60 anos de Unicamp: um breve panorama
A luz dos 60 anos da Unicamp, esse texto busca analisar de forma crítica o papel da Universidade Estadual de Campinas, que tem a sua fundação oficialmente marcada em fevereiro de 1966 com o lançamento da pedra fundacional, pelo então presidente do regime militar Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco junto ao presidente da comissão organizadora e futuro primeiro reitor Zeferino Vaz. Mas a história da Unicamp se inicia décadas antes, ainda nos anos 40 quando o jornalista Luso Ventura começa uma campanha pela fundação da Faculdade de Medicina de Campinas, que foi amplamente encampada por diversos setores da sociedade civil campineira e que levou a criação da universidade.
Nos anos 30 e 40 a cidade de Campinas foi fortemente impactada pela crise do café, forçando a burguesia campineira a buscar novas fontes de renda para substituir o produto. Sendo assim o setor agrícola vai buscar diversificar a produção com outras culturas como a cana-de-açúcar, algodão, milho e frutas. Outra área que vai fortalecer seu desenvolvimento é o setor industrial, com a criação de diversas indústrias na cidade nessa mesma época, tendo um grande peso nas indústrias de alimentos, químicos e farmacêuticos, a metalúrgica e automobilística. Com esse cenário, se passa também a ter um forte fluxo de trabalhadores do campo buscando a cidade de Campinas, tendo um salto populacional e se tornando a segunda maior cidade do estado de São Paulo, trazendo novas demandas ao setor de serviços, principalmente na área da saúde.
É então em 1946 que o jornalista Luso Ventura vai começar a campanha pela criação de uma faculdade de medicina em Campinas, ele foi chefe e diretor de dois jornais da época - o Diário do Povo e o Correio Popular - ambos do mesmo grupo. Em sua batalha publicou cerca de 200 artigos e ganhou de fato o apoio tanto das massas quanto da alta classe campineira. A cidade já contava com uma estrutura considerável na área da saúde, com a Santa Casa de Misericórdia de Campinas, o Hospital e Maternidade Celso Pierro fundado pela PUC, o Hospital Beneficência Portuguesa de Campinas sendo alguns dos 15 hospitais que compunham o complexo de saúde da cidade.
A faculdade de medicina de Campinas demorou a sair do papel, sendo a primeira lei de fundação em 1953 sancionada pelo então governador Adhemar de Barros, mas a faculdade não viria a vingar. Em 1958 o agora governador Jânio Quadros volta a acenar positivamente para criação da faculdade, que mais uma vez fica apenas no papel. Então em 1960 o recém assumido diretor da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas, coloca como tarefa número um da cidade a efetivação desse projeto. Sendo assim, é reativado o Conselho de Entidades de Campinas, composto por 23 entidades de classe da cidade, e como fruto da mobilização ainda 1961 o governador Carvalho Pinto constitui uma comissão organizadora não apenas para constituir a faculdade de medicina, mas sim para fundar uma universidade em Campinas que viria a ser a Unicamp, que vai ser oficializada com a promulgação da Lei nº 7.655, em 28 de dezembro de 1962, onde os projetos de 53 e 58 da faculdade de medicina são incorporados.
Os primeiros passos da Unicamp e de Zeferino Vaz
Zeferino Vaz em 1962 era diretor-fundador da faculdade de medicina de Ribeirão Preto, ligada à Universidade Estadual de São Paulo (USP), cargo que ocupou de 1951 até 1964. Ainda em 1959 Zeferino junto a um grupo de especialistas emitiu um parecer técnico que se colocava contrário a criação de uma faculdade de medicina em Campinas, que em vez disso fosse ampliada a faculdade de Ribeirão Preto e que na verdade Campinas precisava mais de uma escola politécnica. O conselho de entidades prontamente rejeita o parecer técnico da USP em assembleia extraordinária, declara Zeferino Vaz um dos inimigos da cidade de Campinas e escreve um memorial ao governador do estado de São Paulo elencando o por que a cidade precisava de tal faculdade.
Campinas e os campineiros já haviam absorvido o fato de que seria criada a tal faculdade de medicina em Campinas. Sendo assim, as mobilizações se seguiram após o parecer uspiano, contando com grande peso da elite paulista. Como parte do Conselho de Entidades e presidente da Federação das Indústrias do Estado em Campinas, Eduardo de Barros Pimentel foi um dos atores importantes nessa história, sendo um dos responsáveis pela audiência com o governador Carvalho Pinto que levaria a fundação da universidade mostrando que desde sua organização e idealização a burguesia paulista planejava uma universidade alinhada a seus interesses. Em janeiro de 1963 então se inicia o primeiro ano letivo na universidade de apenas um curso e nenhum prédio. As aulas de medicina nesse momento eram ministradas em um prédio cedido pela Maternidade, que se encontrava inacabado e em péssimas condições.
Os primeiros anos foram conturbados, sendo em 1964 solicitado pelo então reitor Mário Degni que o conselho estadual autorizasse o funcionamento da universidade, com isso foi formada uma comissão especial para averiguar a situação da universidade em Campinas. O relatório da comissão foi contundente, averiguando que não existia uma universidade, pois segundo a lei de diretrizes básicas da educação era necessário cinco unidades funcionando harmoniosamente sob a mesma coordenação, o que estava longe de ser o caso da universidade que tinha apenas um curso. Com isso o Professor Degni sai do cargo de reitor e é criada uma comissão organizadora para efetivamente colocar a universidade de pé seguindo as tais diretrizes, essa comissão vai ser presidida por Zeferino Vaz, que passava por momentos conturbados enquanto interventor e reitor na Universidade Brasília, e fora buscado diretamente por Eduardo de Barros Pimentel.
Com o chamado de Eduardo Pimentel, Zeferino vê a oportunidade de criar a universidade que ele idealizava, partindo do zero e com a bagagem da USP e UnB, tinha como projeto uma universidade que produzisse um grande volume de pesquisas com foco para produção tecnológica, mas buscando integrar com as ciências humanas e biológicas. Com o ideal de uma universidade que produza ciência, tecnologia e suporte para pequenas, médias e grandes empresas e alinhado aos interesses do governo militar, Zeferino Vaz começa sua missão se reunindo com empresários locais, com representantes das indústrias e com os institutos de pesquisa que já existiam na cidade, como Instituto Agronômico de Campinas e o Instituto de Tecnologia de Alimentos.
Entre 1964 e 1966 Zeferino transferiu a faculdade de medicina para a Santa Casa de Misericórdia, permitindo aos estudantes terem aulas práticas, transferiu a reitoria para um prédio junto à prefeitura e conseguiu o terreno onde atualmente se encontra o campus de Barão Geraldo. Começou assim a esboçar o projeto do que viria a ser a Unicamp de hoje, mas para ser uma universidade precisava fundar novos cursos e então se inicia um novo passo, de buscar professores e pensar quais cursos serão parte fundamental dessa nova universidade. Com o jargão “acreditar em cérebros para depois construir bibliotecas, equipamentos e por último edifícios”, que se encaixava muito bem ao momento da Unicamp - afinal o terreno da universidade ainda era mais parecido com o canavial que a antecedera do que uma universidade, mas com isso ele vai atrás de centenas de professores visando tirar eles de qualquer universidade onde estivessem, seja no exterior ou em outras universidades e institutos de pesquisas nacionais. Com a garantia do governo militar que ele teria as melhores mentes para fundar essa nova universidade.
A universidade começa a surgir
O curso de medicina já era uma realidade, fruto de um empenho de mais de uma década que articulou a população, empresariado e outros setores da sociedade em sua defesa, sendo fundado ainda antes do golpe militar de 1964. Porém os primeiros passos reais da Universidade Estadual de Campinas rumo ao que conhecemos hoje se dão já sob governo militar, o qual Zeferino Vaz era altamente entusiasta e buscava contribuir, e assim a universidade busca alinhar seus objetivos com os militares. E naquele momento o atual presidente Mal. Castelo Branco e seu governo tinham como objetivo dominar tecnologias estratégicas, sendo um dos focos na telecomunicação, com a tentativa de integrar o grande território nacional brasileiro, sendo que nos anos sessenta tecnologias como a fibra óptica e o laser já eram realidade.
Até o momento no Brasil o sistema de universidade era bem recente e seguiam em sua maioria uma receita, com cátedras e tendo foco na formação de profissionais liberais como advogados, médicos e engenheiros que foram exigidos devido ao processo de urbanização ou eram voltados para pesquisas de Ciências de bases. Porém, para Unicamp, o projeto foi inovador, começando com o sistema de cátedras que fora substituído pela departamentalização seguindo modelos estrangeiros de universidade. Uma forte crítica que Zeferino fazia às outras universidades era a falta de integração entre áreas de conhecimento, o que ele buscou contornar no projeto da Unicamp. Outro elemento que diferencia a Unicamp das demais universidades até então era o foco na produção de pesquisa tecnológica e que mantivesse um forte vínculo com o setor de produção de bens e de serviços e que formasse profissionais para esse novo mercado. Buscando responder às necessidades da burguesia industrial, que emergiu e naquele momento já era um peso político real no estado de São Paulo e do governo militar frente a sua política nacional desenvolvimentista, Zeferino se colocou de prontidão para tocar esse projeto.
Dentre os primeiros cursos a serem fundados estão as engenharias da Unicamp, compostas pela engenharia química, mecânica e elétrica. Os cursos foram formulados a partir de uma reunião que Zeferino Vaz convocou junto à seção local da Federação das Indústrias do Estado. Nessa reunião, o reitor expõe o que seria a nova universidade e explícita como quer buscar a aproximação com a indústria, solicitando ao grupo garantia de estágios e ensino de algumas aulas práticas nas oficinas fabris e a formação de uma comissão que fosse criar as bases para as três engenharias fundamentais da universidade, levando em conta as necessidades da indústria local. Grande entusiasta desse projeto é o Sancho Morita, que coloca a serviço de Zeferino todo o seu capital de contatos com a Michigan State e outras universidades norte-americanas com currículos voltados para as necessidades do setor de produção de bens e serviços.
O segundo passo de Zeferino foi instalar as ciências básicas, com os cursos de biologia, física, química e matemática. Com a conformação de um corpo docente, que além de lecionar seriam importantes pesquisadores, com isso nos anos seguintes cerca de 180 cientistas estrangeiros - que vieram das melhores instituições de pesquisa dos Estados Unidos e da Europa - e junto a eles cerca de duas centenas de brasileiros que se encontravam espalhados por universidades e centros de pesquisas brasileiros vieram para Campinas, ser parte desse novo empreendimento de educação e pesquisa.
“Um dos primeiros a chegar foi o matemático Rubens Murillo Marques. Subtraído à Universidade de São Paulo, Murillo veio para ser professor de bioestatística no curso de Medicina e tornou-se, mais adiante, fundador do Instituto de Matemática e um dos principais auxiliares de Zeferino. Da USP vieram também outros pioneiros como o ginecologista e obstetra Bussamara Neme, o pediatra Jacob Renato Woisky e o neurologista Oswaldo de Freitas Julião. Para organizar o Instituto de Física, Zeferino convidou o principal nome da física nuclear brasileira da época, o ex-presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear, Marcello Damy de Souza Santos, seu amigo pessoal. A implantação do Instituto de Química foi entregue ao italiano Giuseppe Cilento, criador da fotobioquímica sem luz e pesquisador de fama mundial. A biologia estava em boas mãos com o primeiro docente contratado da universidade, o médico Walter August Hadler. As engenharias foram confiadas a um general da reserva com phD em Stanford e simpatizante dos golpistas de 1964, o físico José Fonseca Valverde. Nos anos seguintes, Valverde daria muito trabalho a Zeferino.” (trecho de “o mandarim: história da infância da unicamp”. cap. 10)
Esses pioneiros tiveram carta branca para montar seus departamentos e trazer os professores que desejassem, não importando onde estivessem. Com isso, a nova universidade causou o esvaziamento de departamentos inteiros de outras instituições que vieram integralmente para a Unicamp. Como no caso do físico Sérgio Porto, pioneiro de renome internacional nas pesquisas em espectroscopia e para a utilização da radiação laser na medicina, que ao ser convidado por Marcello Damy, disse que viria só se pudesse trazer seus ex-assistentes nos laboratórios Bell. César Lattes, foi outro grande nome que chega para implementar o novo departamento de física, que naquele momento disputava a cátedra de Física Superior, anteriormente criada para ele pela USP. Lattes decide vir à Unicamp para implementar uma linha de pesquisa sobre datação de rochas em Campinas, trazendo com ele seus pupilos e ex-alunos da USP, mas também transferindo todo o peso da colaboração Brasil-Japão na área de raios cósmicos, que viria a ser o principal projeto de Lattes com a criação do Laboratório de Raios Cósmicos, célula embrionária do nascente Instituto de Física da Unicamp.
Se formava então um projeto robusto com grandes mentes e pesquisadores, porém a estrutura da universidade ainda era muito inicial, o futuro campus ainda era mais canavial, trilhas e lodaçais intransponíveis que teriam atolado até mesmo o fusquinha de Sérgio Porto em sua primeira visita. Por isso os laboratórios funcionavam de forma improvisada no porão do antigo colégio Bento Quirino na rua Culto à Ciência número 177, que hoje abriga o Colégio Técnico de Campinas (Cotuca) vinculado à Unicamp. Enquanto se estruturavam os primeiros cursos de engenharia e ciências básicas, Zeferino já começava em seu gabinete organizar a área de humanidades e artes que ficariam sob responsabilidade do filósofo de formação alemã e secretário municipal de Educação, Fausto Castilho.
A relação entre Zeferino e Fausto Castilho tinha tido suas primeiras rusgas quando o filósofo foi afastado da Faculdade de Filosofia de Araraquara, supostamente por questões ideológicas, fato que ele creditava ao reitor da Unicamp. Com tudo deixado para trás, Fausto Castilho assume a missão de implementar o embrião do que viria ser o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (IFCH) e também futuramente o Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) e mais a frente o Instituto de Economia (IE) . O convite a Castilho deixou principalmente o general da reserva José Fonseca Valverde incomodado, pois o filósofo trouxe junto com ele um grupo de professores do curso livre de planejamento econômico que a Prefeitura de São Paulo organizava desde 1965 com a ajuda do escritório da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) no Rio de Janeiro, um ninho de esquerdistas segundo o governo militar e que há tempos estava na mira do regime.
O primeiro passo de Fausto Castilho foi fundar o Departamento de Planejamento Econômico e Social, onde ele abrigou os professores e ex-alunos do Cepal, pois o escritório no Rio de Janeiro estava na iminência de fechar. A solução foi trazer os professores e alunos perseguidos pelo regime militar para dentro de uma universidade em formação onde os militares ainda faziam vista grossa. Para compor o departamento, Castilho buscou os professores Roberto Gamboa, Wilson Cano e Ferdinando de Oliveira Figueiredo, que estavam na Cepal, todos bacharéis e com menos pompa do que os cientistas recrutados para as ciências básicas. Antes da chegada, o primeiro desentendimento entre os novos professores e o reitor já apareceu, pois esses iam receber salário de doutores, o que acharam pouco para quem iria mudar de cidade e toda a vida em nome desse novo empreendimento. Zeferino acabou cedendo e contratando todos como professores adjuntos, mas sem antes pedir truco ao dizer que iria exigir produção científica dos mesmos, e Ferdinando retrucar dizendo que iriam exigir condições de trabalho, assim se estabelece então a quarta área da Unicamp.
Dois cursos surgiram de forma paralelas a esses, não menos importantes para o projeto inovador e voltado para o mercado da Unicamp. O primeiro foi com a fundação da primeira escola superior de engenharia de alimentos do hemisfério sul, que mais tarde viria se tornar a Faculdade de Engenharia de Alimentos, a responsabilidade foi atribuída ao agrônomo de renome André Tosello. O segundo foi a criação do primeiro curso de Ciências da Computação do Brasil, idealizado pelo professor Murillo Marques e que fora anunciado junto ao primeiro computador da universidade, um IBM-1130 que era a mais alta tecnologia da época. Com isso a Unicamp ainda sem sua estrutura seguia o plano de Zeferino, de primeiro trazer mentes e que já davam resultado mesmo trabalhando do fundo do antigo colégio.
Os projetos de intercâmbio eram freqüentemente acompanhados de generosas verbas vindas do exterior ou mesmo do governo, uma demonstração do poder de fogo dos pesquisadores trazidos por Zeferino. O financiamento oficial, que raramente ultrapassava a escala de algumas dezenas de milhares de dólares, alcançou o patamar de dezenas de milhões com a entrada em cena de captadores como Cerqueira Leite e Nelson de Jesus Parada, fruto de uma persistente catequese junto às agências de fomento. (trecho de “o mandarim: história da infância da unicamp”. cap. 11)
Nesse mesmo período, onde a universidade nascia, Zeferino se depara com o que vai ser seu primeiro enfrentamento com os estudantes. Todos os estudantes tanto das ciências exatas, quanto da medicina entraram em greve contra a nova política de vestibular que tinha como objetivo unificar o vestibular e ser o mesmo para ciências exatas e médicas. Frente à greve estava o presidente do Centro Acadêmico de Ciências Exatas, a luta que durou mais de 40 dias e conseguiu uma liminar que cancelava o vestibular, mas Zeferino conseguiu a cassação da liminar.
A história que correu, não confirmada, era de que na véspera do exame, com um helicóptero emprestado, ele pousou ruidosamente nos jardins residenciais de um juiz-desembargador, onde se dava um churrasco, e ali mesmo obteve a cassação da liminar. Consta que teria ficado para o churrasco. (trecho de “o mandarim: história da infância da unicamp”. cap. 11)
Esse foi o primeiro embate de um confronto que ainda se estremeceria mais com o passar dos anos e aprofundamento das restrições do regime militar.
Tensões e acirramentos: Unicamp gesta opositores ao regime militar e desafia Zeferino
Em 1968 o número de estudantes na Unicamp ainda era bem baixo, não chegando a cinco centenas, mas no primeiro curso da Unicamp se criava as “Comissões Paritárias” que eram integradas por professores, estudantes e funcionários em igual proporção. As comissões reivindicavam o direito de debater e também de deliberar sobre questões de ordem acadêmica, administrativa e assistencial. Lideradas pelo médico Sérgio Arouca, era composta por um grupo de professores ligados ao Departamento de Medicina Preventiva, entre eles Miguel Ignacio Tobar e Ana Maria Arouca. Zeferino com medo de as coisas esquentarem e o exército se meter dentro da sua universidade, o que sabia que poderia levar a uma revolta maior do corpo universitário (lição tirada de seus tempos como interventor na UnB) e também com o medo de ter seu nome manchado por não conseguir conduzir a universidade, deixava passar algumas alterações em normas e até curriculares, quando o interessava. Porém essa postura demagógica do reitor também era acompanhada de punição como ao Professor Tobar que fora demitido sob o argumento que o departamento “tinha comunistas demais”.
Não só na Unicamp, mas 68 representou uma forte mobilização da juventude universitária, onde manifestações se espalhavam pelo país e a juventude seguia embalada pelo maio francês que colocou na boca dos estudantes o debate sobre qual universidade defender. Esse debate de qual universidade defender norteou nesse mesmo ano o 30º Congresso Nacional dos Estudantes (CONUNE), que estava programado para acontecer de forma clandestina no interior de São Paulo, na cidade de Ibiúna. O congresso foi descoberto pelos militares e fortemente reprimido e levando a prisão 900 dos 1240 estudantes, sendo alguns da Unicamp. De prontidão Zeferino foi até o Carandiru, levando bolachas, chocolates e cigarros para seus estudantes, além da promessa do governador que iria soltar os “seus comunistas”. Dizem ser desse momento, em companhia dos militares no Carandiru, que o reitor teria dito o que viria ser uma de suas frases célebres “Dos meus comunistas cuido eu”.
Zeferino Vaz conduzia a Unicamp de forma demagógica, pregando autonomia universitária, mas sempre buscando satisfazer os desejos dos militares e do empresariado da região. Porém, com o endurecimento do regime e as perseguições ao movimento estudantil, professores e qualquer setor crítico ao governo com a implementação do AI-5 ainda em 1968, essa relação entre reitoria e movimento estudantil apresenta seus claros limites. Além do Ato Institucional de número 5, que significou o fechamento político e a perseguição escancarada aos “comunistas”, nesse ano também foi aprovada a reforma do ensino superior pelos militares através da Lei nº 5.540. Reforma essa que determinou o fim do regime de cátedra, colocou de pé os departamentos, além de unificar o vestibular. Com um discurso tecnocrata de modernização do ensino superior e ampliação no acesso, o que na verdade o regime militar fazia era adequar ainda mais o ensino superior aos interesses da burguesia e do governo. Para os estudantes essa mudança escondia a tentativa de privatizar o ensino superior público e por isso se colocaram contra, o que viria a gerar novos atritos com o reitor da Unicamp.
Zeferino via que o movimento estudantil se radicalizava, e dentro da Unicamp pequenos grupos de esquerda que iam do trotskismo ao maoísmo começavam a surgir e clandestinamente se instalarem na universidade, para os arrepios das leis de exceção. O reitor tinha medo de acontecer o mesmo que na USP, onde a ocupação do prédio da Faculdade de Filosofia pelos alunos havia terminado com a morte de um estudante e a depredação do prédio da rua Maria Antônia por grupos paramilitares fortemente armados e escoltados por forças policiais. Foi quando soube que o atual presidente do Centro Acadêmico de Ciências Exatas, Alcides Mamizuka, teria se filiado à Aliança Libertadora Nacional, disparou acusações sobre as agremiações estudantis de que estariam levando dinheiro para a guerrilha urbana, sem nenhuma prova.
“No início de 1969, Mamizuka foi entregue à própria sorte. Abandonou as aulas de tecnologia de alimentos – que na época eram ministradas no Instituto de Tecnologia de Alimentos de Campinas, a seis quilômetros do campus – porque sempre havia um camburão estacionado na porta do prédio. Para não ser apanhado em casa, saltava de uma república a outra, levando só uma mochila nas costas. Mesmo assim, um dia encontrou seu quarto revirado e confiscados os seus livros de Lênin, Marx, Engels e Regis Debray. Abandonou o curso e perdeu-se nos labirintos da capital paulista, mergulhando de vez na guerrilha. Mas não pegava em armas: seu trabalho era a propaganda – panfletos, cartazes e mensagens revolucionárias aos combatentes e à população. Em fevereiro de 1970 foi preso e confinado na rua Tutóia, onde ficava a prisão da OBAN criada por Abreu Sodré. No dia seguinte, ao ser levado para fazer o reconhecimento de um ponto de reunião da ANL, tentou fugir. Levou três tiros de pistola nas costas. Passou dois anos entre as celas da OBAN, do DOPS e do presídio Tiradentes. Era o primeiro e único estudante da Unicamp a ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional, mas isso estava longe de comover Zeferino. Bem ao contrário, preveniu-o. Desta vez não houve chocolates nem cigarros, muito menos visitas e conforto moral na prisão.” (trecho de “o mandarim: história da infância da unicamp”. cap. 13)
O passado nos mostra os passos ainda dados pela Unicamp
A Unicamp nasce de um processo que além da alta burguesia e empresariado nascente na região, reuniu a população da cidade em torno da luta por uma universidade pública e de qualidade. A instalação da Unicamp longe de trazer acesso ao ensino superior para a população, se postulou como a primeira universidade brasileira a trilhar um projeto de ensino e pesquisa voltado para o setor de produção de bens e de serviços, seguindo o projeto dos grandes institutos de tecnologia estrangeiros como a Massachusetts Institute of Technology (MIT).
Como apresentado em outras produções, a Unicamp segue tendo uma relação bem estreita com a produção de conhecimento para o setor produtivo. Estando presente no INOVA (Agência de Inovação da universidade para às empresas) empresas como a Samsung, Pirelli, LG, Motorola, BASF, CPFL, Shell, Cargill e Monsanto, várias delas com indústrias na região. Mostrando que mesmo após décadas o projeto que fora iniciado por Zeferino ao lado do empresariado local segue vigente. Colocando o conhecimento produzido na universidade a serviço do desenvolvimento capitalista, não em nome do desenvolvimento humano e de suas forças produtivas em nome da melhora na qualidade de vida da classe trabalhadora. Esse projeto de universidade gesta empresas como o iFood, que explora ao limite a mão de obra da juventude negra colocando para pedalar mais de 12 horas por dia com uma bag nas costas, enquanto para esse mesmo setor a entrada na universidade é negada pelo vestibular.
O Inova é o núcleo de inovação tecnológica da Unicamp, criado em 2003 com o objetivo de “Identificar oportunidades e promover atividades que estimulam a inovação e o empreendedorismo, ampliando o impacto do ensino, da pesquisa e da extensão em favor do desenvolvimento socioeconômico sustentado” , segundo seu próprio site. Porém na verdade o que essa agência, que no relatório de 2024 apresenta 28 bilhões de faturamento, faz é colocar à disposição de diversas empresas patentes criadas por professores e pesquisadores da Unicamp. Assim, torna bem gráfico o que Zeferino Vaz colocava desde o início do projeto da Unicamp e explicitou em uma entrevista ao Vox Populi da TV Cultura, “Pequenas e médias empresas devem receber apoio das universidades, sobretudo, assessoria administrativa e assessoria técnica. Às grandes empresas, essas devem conectar-se, a universidade buscar resolver problemas técnicos e tecnológicos e então elas pagam”.
Para além do INOVA as parcerias público privadas acontecem através de outros órgãos ligados a Universidade como o CEPETRO (Centro de Estudos de Energia e Petróleo) que produz pesquisas em diversas áreas da produção energética, como o EPIC (Centro de Inovação em Produção de Energia) com enfoque na otimização da produção de óleo e gás ou em novas energias renováveis como o CINE (Center for Innovation on New Energies) que visa ser linha de frente nas pesquisa sobre a transição energética, sendo uma parceria com a multinacional Shell, colocando a serviço do imperialismo estadunidense o conhecimento produzido na universidade. Outro exemplo é o HIDS (Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável) um parque tecnológico privado vinculado à Unicamp para desenvolver soluções sustentáveis. E na área da saúde como vemos com o IOU (Instituto de Otorrinolaringologia Cirurgia de Cabeça e Pescoço - UNICAMP), um hospital privado e de ponta relacionado a Facamp e com o Projeto Órion, laboratório de biossegurança vinculado ao Sirius (acelerador de partículas localizado em Campinas).
“Embora as pesquisas vão para além do setor produtivo, é revelador a fala do Tom Zé, atual reitor da Unicamp, na câmara municipal de Campinas ao se referir ao IOU: “ Mas a gente não quer só fazer assistência. A gente quer é que, para o entorno desse complexo de assistência à saúde da região, sejam também atraídas indústrias que produzam equipamentos, que fabriquem fármacos, biofármacos, que prestem consultorias na área médica, empresas de engenharia que pensem na logística hospitalar, na engenharia de construção de equipamentos de saúde, na tecnologia da informação e na inteligência artificial e todo o complexo industrial e de serviços ao redor desse atendimento à população”” (Dolce, Gabriel “Indústria, Desenvolvimento Tecnológico e Posição Estratégica na Região de Campinas”)
Como podemos ver até aqui a Unicamp nasce de um projeto que visava desde o início colocar a universidade pública a serviço da burguesia e de seu desenvolvimento. Desde a indústria local, a exploração de petróleo, até o avanço na produção de tecnologias para o agronegócio, a Unicamp se tornou um exemplar único no Brasil de universidade a serviço do desenvolvimento do setor produtivo, sendo sempre ranqueada entre as maiores desenvolvedoras de patentes nacionalmente. Por isso, sem nenhuma dúvida vemos desde antes da sua fundação o envolvimento da FIESP, setor que segue tendo espaço representativo, podendo votar e decidir os rumos da universidade, no Conselho Universitário.
A história da Unicamp de Zeferino Vaz, aquela que agora vem sendo saudada pela atual reitoria na comemoração dos 60 anos da sua fundação, não é a mesma contada pela história das lutas dos estudantes, trabalhadores, professores e a população campineira. Para isso, olhar para essa história e buscar quais são os elementos mais avançados e também as contradições latentes desde sua fundação, é essencial para construirmos desde as bases uma universidade voltada para a classe trabalhadora e não para o empresariado. Uma universidade que atenda os filhos da classe trabalhadora, a juventude negra que hoje sua maioria entra apenas pelas portas dos fundos da universidade, enquanto são jogados para pedalar mais de 10 horas por dia com uma bag nas costas, enquanto a reitoria se vangloria do iFood ser uma empresa filha da Unicamp. Para isso precisamos acabar com o filtro social e racial, que é o vestibular, lutando pela estatização de todo o ensino superior.
O projeto da Universidade de Zeferino, que segue sendo o projeto atual da Unicamp, sempre foi para satisfazer e desenvolver o empresariado e a burguesia local. Nascente de bases autoritárias, a estrutura de poder da universidade, já nasce apodrecida e nada democrática. Onde milhares de trabalhadores terceirizados são invisibilizados, tendo seus direitos atacados, sendo impedidos até mesmo de poderem deixar seus filhos na creche ou acessar o Centro de Saúde da Comunidade (CECOM) que atende toda a comunidade universitária. Onde a FIESP tem participação e poder de decisão no conselho universitário, esse órgão antidemocrático, que está a serviço de manter a universidade vinculada aos interesses da burguesia. Para avançarmos com as pautas latentes na universidade precisamos combater essa estrutura de poder, colocando a necessidade de uma assembleia estatuinte livre e soberana, que debata ponto por ponto do estatuto da Unicamp, organizada desde as bases com voto por cabeça para cada categoria da comunidade acadêmica, incluindo os trabalhadores e trabalhadoras terceirizados. Essa é única forma que poderíamos avançar para uma universidade realmente construída para a classe trabalhadora, avançando com o fim da terceirização e a efetivação de todos sem necessidade de concurso público, garantido permanência estudantil para todes sem contrapartida do trabalho, além de contratação e ampliação nos quadros de funcionários e professores que hoje sabemos ser defasado na universidade. Podendo assim colocar a universidade a serviço da classe trabalhadora e da população.
Bibliografia Geral
A Unicamp e sede de lucros do capital monopolista com o conhecimento (https://www.esquerdadiario.com.br/A-Unicamp-e-sede-de-lucros-do-capital-monopolista-com-o-conhecimento?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=Newsletter)
Indústria, Desenvolvimento Tecnológico e Posição Estratégica na Região de Campinas (https://www.esquerdadiario.com.br/Industria-Desenvolvimento-Tecnologico-e-Posicao-Estrategica-na-Regiao-de-Campinas#nb11)
Documentário: A história da Unicamp (https://www.youtube.com/watch?v=ozhR3gBEP90)
Jornal Unicamp com publicações de “O Mandarim. Uma história da infância da Unicamp” de Eustáquio Gomes (https://unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/fevereiro2006/ju313pag6-7.html)