Capa: As Big techs, as redes sociais e a ingerência algorítmica nas eleições

As Big techs, as redes sociais e a ingerência algorítmica nas eleições

Por Iuri Tonelo |
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Introdução

Estamos diante de um processo eleitoral com características particulares na realidade brasileira. As eleições nacionais de 2026 são atravessadas pela ingerência do governo de Donald Trump e por diferentes mecanismos de pressão e influência sobre a dinâmica política do país, que vão desde a imposição de tarifas comerciais e ameaças diplomáticas até formas mais complexas de interferência no ambiente digital, especialmente aquelas mediadas pelas grandes plataformas tecnológicas e por seus mecanismos algorítmicos.

Basta ver que entre as 21 exigências apresentadas pelo governo Trump ao Brasil durante as negociações comerciais de 2025, estavam também questões relacionadas à atuação das plataformas digitais e à soberania regulatória brasileira. A tentativa de impor condições sobre esse terreno, combinada à exigência de participação de supostos “dissidentes políticos” nas eleições de 2026, revela como os interesses das big techs e a ingerência política do imperialismo estadunidense se articulam na ofensiva contra o Brasil.

Se já não é tarefa fácil para setores com mais poder dentro do regime político brasileiro, mais difícil ainda é para os trabalhadores, a juventude e suas organizações políticas e movimentos identificar a extensão e a profundidade dessas ingerências, tampouco compreender seus possíveis efeitos sobre a disputa política nacional. Isso se torna particularmente complexo quando consideramos a crescente centralidade das big techs na circulação de informações, na formação da opinião pública e na própria organização do debate político. Por exemplo, a vinculação da interferência autoritária do judiciario na política envolve a utilização discricionária de poderes para, em acordo com as big techs, cercear certos canais de comunicação, enquanto se favorecem outros, mais ligados à direita.

Não por acaso, setores decisivos do Vale do Silício e os proprietários das grandes empresas tecnológicas estiveram entre as frações da burguesia estadunidense que mais ostensivamente se aproximaram de Donald Trump, especialmente a partir de seu retorno à Casa Branca. Essa aproximação não constitui apenas uma convergência ideológica com a extrema-direita, mas expressa interesses econômicos e geopolíticos concretos, relacionados à desregulamentação, à expansão dos monopólios tecnológicos e à disputa pela hegemonia mundial, particularmente diante da China. O alinhamento de parte desses bilionários com Trump revela como a concentração do poder tecnológico se articula diretamente a um projeto de ofensiva imperialista.

A importância disso é amplificar a consciência sobre esses mecanismos de ingerência às vésperas das eleições nacionais, buscando reduzir o máximo essa influência, mas seguir também o debate em torno das big techs de redes sociais. Partindo dessa problemática, buscamos neste artigo apresentar algumas reflexões sobre a atuação dessas empresas e os mecanismos contemporâneos de interferência política, com o objetivo de desenvolver determinadas discussões programáticas e estratégicas que consideramos fundamentais diante da atual conjuntura brasileira.

Mecanismos conhecidos e sua influência documentada

São inúmeros os mecanismos por meio dos quais as big techs podem exercer influência sobre a população brasileira, particularmente em um contexto de disputa eleitoral. Para dimensionar o alcance dessas empresas, basta observar que, segundo o relatório Digital 2026: Brazil, elaborado pela DataReportal, o Instagram apresentava um alcance publicitário potencial de aproximadamente 147 milhões de usuários no Brasil, enquanto o Facebook alcançava cerca de 109 milhões, conforme dados do final de 2025. Embora esses números não correspondam necessariamente a usuários ativos diariamente, oferecem uma dimensão da gigantesca concentração de poder comunicacional dessas plataformas, que passaram a ocupar um lugar central na sociabilidade cotidiana e na formação da opinião pública.

O primeiro mecanismo de interferência, e talvez o mais evidente, está relacionado à capacidade dessas empresas de impulsionar ou restringir a circulação de determinados conteúdos políticos. Isso significa que, por meio dos sistemas algorítmicos de recomendação, as plataformas possuem condições técnicas para ampliar ou reduzir a visibilidade de publicações, figuras políticas e páginas, produzindo assimetrias na circulação de informações. A questão envolve tanto o impulsionamento pago de conteúdos quanto a distribuição orgânica das publicações, orientada por critérios algorítmicos que permanecem, em grande medida, inacessíveis ao conhecimento público.

A dificuldade de identificar a extensão desses mecanismos é evidente. Afinal, como determinar se o alcance demasiado ampliado de determinada publicação resulta de sua capacidade espontânea de mobilização, das preferências dos usuários ou de algum tratamento privilegiado por parte dos algoritmos? Essa opacidade constitui um dos principais problemas políticos relacionados ao funcionamento das grandes plataformas digitais.

Uma compilação das assimetrias poderia ser um caminho de denúncia. Um exemplo particularmente significativo envolve o deputado federal Nikolas Ferreira, uma das figuras de maior projeção da extrema direita brasileira nas redes sociais. Com aproximadamente 23,3 milhões de seguidores no Instagram, o parlamentar apresenta índices de visualização de vídeos que ultrapassam, proporcionalmente, aqueles obtidos por personalidades de projeção internacional.

A título de comparação, que não funciona como uma comprovação, mas sugere indícios fortes nesse sentido, analisamos as últimas 12 publicações  de Nikolas Ferreira e de um dos perfis mais fortes do Instagram, o de Lionel Messi. Este último, o astro argentino, registrou uma média de 52,3 milhões de visualizações por vídeo, enquanto Nikolas Ferreira alcançou 49,9 milhões. A proximidade chama atenção quando consideramos que Messi possui 517 milhões de seguidores, contra 24,8 milhões de Nikolas, ou seja, uma base quase 21 vezes maior. Apesar dessa diferença, a média de visualizações do jogador foi apenas 4,9% superior à do deputado. Proporcionalmente ao número de seguidores, Nikolas apresentou uma relação entre visualizações e seguidores aproximadamente 20 vezes maior que Messi.

Um segundo mecanismo, igualmente importante, relaciona-se à capacidade de identificação e segmentação política dos usuários, permitindo que determinadas campanhas direcionem mensagens específicas a públicos previamente selecionados. Um dos episódios mais conhecidos envolvendo essa prática foi o escândalo da Cambridge Analytica, retratado no documentário Privacidade Hackeada (The Great Hack, 2019).

A empresa utilizou informações pessoais coletadas indevidamente de milhões de usuários do Facebook para desenvolver instrumentos de perfilamento e direcionamento político. Sua atuação esteve relacionada, entre outros processos, à campanha presidencial de Donald Trump em 2016.

O aspecto fundamental desse mecanismo consiste na possibilidade de construir perfis a partir do comportamento digital dos usuários, identificando interesses, preferências, disposições psicológicas e possíveis orientações políticas. Com esses dados, campanhas podem diferenciar públicos já identificados com determinadas posições ideológicas daqueles considerados indecisos ou potencialmente suscetíveis à persuasão.

Desse modo, enquanto os sistemas de recomendação contribuem para a formação e reprodução de ambientes informacionais relativamente segmentados — frequentemente denominados bolhas algorítmicas —, as ferramentas de publicidade direcionada permitem atuar sobre segmentos específicos do eleitorado. Não se trata, portanto, apenas de fortalecer posições políticas já consolidadas, mas também da possibilidade de direcionar recursos comunicacionais para grupos considerados estratégicos, inclusive aqueles cujas preferências eleitorais parecem menos definidas, o que funciona como um pendulo decisivo durante períodos eleitorais, garantindo a determinada campanha o acesso privilegiado a informações de públicos específicos, uma ingerência algorítmica (imperialista nesse caso) de forte potencial de impacto.

Entretanto, existe ainda um terceiro componente dessa problemática, cuja importância ultrapassa os mecanismos imediatamente eleitorais. Trata-se da relação entre o poder das grandes plataformas tecnológicas, os processos contemporâneos de precarização do trabalho e as condições sociais e políticas que favorecem a expansão da influência da extrema-direita. Para compreender essa dimensão, é necessário deslocar a análise da circulação algorítmica de conteúdos para as transformações mais amplas nas relações de trabalho e na organização da vida social.

A precarização do trabalho como fermento ideológico e político da extrema-direita

Existe uma relação importante entre a nova reestruturação produtiva do capitalismo internacional, desencadeada no contexto posterior à crise econômica de 2008, e as transformações políticas e ideológicas que atingem os setores da classe trabalhadora mais diretamente afetados por esse processo. Nas últimas duas décadas, a reorganização das relações de produção e trabalho tem se expressado em diferentes fenômenos, entre os quais se destacam a chamada Indústria 4.0, a introdução de novas tecnologias digitais, as reformas trabalhistas, a ampliação de modalidades contratuais flexíveis e intermitentes, a generalização da plataformização do trabalho e os processos de uberização e amazonificação.

Essas transformações, evidentemente, não constituem fenômenos homogêneos, mas diferentes manifestações de um processo mais amplo de reorganização do capital, marcado pela busca de aumentar os níveis de extração de mais-valor, flexibilização das relações laborais e incorporação de novas tecnologias de controle, vigilância e intensificação da exploração.

No Brasil, esse processo assumiu características particulares. Em um país historicamente marcado por elevadas taxas de informalidade, pela terceirização e pela fragilidade dos mecanismos de proteção social, a nova reestruturação produtiva encontrou terreno especialmente favorável. Trata-se de uma realidade que não pode ser dissociada da formação histórica do mercado de trabalho brasileiro, profundamente marcada pela herança escravista e pela constituição de um enorme contingente de trabalhadores submetidos a formas instáveis e precárias de inserção laboral.

A reforma trabalhista de 2017, durante o governo Michel Temer, representou um marco importante desse processo, ampliando as possibilidades legais de flexibilização contratual, inclusive com a introdução do trabalho intermitente. Nos anos seguintes, particularmente durante a pandemia de Covid-19, assistimos à expansão de modalidades de trabalho vinculadas às plataformas digitais, que passaram a ocupar uma posição ainda mais significativa na realidade laboral brasileira. A uberização e a plataformização se consolidaram, assim, como algumas das expressões contemporâneas da precarização estrutural do trabalho. A persistência desse problema pode ser observada nos próprios indicadores nacionais. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, a taxa anual de informalidade atingiu 38,1% da população ocupada em 2025, mesmo em um contexto de redução do desemprego. Isso evidencia que a ampliação da ocupação não significa a superação das formas precárias de inserção laboral.

Entretanto, além de suas consequências econômicas e sociais, essas transformações possuem importantes desdobramentos políticos e ideológicos. Pesquisas recentes1 vêm investigando a relação entre a precarização do trabalho, a insegurança econômica e a expansão de determinadas formas de identificação política, inclusive aquelas associadas à extrema-direita.

Nesse sentido, a questão fundamental não reside em estabelecer uma correspondência automática entre precarização e conservadorismo político, e também não como o economista Guy Standing sugeriu em encontrar no precariado uma nova classe social, que não a própria classe trabalhadora. Trata-se de compreender como a experiência cotidiana da instabilidade econômica, da ausência de direitos e da insegurança diante do futuro pode favorecer a receptividade a discursos que prometem saídas individuais para problemas estruturalmente produzidos.

É precisamente nesse terreno que as grandes empresas tecnológicas e as redes sociais adquirem uma importância particular.

Um fenômeno ainda insuficientemente incorporado ao debate político é a enorme quantidade de trabalhadores que utilizam plataformas digitais, como Instagram, Facebook e WhatsApp, para realizar atividades econômicas, seja como principal fonte de renda, seja como mecanismo de complementação dos rendimentos familiares.

Não estamos nos referindo apenas aos motoristas e entregadores de aplicativos, normalmente associados ao conceito de trabalho plataformizado. Trata-se também de um contingente expressivo de trabalhadores autônomos, pequenos comerciantes e prestadores de serviços que dependem crescentemente das redes sociais para viabilizar suas atividades econômicas. São pessoas que vendem alimentos produzidos em casa, como bolos e doces, realizam serviços de manicure, cabeleireiro e estética, comercializam roupas e outros produtos ou utilizam plataformas como Shopee e Mercado Livre para alcançar consumidores.

Embora essas modalidades de trabalho apresentem relações distintas com as plataformas, elas compartilham uma crescente dependência das infraestruturas digitais para a obtenção de renda, a divulgação de produtos. Outro aspecto particularmente importante dessa transformação diz respeito à participação feminina. Novas pesquisas têm revelado uma dimensão frequentemente subestimada das transformações contemporâneas do trabalho: a expansão de atividades econômicas realizadas no ambiente doméstico ou articuladas à reprodução familiar, nas quais as redes sociais passam a funcionar como instrumentos fundamentais de comercialização e obtenção de renda. Ou seja, parte expressiva dessas atividades se desenvolve fora das formas tradicionais de emprego assalariado, sem acesso automático a direitos como férias remuneradas, décimo terceiro salário, FGTS e outros mecanismos historicamente associados à relação formal de emprego.

Nesse contexto, a responsabilidade pela manutenção da renda, pela continuidade da atividade econômica e pela própria sobrevivência familiar é progressivamente transferida para o indivíduo. A ausência de garantias coletivas aparece, então, não apenas como uma condição material, mas também como o terreno sobre o qual se desenvolvem novas formas de legitimação ideológica.

É nesse ponto que o discurso do empreendedorismo desempenha uma função particularmente importante.

A trabalhadora e o trabalhador submetido ao trabalho sem direitos, à instabilidade dos rendimentos e à ausência de perspectivas de inserção em empregos protegidos pode encontrar nas redes sociais a promessa de uma saída individual para suas dificuldades. Multiplicam-se, assim, os chamados coaches, influenciadores e produtores de conteúdos que oferecem orientações sobre como aumentar vendas, conquistar seguidores, ampliar o alcance das publicações, aperfeiçoar estratégias comerciais ou alcançar a desejada independência financeira. 

A promessa é aparentemente simples: por meio do esforço individual, da disciplina, da disposição para assumir riscos e do conhecimento de determinadas estratégias digitais, seria possível superar as limitações materiais impostas pela própria condição social.

Mais recentemente, Rosana Pinheiro-Machado aprofundou a investigação dessa relação. A pesquisadora demonstra como as experiências de precariedade econômica e as aspirações de prosperidade podem ser mobilizados politicamente por redes de influenciadores conservadores, construindo vínculos entre o universo do empreendedorismo digital e determinadas formas de identificação com a extrema-direita. Essa conexão é particularmente relevante porque revela que a influência política exercida pelas redes sociais não depende exclusivamente da circulação de conteúdos explicitamente eleitorais.

Um trabalhador pode começar acompanhando determinado influenciador em busca de orientações para aumentar suas vendas ou melhorar sua renda e, a partir daí, passar a consumir conteúdos nos quais empreendedorismo, valores conservadores e interpretações políticas aparecem articulados. Forma-se, assim, uma conexão entre a busca por soluções imediatas para dificuldades econômicas e a assimilação de determinadas concepções de mundo, em que o discurso da prosperidade e da responsabilidade individual pode funcionar como porta de entrada para a influência ideológica da extrema-direita.

Dessa perspectiva, a precarização do trabalho pode constituir um importante fermento político e ideológico para a extrema-direita. Isso não significa, evidentemente, que os trabalhadores precarizados estejam destinados a aderir à extrema-direita. Suas experiências também podem alimentar formas de resistência e organização coletiva, desde que exista uma perspectiva política capaz de enfrentar as condições materiais da precarização. É o que temos visto com os “Breques dos app” e outras formas de greve, mobilização e resistência entre esse setor dos trabalhadores, estando muitas vezes na vanguarda do enfrentamento à extrema-direita, como foi o caso do Breque de julho de 2020 em meio ao governo Bolsonaro, uma das principais lutas durante a pandemia. Internacionalmente, o mesmo poderia ser dito sobre a juventude francesa em 2026, com secudaristas à frente, que tem se rebelado contra as condições de precarização da vida no país, boa parte de origem imigrante inclusive.

Entretanto, a estratégia da Frente Ampla do governo federal nos últimos anos não enfrentou esse problema. Ao contrário, preservou as reformas trabalhista e previdenciária, fez projetos de instituicionalizar a “uberização” e, com isso, manteve e aprofundou importantes mecanismos de precarização, contribuindo para a manutenção das condições sociais que podem favorecer a influência da extrema-direita.

Daí decorre uma conclusão programática e estratégica fundamental: o enfrentamento da extrema-direita nas redes sociais não pode ser dissociado da luta contra as condições materiais que alimentam sua influência ideológica. É necessário combater a precarização, a terceirização, a uberização e a perda de direitos, defendendo empregos protegidos, ampliação da seguridade social e redução da jornada sem redução salarial.

A disputa política nas redes sociais é, portanto, inseparável daquela travada pelas condições de vida, pela organização coletiva e pelas perspectivas de futuro dos trabalhadores. Afinal, os algoritmos podem potencializar determinadas influências ideológicas, mas é na realidade material da vida social que se encontram muitas das condições de sua reprodução.

Qual programa e qual estratégia para enfrentar as big techs?

Uma das conclusões mais importantes que devemos extrair da realidade brasileira contemporânea é o grau de degradação da democracia burguesa e de suas instituições. Desde o golpe institucional de 2016, o país atravessa um processo de deterioração de seu regime político, acompanhado por profundas transformações nas relações econômicas e sociais. O impeachment de Dilma Rousseff abriu caminho para uma ofensiva contra os direitos sociais e trabalhistas, cujo legado mais evidente se expressou na reforma trabalhista de 2016, na aprovação do teto de gastos e, posteriormente, na reforma previdenciária.

Paralelamente, as consequências políticas desse processo, articuladas pela atuação da Operação Lava Jato, resultando na prisão de Lula em 2018,  contribuíram para a criação de condições favoráveis à ascensão da extrema-direita, que encontrou na eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, sua expressão mais evidente.

Desde então, a sociedade brasileira tem testemunhado não apenas a permanência, mas também a reorganização e o fortalecimento de diferentes forças políticas de extrema-direita. Esse processo coloca em questão os limites das instituições democrático-burguesas para conter tais tendências, pela própria degradação interna do regime político (em parte atrelada por mil laços a banqueiros, empresários e setores da extrema direita), mas também particularmente quando consideramos a influência exercida pelo imperialismo estadunidense e pelas grandes corporações tecnológicas sobre a dinâmica política nacional.

Nesse contexto, uma das principais estratégias adotadas por setores do progressismo, e mesmo por organizações da esquerda socialista, consistiu em depositar confiança na capacidade das instituições do regime político, particularmente do Supremo Tribunal Federal (STF), de conter a extrema-direita e impor limites à atuação das big techs. A perspectiva da chamada frente ampla, construída em torno da “defesa da democracia” e da unidade com setores da burguesia, passou a orientar parte significativa das respostas políticas à crise brasileira.

No entanto, a ingerência eleitoral das big techs não pode ser dissociada da atuação de setores do próprio Judiciário que vêm favorecendo politicamente Flávio Bolsonaro. Os ministros Kassio Nunes Marques e André Mendonça, ambos indicados ao STF por Jair Bolsonaro, protagonizaram uma sucessão de decisões que restringiram a atuação política de seus adversários. Kassio chegou a determinar a suspensão do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, com milhões de seguidores, e proibiu, a pedido de Flávio, a circulação de um jornal do sindicato dos petroleiros que discutia os projetos políticos em disputa. Mendonça, por sua vez, ordenou a retirada de centenas de propagandas impulsionadas contra Flávio no Instagram e Facebook e interrompeu um julgamento no TSE quando já havia maioria formada para derrubar sua própria decisão de censurar uma propaganda de Lula. Essas medidas, somadas à atuação das grandes plataformas, evidenciam como a ingerência dos monopólios tecnológicos e a instrumentalização das instituições do regime podem produzir efeitos convergentes em benefício da extrema-direita, revelando os limites da estratégia de depositar no STF a defesa das liberdades democráticas.

A experiência recente demonstrou a falência dessa estratégia, e o resultado do primeiro turno (tanto na crise histórica do STF, quanto no fortalecimento da extrema direita no congresso) atestam essa conclusão. Trata-se de compreender que o poder econômico, tecnológico e político concentrado nas mãos de um pequeno número de grandes capitalistas não pode ser efetivamente enfrentado apenas por meio da confiança nas instituições que integram a própria ordem social responsável pela reprodução dessa concentração.

É precisamente nesse sentido que se torna necessário formular uma resposta programática e estratégica independente.

O enfrentamento da ingerência das big techs deve começar pela exigência de transparência sobre os mecanismos algorítmicos que influenciam a vida social. Não é admissível que decisões capazes de afetar o debate público, a circulação de informações e até mesmo o funcionamento de processos eleitorais permaneçam subordinadas exclusivamente aos interesses privados de um pequeno grupo de bilionários.

É necessário reivindicar a abertura dos códigos e dos critérios fundamentais de funcionamento dos sistemas de recomendação, distribuição e moderação de conteúdos, bem como mecanismos públicos de auditoria dos algoritmos, preservando a privacidade e os dados pessoais dos usuários. A definição dos parâmetros que orientam essas tecnologias não deve permanecer sob controle do grande capital, proprietários das plataformas.  O controle desses códigos e algoritmos exige a participação dos próprios trabalhadores dessas empresas, incluindo engenheiros, programadores, desenvolvedores, pesquisadores e demais categorias profissionais, articulada à representação das organizações sindicais, movimentos sociais e entidades da sociedade civil. Se a ampla maioria da sociedade brasileira utiliza a plataforma, as classes subalternas, que expressam a maioria da sociedade, devem controlar também esse ambiente digital.

Trata-se, em outras palavras, de avançar na perspectiva do controle dos trabalhadores sobre os processos tecnológicos e informacionais, incluindo a inteligência artificial, que passaram a ocupar uma posição central na reprodução da vida social.

Essa reivindicação ganha importância ainda maior quando consideramos que as big techs não são apenas empresas de comunicação. Elas concentram infraestruturas fundamentais para o funcionamento da economia contemporânea, incluindo centros de processamento de dados, serviços de computação em nuvem, sistemas de inteligência artificial e plataformas digitais das quais dependem inúmeras atividades produtivas, comerciais e sociais. A concentração dessa infraestrutura representa, portanto, uma forma de poder que ultrapassa amplamente a esfera da comunicação política.

Por isso, uma estratégia consequente de enfrentamento dessas corporações não pode se restringir à regulação de conteúdos. Deve colocar em discussão a própria propriedade dos meios tecnológicos e informacionais, avançando em direção à estatização das grandes plataformas e de suas infraestruturas estratégicas, sob controle democrático dos trabalhadores e com participação social. Desde já, devemos defender que todos trabalhadores desse setor tenha liberdade de organização sindical e política, com plenos direitos, para que possam ser parte do questionamento às BigTechs. 

Essa perspectiva não pode, evidentemente, ser concebida nos limites de um único país. O caráter internacionalizado dessas empresas, de suas operações e de suas infraestruturas impõe a necessidade de uma articulação igualmente internacional dos trabalhadores e de suas organizações. A luta contra o poder dos grandes monopólios tecnológicos deve assumir, assim, uma dimensão internacionalista, envolvendo trabalhadores do Brasil, dos Estados Unidos e dos demais países nos quais essas corporações exercem sua influência.

Nesse sentido, iniciativas recentes de mobilização constituem um ponto de partida importante. O ato realizado em 19 de outubro de 2026, em São Paulo, diante da sede brasileira da Meta, reuniu organizações e movimentos sociais que denunciaram as interferências da empresa no processo eleitoral e reivindicaram maior transparência sobre seus mecanismos de funcionamento. Trata-se de uma manifestação relevante, sobretudo pela possibilidade de transformar denúncias e reivindicações pontuais em um movimento mais amplo de questionamento do poder dessas corporações.

A continuidade dessas mobilizações exige, entretanto, que o debate ultrapasse os limites das irregularidades denunciadas durante o período eleitoral. É necessário avançar na investigação dos mecanismos de ingerência, estimular a produção de pesquisas independentes, articular intelectuais, trabalhadores das empresas tecnológicas, sindicatos, movimentos sociais e organizações políticas, criando condições para uma resposta coletiva que não se encerre com o resultado das eleições.

Sobretudo, é indispensável que a classe trabalhadora e os setores subalternos da sociedade entrem em cena como sujeito político independente. Trabalhadores assalariados e precarizados, juventude, movimentos de mulheres, negros, indígenas, LGBTQIA+ e demais organizações populares possuem um papel decisivo na constituição de uma força social capaz de questionar não apenas os efeitos imediatos da atuação das big techs, mas também as relações econômicas e políticas que sustentam seu poder.

Uma resposta que, ao enfrentar a ingerência imperialista e o poder dos monopólios tecnológicos, seja capaz de recolocar a luta pela soberania, pela emancipação do trabalhadores da ingerência imperialista e algorítmica, o que só pode ser feito de forma consequente sob uma perspectiva socialista.

Bibliografia Geral

Ver: PINHEIRO-MACHADO, Rosana. Raiva, sonhos e insubordinação: como a extrema direita e as mídias digitais mobilizam a classe trabalhadora plataformizada. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 31, n. 73, e730601, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1806-9983e730601