua de todos os espaços operários, sindicatos e partidos, à organização armada de destacamentos antifascistas em cada fábrica e à ação comum, sem se subordinar aos burocratas reformistas que pretendiam “negociar” com o fascismo.

A negativa do estalinismo e da socialdemocracia alemã a essa política facilitou o ascenso de Hitler, e a derrota do movimento operário mais organizado do mundo foi irreversível. Trotsky advertiu: a revolução só será possível se a classe trabalhadora for politicamente independente e se a esquerda revolucionária não se submeter nem ao reformismo nem à burocracia.

Teoria da revolução permanente e sua vigência

O maior aporte de Trotsky foi a Teoria da Revolução Permanente. Em países atrasados, a burguesia é incapaz de levar a fundo as tarefas democráticas estruturais e formais; o proletariado, em aliança com o campesinato, deve tomar o poder e avançar rumo ao socialismo. A experiência russa confirmou essa perspectiva: nenhuma força conseguiu reverter a reforma agrária nem restaurar o velho regime. Mas o socialismo não pode se consolidar em um único país: a revolução deve ser internacional e culminar em todo o planeta. O isolamento da Rússia levou à burocratização e ao retrocesso com Stalin, que abriu as portas para a restauração do capitalismo.

Hoje, em um mundo atravessado por guerras, crise econômica e enquanto o capitalismo oferece novas formas de barbárie, as lições de Trotsky seguem mais vivas do que nunca. A revolução não é inevitável, mas sim possível e, sobretudo, necessária. Depende da ação consciente de milhões, da auto-organização e da construção de direções revolucionárias preparadas para os desafios históricos.

A atualidade de Trotsky é a atualidade da luta por uma alternativa ao capitalismo, antes que a burguesia “transforme nosso planeta em uma prisão suja e triste”, como dizia o velho bolchevique. Uma alternativa que não copie mecanicamente o passado, mas que se nutra de suas lições históricas para abrir um futuro que mereça ser vivido. Por isso, recordamos as palavras finais de seu Testamento político:

“Minha pressão arterial alta (que continua aumentando) engana os que me cercam sobre meu estado real de saúde. Sinto-me ativo e em condições de trabalhar, mas evidentemente aproxima-se o desfecho. Estas linhas serão publicadas após minha morte.

Não preciso refutar mais uma vez as calúnias estúpidas e vis de Stalin e seus agentes; em minha honra revolucionária não há uma única mancha. Nunca entrei, direta ou indiretamente, em acordos ou negociações ocultas com os inimigos da classe trabalhadora. Milhares de adversários de Stalin foram vítimas de acusações igualmente falsas. As novas gerações revolucionárias reabilitarão sua honra política e tratarão como merecem os verdugos do Kremlin.

Agradeço calorosamente aos amigos que permaneceram leais nas horas mais difíceis de minha vida. Não nomeio nenhum em especial porque não posso nomear a todos.

Contudo, creio que se justifica fazer uma exceção com minha companheira, Natalia Ivanovna Sedova. O destino me concedeu, além da felicidade de ser um lutador da causa do socialismo, a felicidade de ser seu esposo. Durante quase 40 anos que vivemos juntos, ela foi sempre uma fonte inesgotável de amor, bondade e ternura. Suportou grandes sofrimentos, especialmente na última etapa de nossas vidas. Mas me conforta o fato de que também conheceu dias felizes.

Fui revolucionário durante meus 43 anos de vida consciente e durante 42 lutei sob as bandeiras do marxismo. Se tivesse que começar tudo de novo, tentaria, é claro, evitar este ou aquele erro, mas no fundamental minha vida seria a mesma. Morrerei sendo um revolucionário proletário, um marxista, um materialista dialético e, em consequência, um ateu irreconciliável. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é hoje menos ardente, embora mais firme, do que em minha juventude.

Natasha se aproxima da janela e a abre para que entre mais ar em meu quarto. Posso ver a brilhante faixa de relva verde que se estende atrás do muro, acima o céu claro e azul, e o sol brilha em toda parte. A vida é bela. Que as futuras gerações a libertem de todo mal, opressão e violência e a desfrutem plenamente.”