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Contra o Ultraimperialismo de Kautsky: Que Tipo de Movimento Anti-Imperialista Precisamos?

01.10.2026

Artigo originalmente publicado em inglês no dia 29/09/2026Left Voice

O retorno de Kautsky reflete uma esquerda que espera domesticar o imperialismo sem confrontar o capitalismo. A guerra contra o Irã coloca uma escolha mais contundente: acomodar-se às instituições da guerra ou construir um movimento independente em solidariedade aos trabalhadores e aos oprimidos de todo o mundo.

Quase sete meses após o início da guerra imperialista contra o Irã, uma contradição marcante veio à tona. Embora o apoio público à guerra tenha caído drasticamente — e uma análise comparativa a descreva como a guerra importante mais impopular da história dos Estados Unidos —, os milhões de pessoas politizadas pelo genocídio em Gaza e pelas ofensivas de Trump contra a Venezuela, Cuba e o Irã continuam sem um movimento antiguerra e anti-imperialista sustentado.

Desde os primeiros dias da guerra, essa contradição produziu um importante debate na esquerda estadunidense. Em Why Is There No Antiwar Movement in the US?, Eric Blanc, um dos principais autores da Jacobin e um influente dirigente da DSA, oferece uma série de explicações: um sentimento generalizado de impotência; a esperança de que a guerra terminaria rapidamente; a dispersão dos ativistas entre as muitas ofensivas de Trump; a substituição da organização sustentada por mobilizações de um dia; e o isolamento produzido por aquilo que considera uma política excessivamente radical ou sectária, ecoando suas declarações recentes sobre o movimento pela Palestina e o movimento BLM.

Esses são problemas organizativos reais e, diante deles, Blanc propõe que a esquerda participe dos protestos organizados pelos democratas, construa uma infraestrutura organizativa entre os dias de mobilização e utilize as eleições presidenciais de 2028 (daqui a dois anos) como um referendo sobre os gastos militares desenfreados, as guerras imperialistas dos Estados Unidos e o apoio estadunidense ao Estado israelense genocida.

O argumento de Blanc contém claramente uma tensão estratégica: ele identifica a sensação generalizada de impotência como uma das principais razões pelas quais um movimento antiguerra não surgiu, mas suas propostas correm o risco de aprofundar justamente essa mesma sensação de impotência. Isso porque suas propostas caminham no sentido de subordinar a necessidade do tipo de ação de massas que foi capaz de fazer Trump e seus interesses imperialistas recuarem parcialmente — como na revolta de Minneapolis e no “Blocchiamo Tutto”, as greves e bloqueios organizados em toda a Itália em solidariedade à Palestina — à dependência dos calendários eleitorais e dos cálculos políticos de uma ala do Partido Democrata.

Embora figuras como Alexandria Ocasio-Cortez e Zohran Mamdani possam oferecer uma crítica mais contundente à política externa dos Estados Unidos, sua posição dentro do Partido Democrata os vincula a instituições construídas para reproduzir a legitimidade de um regime bipartidário. Assim, a concepção de Blanc transforma a política socialista em um esforço para melhorar a retórica e os quadros do imperialismo estadunidense, em vez de organizar a força independente necessária para desafiá-lo, da maneira que somente a classe trabalhadora auto-organizada pode fazer.

A Utopia do Ultraimperialismo

Karl Kautsky, dirigente do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), o maior partido da Segunda Internacional, e de sua ala “centrista”, escreveu “Ultra-Imperialism” em 1914, justamente quando a competição entre as grandes potências europeias explodia em uma guerra mundial. Ele via o imperialismo como uma política associada ao capital financeiro: os Estados industriais ricos exportavam capital, dominavam regiões agrárias mais pobres e lutavam entre si pela divisão do mundo.

Mas Kautsky não acreditava que essa rivalidade tivesse necessariamente de continuar. Ele acreditava essencialmente, como afirmou em seu texto, que os “capitalistas de todos os países” poderiam se “unir” (invertendo a famosa frase de Marx sobre o internacionalismo proletário), uma vez que a guerra impunha custos enormes tanto aos capitalistas quanto aos trabalhadores. Quando as classes dominantes compreendessem o perigo, poderiam considerar mais racional cooperar. Em vez de impérios concorrentes, a visão utópica de Kautsky imaginava um cartel de Estados poderosos que exploraria conjunta e mais pacificamente o restante do mundo. Mesmo com o capitalismo permanecendo desigual e predatório, Kautsky imaginava que as relações entre as grandes potências poderiam se tornar mais pacíficas.

Do ponto de vista de um artigo recente da Jacobin que retoma Kautsky, a ordem do pós-guerra parecia surpreendentemente próxima dessa previsão. O artigo menciona como os Estados Unidos organizaram as principais potências ocidentais por meio da OTAN, enquanto corporações multinacionais e instituições como o FMI e o Banco Mundial impuseram a dependência dos países mais pobres. O artigo não chega a validar completamente Kautsky porque a ascensão da China, as tensões dentro da aliança ocidental e a retomada das corridas armamentistas podem indicar que a cooperação foi apenas uma fase temporária, como observa o autor. Ainda assim, deixa o debate suspenso entre duas possibilidades empíricas: talvez os Estados capitalistas cooperem; talvez retornem à rivalidade aberta.

Essa formulação deixa de lado o núcleo político da divergência de Lenin com Kautsky. Como Lenin escreveu em Imperialism, The Highest Stage of Capitalism, acordos entre as potências capitalistas eram possíveis, mas só poderiam constituir tréguas temporárias. Como os Estados capitalistas e os monopólios se desenvolvem de maneira desigual, toda divisão dos mercados, dos recursos e das esferas de influência acaba entrando em conflito com uma correlação de forças em transformação. Cooperação e guerra, portanto, não eram caminhos históricos opostos, mas formas alternadas de um mesmo sistema imperialista. Lenin argumentava que Kautsky tratava a guerra e a anexação como políticas que poderiam ser substituídas por outras menos violentas, mantendo intacta a base econômica do imperialismo.

A história da hegemonia estadunidense não sustenta nem uma visão de unidade permanente nem uma de guerra ininterrupta entre as grandes potências. Washington construiu alianças, instituições e regras que coordenaram os Estados capitalistas sob sua liderança. Também travou guerras devastadoras na Coreia, no Vietnã, no Iraque, no Afeganistão e em todo o Oriente Médio. A relativa paz dentro do bloco ocidental baseava-se na violência exercida fora dele. A ordem “racional” continuava sendo uma ordem imperialista.

Kautsky percebeu que as potências capitalistas podiam cooperar. Seu erro foi tratar a cooperação como uma possível saída das contradições que impulsionam o imperialismo. A paz poderia então aparecer como o interesse racional do sistema como um todo, abrindo caminho para apelos a setores esclarecidos da classe dominante, capazes de reconhecer esse interesse.

Uma vez que o imperialismo é compreendido dessa maneira, a estratégia socialista começa a mudar. A tarefa passa a ser fortalecer a ala razoável do Estado contra a imprudente, a diplomacia contra o militarismo e uma liderança internacional responsável contra a agressão unilateral. O Estado responsável pela dominação permanece sendo o terreno no qual se busca a transformação política. Socialistas e trabalhadores tornam-se seus críticos, grupos de pressão ou potenciais administradores, em vez de uma força independente capaz de interromper as guerras travadas às suas custas e às custas dos trabalhadores e dos povos oprimidos de todo o mundo — e de desafiar os interesses de classe que as produzem.

A posição de Blanc não é idêntica à de Kautsky, mas a mesma questão estratégica não resolvida reaparece. O imperialismo pode ser contido por meio de políticas melhores, orçamentos militares marginalmente menores e representantes diferentes — ou enfrentar a guerra exige um movimento independente dirigido contra as bases sociais e econômicas do poder imperial?

Isso nos leva à seguinte questão: o imperialismo é simplesmente um conjunto de políticas que políticos “bons” ou “maus” podem administrar, ou é, de maneira mais fundamental, uma etapa histórica do capitalismo na qual bancos, corporações e Estados poderosos competem pelo controle dos mercados, dos recursos, da força de trabalho, dos territórios e do poder político em todo o mundo?

Como demonstram a crise financeira de 2008, a pandemia, a guerra na Ucrânia, o genocídio em Gaza, a ofensiva contra a Venezuela e Cuba e a guerra contra o Irã, essa já não é uma questão abstrata, à medida que as características mais clássicas dessa etapa histórica do capitalismo voltam a aparecer. O imperialismo é sustentado por políticos excepcionalmente “ruins”, de Obama — que prometeu pôr fim à guerra no Iraque, mas acabou convertido no “Rei dos Drones” — a “Genocida Joe” e agora Trump 2.0, ou trata-se de um sistema que obriga toda administração a defender os interesses capitalistas e o poder geopolítico dos Estados Unidos no exterior, cada uma à sua própria maneira?

As raízes dessa questão remontam a um dos debates mais importantes da história do movimento socialista: o debate sobre as características fundamentais do imperialismo e sobre o que essas conclusões implicam para a maneira como os socialistas, especialmente no coração do imperialismo, se organizam politicamente diante da guerra, da dominação imperialista e dos crimes de sua própria classe dominante.

O Perigo de uma “America First” de Esquerda

Em 1914, a política de Kautsky foi posta à prova. O governo alemão precisava da aprovação parlamentar para financiar a Primeira Guerra Mundial. O SPD, o maior partido socialista da Europa, poderia ter recusado os créditos de guerra e utilizado sua vasta imprensa, seus vínculos com os sindicatos, sua tribuna parlamentar e sua base operária para organizar a oposição à guerra.

Em vez disso, os deputados do SPD votaram a favor dos créditos, enquanto a corrente centrista de Kautsky se recusou a travar uma luta contra eles. Essa recusa deu cobertura política à capitulação do SPD diante do imperialismo alemão. Kautsky podia se opor à guerra em palavras, mas sua política de abstenção — e sua ilusão de que as potências imperialistas poderiam retornar a uma ordem mais racional e pacífica — não oferecia nenhum caminho para detê-la. Em uma guerra imperialista, uma posição “neutra” não é neutra: significa recusar-se a defender e organizar a derrota da própria classe dominante.

Isso não foi simplesmente paralisia. No caso de Kautsky, tratou-se de uma ala esquerda de uma política de “Alemanha Primeiro” e isso também levou a uma capitulação histórica do movimento socialista. A submissão do SPD proporcionou ao imperialismo alemão a unidade política de que precisava para travar uma guerra que já estava em curso, enquanto a Segunda Internacional se desintegrava entre os partidos que se alinhavam aos seus respectivos governos e os internacionalistas revolucionários que lutavam pela solidariedade dos trabalhadores através das fronteiras.

Entre os internacionalistas revolucionários estava Rosa Luxemburgo, que foi condenada a um ano de prisão após um discurso antiguerra proferido em 1913, no qual exortou os trabalhadores alemães uniformizados a se recusarem a obedecer a ordens para atirar contra trabalhadores franceses e de outros países. Enquanto cumpria essa pena, em 1915, escreveu o Junius Pamphlet.

Luxemburgo não descartava as eleições, as reformas ou a luta parlamentar; argumentava que os enormes avanços eleitorais e organizativos do SPD haviam se mostrado insuficientes quando sua direção subordinou a classe trabalhadora aos interesses do Estado imperialista. Sua exigência era que os trabalhadores interviessem contra a guerra enquanto ela estivesse em curso, e não depois que tivesse terminado. Como escreveu, faltava ao proletariado “a capacidade de resistência efetiva ao imperialismo no momento decisivo, de intervir contra ele durante [e não depois] da guerra”.

Enquanto Luxemburgo expunha a capitulação do SPD e insistia que os trabalhadores resistissem ao imperialismo durante a guerra, a questão posterior, levantada por Lenin, era como enfrentar a política oportunista que havia tornado essa capitulação possível. Estendendo esse argumento ao presente, a oposição a uma determinada guerra também deve se transformar em uma luta contra as correntes políticas e instituições que repetidamente subordinam os trabalhadores à sua própria classe dominante.

Levando essas lições a sério, como seria hoje uma política de “America First” de esquerda? Provavelmente ela não apoiaria abertamente a guerra de Trump e Netanyahu contra o Irã. Poderia se opor aos bombardeios, criticar os gastos militares e defender a diplomacia, ao mesmo tempo em que trataria o imperialismo como um conjunto de políticas equivocadas que representantes melhores poderiam corrigir. A lógica neokautskista aparece quando a oposição à guerra deixa de enfrentar as instituições e alianças políticas por meio das quais o poder imperialista é exercido.

Como Josefina L. Martínez escreveu em seu artigo, “New and Old Debates on Anti-imperialism and Socialism”, uma lógica semelhante aparece em uma posição defendida por Vivek Chibber, colaborador da Jacobin, que, durante o movimento pela Palestina, defendeu a ideia de combater o imperialismo no exterior reconstruindo a luta de classes no interior dos Estados Unidos. Chibber parte de um ponto necessário: trabalhadores organizados possuem um poder coletivo que ativistas isolados não possuem, e nenhum desafio sério ao militarismo estadunidense pode ser construído sem um movimento sindical mais forte.

Mas “construir primeiro o movimento sindical nos EUA” não determina a direção política desse poder. Se o anti-imperialismo for adiado até que os sindicatos tenham sido reconstruídos, as lutas por salários, serviços públicos e investimentos industriais podem ser absorvidas por um programa do Partido Democrata: empregos melhores no país, uma política externa menos desperdiçadora, menos bombas no exterior — e o mesmo poder imperial. Sem uma luta consciente contra o Estado estadunidense, seu aparato militar e os interesses capitalistas que ele defende internacionalmente, não há razão para que um ressurgimento da militância operária se torne anti-imperialista, em vez de se tornar um apêndice da política do Partido Democrata.

A guerra contra o Irã torna impossível ignorar os limites dessa estratégia. Os gastos militares, a inflação e a instabilidade podem intensificar o descontentamento entre os trabalhadores nos Estados Unidos, enquanto os bombardeios e o bloqueio estadunidenses devastam as massas iranianas e ameaçam toda a região. Mas, para aqueles que fazem o anti-imperialismo depender primeiro da reconstrução do movimento sindical e da espera por um terreno eleitoral mais favorável, a oposição à guerra é sempre adiada. Eles podem condenar a agressão imperialista em palavras, sem oferecer nenhuma estratégia para organizar agora os trabalhadores contra a guerra e as sanções de seu próprio Estado, ou para unir sua luta àqueles que sofrem sua traição no exterior.

Na estratégia marxista revolucionária, “derrotismo” significa recusar-se a subordinar a luta de classes ao sucesso militar do próprio Estado durante uma guerra imperialista. Para o movimento sindical, os movimentos sociais e organizações como a DSA, a questão, portanto, não é simplesmente saber se eles se opõem à guerra de Trump. É saber se subordinam essa oposição aos horizontes eleitorais do Partido Democrata e à busca por administradores mais “humanos” em 2028, ou se constroem, com todos os recursos à sua disposição, uma força independente capaz de organizar trabalhadores e estudantes contra a guerra agora — confrontando a maquinaria econômica, militar e política que a sustenta.

Palestina e o Retorno da Política Internacionalista de Massas

A Palestina já nos deu um vislumbre de como pode ser uma política internacionalista de massas do século XXI. Uma geração entrou na luta contra a violência infligida a um povo situado a milhares de quilômetros de distância e, ao fazê-lo, começou a confrontar a cumplicidade de seu próprio governo e de suas próprias instituições. Estudantes do coração do imperialismo exigiram que as universidades divulgassem e desinvestissem de seus vínculos financeiros com Israel e com a indústria armamentista, e enfrentaram a repressão; acampamentos se espalharam da Columbia por todos os Estados Unidos e, depois, pelos campi universitários internacionalmente. Na Universidade da Califórnia, trabalhadores acadêmicos entraram em greve contra a repressão aos manifestantes em defesa da Palestina, na maior greve pela Palestina da história dos Estados Unidos. Isso foi internacionalismo não como simpatia abstrata, mas como solidariedade traduzida em conflito com as instituições em seu próprio país.

Com quase 70% dos eleitores se opondo à ação militar dos Estados Unidos contra o Irã, e com milhões de pessoas já se mobilizando nos protestos do No Kings, cabe aos socialistas reviver a combatividade do movimento pela Palestina e transformá-la em uma organização duradoura nos locais de trabalho, nos campi universitários e nas ruas. Se a preocupação de Blanc é que o sentimento anti-imperialista esteja fora dos horizontes das pessoas comuns, o genocídio e a enorme indignação que ele produziu em todo o mundo apontam na direção oposta. Claramente, existe uma consciência internacionalista que já está se desenvolvendo.

O que permanece sem solução é saber se essa consciência pode se transformar em uma força política independente. Sem instituições duradouras de auto-organização e uma concepção de poder baseada na classe trabalhadora, ela pode ser novamente atraída para a órbita de políticos que se opõem aos excessos de uma guerra enquanto deixam intacta a maquinaria da dominação estadunidense.

A tarefa não é simplesmente levar o sentimento antiguerra para a próxima eleição, mas organizá-lo contra as instituições que estão conduzindo a guerra agora. Isso significa construir assembleias, organizações nos locais de trabalho e campanhas nos campi capazes de atuar independentemente dos democratas; lutar para derrotar o ataque estadunidense-israelense sem oferecer apoio político ao regime governante iraniano; e forjar solidariedade com trabalhadores e povos oprimidos através das fronteiras, em vez de buscar uma resposta nos Estados rivais. Um movimento contra a guerra contra o Irã não pode se limitar a pedir aos arquitetos do imperialismo que a conduzam de maneira mais “pacífica”. Ele precisa confrontar o poder que torna possível esta guerra — e a próxima.