A correlação de forças se constroi nas ruas
Artigo publicado originalmente em espanhol no dia 26/10/2026 em La Izquierda Diario Argentina
A extrema direita continental chora rios de lágrimas. A vitória deste domingo foi imposta pela multidão nas ruas, não pela “frente ampla” que inclui Alckmin e setores da própria direita. França e Europa apontam uma agenda para destruir o poder social e político da extrema direita: a luta de classes radicalizada.
Às 9h30 desta segunda-feira, Javier Milei continua sem dizer uma palavra sobre o que aconteceu no Brasil. O homem que vive tuitando ficou com os dedos travados. A milhares de quilômetros de distância, mais ao norte, Donald Trump exerce o mesmo direito de permanecer em silêncio. A direita continental acaba de sofrer um golpe duríssimo. Os centros de trolls de cada país choram “fraude”.
Inédita, histórica, a virada eleitoral foi conquistada nas ruas. Nas mobilizações massivas que percorreram esse país-continente que é o Brasil. Na ofensiva contra os patrões que representou a revogação da escravista escala 6x1. Na denúncia feita por milhões contra o poder das grandes corporações capitalistas.
Mas confrontar a direita nas ruas nunca foi nem é a estratégia de Lula. Pelo contrário, o histórico dirigente construiu seu modelo — desde sempre — com base na moderação diante do grande poder econômico. Em 2022, essa orientação se consolidou na Frente Ampla, que incluiu o direitista Geraldo Alckmin como candidato a vice-presidente. Na noite deste domingo, o “Macri brasileiro” foi o primeiro a receber elogios do presidente reeleito.
Esse esquema de conciliação com a direita marcou a agenda governamental durante quatro anos. Perpetuando a reforma trabalhista escravista imposta por Temer. Garantindo os negócios do agronegócio. Cedendo à agenda cultural reacionária da direita religiosa. Facilitando a especulação financeira que beneficiava os grandes bancos.
O Brasil endividado e precarizado votou contra Lula no primeiro turno. Neste domingo, impôs limites a Bolsonaro. A situação institucional resultante é profundamente contraditória: a extrema direita conta com maioria no Congresso, além de numerosos governos estaduais. Conta, ainda, com o apoio explícito de Trump.
Anunciam-se tensões agudas. Antecipa-se também uma ofensiva redobrada da direita e do poder econômico. O grande capital internacional já apresenta abertamente sua agenda. Porta-voz desse poder, o Financial Times observou que “os economistas alertam que a dívida pública do Brasil é elevada para uma economia em desenvolvimento e sugerem cortes nos gastos públicos para reduzir as altas taxas de juros do país”.
A juventude e o povo trabalhador disseram não à extrema direita nas ruas e nas urnas. Mas essa rejeição não rompe o poder social e institucional que está por trás do bolsonarismo. Não desarma o grande poder econômico. Não acaba com os privilégios das elites que empurram a sociedade para a direita e para além dela. Não expulsa o imperialismo do continente.
A essa força, só é possível opor outra de sinal contrário. Uma capaz de colocar em movimento ativo a energia de milhões. De liberar, de maneira permanente, a força social do povo trabalhador e da juventude. Impõe-se radicalizar as lutas e as mobilizações. Esse caminho exige uma agenda política independente. Não pode se desenvolver sob a direção de Lula, do PT e da Frente Ampla.
Paris, Madri, Tirana ou Milão apontam uma direção. Ali, a juventude ignora os apelos à moderação, desafia os símbolos do poder e confronta ativamente as forças repressivas do Estado capitalista. Em cada barricada que ergue, habita uma parcela do futuro. O Brasil plebeu e juvenil deve olhar para a Europa.
O velho continente e as mobilizações massivas no Brasil confirmam uma regra da política: a correlação de forças se constrói nas ruas. Esse é o caminho a fortalecer. Para que varrer a extrema direita e o imperialismo deixe de ser um discurso e passe a ser um fato indiscutível.