“A Solução Continua Sendo o Socialismo”: um mergulho na confrontação de Cuba com o imperialismo dos EUA
Artigo publicado originalmente em inglês no dia 21/04/2026 na página Left Voice.
Entrevistamos o editor do La Izquierda Diario e especialista em Cuba, Diego Dalai, sobre o estado da agressão imperialista dos EUA contra Cuba, a restauração capitalista no país e a centralidade da liderança da classe trabalhadora e da solidariedade regional como caminho para resistir ao imperialismo. Com toda a atenção voltada para a guerra contra o Irã, o governo Trump também continua outra frente da agressão imperialista dos EUA: o estrangulamento econômico de Cuba. A escalada de Trump no bloqueio de décadas, por meio de um embargo ao petróleo, aprofundou a miséria do povo cubano.
O Left Voice entrevistou Diego Dalai, editor de nosso site irmão, La Izquierda Diario, que estudou a história da Revolução Cubana e acompanha de perto os acontecimentos no país. Ele explicou como o bloqueio está impactando os trabalhadores cubanos e setores mais amplos, e como isso se relaciona com o esforço bipartidário de restaurar o controle imperialista sobre Cuba. Dalai também explica os riscos de uma restauração capitalista em Cuba caso os socialistas revolucionários apoiarem a “diplomacia” ou a liderança da burocracia governante cubana em vez da liderança da classe trabalhadora cubana e dos trabalhadores de toda a América.
Como o embargo ao petróleo de Trump está afetando Cuba?
O impacto social é enorme. Como em qualquer país, a economia e a vida cotidiana em Cuba dependem de energia proveniente de combustíveis fósseis. Todo o transporte, tanto de pessoas quanto de mercadorias, depende de combustíveis como diesel ou gasolina; a maior parte da eletricidade (cerca de 90%) é gerada a partir de diesel; a produção agrícola requer combustível para tratores; e a produção industrial requer combustível ou eletricidade. Cuba possui petróleo e refinarias, mas trata-se de um petróleo muito pesado, mais difícil de refinar, que só consegue cobrir 40% das necessidades de geração elétrica.
É por isso que têm ocorrido grandes apagões em todo o país — alguns inclusive simultâneos em todo o território — durando muitas horas, dia após dia, o que provoca dificuldades muito sérias para a população. Não se trata apenas de ficar sem luz à noite. Ficar sem energia por 20 horas significa que alimentos perecíveis estragam; significa que reservatórios de água deixam de funcionar, prejudicando bairros onde a água não chega por gravidade. Hospitais, por exemplo, permanecem apenas parcialmente operacionais, utilizando geradores elétricos muito menos eficientes do que a rede geral. De fato, milhares de cirurgias programadas tiveram de ser canceladas, inclusive de crianças.
Pacientes que dependem de dispositivos médicos tiveram que receber geradores elétricos ou painéis solares em suas casas. As universidades passaram a adotar aulas online, afetando todo o ano letivo; de fato, houve protestos de estudantes que percebem que vão reprovar. Todos os aspectos da vida cotidiana são afetados.
A paralisação econômica, causada pela falta de combustível, também significa que muitas pessoas que tiveram de buscar trabalho no setor privado agora estão desempregadas, já que empresas estão fechando. É por isso que temos denunciado que esse bloqueio imposto por Donald Trump é criminoso e viola o próprio direito internacional.
Como isso se compara ao bloqueio mais amplo que os Estados Unidos mantêm há décadas?
Faz parte da mesma estratégia. Desde a revolução, o regime político dos EUA tem seguido uma linha muito clara, à qual, com poucas exceções, todos os governos aderiram. A estratégia sempre foi influenciar ao máximo a economia cubana e a vida do povo cubano, com o objetivo de impor a vontade da Casa Branca ao país.
E qual é a vontade de todos os governos — republicanos e democratas — que passaram pela Casa Branca? Que o povo cubano renuncie às conquistas sociais alcançadas a partir de 1959 e retorne à subordinação ao imperialismo dos EUA.
O bloqueio foi imposto pelo presidente democrata Kennedy em 1962, mas as sanções já haviam começado durante o governo Eisenhower (também responsável pela invasão da Baía dos Porcos) — por exemplo, com a redução das compras de açúcar em julho de 1960. Esse setor representava 80% das divisas da ilha. O bloqueio dos EUA contra Cuba é o mais longo da história e já causou perdas econômicas equivalentes a cerca de 170 bilhões de dólares desde 1962. Desde então, afetou todo o comércio com os EUA e com outros países aliados ou subordinados aos Estados Unidos.
Cuba teve que depender do comércio e da ajuda da União Soviética e, posteriormente, da Venezuela, entre outros países, para se sustentar. E quando esses países reduziram ou cortaram completamente essa ajuda, a ilha entrou em crises severas, como na primeira metade da década de 1990, quando, após o colapso da União Soviética, o PIB cubano caiu a uma taxa de 10% ao ano.
Observe o quão criminosa é a política imperialista: aproveitando-se dessa situação, em 1992 os EUA aprovaram a Lei Torricelli e, em 1996, a Lei Helms-Burton. A primeira basicamente estendeu a proibição de comércio com Cuba às subsidiárias em terceiros países e fechou os portos dos EUA para navios que tivessem passado por portos cubanos. Entre os produtos proibidos estavam alimentos e medicamentos.
A segunda lei foi ainda pior, pois consolidou todas as sanções anteriores e as transformou em lei federal, que não pode ser revogada por decretos presidenciais, além de estabelecer um roteiro político completo — essencialmente mudança de regime em Cuba — para que o bloqueio seja suspenso. Além disso, no Título III da lei, internacionalizou as sanções ao permitir processos contra empresas de terceiros países que negociem com Cuba. Vale lembrar que o democrata Bill Clinton era o presidente na época.
Ao longo de todas essas décadas, houve apenas períodos muito breves de certo afrouxamento do bloqueio sob alguns governos democratas. Um deles foi entre 1977 e 1980, durante o governo Carter, quando, basicamente, foram suspensas restrições de viagem à ilha, permitidas remessas de dinheiro e facilitada a atividade pesqueira cubana em águas compartilhadas. Outro ocorreu sob o próprio Clinton, que suspendeu em várias ocasiões o prejudicial e ilegal Título III da Lei Helms-Burton e, no final de seu segundo mandato, após a visita do Papa João Paulo II a Cuba, autorizou a venda de alimentos a entidades privadas cubanas (ONGs, igrejas), além de viagens e remessas. O último desses momentos ocorreu na parte final do segundo mandato de Obama. Entre 2015 e 2017, viagens e remessas foram permitidas sem limites, e certas atividades comerciais foram autorizadas, como a venda de alimentos, telecomunicações, materiais de construção, ferramentas e insumos agrícolas. Também foi permitida a abertura de contas bancárias e o uso de cartões de crédito.
No entanto, as sanções — e o próprio bloqueio — nunca foram suspensos. Cuba sempre foi impedida de comerciar livremente com outros países e teve que constantemente manobrar e pagar antecipadamente para obter os bens que precisava importar. O Partido Democrata pode argumentar que, por se tratar de uma lei federal, o presidente não pode suspender o bloqueio, mas a verdade é que existem muitos instrumentos legais para aliviá-lo, e apenas esses três presidentes (de seis desde os anos 1960) o fizeram — de forma muito limitada — e, com exceção de Carter, o fizeram no final de seus mandatos, para que seu sucessor pudesse rapidamente revogar as medidas. De fato, Trump reverteu tudo o que Obama havia feito assim que assumiu o cargo e, em 2019, reforçou o bloqueio com mais sanções, o que mostra que o bloqueio está sempre presente. Trata-se de uma política de Estado que os democratas não estão dispostos a confrontar.
O governo cubano confirmou que está negociando com os Estados Unidos. Como devemos interpretar essas negociações de uma perspectiva socialista? O que elas significam para a possibilidade de uma restauração capitalista em Cuba?
O governo de Donald Trump entra nessas negociações com o objetivo que mencionamos anteriormente: que Cuba retorne ao capitalismo e se torne economicamente e politicamente subordinada aos Estados Unidos. E não vai negociar em termos de igualdade. Antes mesmo de sentar à mesa, o governo Trump organizou o golpe na Venezuela e impôs o bloqueio de combustíveis, colocando Cuba contra a parede. As conversas com Marco Rubio, que sempre foi representante do setor mais reacionário da diáspora cubana em Miami, têm mais caráter de extorsão do que de negociação.
Do lado cubano, há uma burocracia que decidiu há muitos anos avançar em direção ao capitalismo e que impôs numerosas reformas de ajuste econômico pró-mercado e neoliberais à população — incluindo cortes e eliminação de subsídios, aumento de tarifas de serviços públicos, demissões e fechamento de empresas consideradas inviáveis, choques inflacionários, entre outros. De fato, as imagens da revolta social de 2021 viralizaram no mundo inteiro; ou seja, todos sabemos a que essas medidas levaram: mais dificuldades para as massas trabalhadoras. E, desde então, têm ocorrido protestos sociais constantes — em menor escala, mas que continuam até hoje.
A burocracia governante atribui todos os males ao bloqueio, o que, como discutimos anteriormente, é totalmente verdadeiro. Mas ela própria também é em grande medida responsável por a população passar fome e enfrentar dificuldades intermináveis. Sempre transferem o peso das crises para os trabalhadores, em vez de buscar soluções revolucionárias — como promover a organização e mobilização dentro e fora de Cuba para derrotar o imperialismo e seus aliados.
Em vez disso, proíbem que as pessoas se organizem de forma independente em Cuba e no exterior; pedem confiança em governos supostamente progressistas, como o de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil ou o de Claudia Sheinbaum no México, em vez de apostar na luta revolucionária desses povos. Permanecem em silêncio sobre as políticas internas desses governos que usam uma retórica progressista, mas que, na prática, garantem estabilidade, interesses empresariais capitalistas e subordinação ao imperialismo.
Em resumo, das negociações entre o governo Trump e a burocracia restauracionista, só podemos esperar maior erosão das conquistas da revolução e mais dificuldades para as massas. E digo isso mesmo reconhecendo que um acordo com os Estados Unidos poderia permitir que Cuba escapasse da situação crítica atual — já que, evidentemente, os próprios EUA são em grande parte responsáveis por ela, por meio do embargo de combustíveis.
Mas um retorno ao capitalismo e à subordinação aos Estados Unidos terá consequências desastrosas para o povo. Levará Cuba a se tornar um país como seus vizinhos do Caribe e da América Central, onde proliferam pobreza, fome, desemprego, exploração capitalista e saque imperialista. Cuba não é muito diferente de países como Jamaica ou Haiti; é uma ilha maior, nada mais. Não há grandes indústrias nem grandes reservas minerais, exceto níquel. Se Cuba conseguiu alcançar os mais altos níveis socioculturais da região, foi porque realmente conquistou independência dos Estados Unidos, expropriou os grandes proprietários de terra e reorganizou toda a economia com o objetivo de atender às necessidades sociais, e não ao lucro capitalista — ainda que de forma burocrática e com inúmeros problemas.
A solução continua sendo o socialismo, não o capitalismo. O problema sério que enfrentamos é que a burocracia está avançando rumo ao capitalismo em nome do socialismo e, além disso, impondo um regime altamente repressivo de partido único. Como consequência, as massas passam a ver o socialismo como o problema e até começam a duvidar de que o bloqueio seja a principal causa. De fato, o próprio Raúl Castro afirmou em vários discursos, enquanto estava no poder, que não se podia atribuir toda a culpa ao bloqueio. Assim, alguns setores, especialmente a juventude, acabam defendendo uma transição ao capitalismo.
Por isso, sempre dizemos que as massas precisam superar essa burocracia, derrubá-la, pôr fim ao regime de partido único e estabelecer um governo realmente dos trabalhadores e do povo. Porque essa é a única forma de avançar verdadeiramente rumo ao socialismo — e sempre, claro, com a perspectiva de expandir a revolução para o restante da América Latina e especialmente para os Estados Unidos. Seria utópico imaginar uma Cuba socialista se ela não fizer parte de uma Federação de Repúblicas Socialistas do continente.
O estrangulamento de Cuba se intensificou como resultado da “Doutrina Donroe” de Trump. Como o avanço do imperialismo dos EUA na Venezuela influencia isso? Por que os governos “progressistas” da Colômbia, do Brasil e do México não estão enviando petróleo, e qual o impacto dessa complacência?
Bem, o golpe militar de 3 de janeiro em Caracas, no qual, de forma totalmente ilegal e violando a soberania venezuelana, Nicolás Maduro e sua esposa foram sequestrados, foi o ponto de partida para a implementação de uma estratégia imperialista bastante antiga: usar o poder militar para compensar o declínio como potência hegemônica que os EUA vêm experimentando há décadas. O imperialismo norte-americano queria recuperar o controle sobre o petróleo venezuelano, que havia perdido desde que Hugo Chávez chegou ao Palácio de Miraflores. Mesmo com o regime de Maduro sendo completamente reacionário e em profundo declínio, o imperialismo ainda não controlava esse combustível estratégico.
Além disso, os EUA queriam acesso irrestrito às demais riquezas minerais da Venezuela. Tudo isso foi declarado abertamente por Trump diante da imprensa. E, na Venezuela, deu muito certo para ele. Conseguiram o que queriam e, no processo, cortaram o fornecimento de petróleo a Cuba. Mas por que deu tão certo? Porque a liderança do regime negociou com o imperialismo, traiu e entregou Maduro, em troca de Trump e Rubio permitirem que continuassem governando.
De forma mais geral, toda a ofensiva que a Casa Branca está conduzindo contra a América Latina é possível porque há uma dezena de países na região governados por líderes de direita e extrema-direita que adoram se subordinar aos Estados Unidos. E também é possível porque os governos que se dizem progressistas — como o de Lula no Brasil, o de Sheinbaum no México e o de Gustavo Petro na Colômbia — não fazem nada de concreto para resistir. Fazem discursos “soberanistas”, mas também se subordinam ao governo Trump.
Vou dar um exemplo muito concreto. Quando o bloqueio total de combustíveis contra Cuba foi anunciado no fim de janeiro, esses países poderiam tê-lo rompido rapidamente. De fato, o México era o segundo maior fornecedor de Cuba e, no início de janeiro, havia enviado um navio que foi o último a chegar. Sheinbaum fez exatamente o que Trump exigiu.
Esses países são grandes produtores e exportadores de petróleo; com apenas uma fração de sua produção, poderiam cobrir todas as necessidades de Cuba. O que Trump faria? Teria coragem de apreender um petroleiro da Pemex ou da Petrobras? No mínimo, isso teria dificultado muito a situação para ele. Mas se ele te ameaça e você faz o que ele exige, então você já perdeu a disputa desde o início.
E o fato é que, no caso do México, em breve terá que renegociar acordos econômicos com os Estados Unidos e o Canadá, então os “progressistas” apostam em “boas relações” em vez de confronto. Mas isso só beneficia Trump e enfraquece ainda mais a posição de México, Brasil e Colômbia. O “progressismo” acaba servindo à arrogância e à expansão imperialista. Foi essa política desastrosa de governos “amigáveis” que permitiu que o bloqueio de combustíveis se efetivasse, e não o poder militar dos EUA. E, claro, isso colocou Cuba contra a parede.
Dois importantes acontecimentos internacionais ocorreram recentemente. Um deles é que Donald Trump, embora insista em manter o bloqueio, permitiu que um petroleiro russo chegasse a Cuba. O segundo é que, independentemente de como se desenrole a guerra contra o Irã, ela expôs as fraquezas do imperialismo dos EUA. Como dinâmicas como a relação do imperialismo norte-americano com a Rússia e a crise no Oriente Médio influenciam a posição do imperialismo dos EUA no Caribe e na América Latina?
De fato, o que acontece no Oriente Médio, a relação com a Rússia e outros fatores geopolíticos — como a relação com a China, por exemplo — são fundamentais para o que ocorre nas Américas. Ou melhor, são decisivos para determinar com que força o imperialismo dos EUA pode impor sua vontade à América Latina e ao próprio povo dentro dos Estados Unidos.
Quanto ao petroleiro russo que foi autorizado a passar, entraram em jogo tanto fatores locais quanto geopolíticos. Primeiro, Trump se meteu em uma situação complicada ao declarar guerra ao Irã, o que levou o país a fechar o estratégico Estreito de Ormuz, fazendo os preços do petróleo dispararem para cerca de 120 dólares por barril. Ele precisava aumentar a oferta para conter essa alta e, por isso, suspendeu sanções à Rússia para que pudesse vender petróleo a diversos países.
Ao mesmo tempo, em Cuba a situação estava chegando a um ponto crítico e, paradoxalmente, Trump corria o risco de provocar um colapso descontrolado do regime. Digo “paradoxalmente” porque Washington sempre buscou a implosão do regime cubano, daí o bloqueio. Mas precisa de algo que substitua a burocracia governante, e não possui isso. Não quer arriscar um caos social e político, especialmente em um país tão simbólico politicamente como Cuba, com uma tradição revolucionária muito forte e décadas de resistência à agressão imperialista. É um cenário cujo desfecho é imprevisível.
Por isso, gostariam de fazer o mesmo que fizeram na Venezuela: derrubar Miguel Díaz-Canel — tão desacreditado quanto Nicolás Maduro estava — e fazer com que o restante da burocracia se submetesse, como fizeram Delcy Rodríguez, Vladimir Padrino López e Diosdado Cabello. Mas Cuba é muito mais complexa nesse sentido. Primeiro, por sua história. Segundo, porque o regime, embora profundamente desacreditado e também dividido internamente, é muito diferente do venezuelano; suas origens estão em uma revolução socialista, ao contrário de um projeto nacionalista burguês como o chavismo.
Terceiro, porque há setores imperialistas — sobretudo a diáspora de Miami — que não aceitam que a família Castro permaneça à frente do regime nem que o Partido Comunista continue governando, mas, ao mesmo tempo, não possuem nenhum político ou organização capazes de substituir a burocracia. Em Cuba, não existe uma corrente de direita com apoio popular relevante, além do fato de que os partidos políticos são proibidos.
Assim, para evitar um possível colapso descontrolado com consequências imprevisíveis, permitiram a passagem desse navio — que, é importante deixar claro, cobre apenas 10 ou 12 dias de necessidades e ainda precisa ser transportado, refinado e novamente distribuído até as usinas termelétricas. Ou seja, foi uma gota no oceano; não resolveu nada.
Por outro lado, desde o fim de fevereiro, como parte das negociações de Marco Rubio com o neto de Castro — chamado por alguns de “Raulito” — os Estados Unidos começaram a permitir que suas empresas vendessem combustível ao setor privado cubano. Há informações de que ocorreram vários envios, embora todos em quantidades moderadas — tanques de 20 mil ou 25 mil litros, suficientes, por exemplo, para abastecer uma frota de táxis turísticos por alguns dias.
O fato é que havia uma grande contradição: o bloqueio prejudicava justamente o setor que eles querem promover — as empresas médias que pressionam por medidas cada vez mais capitalistas e pela liberalização econômica. Ou seja, são a base social por excelência da restauração capitalista. E muitas dessas empresas estavam fechando ou reduzindo drasticamente suas operações por falta de combustível e/ou eletricidade. Por isso, é importante destacar: Trump e Rubio parecem agir com força no cenário mundial, mas estão cheios de contradições e fragilidades. É por isso que a política condescendente do progressismo que discutimos anteriormente é tão trágica.
Muitos setores da esquerda pacifista nos Estados Unidos sugerem que o país deveria retomar a abordagem de Barack Obama e, em geral, veem a diplomacia como uma alternativa positiva à guerra. Por que é equivocado que socialistas revolucionários defendam essa diplomacia como forma de aliviar a situação da classe trabalhadora cubana?
A política de Obama em relação a Cuba rompeu com um paradigma de décadas (com exceção de Carter, como já mencionamos) de tentar impor uma mudança de regime por meio de agressão econômica e diplomática. E isso coincidiu com o fato de que Raúl Castro havia tomado o caminho de reformas pró-capitalistas e reiterava sua disposição de negociar, desde que em “condições de igualdade” e com “respeito à soberania” — uma forma de dizer que o regime político não deveria ser questionado, já que ele buscava o “modelo chinês” de restauração capitalista. Aliás, isso é bastante semelhante ao que o governo de Díaz-Canel afirma atualmente.
A questão é que Obama rompeu com um paradigma que havia fracassado, mas manteve a mesma estratégia de fundo: restaurar o capitalismo em Cuba e subordiná-la novamente aos Estados Unidos, como antes da revolução. Como já dissemos, isso é uma política de Estado do regime bipartidário norte-americano: derrotar a revolução cubana. Trump com o “porrete”, Obama com diálogo, dólares e mercadorias baratas.
Mas são duas faces da mesma moeda. Com Obama e Raúl, as condições de vida das massas cubanas melhoraram? Não se pode responder simplesmente “sim” ou “não”, porque, sem dúvida, a economia foi reativada, mas criou-se uma crescente desigualdade entre aqueles com acesso à moeda estrangeira e aqueles sem esse acesso.
Foi um período de auge para os trabalhadores autônomos, e acelerou as diferenças entre aqueles que sobrevivem vendendo algo aos turistas nas ruas e aqueles que conseguem manter negócios lucrativos e até empregar outras pessoas.
Portanto, não devemos nos deixar enganar por boas maneiras, sorrisos amigáveis ou discursos sobre cooperação e desenvolvimento. A chamada “abordagem Obama” não resolve os problemas do povo cubano, mas leva à restauração capitalista e à subordinação aos Estados Unidos.
Para os socialistas revolucionários, a única forma de o povo cubano sair da crise atual é por meio de sua própria mobilização e organização, derrotando o bloqueio imperialista junto com os povos de todo o continente, derrubando a burocracia restauracionista, pondo fim ao regime de partido único e estabelecendo um governo que pertença de fato aos trabalhadores e ao povo urbano e rural. Dessa forma, por meio de suas organizações verdadeiramente democráticas — operárias, populares e camponesas —, devem assumir o controle da economia, revisar todas as reformas de mercado realizadas desde os anos 1990 e sob as diretrizes econômicas posteriores, e reorientar o país para uma economia em transição ao socialismo.
Por que a liderança da classe trabalhadora cubana é necessária para resistir ao imperialismo? Qual é o papel da burocracia cubana em bloquear essa resistência anti-imperialista?
Porque é a única força capaz de travar uma luta dessa magnitude contra a maior potência imperialista do mundo, situada a apenas 180 km de distância. Junto com os camponeses pobres e o movimento estudantil combativo, é a única capaz de reverter o atual processo de deterioração provocado pelo bloqueio e pelas políticas de austeridade e de promoção do capitalismo.
E aqui, ao falar de “classe trabalhadora”, não nos referimos apenas aos empregados estatais, que ainda são maioria (cerca de 70%) e garantem o funcionamento dos principais setores da economia que permanecem sob controle estatal. Há muitos anos — desde 2011, talvez antes — existe também um setor muito significativo no setor privado.
Hoje, cerca de 1,3 milhão de pessoas trabalham no setor privado, como autônomos ou empregados nas quase 10 mil MPMEs (micro, pequenas e médias empresas). Esse setor é fundamental para a luta que precisa ser travada. É também o mais explorado. Embora em geral ganhe mais que os trabalhadores estatais, 60% trabalham na informalidade, o que significa salários instáveis — não se sabe se haverá pagamento no dia seguinte ou se ele será atrasado.
Além disso, Cuba possui uma grande população rural, cerca de 25% do total. Portanto, incorporar camponeses pobres e pequenos produtores à luta é essencial para derrotar o bloqueio e reverter o atual processo de declínio.
Quanto ao papel da burocracia do Partido Comunista, eles próprios dizem em seus discursos: querem negociar com o imperialismo — como também dizia Raúl — e pedem fazê-lo a partir de uma posição de soberania. Não convocam o enfrentamento; no máximo, falam em resistir caso sejam atacados. Não sabemos os detalhes nem o ritmo desse processo, que também depende do contexto geopolítico mais amplo, mas o objetivo da burocracia é negociar.
Assim, a burocracia funciona como um freio à luta anti-imperialista. Nesse sentido, a luta contra a agressão imperialista está necessariamente ligada à luta contra o regime de partido único. Se quisermos usar uma analogia, é como enfrentar a direção de uma empresa e, ao mesmo tempo, ter que enfrentar a direção sindical que constantemente cria obstáculos, desmoraliza os trabalhadores e, por vezes, atua diretamente contra a mobilização. Não é idêntico, mas é bastante semelhante.
O que pode ser feito para construir solidariedade com Cuba em todo o continente, especialmente a partir dos Estados Unidos?
Isso é fundamental, especialmente dentro dos Estados Unidos. Diante da agressão de uma potência imperialista contra um país subdesenvolvido — mais fraco em todos os sentidos —, a solidariedade internacional é decisiva. E a luta dentro do próprio país agressor é ainda mais importante.
Embora não seja exatamente a mesma situação, podemos lembrar o caso do Vietnã: não foi apenas a resistência heroica do povo vietnamita, mas também o movimento antiguerra dentro dos Estados Unidos que teve enorme impacto, enfraquecendo o agressor e abrindo uma frente interna.
E isso é possível. Por meio da mobilização, foi possível expulsar o ICE de Minneapolis; milhões participaram das marchas “No King”; diante do genocídio na Palestina, construiu-se um movimento significativo de repúdio ativo e militante entre estudantes e outros setores. A solidariedade com Cuba também pode organizar centenas e mobilizar milhares: lançar uma grande campanha, incluindo arrecadação de ajuda humanitária, mobilizações pela imediata entrega de combustível, pressionar sindicatos combativos a liderar esse processo e exigir que políticos e organizações progressistas tomem medidas concretas para pôr fim a essa agressão do bloqueio.
Uma campanha desse tipo, dentro dos Estados Unidos, também pode fortalecer iniciativas no México — exigindo que o governo de Sheinbaum — ou no Brasil — exigindo que o governo de Lula — deixem a retórica de lado e enviem combustível.