Capa: “Trumpificação” da América Latina? Direitas, relação de forças e luta de classes

“Trumpificação” da América Latina? Direitas, relação de forças e luta de classes

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Artigo publicado originalmente em espanhol no dia 30/06/2026 no Ideas de Izquierda Argentina.

Com Fujimori no Peru e De la Espriella na Colômbia, que se somam aos Kast, aos Milei e a outros governos de direita, fala-se de um mapa que se desloca para a direita. Mas, por trás da narrativa da “trumpificação” da América Latina, há um fenômeno muito mais complexo: uma proliferação de “crises orgânicas”, no sentido de Gramsci. Pode um Trump cada vez mais enfraquecido sustentar esses governos? E o que a rebelião na Bolívia nos diz sobre como enfrentar essas direitas?

Há uma interpretação muito difundida, especialmente na imprensa hegemônica internacional, que lê os resultados do Peru e da Colômbia como se o mapa da América Latina estivesse sendo pintado de uma única cor e como se a única coisa que existisse fosse o avanço da direita. A The Economist chegou a afirmar, de maneira sensacionalista, que estamos assistindo a uma “dramática trumpificação da América Latina”. Mas o que vemos, na realidade, é uma enorme polarização, que produz eleições extremamente apertadas.

No Peru, a contagem oficial dá como vencedora Keiko Fujimori por uma diferença ínfima de 0,3% (apenas 49.641 votos), com a diferença sendo definida sobretudo pelos votos do exterior, especialmente os provenientes dos Estados Unidos. Roberto Sánchez denunciou fraude e anunciou que convocará mobilizações. Fujimori será a nona presidente em dez anos, em meio a uma profunda crise política. Na Colômbia, Cepeda reconheceu a vitória do direitista e admirador de Trump, De la Espriella, após uma votação extremamente polarizada. No entanto, afirmou que convocará a “resistência civil” caso este não renuncie à sua nacionalidade norte-americana.

O apoio de Trump na Colômbia ou os votos dos residentes no exterior, no caso do Peru, aparecem como fatores que definiram a eleição em favor da direita por uma margem muito estreita. Entretanto, se observarmos o período entre 2015 e hoje, houve 25 eleições presidenciais na América do Sul e, em 18 delas, os respectivos governos foram derrotados. Ou seja, em mais de 70% dessas eleições, os oficialismos perderam — e, se deixarmos de lado os processos eleitorais mais controversos, essa porcentagem é ainda maior. É nesse contexto que devem ser interpretadas as recentes vitórias eleitorais da direita.

Fraturas internas e crises orgânicas

O cenário latino-americano é atravessado por profundas contradições. O Peru profundo, rural e popular, votou majoritariamente em Sánchez no segundo turno, com percentuais a seu favor entre 70% e 80%; enquanto a costa, incluindo Lima, deu importantes vantagens a Fujimori. Trata-se de fraturas atravessadas por demandas sociais, nacionais-indígenas e das comunidades camponesas. Fujimori é herdeira do brutal neoliberalismo autoritário de seu pai, enquanto Sánchez se referencia em Pedro Castillo, ex-professor rural que, apesar de ter sustentado um programa moderado, foi destituído pela direita em dezembro de 2022 e hoje está preso.

O problema é que a chegada de Fujimori ao governo não resolve essa divisão; ao contrário, pode agravá-la. Além disso, deve-se levar em conta que o mecanismo do segundo turno favorece “coalizões negativas” e heterogêneas de eleitores, que se posicionam mais contra o outro candidato do que por uma adesão política ou ideológica firme ao candidato que apoiam. No caso de Fujimori, ela obteve apenas 17% dos votos no primeiro turno. Somados, ambos os candidatos não haviam ultrapassado 30% no primeiro turno, o que indica a persistência da crise de representação.

Na Colômbia, repete-se o padrão de uma divisão geográfica e social. O centro do país apoiou De la Espriella, enquanto a periferia mais pobre e cidades como Bogotá inclinaram-se por Cepeda. Há poucos dias, uma jornalista do jornal El País advertia que, se De la Espriella tentar aplicar um plano do tipo “motosserra”, poderá ser reativado um ciclo de protestos tão profundo quanto o vivido entre 2019 e 2021. E, de fato, trata-se de um cenário possível. O caso da Bolívia mostra um cenário desse tipo, que se abriu a partir da ofensiva do governo de Paz, o qual também aparece atravessado pela divisão entre o ocidente andino — que teve em El Alto um epicentro da rebelião — e o oriente das elites agroindustriais, que pressionam pela direita.

Para compreender tudo isso, é útil retomar o conceito de “crise orgânica”, de Antonio Gramsci. Trata-se de crises que não afetam apenas a economia ou um governo específico, mas o conjunto da ordem social, política e econômica. A questão central é que as classes dominantes perdem a capacidade de dirigir por meio do consenso, abrindo espaço para as “soluções de força”. Gramsci assinalava que:

Em determinado ponto de sua vida histórica, os grupos sociais se separam de seus partidos tradicionais; isto é, os partidos tradicionais, naquela determinada forma organizativa, com aqueles determinados homens que os constituem, representam e dirigem, já não são reconhecidos como sua expressão por sua classe ou fração de classe. Quando essas crises ocorrem, a situação imediata torna-se delicada e perigosa, porque o campo fica aberto a soluções de força... [1]

O ponto central é que a direita não consegue reconfigurar a correlação de forças no nível de que necessitaria. O que vemos, ao contrário, é um desgaste muito acelerado de governos de direita, como o de Kast no Chile, mas também grandes dificuldades enfrentadas por Milei na Argentina. Isso também pode ser observado na resistência encontrada por Rodrigo Paz na Bolívia. E tudo isso ocorre no contexto do enfraquecimento do próprio Trump. Diante das crises dos “progressismos”, as direitas chegam ao governo, mas depois se desgastam muito rapidamente e enfrentam enormes dificuldades para governar. Trata-se de um padrão que se repete em toda a América Latina. No entanto, o movimento de massas tampouco consegue, por enquanto, impor uma saída própria.

Como enfrentar essas direitas? Algumas lições estratégicas da rebelião na Bolívia

A Bolívia é a expressão mais explosiva dessa crise profunda. Depois de mais de cinquenta dias de rebelião camponesa e popular, o governo decretou estado de exceção, que pretende manter por três meses. Trata-se de um ataque direto às liberdades democráticas e ao direito de protesto, por meio da militarização dos nove departamentos com forças policiais e as Forças Armadas. Rodrigo Paz manteve-se no poder graças à traição da direção da Central Operária Boliviana (COB), que deixou isolados os bloqueios camponeses e ingressou nas negociações.

Esses cenários revelam a crise orgânica de fundo e colocam a necessidade de uma redefinição da correlação de forças. Na Bolívia, houve tentativas nesse sentido, tanto por parte do governo de Paz quanto do movimento de massas. O governo tentou perseguir os dirigentes — inclusive figuras como Argollo, da COB — e, em lugares como San Julián, buscou liquidar os bloqueios atacando-os frontalmente com a polícia e com as bandas paraestatais da Unión Juvenil Cruceñista. Mas foi derrotado de forma contundente. Teve de abandonar a perseguição a Argollo e montar uma cena patética de “diálogo” no Banco Central para que a direção da COB traísse publicamente o movimento. Com isso, consegue desmobilizar, mas não resolve o problema da correlação de forças necessária para avançar com a reestruturação implicada pelos planos imperialistas.

Por outro lado, o movimento de massas também não conseguiu alterar a correlação de forças a seu favor. Assistimos a um processo muito importante de auto-organização, antiburocrático, protagonizado por camponeses e trabalhadores precarizados, mas sem a adesão dos grandes contingentes de trabalhadores “formais”, mineiros e industriais. Colocou-se uma experiência decisiva com as direções burocráticas, mas ainda não foi possível superar essa fragmentação para combinar a rebelião popular com a greve geral.

Javo Ferreira e Daniel Vargas apontam uma série de lições estratégicas desses cinquenta dias de rebelião que convém reter. Entre elas, destaca-se o problema do corporativismo das direções sindicais, que constituiu um obstáculo central. A burocracia da COB jamais efetivou a greve geral aprovada no Cabildo de 1º de maio, de modo que os grandes batalhões de mineiros e operários industriais continuaram produzindo e exportando sem afetar os lucros capitalistas, enquanto Paz, por meio de concessões parciais, buscava desmobilizar os setores um a um.

Outra questão central, desta vez em sentido positivo, é o potencial demonstrado pelos fenômenos antiburocráticos e de auto-organização. Em El Alto surgiram comitês de bloqueio que desautorizaram as direções moderadas e criaram mecanismos de democracia direta — comitês de abastecimento, cozinhas comunitárias e estruturas de autodefesa — que, se tivessem se desenvolvido, continham o germe de um poder territorial, uma tendência ao duplo poder capaz de articular campo e cidade. Esses e outros elementos — como o problema da hegemonia ligado à organização popular do abastecimento — configuram-se como questões candentes para o movimento diante dos próximos confrontos de um conflito que, longe de resultar numa vitória contundente do governo, deixou estabelecida uma espécie de suspensão momentânea de uma disputa da qual tudo indica que veremos novos capítulos.

São alguns dos problemas estratégicos colocados pela rebelião boliviana, mas que vão além dela e dizem respeito a como derrotar essas direitas nos países latino-americanos. Por exemplo, no caso do Peru, também é decisiva a questão de como articular a aliança operária e indígena-camponesa. Essa questão se colocou de maneira aguda durante o levante contra o golpe da direitista Dina Boluarte, no final de 2022. Naquele momento, após dezenas de mortos pela repressão e numerosas marchas a Lima, a principal central operária viu-se obrigada a declarar uma “greve geral por tempo indeterminado”, mas não fez nada para garanti-la, o que permitiu ao regime sobreviver. Na Colômbia, durante as chamadas greves nacionais de 2019 e 2021, essa mesma questão também se apresentou. Trata-se de problemas estratégicos fundamentais para este novo ciclo de lutas na América Latina.

Estados Unidos e seu declínio hegemônico: um salva-vidas de chumbo?

Sem compreender a situação crítica em que chegam Trump — e o próprio imperialismo norte-americano — não é possível entender a profundidade dessas crises orgânicas que atravessam a América Latina. Martin Wolf intitulou sua coluna no Financial Times como “A ascensão e a queda da hegemonia norte-americana”, afirmando que o papel dos Estados Unidos como potência estabilizadora da ordem mundial teria desaparecido, assim como ocorreu com o Reino Unido por volta de 1900. O analista militar Robert Pape destacou que Trump não faz mais do que acumular derrotas e que ainda precisa assimilar a mudança drástica representada pela guerra no Irã, que deixa os Estados Unidos totalmente enfraquecidos na equação da ordem no Oriente Médio. Na mesma linha, o editorial da edição de julho/agosto da revista Foreign Affairs dedica-se a questionar se os Estados Unidos poderão continuar sendo o principal poder militar do mundo caso não se adaptem rapidamente às novas realidades reveladas por essa guerra. Esses editoriais de analistas do mainstream publicados na última semana oferecem um retrato ilustrativo das crises que afetam Trump e o imperialismo norte-americano.

Essas crises coexistem com cenários de polarização e com novos fenômenos políticos no interior da própria potência norte-americana. Em Nova York, três candidatos apoiados pelo prefeito da cidade, Zoharan Mamdani, do Democratic Socialists of America (DSA), venceram as primárias democratas. São candidatos identificados por sua oposição ao genocídio em Gaza, em contraposição aos representantes do establishment democrata, que defendem incondicionalmente o Estado de Israel e recebem financiamento do lobby sionista. A contradição é que se trata de uma disputa interna no Partido Democrata, partido do regime imperialista, a partir do qual, evidentemente, não se pode derrotar o capitalismo. Mas esses fenômenos indicam algo: em paralelo à radicalização de Trump e de outras direitas, também surgem fenômenos pela esquerda, com características particulares em diferentes países. Isso ocorre com setores juvenis do Die Linke, na Alemanha, com fenômenos políticos no Reino Unido, como foi, em seu momento, a emergência e as expectativas geradas pelo Your Party, e também na Argentina, com o fenômeno político em torno de Myriam Bregman, do PTS e da Frente de Esquerda.

Em todo esse cenário, coloca-se um problema grave para toda a direita regional que se abraça a Trump, de De la Espriella a Kast, Milei ou Paz. O apoio de Trump, que em muitos casos foi decisivo para que essas direitas chegassem ao poder, serve-lhes cada vez menos para governar. Mais ainda: pode se voltar contra elas, como um salva-vidas de chumbo, caso, em novembro — como parece cada vez mais provável — Trump perca o controle das duas câmaras legislativas nos Estados Unidos e se transforme em um "pato manco".

Na América Latina, o cenário de crises orgânicas coloca de forma cada vez mais aberta a perspectiva de enfrentamentos decisivos para definir a correlação de forças. Laboratórios da luta de classes, como a Bolívia, são fundamentais para extrair conclusões diante do que está por vir, para derrotar essas direitas e o imperialismo. A luta para combinar a rebelião popular com a greve geral, de modo a inclinar a correlação de forças em favor dos trabalhadores e trabalhadoras, dos camponeses e dos povos da região, torna-se uma questão central.

[1] Gramsci, Antonio, “Observaciones sobre algunos aspectos de la estructura de los partidos políticos en períodos de crisis orgánica” (Q13, §23), Cuadernos de la cárcel, Tomo 5, México, Ediciones Era, 1999.