[Itália] Um ano depois do “Blocchiamo Tutto”: balanço e perspectivas para uma política revolucionária
Este artigo foi publicado originalmente em italiano em 1º de outubro de 2026, em La Voce delle Lotte, integrante da rede internacional La Izquierda Diario na Itália.
Há um ano, a greve geral unitária de 3 de outubro de 2025 e a manifestação do dia seguinte, em Roma, levaram milhões de pessoas às ruas em apoio à Global Sumud Flotilla e à Palestina. Tratou-se do ponto culminante de um mês de mobilização, cujo ponto de inflexão havia sido o grande êxito da greve geral convocada pela central sindical de base USB em 22 de setembro. Esse movimento, que entrou para a história como Blocchiamo Tutto (Bloqueemos Tudo), representou a primeira irrupção massiva da classe trabalhadora na cena política italiana nos últimos vinte anos.
Enquanto isso, nestes dias, estariam surgindo sinais de que a Itália poderia se somar à onda de movimentos juvenis e de protestos de rua na Europa, que percorre a França, a Espanha, a Alemanha e a Bélgica. A seguir, apresentamos os principais trechos do documento político nacional da III Conferência da Fração Internacionalista Revolucionária – La Voce delle Lotte, seção italiana da Corrente Revolução Permanente – Quarta Internacional, realizada entre 4 e 5 de julho de 2026.
O documento apresenta um balanço do período de greves e bloqueios em solidariedade à Palestina, iniciado na segunda metade do ano passado: sua força, suas lições estratégicas e seus limites. Ao fazê-lo, analisa também os espaços que se abriram para uma política de independência de classe, contra o governo de Meloni e contra o chamado "campo largo", como são conhecidos os partidos de centro-esquerda que estão negociando a formação de uma frente.
1. Blocchiamo Tutto: uma brecha nas últimas duas décadas de estagnação social e política na Itália
Qualquer análise da situação política atual na Itália não pode deixar de partir das grandes mobilizações que ocorreram no início da segunda metade do ano passado e que ficaram na memória como Blocchiamo Tutto. Trata-se de uma palavra de ordem lançada em 30 de agosto de 2025 por Riccardo Rudino, trabalhador portuário genovês do CALP (Coletivo Autônomo de Trabalhadores Portuários), como plano de ação para o caso de um ataque à Global Sumud Flotilla, que partia justamente naquele dia de Gênova e foi saudada por uma manifestação popular que contou com ampla participação.
Entre setembro e outubro, essa palavra de ordem seria adotada como palavra de ordem de luta pelo maior movimento internacional de solidariedade à Palestina dos últimos dois anos e meio, assim como pela primeira irrupção significativa da classe trabalhadora e de setores de massa na cena política italiana nos últimos vinte anos. Uma irrupção capaz de arrastar as burocracias da principal central sindical, a CGIL, para o terreno de uma greve unitária com o sindicalismo de base contra o genocídio em Gaza e, em certos aspectos, de influenciar a própria agenda política dos governos imperialistas ocidentais.
Esta primeira parte do documento político concentra-se, portanto, na análise do Blocchiamo Tutto, situando-o no contexto das tendências de médio prazo da política italiana, com o objetivo de destacar seu alcance e as possibilidades que abriu para reverter uma tendência negativa na esquerda de nosso país.
Nesse contexto, são analisados os antecedentes, os pontos fortes da mobilização e suas lições estratégicas, sem, contudo, ocultar suas limitações, assim como as das vanguardas políticas que a influenciaram, ao menos em parte. O objetivo é articular uma luta política para que o legado do Blocchiamo Tutto não se disperse, mas possa representar um ponto de apoio para o desenvolvimento de uma política revolucionária nos próximos anos.
Por fim, combina-se uma análise do recuo relativamente rápido do movimento e das dificuldades enfrentadas pelos principais setores militantes para transformá-lo em um momento de acumulação política e organizativa com uma avaliação dos elementos de possível polarização à esquerda e de consolidação de alguns setores da vanguarda operária e juvenil como legado dos protestos de um ano atrás. Isso ocorre em uma conjuntura na qual o aprofundamento da crise econômica e das tensões internacionais pode dar origem a novos conflitos.
1.1 A “longa noite” da política de classe e da esquerda após 2008
O Blocchiamo Tutto de setembro-outubro de 2025 foi a primeira mobilização de massas ocorrida na Itália após o chamado movimento da “Onda”, contra a reforma educacional e os cortes promovidos pelo governo de Berlusconi e por sua ministra da Educação, Mariastella Gelmini, entre 2008 e 2011. Esse último foi um período em que também ocorreram importantes mobilizações operárias, como a luta dos trabalhadores da FIAT contra o fechamento de algumas fábricas e os aumentos brutais dos ritmos de trabalho. Isso levou a uma guinada (parcial) à esquerda da burocracia do sindicato metalúrgico FIOM e ao estabelecimento de vínculos até mesmo com o movimento estudantil.
Ao mesmo tempo, com a crise, também houve numerosas lutas contra as reestruturações: trabalhadores permaneceram nos telhados das fábricas, prática inaugurada pelo conflito na empresa de máquinas-ferramenta INNSE Berardi, em Milão. Posteriormente, o nível de mobilização na Itália permaneceu muito baixo em comparação com o de outros países europeus, em razão de diferentes dinâmicas.
Em primeiro lugar, houve a derrota do movimento da Onda contra a reforma educacional de Gelmini e a repressão subsequente contra as vanguardas estudantis, com a consequente desmoralização e as dificuldades para manter uma continuidade efetiva dos coletivos nas escolas e universidades. Além disso, os cortes e o empobrecimento agravaram a situação, provocando um verdadeiro colapso no número de matrículas universitárias, que só foi interrompido na segunda metade da década de 2010 1. Ao mesmo tempo, em 2015, o governo de Renzi conseguiu aprovar uma contrarreforma muito grave do ensino médio sem que houvesse uma verdadeira mobilização estudantil de massas. Pelo contrário, essa reforma, que ampliou o autoritarismo com a introdução da figura do diretor-gerente e de estágios obrigatórios nos locais de trabalho, tornou cada vez mais difícil a organização nas escolas.
Um segundo aspecto a considerar foram as derrotas no âmbito operário, particularmente na FIAT, com a implementação de uma organização do trabalho muito mais flexível (o “Plano Marchionne”), a exclusão da FIOM das fábricas e a demissão de setores de ativistas combativos nas principais unidades industriais em 2011. De maneira semelhante, as reestruturações, que no período posterior a 2008 provocaram a perda de quase um quarto da capacidade produtiva industrial da Itália — o índice mais alto da Europa 2, devastaram importantes vanguardas da classe trabalhadora, sobretudo no setor metalmecânico.
O terceiro elemento foi que, após a queda de Berlusconi, em dezembro de 2011, as três principais centrais sindicais italianas — CGIL, CISL e UIL — contribuíram ativamente para a estabilização capitalista, apoiando o governo técnico de Monti e, ao menos em um primeiro momento, a tentativa “macroniana” de Renzi, que chegou a nomear uma burocrata sindical, Bellanova, como ministra do Trabalho. A atitude das cúpulas sindicais explica-se pela ilusão de que poderiam ser incluídas em um marco de concertação com as forças de centro-esquerda representadas nos governos 3.
Além disso, dessa maneira, os grandes sindicatos permitiram que enormes cortes e contrarreformas neoliberais, como as relativas às aposentadorias e à Lei do Emprego, fossem aprovados praticamente sem resistência. Mais do que isso, na prática, os burocratas incentivaram o agravamento da crise industrial, particularmente afetada pelo colapso da demanda interna impulsionado pela austeridade e, consequentemente, pela deterioração das relações de força nos locais de trabalho, em um contexto de crescente precarização.
Uma situação como essa, por sua vez, empurrou ainda mais os sindicatos confederais para a direita, tanto em suas relações com o governo quanto com a entidade representativa dos grandes empresários, a Confindustria. Nesse âmbito, o “Pacto da Fábrica”, de 2018, reforçou o marco corporativista das relações de trabalho, sob a bandeira da automação 4.0 e da compressão salarial, a serviço de uma orientação cada vez mais voltada para as exportações.
O quarto e último aspecto decisivo para a estagnação dos conflitos sociais e a escassa polarização à esquerda na Itália foi a acentuada fragilidade das organizações situadas mais à esquerda, desacreditadas por sua colaboração com os governos de centro-esquerda do DS e da Margherita N1, que administraram o neoliberalismo, alternando-se com Berlusconi entre os anos 1990 e o início da década de 2000.
No contexto dos governos de Monti e Renzi, essa situação fez com que o Partido da Refundação Comunista (PRC) N2 fosse incapaz de disputar o espaço político com os populistas de centro do Movimento 5 Estrelas.
Além disso, é preciso considerar que as correntes trotskistas que atuavam no interior do PRC, com certo peso entre os anos 1990 e o início da década de 2000, foram completamente incapazes de se fortalecer a partir da estagnação dessa organização e de sua direção majoritária, que, em certos aspectos, antecipou a trajetória das tendências neorreformistas mais contemporâneas.
1.2 Luzes no fim do túnel: os antecedentes e os protagonistas do Blocchiamo Tutto
Dentro do panorama de passividade geral que acabamos de analisar, a última década e meia, e particularmente a segunda metade da década de 2010, foi caracterizada por alguns fatores relevantes que caminharam na direção oposta a tudo isso. Entre 2017 e 2018, ocorreram importantes manifestações de rua contra a violência de gênero, na esteira do movimento “Ni Una Menos”. Entre 2018 e 2020, também houve um êxito moderado do movimento ecologista, impulsionado pela onda internacional do Fridays For Future, que envolveu principalmente estudantes do ensino médio.
Embora não se tratasse de verdadeiros movimentos de massas nem de fenômenos particularmente amplos de polarização, esses processos contribuíram muito para reconstituir algumas redes militantes, particularmente aquelas vinculadas ao autonomismo, e para reconfigurar a agenda política em torno da qual os jovens se aproximam hoje das ideias anticapitalistas.
Passando à classe trabalhadora, o fenômeno mais notável foi provavelmente um ciclo de mobilização e sindicalização no setor de logística, que não apenas não foi afetado pelas reestruturações, como também se tornou cada vez mais crucial no contexto da crescente fragmentação da estrutura produtiva italiana e da ascensão do comércio eletrônico 4. Esse ciclo foi liderado pelos sindicatos de base SI Cobas e ADL Cobas e, em menor medida, pela USB, que, contudo, parece ter experimentado um crescimento moderado no setor de transportes em geral, principalmente no transporte público urbano (TPL).
Por outro lado, durante a pandemia, a FIOM demonstrou certa solidez na indústria, desempenhando um papel fundamental na organização das greves — frequentemente espontâneas — que levaram à suspensão das atividades não essenciais e dos processos de demissão.
Por fim, no verão de 2021, eclodiu o conflito da GKN em Campi Bisenzio (Florença), de alcance bastante localizado em sua extensão concreta, mas com forte impacto sobre os setores militantes e juvenis em nível nacional. Acreditamos não exagerar ao afirmar que foi graças a esse processo que, “nos círculos do movimento”, antes fortemente influenciados pelo pós-operaismo N3 deixou de ser um tabu falar da centralidade da classe trabalhadora.
Nesse contexto — caracterizado pelo agravamento da crise capitalista internacional, após uma fase de relativa estabilização —, os antecedentes mais imediatos do Blocchiamo Tutto foram os seguintes.
1) O papel do movimento pela Palestina, que favoreceu a recomposição do ativismo juvenil nas universidades e entre os estudantes do ensino médio, em sinergia com pequenas vanguardas da classe trabalhadora, mas estrategicamente posicionadas, como os trabalhadores portuários de Gênova. Embora não tenham sido mobilizações de massas, os protestos pela Palestina mantiveram certa continuidade e abrangência geográfica a partir de 7 de outubro de 2023, atingindo seu ponto culminante com os acampamentos de maio de 2024 e contando com uma participação significativa dos sindicatos de base. Pensemos na manifestação com 50 mil pessoas em Milão, após a greve do SI Cobas, em fevereiro de 2024, e no bloqueio ao transporte de armas em Gênova, em junho de 2025. Sem esses protestos, as vanguardas organizadas não teriam conseguido alcançar a massa crítica mínima e a disposição necessárias para deixar sua marca no movimento.
2) O acúmulo de importantes conflitos trabalhistas — sobretudo entre os metalúrgicos, no transporte público local e no setor ferroviário — diante da espiral inflacionária de 2022-2023, após o ataque russo à Ucrânia. De fato, isso impulsionou mobilizações de base no setor de transportes e, de maneira geral, reduziu as margens de passividade das burocracias sindicais diante dos patrões e do governo. Foi graças à existência de setores da classe já minimamente mobilizados que se tornou possível uma certa participação operária nas greves de setembro-outubro, bem como uma revolta das bases, mas sobretudo dos delegados e dirigentes sindicais intermediários, que obrigou o secretário-geral da principal central sindical, a CGIL, Maurizio Landini, a convocar a greve junto com os sindicatos de base em 3 de outubro.
3) A capacidade da Global Sumud Flotilla de captar e se tornar o “significante vazio” de uma polarização contra o genocídio, mas, de maneira mais geral, também contra a guerra e a direita no governo, entre setores cada vez mais amplos de jovens e trabalhadores. Tratava-se sobretudo de setores urbanos em situação de precariedade e das segundas gerações de descendentes de imigrantes, que representam uma parcela importante da população juvenil nas cidades médias e grandes do norte do país, onde há elevada concentração de imigrantes. Esses setores, juntamente com os estudantes — particularmente os do ensino médio —, constituíram o componente mais dinâmico das manifestações de rua.
4) A fissura que se abriu no setor político-midiático pró-sionista, provocada não apenas pelo agravamento evidente do genocídio, mas também pelas crescentes contradições entre a União Europeia e os Estados Unidos. Essas contradições levaram a centro-esquerda a aproveitar os fortes vínculos entre Trump e Netanyahu para relançar o europeísmo, tentando instrumentalizar a questão palestina.
Estamos diante de um aspecto que não pode ser considerado isoladamente. No entanto, é inegável o papel desempenhado pela repercussão midiática, entre julho e setembro do ano passado, das atrocidades em Gaza na massificação das manifestações do segundo semestre, assim como os esforços de mobilização das redes da sociedade civil vinculadas à centro-esquerda em sentido amplo, como o mutualismo da ARCI e o associativismo católico de esquerda.
1.3 A força, as lições estratégicas e os limites do Blocchiamo Tutto
Apesar da importância do último ponto destacado, é inegável que a dinâmica do movimento de setembro-outubro de 2025 escapou completamente ao controle do establishment “progressista”, que tentou tirar proveito dele. Tanto é assim que, durante um mês, especialmente em algumas cidades médias e grandes, foram realizadas manifestações praticamente todos os dias, na maioria dos casos encabeçadas pelos movimentos e pelas organizações da esquerda e do sindicalismo de base.
Em particular, no período entre 22 de setembro e 3 de outubro, a mobilização também ultrapassou os limites habituais do movimento graças a uma série de fatores: a) a centralidade da palavra de ordem da greve e do bloqueio, impulsionada pelos setores militantes, sindicais e estudantis que haviam promovido o movimento pró-Palestina nos meses anteriores; b) as pressões vindas de baixo sobre os dirigentes da CGIL, com a mediação do sindicalismo de base; e c) a disposição de setores populares e juvenis mais amplos para participar de práticas e ações radicais, como a ocupação de estações, apesar dos decretos de segurança e em oposição a eles.
Um dos elementos mais extraordinários do movimento foi, portanto, a combinação espontânea entre fenômenos de ocupação generalizada dos espaços de estudo — em primeiro lugar, as escolas de ensino médio —, bloqueios nos locais de trabalho e bloqueios de vias e linhas ferroviárias. Embora o impulso inicial dessas ações tenha partido das vanguardas do movimento, todas conseguiram atrair uma participação massiva e, consequentemente, desarticular os dispositivos de segurança do governo.
A participação nas greves, especialmente em 3 de outubro, também foi muito elevada em setores estratégicos. No setor público, a estimativa é de 40% nas cidades médias e grandes, com os professores liderando esses índices 5.
Os percentuais também foram bastante altos no setor de transportes, como indicam os índices de 35% e 47% de trens cancelados em 22 de setembro e 3 de outubro de 2025, respectivamente 6.
Além disso, houve uma participação considerável de um setor proletário mais jovem, precarizado e inserido em atividades terciárias relativamente fragmentadas, cuja participação é difícil de quantificar estatisticamente. No entanto, a dimensão das manifestações nas áreas urbanas médias e grandes dá uma ideia, ao menos parcial, da magnitude dessa participação. Por exemplo, em cidades com cerca de 350 mil habitantes, como Florença e Bolonha, ocorreram manifestações com entre 50 mil e 80 mil pessoas. Já a estimativa de 2 milhões de pessoas nas ruas em toda a Itália na mesma data talvez não esteja tão superestimada quanto em outras ocasiões do movimento, assim como a estimativa de 500 mil manifestantes em nível nacional em 22 de setembro.
Em termos de impacto político, não se alcançou o objetivo de obter alguma forma de paz minimamente satisfatória na Palestina, muito menos o de romper a cumplicidade do Estado italiano e do imperialismo com o sionismo, exigido pelos setores mais politizados do movimento.
Entretanto, a iniciativa das massas na Itália e, consequentemente — como declarou nas entrelinhas um observador como Angelo Panebianco, no Corriere della Sera de 12 de outubro de 2025 —, o risco de “efeitos desestabilizadores” que a continuidade da guerra em Gaza representaria para os governos europeus 7, contribuíram para pressionar esses governos a exigir que os Estados Unidos e Israel chegassem, o mais rapidamente possível, a uma solução de cessar-fogo em Gaza.
Do ponto de vista estratégico, o Blocchiamo Tutto demonstrou, portanto, a capacidade da iniciativa de luta da classe trabalhadora, à frente de setores populares mais amplos, de influenciar a agenda dos governos, bem como mostrou que a rotina política e sindical pode ser rompida por irrupções importantes e repentinas de setores de massas na cena política, mesmo em um contexto marcado por uma profunda estagnação da esquerda, como o italiano. Ao mesmo tempo, como demonstramos, o Blocchiamo Tutto não caiu do céu, mas está ligado a toda uma série de antecedentes menores e aos fenômenos de relativa recomposição de setores de vanguarda no período anterior, em uma interação constante com situações de agravamento das tendências à crise múltipla de nossa época — neste caso, as crescentes tensões geopolíticas e, consequentemente, as tendências à guerra e à militarização, das quais o genocídio em Gaza é uma expressão.
Trata-se, portanto, de uma confirmação de uma perspectiva como a nossa, que, em oposição aos projetos neorreformistas e eleitoralistas, considera fundamental o desenvolvimento e a intervenção nos movimentos de massas para transformá-los em momentos de recomposição de classe, construção de relações de força e acumulação política revolucionária. Isso também se aplica na medida em que o movimento do segundo semestre do ano passado demonstrou que, em situações de mobilização de massas, a influência de setores minoritários da vanguarda militante pode ser muito maior do que seu peso real na sociedade, especialmente quando são capazes de estabelecer vínculos e promover a politização dos jovens e de setores estratégicos da classe trabalhadora, como, por exemplo, os trabalhadores portuários de Gênova, a verdadeira alavanca que tentou virar tudo de cabeça para baixo durante o Blocchiamo Tutto.
De todo modo, também é necessário destacar os limites da mobilização. Apesar de terem sido protestos de massas, caracterizados por práticas radicais e marcados por um papel importante da classe trabalhadora, os elementos de auto-organização foram relativamente escassos, com exceção da onda de ocupações protagonizadas pelos estudantes do ensino médio e, em medida muito menor, pelos universitários.
De fato, as redes informais que surgiram nas fábricas e nos escritórios foram necessariamente cruciais para facilitar a participação massiva dos trabalhadores, passando por cima das burocracias sindicais por ocasião da greve convocada pela USB em 22 de setembro. Esse é um elemento que devemos destacar enfaticamente em nossa luta política para reivindicar a importância da experiência do Blocchiamo Tutto em uma estratégia centrada na organização pela base, contra as direções burocráticas dos grandes sindicatos.
Dito isso, com exceção dos setores de vanguarda — inclusive durante a greve geral de 3 de outubro —, a participação da classe trabalhadora ocorreu, em certos aspectos, com características de “multidão”. Evidentemente, não pretendemos sustentar concepções próprias do autonomismo ou do pós-operaismo. Com essa expressão, queremos, porém, fazer referência ao fato de que, sobretudo nos setores precarizados e juvenis que constituem o núcleo do Blocchiamo Tutto, mas também em setores mais tradicionais dos trabalhadores, a participação baseada em uma identificação estruturada nos locais de trabalho ocorreu de maneira bastante limitada.
Além disso, embora os dados sobre a participação nas greves tenham sido expressivos, eles não devem ser superestimados, sobretudo no setor industrial, apesar de, a julgar por alguns comunicados da CGIL, importantes empresas dos setores metalúrgico e mecânico terem aderido à greve. O próprio índice nacional de adesão às greves entre setores que desempenharam um papel significativo nas cidades médias e grandes, como os professores, ficou em 10% tanto em 22 de setembro quanto em 3 de outubro. Nesse contexto, não surpreende que a participação significativa de setores de trabalhadores no movimento não tenha produzido um impacto relevante nos conflitos trabalhistas no período subsequente.
Houve surtos de luta que contribuíram para o imaginário inaugurado pelo movimento de setembro-outubro de 2025, como a batalha dos trabalhadores da ex-ILVA de Gênova contra o fechamento da fábrica em dezembro passado N4. Esses trabalhadores, contudo, têm nos acostumado, ao longo da última década, a lutas duras e, ao mesmo tempo, extremamente corporativistas, não muito diferentes daquela de alguns meses atrás.
Por outro lado, a burocracia da CGIL-FIOM conseguiu assinar facilmente, em janeiro de 2026, um acordo coletivo nacional do setor metalúrgico muito aquém das expectativas iniciais — que incluíam a exigência de fortes aumentos salariais e da redução da jornada de trabalho —, sem encontrar praticamente nenhuma resistência por parte das bases.
Por fim, embora a rejeição ao genocídio e à guerra, juntamente com a compreensão da importância central dos bloqueios e das greves, represente um posicionamento extremamente avançado por parte do movimento, este demonstrou um baixo nível de politização no que diz respeito à adoção de uma posição anti-imperialista, à avaliação do papel das forças de centro-esquerda e, sobretudo, à compreensão das conexões entre os objetivos imediatos das mobilizações e questões mais amplas — materiais e imateriais — colocadas pelo rearmamento e pela militarização.
Levar em conta os limites em questão é um primeiro passo necessário para explicar a relativa facilidade com que as burocracias sindicais e o Plano Trump conseguiram atuar para sufocar a mobilização de um ano atrás. No entanto, essa operação também nos permite estabelecer nossa distinção em relação a outras correntes que reivindicam a tradição trotskista e às correntes neostalinistas — mas também em relação aos autonomistas, sempre dispostos a transformar a necessidade em virtude ou a considerar as fraquezas dos movimentos como suas próprias forças. Em outras palavras, procuramos identificar as dificuldades persistentes da subjetividade das classes trabalhadoras e do povo, particularmente na Itália, que não se reduzem a uma crise de direção do movimento operário.
Dizemos isso, é importante deixar claro, considerando que, felizmente, nos encontramos em um contexto muito diferente daquele posterior a 1989 — o apogeu da restauração burguesa em escala mundial. O período atual é marcado por elementos significativos de recomposição subjetiva das classes trabalhadoras, entre os quais devemos incluir o próprio Blocchiamo Tutto, com o papel crucial desempenhado pelas vanguardas operárias e juvenis, que arrastaram os sindicatos de massas para o terreno da greve. Soma-se a isso a repercussão da importância de paralisar a produção e o país em torno de palavras de ordem efetivamente internacionalistas e contrárias aos impulsos capitalistas em direção ao rearmamento e à guerra.
Todos esses elementos colocaram a classe operária de nosso país talvez na posição mais avançada, em nível internacional, na luta contra essas tendências. No entanto, para interpretar concretamente os ritmos dos conflitos sociais que enfrentamos, cabe observar que o movimento ocorreu em uma situação na qual a Itália ainda está atrasada em relação aos processos de recomposição de classe e de polarização política à esquerda que caracterizaram outros países europeus ao longo da última década.
Nesse sentido, poderíamos dizer que o “1989” italiano ocorreu em 2008: naquele ano, o Partido da Refundação Comunista sofreu um colapso eleitoral que o excluiu do Parlamento e do qual nunca se recuperou. Durante a década de 1990, apesar de todas as suas limitações, o PRC havia representado um polo relativamente massivo à esquerda, que, além disso, saiu de certa forma fortalecido das lutas em torno da cúpula do G8 em Gênova, em 2001 N5.
Assim, o colapso desse partido pode indicar, convencionalmente, a data do desaparecimento de uma esquerda política visível na Itália, como a “consagração” de sua integração à centro-esquerda durante a década anterior e de uma liquidação mais geral de um projeto político socialista. Uma trajetória que, em certos aspectos, antecipou as do neorreformismo europeu N6.
De qualquer forma, destacar os limites subjetivos que se manifestaram durante o movimento não significa justificar lógicas do tipo “mal menor”, como tendem a fazer os setores neorreformistas e mandelistas N7. A partir da constatação de elementos inegáveis de desintegração de classe, esses setores concluem que a única opção é um tipo de política baseado em sujeitos sociais e palavras de ordem mais genéricas. Não percebem, porém, que uma abordagem desse tipo contribui, por si mesma, para agravar a fragilidade política da classe e acaba ignorando as possibilidades de recomposição que surgem em determinados momentos de ruptura.
Em outras palavras, acreditamos que, dentro de certos limites, enfrentar e procurar resolver os problemas da classe trabalhadora para que ela se desenvolva como sujeito é algo inseparável da construção de uma direção revolucionária. Compreender a situação concreta da classe serve, portanto, para enfatizar a centralidade da organização política independente das vanguardas juvenis e operárias, bem como a promoção de processos de auto-organização em torno dessas vanguardas, entendidos como eixos capazes de favorecer uma dinâmica de recomposição anticapitalista dos trabalhadores.
Esses processos oferecem oportunidades cruciais para que os trabalhadores se expressem e se desenvolvam, precisamente nos momentos de ruptura e protagonismo das massas, como ocorreu com o Blocchiamo Tutto. Isso deve ser considerado levando-se em conta, ao mesmo tempo, as margens de manobra de que as burocracias sindicais e outros aparelhos do Estado integral continuam dispondo, sobretudo em uma fase de fragilidade generalizada da subjetividade de classe em diversos níveis. Daí decorre a importância de uma reflexão sobre as táticas de frente única.
1.4 Os limites estratégicos da esquerda radical durante e depois do Blocchiamo Tutto
A ausência de uma reflexão prévia sobre os eixos delineados até aqui — particularmente no que diz respeito à relação entre auto-organização e direção — por parte das forças de extrema esquerda e dos setores militantes foi, portanto, um fator que influenciou significativamente a dificuldade do Blocchiamo Tutto em se estruturar pela base, ter maior duração e eficácia, além de dificultar a capacidade das vanguardas de transformar o próprio Blocchiamo Tutto em um momento de acumulação político-organizativa.
Em particular, embora o papel da USB tenha sido extremamente importante para conferir um caráter político radical ao movimento, a ausência de uma estratégia sistemática para desenvolver embriões de auto-organização e, ao mesmo tempo, desafiar as burocracias da CGIL à unidade de ação após a greve de 3 de outubro teve um efeito negativo sobre a continuidade da mobilização.
É preciso reconhecer, diga-se de passagem, um esforço positivo nesse sentido por parte do sindicato de base, com o lançamento do processo das 100 assembleias rumo à greve geral de 28 de novembro. No entanto, tratou-se de um esforço realizado apenas posteriormente, e não no auge do movimento. Além disso, ele não foi acompanhado de uma tentativa sistemática de envolver a base da CGIL e colocar seu secretário-geral, Landini, à prova diante da questão da unidade na luta, levantada com força pelas greves de setembro-outubro de 2025.
Pelo contrário, ao convocar a greve de 28 de novembro, a direção da USB considerou explicitamente um fato positivo que a CGIL fosse realizar uma greve separada em 12 de dezembro. O resultado foi uma greve do sindicato de base e uma manifestação com participação consideravelmente maior do que a de eventos semelhantes organizados no passado, mas que esteve muito longe de reproduzir o Blocchiamo Tutto ou de representar um passo útil para frear o refluxo da mobilização.
Além disso, no âmbito estudantil e, particularmente, nas universidades, os setores militantes que forneceram a maior parte dos ativistas presentes nas praças e nas ocupações não conseguiram trabalhar para ampliar as ações ao conjunto dos estudantes. Tampouco foram significativos os esforços para consolidar a unidade entre estudantes e trabalhadores, não apenas na prática conjuntural dos bloqueios, mas também na construção de espaços compartilhados de discussão e coordenação.
Nesse sentido, a hostilidade aos métodos democráticos na construção das mobilizações desempenhou um papel negativo importante. Essa hostilidade foi provocada, ao menos em parte, pela pouca confiança dos novos setores de jovens ativistas em suas próprias posições, temerosos de que os mecanismos de votação nas assembleias as fizessem pender para a direita. De todo modo, é preciso dizer que, em um nível mais profundo, trata-se de uma orientação política específica, um método típico das correntes hegemônicas do movimento estudantil na Itália, que buscam “a síntese” ou “o consenso”.
O contexto de uma crise ainda não superada da subjetividade de classe, somado aos erros políticos mencionados, contribuiu para que o Blocchiamo Tutto não apenas fosse neutralizado relativamente rápido, mas também não aumentasse de maneira significativa o nível de ativação nos locais de estudo e de trabalho no período subsequente.
O refluxo posterior foi grave não apenas em termos de redução da participação de massas, mas também quando comparado ao nível normal de mobilização registrado antes de setembro-outubro de 2025. Nos últimos meses, de fato, as redes que impulsionaram os protestos pela Palestina a partir do boicote a Israel, principalmente nas universidades, permaneceram em estado semicomatoso.
Um aspecto a considerar nesse contexto é a frustração das vanguardas em questão diante dos escassos resultados obtidos, apesar de dois anos de mobilização localizada ininterrupta e de uma série de protestos de massas. Essa frustração, contudo, deve ser interpretada, em um sentido mais profundo, no contexto da fragilidade política desses setores, marcada por fortes ilusões “movimentistas” — e, indiretamente, reformistas — quanto à capacidade das pressões vindas de baixo de produzir efeitos significativos sobre as instituições, tanto no âmbito universitário quanto no estatal.
Por fim, a repressão que se seguiu ao Blocchiamo Tutto contribuiu decisivamente para desorientar o movimento, isolando de maneira significativa os militantes organizados das periferias e dos setores mais amplos das massas.
1.5 O que resta do Blocchiamo Tutto: polarização juvenil e resistência de algumas vanguardas operárias em um contexto de agravamento da crise
Em síntese, de modo geral, as vanguardas organizadas não saíram fortalecidas das greves de setembro-outubro de 2025. Pelo contrário, sobretudo as universitárias e as organizadas politicamente atravessam uma fase de desorientação e divisão, em meio a um clima de repressão — situação que, por sua vez, afeta negativamente o nível habitual de mobilização, favorecendo, assim, o refluxo.
No entanto, seria um erro negar a relação entre o movimento Blocchiamo Tutto e a crescente polarização contra a direita governante por parte de setores populares cada vez mais amplos e de importantes setores juvenis.
É preciso deixar claro: a vitória do NÃO no referendo judicial, relativo à reforma judicial proposta por Meloni, que buscava reforçar o controle político sobre a Justiça e endurecer sua orientação repressiva, especialmente contra migrantes e movimentos de protesto, não pode ser reduzida a esse aspecto. De fato, ao menos em parte, também houve atritos nas próprias bases de apoio reacionárias do governo.
Entretanto, um elemento decisivo para a derrota no referendo foi a orientação dos eleitores com menos de 35 anos e o voto nas cidades médias e grandes, incluindo os bairros periféricos e populares, ou seja, o coração das mobilizações do Blocchiamo Tutto N8.
Ao situarmos o movimento de setembro-outubro de 2025 no quadro geral de uma fase de acúmulo de derrotas, em um contexto de quase desaparecimento da esquerda política ao longo dos últimos vinte anos, ele representa o fenômeno mais importante em sentido contrário à tendência geral. É difícil imaginar que sua repercussão de massas não tenha produzido efeitos entre os setores de trabalhadores e jovens, embora esses efeitos possam ser difíceis de identificar na atual fase de refluxo.
Diante disso, devemos combinar uma visão realista da conjuntura com uma visão positiva da etapa, isto é, uma abordagem proativa e atenta à possibilidade de que também na Itália se desenvolvam novos fenômenos políticos à esquerda, como resultado de uma consolidação, ainda que indireta, das grandes mobilizações de um ano atrás.
Na verdade, alguns elementos concretos de politização consolidados pelo Blocchiamo Tutto parecem estar presentes nas escolas de ensino médio, onde a mobilização criou raízes profundas e foi acompanhada pela revitalização dos coletivos estudantis, mas provavelmente também pelo surgimento de novas estruturas desse tipo em decorrência da onda de ocupações.
Partindo dessa constatação, não se pode descartar uma reativação significativa do ativismo estudantil também nas universidades, quando esses setores concluírem o ensino médio. Além disso, as escolas de ensino médio continuam sendo um terreno que devemos acompanhar de perto e priorizar mais em nossa orientação política.
Para concluir com um comentário sobre o âmbito operário, embora o movimento Blocchiamo Tutto não tenha levado a um aumento dos conflitos nos locais de trabalho, parece ter consolidado e ampliado minimamente a influência de algumas vanguardas, com a permanência dos CALP (comitês de ativistas portuários), o fortalecimento do GAP (Grupo Autônomo de Portuários) de Livorno e a fundação de outros coletivos portuários em Ancona e Ravena. Um aspecto interessante é que todas essas experiências, apesar de serem influenciadas pela USB — com exceção dos trabalhadores portuários de Ravena —, possuem certa independência em relação à linha majoritária do sindicato e são favoráveis à promoção de processos de auto-organização e de uma frente única, independentemente da filiação sindical.
Por fim, não se deve descartar a possibilidade de que a experiência das greves de um ano atrás contra o genocídio e a guerra esteja se consolidando de maneira subterrânea e se manifeste em uma politização maior, em comparação com anos anteriores, dos conflitos econômicos que provavelmente surgirão nos próximos meses em decorrência de uma nova espiral inflacionária, impulsionada pelo ataque imperialista dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
Nesse sentido, é interessante observar que o nível de conflito em um setor tão importante quanto o ferroviário permaneceu relativamente elevado, com as greves de maio em solidariedade à Global Sumud Flotilla, realizadas nos dias 18 (USB) e 29 (demais organizações do sindicalismo de base), que registraram uma participação considerável, especialmente entre os trabalhadores que atuam a bordo dos trens. Isso pode ser deduzido das taxas de pontualidade dos trens, que caíram 25% e 29% nessas duas datas, respectivamente. Esses índices são muito inferiores aos 47% registrados em 3 de outubro de 2025, mas sugerem certa solidez das redes auto-organizadas e dos sindicatos de base do setor.
Esse fato é interessante porque, no próximo ano, vencerá novamente o acordo coletivo nacional dos ferroviários, enquanto as eleições para a renovação dos órgãos de delegados deverão ocorrer em breve.
Além disso, é preciso levar em conta que o Blocchiamo Tutto impulsionou uma guinada à esquerda no discurso das formações que integram o espaço do Potere al Popolo (PaP) N9, com a defesa de uma perspectiva socialista e revolucionária e de posições de ruptura sem concessões com a OTAN, a União Europeia e as políticas de rearmamento.
Como procuramos destacar — ainda que adotando uma abordagem dialógica — em nossa resposta ao manifesto por uma assembleia nacional lançado pelo PaP em 14 de junho passado, parece-nos que, na prática, a organização assume uma perspectiva e uma atuação eleitoralistas, sem romper completamente com a centro-esquerda. Isso se manifesta, por exemplo, nas alianças locais com o PRC e na inclusão no campo largo, ou seja, na ampla frente eleitoral desse setor, como destacaremos na segunda parte do documento.
Ainda assim, o PaP colocou em pauta um debate que, embora de maneira equivocada e extremamente contraditória, apresenta pela primeira vez elementos estratégicos para além da mera perspectiva de coalizões hiper-eleitoralistas, cujo objetivo é superar o percentual mínimo de votos necessário para conquistar cadeiras parlamentares. Para nós, isso é positivo, pois permite tornar nossa proposta política mais clara, ao menos entre os setores de vanguarda.
2. Sobre o governo de Meloni e o panorama dos partidos políticos
O Blocchiamo Tutto foi o primeiro grande desafio vindo de baixo contra o governo de Meloni. Este, contudo, parece ter retomado a iniciativa a partir do início deste ano, por meio da repressão aos setores militantes que estiveram no centro dos protestos de setembro-outubro de 2025.
Nesse contexto, a expressiva vitória do NÃO no referendo sobre a Justiça, em 23 de março, abalou, pela primeira vez e de maneira visível, a aura de invencibilidade do governo. Ainda assim, Meloni está prestes a se tornar a primeira-ministra com o mandato mais longo da história da República Italiana, enquanto continua gozando de um apoio relativamente elevado, como indicam as pesquisas de opinião e a vitória da centro-direita nas eleições municipais de maio.
Nesta segunda parte do documento, procuramos desconstruir a ideia de que esse tenha sido, em algum momento, um governo forte, capaz de conter as tendências à crise orgânica que se desenvolvem na Itália desde 2008, da qual a atual maioria liderada pela extrema direita é, em todo caso, mais uma expressão.
Além disso, sobretudo nos últimos anos, marcados pela redução das margens fiscais em razão do rearmamento e pelo aumento das tensões entre os Estados Unidos e a União Europeia, as contradições internas e os episódios de dissidência contra o governo se intensificaram.
Como explicar, então, o paradoxo da coexistência de todos esses fatores de instabilidade com o apoio persistente de que desfruta a atual maioria? Para responder a essa questão, é necessário, além de analisar a etapa política em que Meloni chegou ao poder, a estrutura social italiana e as bases sociais do governo, compreender as dificuldades da centro-esquerda para absorver o descontentamento.
Trata-se de uma situação que, por um lado, abre espaço para novos fenômenos políticos de extrema direita ainda mais perigosos, como o representado pelo general Roberto Vannacci, fundador do partido Futuro Nacional, que adota uma posição pró-Rússia, critica Meloni pela direita e vem crescendo nas pesquisas. Por outro lado, essa situação mantém aberto o debate sobre como construir uma política de independência de classe e relançar uma estratégia revolucionária.
2.1 A ascensão e as crescentes dificuldades de Meloni... mas o apoio permanece
O governo de Meloni se consolidou após uma etapa que poderíamos chamar de “tecnorreformista” da política italiana, que, por sua vez, foi produto da década de 2008 a 2018, marcada por políticas de ajuste e pela consolidação de importantes contrarreformas neoliberais — principalmente o aumento da idade de aposentadoria e a Lei do Emprego (Jobs Act).
As bases dessa etapa tecnorreformista foram um cenário de recuperação relativa após a recessão, a partir de 2016, e a saída dos piores anos da crise da dívida. Isso permitiu, essencialmente, o retorno de uma ordem política de centro-esquerda, menos explicitamente marcada por políticas neoliberais, entre 2019 e 2022.
De fato, os protagonistas dessa etapa foram o Movimento 5 Estrelas (M5S), uma força populista heterogênea cujo protagonismo decorreu do descrédito dos partidos tradicionais durante o período mais crítico das políticas de ajuste. Sua função, entretanto, acabou sendo a de reabilitar o Partido Democrático (PD) e, finalmente, abrir caminho para o governo técnico de Draghi.
Nesse sentido, é possível estabelecer uma analogia com o ciclo iniciado por Pedro Sánchez na Espanha, graças ao apoio do neorreformismo do Podemos e caracterizado pela adoção de medidas paliativas diante das políticas de ataque às classes populares implementadas no período posterior a 2011. Na Itália, essas medidas paliativas tiveram como principais símbolos o reddito di cittadinanza (renda de cidadania) e o decreto dignità (decreto da dignidade) N10.
As características peculiares dessa mudança de rumo na Itália, bem como os vínculos que a conectam à ascensão de Meloni, devem ser associadas à fragilidade tanto da mobilização social quanto de uma polarização à esquerda no país diante da aceleração das medidas neoliberais na etapa anterior. São esses elementos que explicam por que, no plano político, a oposição dentro dos limites do sistema não se deu por meio da mediação de uma força neorreformista, mas sob a liderança do Movimento 5 Estrelas, que primeiro governou brevemente em coalizão com a Lega (partido de direita) e somente depois com o Partido Democrático (centro-esquerda). Assim, enquanto alguns dos piores efeitos da etapa posterior a 2011 eram atenuados, as políticas repressivas e de criminalização da imigração eram ainda mais legitimadas — políticas que a passagem de uma coalizão populista para uma de centro-esquerda não modificou substancialmente —, contribuindo para o deslocamento do eixo político à direita. Posteriormente, a flexibilização do pacto fiscal em razão da crise da COVID prolongou ainda mais a etapa tecnocrático-reformista, embora com um acentuado reforço de seu caráter tecnocrático, tendo Draghi como primeiro-ministro. A chegada de Draghi, entretanto, não tinha como objetivo repetir a experiência de Monti, mas garantir aos setores dominantes do capital — com os quais o Movimento 5 Estrelas nunca chegou a estabelecer uma relação orgânica — o controle da gestão dos recursos do Plano Nacional de Recuperação e Resiliência, criado no âmbito do programa de recuperação pós-pandemia da União Europeia. Por isso, o ex-presidente do Banco Central Europeu (Mario Draghi ocupou esse cargo antes de assumir como primeiro-ministro italiano) não eliminou as reformas sociais parciais nem as medidas moderadamente expansionistas, como o Superbonus para a reforma de moradias, que haviam sido aprovadas anteriormente pelo Movimento 5 Estrelas e pelo Partido Democrático.
A guerra na Ucrânia marcou uma importante mudança de contexto: por um lado, as restrições orçamentárias vinculadas às exigências cada vez mais insistentes de aumento dos gastos militares voltaram ao primeiro plano; por outro, o apoio ao governo diminuiu em consequência da onda inflacionária que se seguiu à forte alta dos preços do gás. Enquanto isso, a gestão restritiva da pandemia e algumas tentativas de modernização direcionadas contra determinados grupos corporativos tradicionais — como os concessionários privados dos estabelecimentos balneários — somaram-se à rejeição de medidas como a renda de cidadania (reddito di cittadinanza), contribuindo para agrupar em torno da Fratelli d’Italia (FdI) — o partido de extrema direita de Giorgia Meloni, o único que havia permanecido fora do governo de unidade nacional — setores exploradores e parasitários da pequena burguesia. Trata-se de setores que historicamente exerceram influência no sistema partidário e que, além disso, têm importância relativa na estrutura social italiana, não apenas como resíduo histórico, mas também como resultado do peso crescente de uma espécie de pequena economia urbana rentista, impulsionada pela desindustrialização, pelo declínio demográfico, pelo turismo e pelas plataformas. Como analisamos na época, a vitória eleitoral de Meloni e seus aliados em 2022 apoiou-se nessa base social, juntamente com o consenso passivo de setores da classe trabalhadora afetados pela crise e atraídos pela promessa de uma troca: a eliminação da reddito di cittadinanza em troca da redução da idade de aposentadoria e dos impostos sobre o trabalho assalariado.
Dito isso, a formação do governo liderado por Giorgia Meloni representou uma importante mudança de etapa na política italiana. Embora a ampla maioria parlamentar obtida pela coalizão de direita tenha sido resultado tanto de um sistema eleitoral misto, com um importante componente majoritário N11, quanto das divisões existentes no amplo campo da centro-esquerda, a chegada de Meloni ao governo marcou o retorno a uma relação direta entre a forma como as coalizões são constituídas para as eleições e a maneira como o governo é formado posteriormente N12. E não apenas isso. Pela primeira vez, um partido de extrema direita com raízes neofascistas foi o mais votado em números absolutos, conquistou a liderança no campo da direita e indicou a primeira-ministra. Isso levou diferentes setores a alertarem para o perigo fascista iminente. Ao longo dos anos, sempre procuramos ressaltar que, no plano da análise e da estratégia política, é incorreto recorrer ao argumento de um retorno dos Camisas Negras para se opor ao governo de direita. Se concordamos que o fascismo foi, antes de tudo, um movimento contrarrevolucionário de massas, contrário à democracia burguesa e às suas instituições, centrado na pequena burguesia e que utilizou a violência política contra as organizações operárias, socialistas e comunistas com o objetivo de conquistar o poder, torna-se imediatamente evidente que a FdI é algo muito diferente. No plano político, além disso, caracterizar a FdI como uma força fascista representa uma ferramenta nas mãos do “frentão” da centro-esquerda, que está sendo montado em uma versão extra large para cerrar suas fileiras. O episódio mais recente dessa longa história é a decisão, por uma maioria muito apertada dentro da Refundação Comunista, de tentar ingressar no campo da centro-esquerda com o objetivo de criar uma fantasmagórica frente antifascista. Com isso, evidentemente, não queremos concluir que a FdI possa ser equiparada, em todos os aspectos, às demais forças de direita. Ela se distingue dessas forças não apenas por ser uma expressão mais pura de uma base social pequeno-burguesa do que a Forza Italia (o partido do falecido Silvio Berlusconi) ou a Lega (o partido de Salvini) podem ser — ou ter sido no passado —, mas também por seu caráter abertamente nacionalista e reacionário, com fortes traços racistas, xenófobos e transfóbicos. Embora continue sendo altamente improvável que a evolução do partido possa levar à afirmação plena de uma força fascista, ou mesmo apenas protofascista, existe, por outro lado, a possibilidade de que estejam se formando, no interior de algumas organizações juvenis que orbitam em torno da FdI, os embriões de futuros grupos neofascistas.
O governo de Meloni é, por enquanto, o segundo mais duradouro da história republicana, com excelentes chances de se tornar o primeiro, superando o governo de Berlusconi, que ainda permanece cerca de três meses à frente. Esse elemento de estabilidade política está ligado à solidez substancial do apoio político a Meloni e seus aliados. Trata-se de um dado que não apenas parece contrariar a tendência observada em todas as demais grandes potências ocidentais, onde os partidos e líderes governantes enfrentam dificuldades para manter uma base considerável de apoio — da França de Macron aos Estados Unidos de Trump, da Alemanha de Merz à Espanha de Sánchez, chegando à Grã-Bretanha de Starmer —, mas também parece difícil de explicar em relação à capacidade de governo do Executivo.
Independentemente de qualquer avaliação sobre seu conteúdo, esse governo chegou ao poder com três grandes projetos de reforma: a autonomia diferenciada, promovida pela Lega, que buscava ampliar as competências e os recursos que determinadas regiões poderiam obter do Estado central; o premierato, promovido pela Fratelli d’Italia, uma reforma constitucional destinada a fortalecer a figura do chefe de governo por meio de sua eleição direta pelos cidadãos e a garantir-lhe uma maioria parlamentar mais estável; e, por fim, a reforma da Justiça, impulsionada principalmente pela Forza Italia, cujo ponto central era a separação das carreiras de juízes e promotores, bem como a reorganização de seus órgãos de autogoverno. Nenhum desses objetivos chegou a se concretizar. Como se sabe, a reforma da Justiça foi derrotada nas urnas; a Corte Constitucional bloqueou, na prática, os aspectos centrais da autonomia diferenciada; e o premierato desapareceu da agenda política, sendo adiado para a legislatura que surgirá após as próximas eleições.
No terreno econômico, o panorama tampouco é mais favorável. A atuação do governo Meloni coincidiu com a desaceleração do crescimento após a recuperação econômica que se seguiu à pandemia. Com um crescimento que oscilou entre 0,5% e 0,7% do PIB, a Itália cresceu aproximadamente um terço menos que a média da zona do euro, enquanto a produção industrial registrou nada menos que 25 meses consecutivos de contração entre a segunda metade de 2023 e boa parte de 2025. A dívida pública atingiu a marca de 3,15 trilhões de euros e está acima de 137% do PIB, enquanto a relação entre o déficit orçamentário e o produto interno bruto permanece, por uma margem mínima, acima do limite de 3%. Os dados relativos ao desemprego melhoraram em comparação com o período anterior à COVID, mas isso se deve, em parte, aos efeitos da crise demográfica do país e, sobretudo, ao aumento do número de pessoas empregadas como efeito de médio prazo da elevação da idade de aposentadoria introduzida na década de 2010. Enquanto isso, a Itália é o único país ocidental em que os salários permaneceram estagnados — e até diminuíram em termos reais — desde a década de 1990 até hoje.
Juntamente com o encerramento do PNRR (Plano Nacional de Recuperação e Resiliência, por meio do qual a Itália canalizou os recursos extraordinários da União Europeia destinados à recuperação pós-pandemia) e o retorno à aplicação do Pacto de Estabilidade da União Europeia (o conjunto de regras fiscais europeias que impõe limites ao déficit e ao endividamento dos Estados-membros), a chegada de Trump à presidência dos Estados Unidos reduziu ainda mais as margens de manobra fiscal, ao acelerar as tendências de rearmamento europeu. Nesse contexto, a última lei orçamentária voltou a introduzir medidas de ajuste, após vários anos de políticas econômicas relativamente expansionistas, com o objetivo de obter recursos para destiná-los aos gastos militares. Esse aspecto, por sua vez, exacerbou as tensões com o setor da Lega dentro da coalizão, que, diferentemente da Forza Italia e da própria Fratelli d’Italia, manteve uma postura mais pró-Putin — embora depois sempre tenha se alinhado ao restante da maioria nas votações sobre o envio de armas à Ucrânia.
A ligação entre Trump e Meloni também aumentou as pressões sobre ela por parte das instituições e de outras capitais da União Europeia, o que acabou colocando-a em uma posição desfavorável no contexto do ataque imperialista dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. A guerra no Oriente Médio, como já mencionado, já está produzindo efeitos que agravarão ainda mais o descontentamento, a começar pela deterioração da situação econômica, que, além de reduzir as margens de manobra de Meloni e seus aliados, poderá favorecer uma retomada dos conflitos trabalhistas nos próximos meses, inclusive associados a processos de crise industrial, como no caso recente da Electrolux.
Entretanto, o aspecto mais crítico para o governo é, de certo modo, a questão da segurança. Apesar da introdução de diversos novos crimes e do endurecimento das penas existentes por meio de vários decretos-leis, persiste no imaginário coletivo — muito fortemente entre os eleitores de direita, mas também em setores importantes da classe trabalhadora menos politizada — uma preocupação com a segurança, enraizada sobretudo nas grandes cidades e estreitamente vinculada à questão da imigração. A formação do novo partido de Vannacci, o apoio nada desprezível que conseguiu obter e o fluxo contínuo de dirigentes eleitos que abandonam os partidos de direita para se juntar ao espaço político do ex-general são sinais do descontentamento existente em setores da extrema direita com um governo ao qual censuram por ter feito muito pouco e agido com moderação excessiva em matéria de segurança.
Sob certo ponto de vista, o governo se depara aqui com o conhecido “problema do solucionador”: se afirmasse que o problema da insegurança já não existe, perderia um de seus principais cavalos de batalha; mas, ao mesmo tempo, agitar permanentemente essa questão — inclusive em programas de televisão de linha próxima à do governo, como alguns exibidos pela Rete 4, canal privado pertencente ao grupo Mediaset e tradicionalmente ligado ao campo político e midiático da direita italiana — alimenta o deslocamento para posições ainda mais à direita, com apelos abertamente nostálgicos do fascismo, hoje representados por Vannacci e seus seguidores.
Se o que foi dito está correto, então parece indiscutível que os resultados da atuação do governo não podem explicar a estabilidade substancial do apoio a Meloni e seus aliados. As razões devem ser buscadas em outro lugar. Há dois aspectos de especial importância. Em primeiro lugar, a presença de uma base social que, em torno de um punhado de setores da pequena burguesia — como hoteleiros, donos de restaurantes, operadores turísticos, administradores de estabelecimentos balneários, taxistas, comerciantes e semelhantes —, aglutina um sentimento cultural e ideológico de natureza conservadora, em muitos casos até reacionária, antiigualitária, xenófoba, contrária à intervenção estatal em matéria fiscal e nacionalista, não tanto em um sentido imperialista, mas anti-imigração. Em segundo lugar, a despolitização constante da grande maioria da classe trabalhadora, que participa de maneira numericamente limitada e extremamente fragmentada da política e até mesmo das eleições. Isso aumenta indiretamente o peso numérico dos setores da pequena burguesia, provoca uma transferência de forças em favor dos partidos de direita e revela uma absoluta incapacidade de romper a aliança de convergência indireta entre a grande e a pequena burguesia. Mas a análise da persistência do apoio a Meloni não pode parar nesse ponto: deve considerar também a incapacidade da oposição de conquistar popularidade diante das contradições enfrentadas pelo Executivo.
2.2 A incapacidade da centro-esquerda de absorver o descontentamento contra o governo. Que espaços existem à esquerda?
O que foi dito até aqui não pretende apresentar a imagem de um governo monoliticamente estável, nem sugerir que ele tenha permanecido imune a abalos importantes, inclusive aqueles vindos de baixo, como o movimento Blocchiamo Tutto, sobre o qual já falamos extensamente, e a vitória do NÃO no referendo sobre a reforma da Justiça. O próprio aumento dos conflitos sindicais ligados à renovação dos contratos coletivos nacionais entre 2024 e 2025, também mencionado na primeira parte deste documento, está relacionado ao crescente descontentamento com o governo. Parte dessas disputas envolveu, além disso, o setor público. Podemos pensar também, por exemplo, na forte hostilidade de setores dos trabalhadores ferroviários a Matteo Salvini, ministro da Infraestrutura e dos Transportes, a quem os sindicatos acusaram repetidamente de recorrer de maneira abusiva à legislação que permite ao governo limitar, por meio de ordens administrativas, a duração ou as modalidades das greves em serviços considerados essenciais, como o transporte ferroviário.
Já analisamos anteriormente como a necessidade de canalizar esse descontentamento — em uma situação na qual o governo de direita havia acabado com as expectativas de concertação social de Maurizio Landini e de outros dirigentes sindicais, isto é, com a expectativa de que a CGIL pudesse obter resultados por meio da negociação e do diálogo institucional com o governo e as organizações empresariais — foi um fator importante por trás da greve geral convocada conjuntamente pela CGIL e pela UIL em novembro de 2024. Na época, caracterizamos essa greve como menos rotineira do que outras greves gerais anteriores, tanto pelo contexto de crescente conflitividade social e salarial quanto pelo confronto mais acentuado com as políticas econômicas do governo.
Portanto, enfatizar a solidez do apoio ao governo não tem como objetivo destacar sua estabilidade nem identificar a persistência de uma etapa na qual continuariam fechadas as possibilidades de surgimento de novos fenômenos políticos e de uma oposição radical. Pelo contrário, os índices de popularidade de Meloni, surpreendentemente estáveis, são um indicador muito interessante das dificuldades enfrentadas pela centro-esquerda para absorver os diferentes elementos de dissenso e conflito contra o governo que temos testemunhado nos últimos anos.
Isso ocorre precisamente em uma situação na qual a centro-esquerda, que parece ter adotado definitivamente o nome de campo largo, caminha para uma ampliação verdadeiramente extra large. Além dos três componentes “clássicos”, representados pelo PD, pelo M5S e pela AVS (Aliança dos Verdes e da Esquerda), o campo largo poderia incluir também as duas formações mais liberais do cenário italiano — isto é, a Italia Viva, de Matteo Renzi, e, muito provavelmente, a Azione, de Carlo Calenda —, numerosos micropartidos (da Possibile à +Europa, passando pelas facções socialistas de Nencini e seus aliados) e até mesmo, ao menos nas intenções da direção partidária, a Refundação Comunista.
Essa ampliação, porém, não corresponde a um crescimento significativo do apoio eleitoral. Muito pelo contrário: o aspecto mais interessante observado desde setembro passado é a capacidade muito limitada da centro-esquerda de absorver o mal-estar social que se manifestou com força durante as semanas do Blocchiamo Tutto e que, como demonstra a contundente vitória do “Não” no referendo, continua repercutindo no cenário político italiano.
Essas repercussões, entretanto, não levaram, pelo menos no plano eleitoral e em termos de números absolutos, a um crescimento significativo da extrema esquerda. Essa dinâmica dependerá, em grande medida, da capacidade de fazer um balanço das mobilizações do outono passado e de propor uma alternativa real de mobilização e independência de classe.
Em conclusão, encontramo-nos em uma situação na qual, na esteira do Blocchiamo Tutto, da conjuntura internacional e das contradições do governo, bem como da incapacidade da centro-esquerda de canalizar o descontentamento, e diante da possibilidade de um ressurgimento de movimentos de protesto vindos de baixo nos próximos meses, abrem-se espaços para a independência de classe à esquerda. No contexto da fragmentação e, em certos aspectos, da estagnação da proposta política da extrema esquerda, existe espaço para o crescimento de uma organização como a nossa, que, embora ainda se encontre na etapa inicial de grupo de propaganda, insiste na perspectiva de um campo político independente e verdadeiramente coerente diante da centro-esquerda.