Capa: A reitoria “Brás Cubas” da Unicamp

A reitoria “Brás Cubas” da Unicamp

Por Gabriel Dolce |
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Em meio à greve das universidades estaduais paulistas, é comum ouvir comparações entre a postura das reitorias da USP e da Unicamp, sendo a primeira vista como truculenta (em particular após o episódio da violência cometida pela polícia militar contra os estudantes) e a segunda uma reitoria “progressista”, do diálogo. Este texto visa problematizar essa visão e apontar para os mecanismos utilizados pela reitoria da Unicamp para levar adiante seu projeto mercadológico de universidade e voltado para a iniciativa privada.

Roberto Schwarz, em seu livro “Um Mestre na Periferia do Capitalismo “ [1], analisa o narrador fúnebre, melhor dizendo, “defunto-autor”, de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis. O que nos interessa aqui dessa elaboração é o destaque dado à representação da moral das classes dominantes brasileiras no séc XIX. Estas classes, correspondendo ao caráter desigual e combinado do desenvolvimento do capitalismo, importavam os valores e ideologias liberais e de progresso da burguesia da metrópole (assim como suas aspirações), mas sem abrir mão das formas de dominação escravista e de clientela em que de fato assentava a sua preeminência. Assim, a “infração à regra universal (a civilização burguesa e européia oitocentista) era de seu cotidiano, [...] a norma é infração e a infração é norma” [2]. Mesmo as mudanças constantes da estrutura narrativa do “defunto-autor” estão em função de subjugar o leitor. 

Schwarz foi também professor de Teoria Literária no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp do ano de 1978 a 1992, universidade que hoje atravessa uma greve dos três setores que a compõem: estudantes, professores e trabalhadores. A greve se insere em uma luta mais ampla das três universidades estaduais paulistas (USP, Unesp e Unicamp), que começou com a greve de trabalhadores técnico-administrativos da USP e hoje atravessa estudantes e professores da universidade, e greves em diversos Campis da Unesp. Com uma pauta de reivindicações que vai de um maior reajuste salarial para professores e servidores, a melhores condições de permanência aos estudantes (que convivem com episódios de larvas na comida em seus restaurantes universitários), a luta se enfrenta com o governador de extrema direita Tarcísio de Freitas, as reitorias e seu projeto neoliberal de mercantilização da educação e de austeridade fiscal.

A aparência democrática da reitoria da Unicamp

A reitoria da USP, com ameaças e assédios aos grevistas e uma postura intransigente nas negociações, além da bizarra violência cometida pela Polícia Militar aos estudantes na desocupação do prédio da reitoria, não surpreende ninguém. Historicamente se posiciona de forma conservadora e hostil ao movimento estudantil e sindical. Vale lembrar sua colaboração com o regime militar durante a ditadura para reprimir qualquer oposição vinda dos membros da comunidade acadêmica, com mortos, torturados e desaparecidos, sendo emblemático o caso de Alexandre Vannucchi Leme, estudante de geologia e membro da ALN, torturado até a morte, e é quem dá hoje nome ao DCE Livre da USP.

Já a reitoria da Unicamp aparece com outra roupagem. Desde Zeferino Vaz, seu fundador, abrigou intelectuais de esquerda e marxistas durante o regime militar e foi menos persecutória em relação ao movimento estudantil, apesar de Vaz ter sido interventor na UNB, um entusiasta da “revolução de 64”, e responsável pela exclusão de professores críticos da FCM (uma hipótese é a de que o tom mais “ameno” tenha sido fruto da ausência de uma resistência ao regime mais organizada como a existênte na USP no mesmo período [3] ). Apesar do título honoris causa que sucessivas reitorias sustentaram para Jarbas Passarinho, que foi Ministro do Trabalho da ditadura, diz a lenda,  na recepção a Eric Hobsbawm, na sala da Reitoria (1975), Vaz teria apontado para os organizadores do evento e brincado com o historiador marxista: “Veja, professor, são todos comunistas. Todos comunistas, mas extremamente competentes”. Hoje se apresenta como uma reitoria progressista, democrática, aberta ao diálogo e inclusiva, com uma política de permanência insatisfatória, mas com valores superiores do que a média nas universidades, além de ter implementado cotas étnico-raciais, trans e o vestibular indígena  (todas resultado das greves dos estudantes de 2016 e 2023, diga-se de passagem).

Acontece que o desencaixe entre ideologia e infraestrutura, representado na narrativa do “defunto-autor” de Machado e analisado por Schwarz, pode ser visto também (com todos os limites existentes em tal analogia) neste verniz progressista: embora seu discurso seja democrático, seu projeto de universidade e o destino de seus recurso e de parte expressiva do conhecimento produzido está voltado para o mercado privado e para a acumulação de capital. Um exemplo disso são os R$ 14,7 milhões previstos para a construção do HIDS, complexo de 3 mil m² voltado para hubs de inovação, enquanto o complexo hospitalar da Unicamp (que engloba o HC, Hemocentro e Caism), referência por sua qualidade na saúde pública e que atende uma população de 2,6 milhões de habitantes, é autarquizado como medida para sua entrega para a iniciativa privada. Uma intensificação agressiva do projeto neoliberal para a universidade, levado adiante por um corpo docente que, fruto de sucessivas políticas neoliberalizantes, “se tornou um gestor de bolsas, fundos, recursos de agências de fomento, contratos com empresas, acordos de cooperação, além de competir com os colegas, gerir sua carreira e exigir de funcionários que trabalhem em apoio ao indivíduo, quando muito a um grupo e não à instituição”, como aponta Rosa Gomes e Lincoln Secco em recente artigo [4], referindo-se à USP, mas que vale para a academia de conjunto.

No caso da classe dominante do sec XIX, o fenômeno, como já dito, era produto da contradição entre a ideologia importada da metrópole com a realidade produtiva e de classes brasileira. No caso da reitoria da Unicamp, é produto de uma forma de cooptação de uma elite intelectual e dos movimentos reivindicativos dentro de uma universidade calcada em uma estrutura de poder absolutamente anti-democrática enquanto mantém seu orçamento (que é derivado dos impostos pagos pelos trabalhadores deduzidos da mais-valia social) voltado para à reprodução ampliada do capital na periferia do capitalismo, com todas as suas formas características de exploração. Não à toa a Ifood, empresa que superexplora mais de 500 mil entregadores por aplicativo no Brasil por fora de qualquer legislação trabalhista, saiu de uma de suas incubadoras. Essa postura se coaduna  com o que nas últimas décadas foi chamado por Nancy Fraser de “neoliberalismo progressista” a nível internacional.

A reitoria e o trabalho terceirizado

Talvez seja na dimensão do trabalho em que a analogia funcione melhor. Enquanto as personagens da classe dominante representadas no romance de Machado proclamam valores liberais como a igualdade mas convivem com a chibata nas costas de seus escravizados, a reitoria da Unicamp brada sua inclusividade enquanto avança com a terceirização dentro da universidade: um verdadeiro regime de apartheid que mantém uma parcela expressiva dos trabalhadores (cerca de 3 mil, em sua maioria negros e em trabalhos manuais) totalmente marginalizados da comunidade acadêmica, com salários miseráveis e condições de trabalho absurdas, com constantes e escandalosas denuncias de acidentes de trabalho, assédio moral, descontos indevidos, falta de EPIs, segregação espacial dentro da unviersidade e um longo etc.  A terceirização, como norma, é feita para burlar a legislação trabalhista e, na universidade, para manter seus trabalhadores por fora de qualquer institucionalidade. Novamente “a norma é infração e a infração é norma”. 

É também pelo nível de brutalidade a que estão submetidos que os trabalhadores terceirizados tem sido um dos setores que mais realiza greves dentro da universidade: em 2022, as trabalhadoras do bandejão de limeira realizaram uma greve de dois dias após o falecimento de uma colega de trabalho durante o expediente e no ano passado os trabalhadores da ONET, vinculados à manutenção e construção civil, realizaram duas greves com conquistas e que tinham como pauta também o fim da escala 6x1.

O movimento estudantil contra Brás Cubas

Lincoln Secco, analisando, junto à outros intelectuais, a greve da USP, tem apontado repetidamente para a transformação do perfil dos estudantes da universidade, muitos dos quais hoje trabalham, vieram de escolas públicas, são negros (resultado também da política de cotas) e se chocam com a estrutura e o projeto excludente da universidade. Por sua posição objetiva na estrutura universitária e social, o movimento estudantil é o único setor “cuja revolta particular exprime o interesse geral da universidade. Ao contrário das demais categorias, o movimento estudantil não aufere vantagens como gratificações, salários e carreira” [5]. O mesmo pode ser dito em relação à greve na Unicamp. Lutam por melhores condições de permanência não apenas para si, mas para as próximas gerações, contra um modelo de universidade mercadológico e precário e em defesa da função social da universidade. Defendem, junto aos trabalhadores, a não autarquização do complexo hospitalar em defesa da saúde pública. 

Destaque especial deve ser dado à defesa, em sua carta de reivindicações, de acesso para os terceirizados aos mesmos direitos que possuem os trabalhadores efetivos: creche, cecom (serviço de saúde universitário), fretados, acesso às bibliotecas, vale alimentação digno e o fim da escala 6x1. Isso significa que o movimento estudantil da Unicamp encara como sua a luta pelo fim do apartheid social racista que a reitoria Brás Cubas expande na universidade (os almoxarifados também foram terceirizados recentemente) e batalha para que esse setor seja incluso, como mínimo, como parte da comunidade acadêmica. O Comitê em Defesa das Terceirizadas, parte do movimento estudantil que está representado na mesa de negociações e que historicamente pauta a terceirização, defende como parte de seu programa (junto ao Sintusp) o fim da terceirização e a efetivação dos trabalhadores terceirizados sem a necessidade do concurso público, pois já comprovaram no dia a dia que são capazes de realizar seu trabalho.

Para que triunfe, a greve terá de lidar com as manobras da reitoria Brás Cubas, pois, apesar de liberar o calendário da PRG para que não ocorram aulas e avaliações nos institutos que aderiram a greve, em uma postura aparentemente dialogada e menos truculenta do que a reitoria da USP, colocam prazo como forma de chantagem e de controlar os tempos da greve. Assim como faz o narrador do romance machadiano, a forma está em função da subjugação. O episódio do documento feito por IA, exposto pela reitoria na mesa de negociação, em que não apresentava nenhuma contraproposta e que ainda por cima continha partes esdrúxulas como a “semana branca” evidencia que nem sequer leram as demandas dos estudantes. Fica claro sua estratégia: dialogar para não mudar nada. Portanto, é preciso romper qualquer ilusão à reitoria. A unidade e massificação da luta é o único argumento que a reitoria Brás Cubas leva a sério.

Notas

[1] SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000 

[2] SCHWARZ, Roberto. Uma prosa e suas implicações. Língua e Literatura, São Paulo, n. 14, p. 115–129, 1985. Disponível em: Revista USP – PDF do artigo. Acesso em: 31 maio 2026. 

[3] TOLEDO, Caio . Zeferino Vaz. A Terra é Redonda, 16 jun. 2021. A Terra é Redonda.

[4] SECCO, Lincoln; DAVID, Antônio. Os impasses da greve na USP A Terra é Redonda, 27 maio 2026. Disponível em: A Terra é Redonda. Acesso em: 31 maio 2026 

[5] SECCO, Lincoln; DAVID, Antônio. A greve dos estudantes da USP. A Terra é Redonda, 12 maio 2026. Disponível em: A Terra é Redonda. Acesso em: 31 maio 2026.

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