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13 de Maio: Inspirar-se na luta pela abolição para acabar a escala 6x1 e a violência policial

O 13 de Maio é oficialmente o dia da luta pela liberdade dos negros escravizados, mas o povo negro junto a classe trabalhadora vieram construindo espaço para arrancar essa liberdade muito antes. A assinatura da Lei Áurea aparece nos livros didáticos como um gesto civilizatório da monarquia brasileira, quase como uma concessão benevolente da princesa Isabel. Mas a realidade histórica da abolição demonstra justamente o contrário: a escravidão no Brasil não terminou por generosidade das elites, e sim como resultado de um longo processo de luta e resistência negra que colocou em crise o próprio regime escravista.

Durante mais de três séculos, a população escravizada resistiu de inúmeras formas à ordem colonial e imperial. Revoltas, fugas, sabotagens, organização de quilombos e levantes permanentes corroeram as bases da escravidão brasileira. Nas últimas décadas do século XIX, esse processo se aprofundou com o crescimento das fugas coletivas das fazendas, quilombos abolicionistas, da desorganização da produção escravista e do temor das elites diante da possibilidade de explosões sociais semelhantes à Revolução Haitiana. A crise do escravismo brasileiro foi, portanto, resultado direto da luta dos escravizados e da pressão exercida pelas massas negras contra a ordem vigente.

A abolição de 1888 foi uma conquista arrancada pela luta dos escravizados, pela resistência negra organizada e pela profunda crise do regime escravista brasileiro. O Império resistiu até o limite ao fim da escravidão, não à toa o Brasil foi um dos últimos países do mundo a abolir oficialmente esse sistema. Mas o avanço dos quilombos e da campanha abolicionista radical, que ligava o povo negro escravizado a setores da classe trabalhadora e a intelectuais, demonstrava uma enorme força social e política. Na prática, o temor das classes dominantes era que a luta negra ganhasse dimensões ainda mais explosivas e colocasse em xeque a sustentação do próprio regime imperial. A assinatura da Lei Áurea representou uma derrota histórica da ordem escravista brasileira e abriu um novo período de intensificação da luta de classes no país.

O fim jurídico da escravidão não veio acompanhado de reforma agrária, reparação histórica, acesso à moradia, educação ou direitos sociais básicos. A burguesia agrária e o Estado brasileiro reorganizaram a transição do trabalho escravizado para o trabalho assalariado preservando os interesses econômicos dos antigos senhores de escravos e garantindo a continuidade da ordem social construída durante o escravismo.

A população negra foi integrada de maneira subordinada ao mercado de trabalho que se consolidava no país, ocupando majoritariamente os postos mais precarizados e pior remunerados da economia. Ao mesmo tempo, o Estado incentivava políticas de imigração europeia e branqueamento populacional como parte do projeto de modernização capitalista brasileiro. Nesse processo foram abolição conservadora preservados os privilégios das elites e manteve a população negra submetida à superexploração e à marginalização social.

Esse processo não pertence apenas ao passado. Ele ajuda a explicar a forma como o capitalismo brasileiro se desenvolveu e como o trabalho segue organizado no país. A herança escravista permanece presente tanto nas relações de trabalho quanto na violência estatal direcionada principalmente contra pobres e negros das periferias.

A escala 6×1 é hoje uma das expressões mais brutais dessa realidade. Ela significa jornadas exaustivas, baixos salários, transporte precário e ausência de tempo para descanso, estudo, lazer ou convivência familiar. Não é coincidência que os setores submetidos às piores condições de trabalho sejam compostos majoritariamente pela população negra. São trabalhadores do comércio, da limpeza, dos serviços terceirizados, da logística, dos aplicativos, do telemarketing, dos supermercados e da construção civil — setores marcados pela informalidade, alta rotatividade e intensa exploração.

Essa realidade não é produto de um simples “atraso” nacional ou de distorções ocasionais do mercado de trabalho. Ela é resultado de uma formação social construída sobre mais de três séculos de escravidão e reorganizada pelo capitalismo brasileiro após a abolição. A transição para o trabalho assalariado ocorreu preservando a população negra nos setores mais precarizados da economia para garantir mão de obra barata e ampliar os lucros da burguesia nacional.

Por isso, a luta contra a escala 6×1 está diretamente ligada à luta contra o racismo. Não se trata apenas de discutir jornada de trabalho ou direitos trabalhistas isoladamente, mas de compreender como a exploração capitalista se apoia historicamente na divisão racial da classe trabalhadora. O racismo cumpre uma função material dentro do capitalismo brasileiro: aprofundar a superexploração da população negra e dividir trabalhadores negros e brancos para fortalecer o domínio das classes dominantes.

Ao mesmo tempo em que a população negra é maioria nos trabalhos mais precários, ela também é o principal alvo da repressão estatal. A polícia brasileira atua historicamente como instrumento de controle social voltado contra pobres e negros, utilizando discursos como a chamada “guerra às drogas” para legitimar sua atuação violenta. Em 2024, as polícias Civil e Militar mataram 6.243 pessoas no Brasil, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A maior parte das vítimas eram jovens negros, e o risco de uma pessoa negra ser morta pelas forças de segurança é 3,5 vezes maior do que o de uma pessoa branca.

Outro levantamento, realizado pela Rede de Observatórios da Segurança, mostrou que, nos nove estados analisados, 86% das vítimas da violência policial eram negras. Esses números evidenciam aquilo que o movimento negro denuncia há décadas: a política de segurança pública brasileira opera como um mecanismo permanente de repressão e controle das periferias pobres e negras.

Não é possível compreender esse papel da polícia sem olhar para a história do Brasil escravista. Durante o período colonial e imperial, capitães do mato e forças policiais tinham a função de perseguir, capturar e punir escravizados que fugiam das fazendas. Eram agentes encarregados de garantir, pela violência, a manutenção da propriedade escravista e da ordem social baseada na exploração racial. Hoje, a polícia cumpre papel semelhante ao atuar na defesa da propriedade privada dos ricos e na repressão permanente das periferias e favelas.

Por isso, é um erro político tratar a polícia como parte da classe trabalhadora.. Embora muitos policiais sejam filhos da classe trabalhadora, assim que ele veste a farda ou coloca um distintivo, deixa de pertencer a nossa classe. A instituição policial existe para defender os interesses do Estado burguês e das classes dominantes brasileiras — herdeiras diretas da ordem escravista. Sua função social não é emancipar os trabalhadores, mas garantir a manutenção da ordem capitalista através da repressão e do controle social.

As chacinas policiais, a militarização das periferias, as invasões de favelas e o encarceramento em massa da população negra não são desvios do sistema, mas parte do funcionamento “normal” de um Estado construído sobre bases escravistas e reorganizado para garantir os interesses do capitalismo brasileiro. O racismo não é apenas uma questão moral ou individual: ele exerce uma função concreta na manutenção da exploração econômica e da dominação social.

Por isso, o combate ao racismo não pode se limitar à representatividade institucional ou a políticas simbólicas. A experiência histórica demonstra que nenhuma transformação profunda virá das mesmas instituições que organizaram historicamente a exploração da população negra e trabalhadora. A luta contra o racismo está diretamente ligada à luta contra a precarização do trabalho, contra a repressão estatal e contra o domínio das classes capitalistas sobre a sociedade.

Nesse sentido, a Revolução Haitiana segue sendo um exemplo poderoso para os trabalhadores e o povo negro. No Haiti, os escravizados não esperaram concessões das elites coloniais. Organizaram uma revolução que derrotou militarmente as potências escravistas, expulsou a burguesia colonial e realizou a única revolta de escravizados vitoriosa da história moderna.

A experiência haitiana demonstrou que a libertação negra nunca foi fruto da benevolência das classes dominantes, mas resultado da organização independente e da luta direta dos explorados contra aqueles que lucram com sua opressão. Retomar o verdadeiro significado do 13 de Maio significa resgatar essa tradição de luta e resistência negra, compreendendo que o combate ao racismo segue profundamente ligado à luta contra a exploração capitalista e a repressão do Estado. Em um país onde a classe trabalhadora é majoritariamente negra, a luta antirracista precisa se construir em unidade com o conjunto dos trabalhadores e em aliança com todos os setores oprimidos. É essa força social, construída na luta comum dos explorados e oprimidos, que pode abrir caminho para derrotar o racismo e colocar fim ao sistema de exploração e opressão sustentado pelo capitalismo.