Imagem de capa do artigo

Apontamentos sobre a África e a atualidade da Teoria da Revolução Permanente

Parte da edição: 15.03.2026

Neste documento, previamente apresentado aos delegades para a XIV Conferência da Corrente Revolução Permanente - Quarta Internacional, buscamos aprofundar algumas reflexões sobre o continente africano e a atualidade da Teoria da Revolução Permanente, questões que se tornam ainda mais urgentes diante da brutal agressão imperialista de Trump à Venezuela, os bombardeios na Nigéria e a ameaça à Cuba, Colômbia, México e Groenlândia, que recolocam em primeiro plano a importância da luta anti-imperialista e internacionalista.

A XIV Conferência da então Fração Trotskista, agora Corrente Revolução Permanente - Quarta Internacional, que ocorreu entre os dias 15 a 20 de dezembro em São Paulo, foi aberta com um grande ato internacionalista e anti-imperialista e debateu os principais elementos da situação política internacional em base à disputa entre imperialismos e grandes potências, os principais fenômenos políticos e da luta de classes e a intervenção dos revolucionários socialistas a partir da atualidade do marxismo revolucionário, assim como a necessidade da construção de uma Internacional da Revolução Socialista. Como resultado destes debates foram aprovadas um conjunto de resoluções, dentre as quais a seguinte resolução:

“O continente africano é historicamente espoliado pelas potências imperialistas, com base no brutal racismo contra os povos negros e árabes; atualmente está no centro das rivalidades entre os Estados Unidos e a China e é atravessado por processos de luta de classes. A XIV Conferência da CRP assume com toda a força a luta internacional contra o imperialismo no continente africano e contra todos os governos que o sustentam, pela anulação das dívidas externas dos países africanos, ao mesmo tempo em que denunciamos também sua espoliação pela China e o papel da Rússia, e defendemos o direito à autodeterminação dos povos africanos. Lutamos pela única perspectiva realista para o triunfo das lutas anticoloniais, que é parte da luta anti-imperialista e com independência da classe trabalhadora, também frente às burguesias africanas cúmplices. Abaixo o massacre na República Democrática do Congo. Fora a MONUSCO da RDC. Abaixo o genocídio no Sudão. Abaixo a agressão do Marrocos ao povo do Saara Ocidental. Liberdade para todos os ativistas presos nas revoltas do Quênia, Angola e Guiné-Bissau. Solidariedade com a luta das comunidades migrantes em todo o mundo contra a xenofobia e por todos os direitos civis, políticos e trabalhistas para os imigrantes.”

Neste documento, previamente apresentado aos delegades e que fizemos algumas atualizações posteriores, buscamos aprofundar algumas reflexões sobre o continente africano e a atualidade da Teoria da Revolução Permanente, questões que se tornam ainda mais urgentes diante da brutal agressão imperialista de Trump à Venezuela, os bombardeios na Nigéria e a ameaça à Cuba, Colômbia, México e Groenlândia que recolocam em primeiro plano a importância da luta anti-imperialista e internacionalista.

A África na economia e na disputa global

Como sabemos, o continente africano foi alvo durante séculos da espoliação de suas riquezas, especialmente pelas potências capitalistas europeias e os debates sobre a autodeterminação das colônias e semi colônias foi parte integrante dos debates estratégicos do marxismo no século XX. Não é objetivo deste documento esgotar esse tema, mas tentar contribuir para enriquecer os debates da XIV Conferência da CRP-QI com apontamentos sobre o continente africano, à luz das análises internacionais e as orientações que estamos debatendo para nossa corrente.

Lenin definiu o imperialismo como uma época não mais de exportação de mercadorias, mas de capitais e de exploração dos recursos pelas potências para além de seus próprios territórios. Uma das características fundamentais da passagem à fase imperialista do capitalismo se expressou na exacerbação da luta pela partilha do mundo, da qual a Conferência de Berlim de 1884-1885 e a chamada “partilha da África” foi um dos episódios mais emblemáticos. A reatualização da época imperialista reafirma a definição sobre o papel da exportação de capitais e exploração de recursos. A disputa por recursos naturais estratégicos, força de trabalho, mercados e rotas estratégicas é aprofundada, no marco do esgotamento da hegemonia neoliberal, da decadência da hegemonia norte-americana e da disputa estratégica entre EUA e China (e a parceria desta com a Rússia).

Disputa por recursos naturais, especialmente ligado à disputa tecnológica na guerra comercial, como é o caso do cobalto e coltan para eletrônicos, especialmente na República Democrática do Congo (RDC), que por exemplo representa 70% do cobalto mundial.

Os EUA, após a restauração burguesa nos ex-Estados Operários, focou suas forças no avanço sobre a ex-URSS e o leste europeu, e na “guerra ao terror” especialmente no Oriente Médio. Mantinha governos títeres em diversos países africanos, abalados pela Primavera Árabe (primeira onda da luta de classes pós-2008). Hoje os EUA buscam retomar controle e interesses no continente africano, frente à seu declínio na hegemonia mundial e a competição com a China (que já em 2013 tornou-se o maior parceiro comercial com os países africanos): Biden foi a Angola no final de seu mandato tentar negociar a infraestrutura do Corredor de Lobito para escoar minérios da RDC. Trump tenta seu jogo de ameaças e punições, como o bombardeio à Nigéria, ao mesmo tempo que busca se colocar como “mediador de conflitos”, como na guerra RDC x Ruanda e na guerra civil no Sudão(cessar fogo de ambos diversas vezes fracassado pela própria natureza do conflito). Os EUA se reaproximam do governo do Sudão (al Burhan) após romper com al Bashir por “patrocinar o terrorismo” é parte de tentar retomar sua influência na África (no Sudão, grande produtor de petróleo e ouro, além de ser estratégico pela proximidade com o golfo pérsico e para conter a China na nova rota da seda). Os EUA se mantêm, entretanto, como maior (ou uma das maiores) força militar estrangeira no continente, com 29 bases militares em 15 países, e realizando exercícios como na Somália (estratégico pela localização geográfica).

A China, como viemos elaborando, avançou nas últimas décadas em diversos países no continente. Tem uma larga infraestrutura que combina construção com extração de recursos naturais e exploração da força de trabalho. A África tornou-se parte da nova rota da seda. A China consolidou sua presença econômica em países como Etiópia, Sudão, Angola, Zâmbia, Tanzânia, incluindo aliados dos EUA como o Egito. É a principal credora bilateral da dívida de diversos países africanos (como Angola), principal detentora das minas de cobalto da RDC. Apesar de não possuir a mesma influência política e militar que EUA e potências europeias construíram ao longo de séculos de dominação colonial, Pequim tem ampliado sua projeção geopolítica por meio de infraestrutura estratégica, créditos condicionados e intervenções de segurança para proteger seus investimentos. A presença militar chinesa em Djibouti, onde vários países mantêm bases devido à posição estratégica do estreito de Bab el-Mandeb, marca um ponto de inflexão na sua política externa. Em países como Zimbábue e, em menor grau, Nigéria, observa-se um aprofundamento das relações econômicas e políticas. Esses movimentos revelam os elementos mais claros de uma política chinesa que opera cada vez mais segundo lógicas de projeção externa, controle de recursos e construção de dependências estruturais, traços cada vez mais imperialistas da China.

Consideramos que a perda relativa de posições do imperialismo francês em África é um dado importante do declínio do imperialismo europeu marcado pelas divisões internas, estagnação e posição subordinada na rivalidade global EUA vs China, como apontou o documento internacional para a Conferência. A maioria dos territórios da África Ocidental e Central administrados pela França votou, no referendo constitucional de 1958, pela permanência na recém-criada Comunidade Francesa, inaugurando o sistema neocolonial conhecido como Françafrique. Apesar das independências formais no início dos anos 1960, Paris manteve amplo controle econômico por meio das zonas do franco CFA e da presença militar (hoje em retração), além de redes políticas e empresariais que moldavam a política doméstica de seus ex-territórios.

Nos últimos anos, essa arquitetura entrou em colapso. Entre 2020 e 2023, Mali, Burkina Faso e Níger romperam abertamente com a França após golpes militares que receberam apoio popular devido ao profundo sentimento popular anticolonial O Chade, por sua vez, atravessou uma transição militar, após a morte de Déby, que expôs a fragilidade da ordem regional. A República Centro-Africana questionava a tutela francesa desde meados da década de 2010, enquanto Senegal e Madagascar também vivenciam tensões populares e políticas que refletem o desgaste da influência francesa. Não suficiente, em julho de 2025 a França retirou suas últimas tropas do Senegal.

O resultado do colapso dessa arquitetura é uma retração acelerada da presença militar e política da França no Sahel, combinada a uma perda de acessos e privilégios a recursos econômicos, resultantes da revisão dos contratos de mineração, questionando o papel histórico da França no urânio do Níger, crucial para sua matriz energética nuclear, e no setor aurífero de Burkina Faso. Combinado os novos governos realizam uma recomposição das alianças regionais em direção a outros atores, sobretudo a Rússia e, em termos econômicos, a China. A crise política da V Republique, abalada pela luta de classes da última década, com certeza tem a ver também com a crise em suas (neo)colônias, afinal sempre foi algo central para o imperialismo francês, que após a Primeira Guerra estava em desvantagem industrial frente a Alemanha e buscava uma compensação através de suas vastas colônias.

Entretanto, cabe ressaltar que a França é um caso agudo da crise de domínio do imperialismo europeu em África, mas que essa crise é desigual e cabe estudos particulares. Também não está descartada a influência de quase (em alguns lugares mais de) um século de colonização, o que ainda faz da Europa um agente de influência central na política africana. Alguns exemplos são o patrocínio da França à invasão ruandesa na RDC; o papel da Total na Guerra em Cabo Delgado no norte de Moçambique, a participação de diversos outros países como Reino Unido na guerra civil do Sudão; o recente golpe de estado de Sissoco (aliado da extrema direita internacional) na Guiné Bissau (país que mantém o CFA); e até a participação da intervenção da OTAN na Líbia durante a primavera árabe, ainda que faz mais tempo. Outro aspecto são os acordos reacionários da Europa com os países do Norte da África, especialmente Marrocos, em relação ao fechamento das fronteiras e repressão aos imigrantes, e a cooperação Estado Espanhol e o regime da monarquia marroquina com a opressão ao povo saarauí, um país ainda não independente.

Outras potências regionais também tentam sua sorte na África, na luta por uma autonomia relativa frente à rivalidade global. A Rússia aumentou sua influência. Primeiramente, militar através da atuação do ex-grupo Wagner em zonas de conflitos de “combate ao terrorismo”. Nos países do Sahel, foi onde angariaram mais sucesso em alguns lugares praticamente se fundindo com as forças de segurança nacionais, e sendo parte da rota ilegal de ouro e colaborando com o genocídio das RSF no Sudão. No entanto, atualmente, a Rússia tem reconfigurado sua atuação no continente africano ao integrar à estrutura estatal o que restou do grupo Wagner, após a morte de Prigozhin. O Kremlin dissolveu oficialmente a antiga organização paramilitar e criou o African Corps consolidando uma presença que combina instrumentos militares, diplomáticos e econômicos: acordos oficiais de cooperação, venda de armas, concessões de mineração e campanhas de informação.

A Turquia e os Emirados Árabes Unidos (EAU) vem tentando ampliar sua influência também, especialmente através do conflito no Sudão, com os EAU enriquecendo seus bolsos de ouro e a Turquia buscando ter mais projeção geopolítica. Israel, frente à pressão e certo isolamento internacional por conta do genocídio em Gaza, vem buscando novas vias para a busca de recursos no “esquecido” continente africano, especialmente em aliados históricos como no Camarões, além de ter burguesias árabes do norte da África como colaboracionistas do genocídio, como no Egito e Marrocos.

A África se tornou um dos eixos da disputa entre Estados Unidos e China, ao mesmo tempo em que a hegemonia europeia se retrai e potências intermediárias tentam ampliar sua influência. Mas essa dinâmica não pode ser compreendida apenas no plano da relação entre estados. A concorrência geopolítica se imbrica com a luta de classes em cada país, obrigando que o imperialismo acione seus parceiros regionais, no entanto não sem dificuldades. Nesse sentido, os Estados Unidos não enfrentam apenas a concorrência chinesa, como sofrem reveses produzidos pelas mobilizações de juventude, onde em alguns países, foram diretamente contra as políticas neoliberais e a austeridade imposta pelo FMI, as mobilizações massivas no Quênia em 2024 foi nos últimos anos a expressão mais avançada disso. A disputa pela África, portanto, não ocorre apenas entre potências rivais, mas também entre elites locais alinhadas ao imperialismo e populações que se insurgem contra a precarização e a dependência, reconfigurando o terreno político sobre o qual essas potências atuam.

Consideramos que essa conjuntura expressa, antes de tudo, o aprofundamento do caos sistêmico da ordem global. Isso não significa, no entanto, ignorar que o imperialismo ainda preserva posições estratégicas no continente por meio de Estados que funcionam como pivôs de seus interesses. Entre esses aliados destacam-se Ruanda, intervindo militar e economicamente no leste da RDC cinicamente dizendo proteger comunidades tutsis, mas na prática seu apoio ao M23 e sua presença militar ampliam o conflito e garantem controle sobre rotas minerais e retroalimenta massacres em vários lados da guerra. Ruanda tem servido de vetor para a reorganização dos interesses norte-americanos na região. Uganda, segue como aliado militar de longa data. No Quênia de William Ruto, que apesar do discurso populista enfrentou mobilizações massivas e hoje se projeta como executor de agendas de segurança internacional, incluindo o comando da missão multinacional no Haiti. E Angola, cuja diplomacia sob João Lourenço, atual presidente da União Africana, busca equilibrar as pressões provenientes de uma dupla dependência com a China sem desagradar os Estados Unidos. Soma-se países do Norte da África, como Egito e Marrocos, além de regimes altamente dependentes, como Camarões, Guiné Equatorial e a Líbia que tem se tornado um estado títere. Em todos esses casos, observa-se a permanência de vínculos estruturais — econômicos, militares e políticos — sobretudo com os Estados Unidos. Da mesma forma, apesar da relativa perda de sua hegemonia especialmente no Sahel, o imperialismo europeu continua buscando, não sem dificuldades, tentativas de retomar parte de sua influência, frente à China/Rússia e aos próprios EUA, com tentativas de sabotagem e reabilitação de seus antigos aliados (como em Burkina Faso, servindo também como justificativa para uma maior repressão interna destes regimes), ou com o recente encontro de 18 governantes europeus com 20 chefes de Estado africanos, em Luanda, no final de novembro de 2025.

A Teoria da Revolução Permanente e luta de classes no continente africano

Queremos pensar aqui, a partir das formações sociais e econômicas e dos processos de luta de classes recentes, como podemos pensar a TRP e sua “ampliação” no continente africano, buscando algumas definições estratégicas e elementos de programa que nos parecem importantes.

Diversos países têm importantes polos econômicos urbanos com um nível de crescente urbanização, uma importante característica do desenvolvimento desigual e combinado no continente, e que tem muitas desigualdades regionalmente. Alguns países que são polos econômicos centrais e com uma urbanização acelerada/desenvolvida: África do Sul, Argélia, Nigéria, Marrocos, Angola, Egito, Etiópia, Quênia, RD Congo. Entre esses, estão 5 dos 30 maiores produtores de petróleo do mundo, destacando-se a Nigéria como principal produtor de petróleo de todo o continente.

As formações das fronteiras nacionais se deram em base especialmente à Conferência de Berlim. Apesar do panafricanismo levantar historicamente a união dos países africanos, após as independências, esse programa foi frustrado, ou abandonado, fazendo com que a maioria dos países mantivessem de maneira geral as antigas fronteiras coloniais.

Os processos de descolonização na África emergiram da combinação tensa entre revoltas sociais, negociações controladas pelo imperialismo e disputas geopolíticas da Guerra Fria. À medida que o domínio colonial europeu se enfraquecia, pressionado tanto por derrotas militares quanto pelo ascenso de lutas anticoloniais e de mobilizações no “Terceiro Mundo”, França, Inglaterra e EUA passaram a calibrar suas respostas. Em alguns territórios, como Gana e Sudão, aceitaram independências aceleradas para conter possíveis radicalizações; em outros, como Argélia, Quênia ou Angola, enfrentaram guerras prolongadas de libertação. A estratégia imperial consistiu em administrar a transição: abrir espaço para lideranças consideradas “moderadas”, cooptar elites locais e, quando necessário, recorrer a golpes militares patrocinados para bloquear projetos vistos como radicais, como no Congo de Patrice Lumumba.

Esse cenário produziu independências marcadas por forte ambiguidade. Embora expressassem aspirações populares profundas, muitas delas foram dirigidas por lideranças que apostaram em projetos nacionalistas-burgueses, frequentemente apoiados em ideologias como a Negritude ou o “socialismo africano”, que imaginavam a unidade nacional acima dos antagonismos de classe. Já as experiências que se reivindicaram como expoentes do “socialismo científico”, como Angola e Moçambique, foram moldadas por partidos-exércitos influenciados pelo stalinismo, que substituíam a auto-organização popular por um dirigismo estatal centralizado. Apesar de uma retórica e uma ideologia stalinista semelhante a de outros Estados Operários deformados, esses processos nacionalizaram setores abandonado pelos colonos, mas não foram capaz de nacionalizar bastiões do capital internacional, como a hidroelétrica de Cahora Basa (Moçambique) ou a produção de Petróleo (Angola). No contexto da restauração burguesa as direções nacionalistas, tanto do “socialismo africano” como as auto proclamadas socialismo científico, usaram seu capital político produto das libertações para dirigirem a adesão ao neoliberalismo e se transformarem em parte das novas burguesias ascendentes no país. Parte importante desses países também vivenciaram décadas de guerras civis no contexto da guerra fria e mesmo a transição democrática pluripartidária burguesa demorou para pacificar os países.

A partir desse processo contraditório, as formações estatais africanas pós-independência se consolidaram em arranjos distintos, mas marcados pela combinação entre dependência externa, centralização política e limites estruturais ao desenvolvimento autônomo. Em alguns casos, como a África do Sul do apartheid (principal agente das guerras civis na África Austral), a Rodésia e o Egito, consolidaram-se regimes diretamente funcionalizados aos interesses imperialistas, operando como pivôs regionais de contenção e repressão. Em outros, predominou o chamado “socialismo africano”, que preservou elementos centrais da dependência econômica, como Senegal, Guiné-Conacri ou Tanzânia. Já os processos oriundos de guerras prolongadas deram origem a modelos como o da Argélia que estruturou um Estado autoritário como uma elite civil-militar, baseado na legitimidade do FLN e na renda petroleira, enquanto Angola e Moçambique converteram as elites guerrilheiras em Estados de partido único moldados pelo stalinismo, que rapidamente se integraram ao capitalismo global. Com o tempo, emergiram regimes de naturezas distintas: democracias liberais sob fortes contradições sociais, como a África do Sul; democracias frágeis e centralizadas, como Etiópia ou Senegal; e bonapartismos militares, como nos países do Sahel, no Egito e na Guiné Equatorial. Angola e Moçambique situam-se num ponto intermediário: não são ditaduras militares, mas sim regimes burocrático-partidários duradouros, sustentados por eleições controladas, redes paramilitares, repressão e uma burguesia estatal associada ao capital internacional.

Apesar da variedade de formações políticas, os Estados africanos pós-independência se desenvolveram dentro de condições estruturais extremamente adversas. A combinação entre endividamento crescente, que em muitos casos supera metade do PIB, dependência tecnológica e produtiva, economias especializadas em poucos produtos de exportação e sucessivos ciclos de guerra e fragmentação regional limita drasticamente a margem de ação dos países do continente. Episódios de violência extrema, como os registrados na RDC, Sudão, Nigéria, Somália, Etiópia ou Mali são produtos e produtores de sistemas políticos permanentemente tensionados, sujeitos a crises recorrentes e à intervenção direta do capital internacional e de forças militares de variados países.

Diante dessas formações estatais, marcadas por independências inconclusas, blocos de poder burocrático-partidários, autoritarismos rentistas e democracias tuteladas pelo FMI e pela comunidade internacional, a teoria da revolução permanente fornece um critério estratégico fundamental: as tarefas democráticas e nacionais só podem ser resolvidas pela ação independente da classe trabalhadora, que ao avançar suas próprias demandas é forçada a ultrapassar os limites dos nacionalismos burgueses e dos projetos etapistas. A ideia de pensar lógicas de políticas permanentistas e o estudo sobre como construir consignas de transição no continente se combinam com um balanço das experiências nacionalistas e do stalinismo. A experiência que as massas fazem com os partidos que se transformaram em agentes diretos do neoliberalismo pode ser um auditório promissor para conclusões à esquerda que passe pela política permanentista da revolução.

A autodeterminação dos povos e o que a tradição marxista nomeou como “questão nacional” é uma demanda estrutural ainda central relacionada às fronteiras impostas, e as próprias línguas e culturas arbitrárias, o que nos impõem evidentemente a autodeterminação frente ao imperialismo. Do ponto de vista interno as burocracias estatais e militares e a própria burguesia são etnicizadas priorizando a sua própria etnia e oprimindo as demais. Assim, refletir a importância da combinação de demandas internacionalistas como lutas por autodeterminação de povos e etnias também do ponto de vista interno. A etnicidade historicamente tem adquirido tanto dimensões reacionárias quanto potencialmente revolucionárias, o que nos obriga a olhar cada situação particular. No entanto, nos parece claro que a unidade da classe trabalhadora e também dos camponeses, e a própria planificação econômica em uma transição socialista, passa pelo reconhecimento da autonomia dos povos e o direito à autodeterminação linguística, territorial e cultural.

A questão nacional continua a atravessar o continente africano, tanto na relação com o imperialismo quanto nas contradições internas dos próprios Estados pós-coloniais. Hoje, governos do Sahel, como Mali e Burkina Faso, respondem à hegemonia francesa reivindicando símbolos, línguas e orientações distintas das impostas no período colonial, ao mesmo tempo em que projetam uma retórica antiocidental. Em outros contextos, como em Ruanda ou na atual situação de Darfur, diferenças étnicas são instrumentalizadas pelo imperialismo e pelas elites locais para justificar massacres, deslocamentos forçados e formas de dominação que reproduzem as fronteiras coloniais. Mesmo os processos de libertação frequentemente lembrados como exemplos de unidade como o da Guiné-Bissau, que articulou mais de trinta etnias sob a direção do PAIGC, carregavam contradições internas importantes, com assimetrias entre regiões, grupos e quadros da guerrilha que se expressariam no golpe de 1980 e na instabilidade posterior. Já em países como Angola e Moçambique também revela esse padrão: no primeiro caso, a construção do Estado sob hegemonia do MPLA se apoiou principalmente em quadros urbanos originários de Luanda e das etnias kimbundo, marginalizando, em diferentes momentos, forças sociais com base umbundu e bakongo; a FRELIMO por sua vez foi marcada pela predominância político-administrativa de elites do sul tsonga, especialmente changana e ronga, o que acentuou desequilíbrios em relação ao centro e ao norte do país e alimentou tensões que reapareceriam no pós-guerra civil e mesmo na guerra atual em Cabo Delgado. A própria permanência da questão do Saara Ocidental (Saarauí) como uma das últimas colônias (somando-se à outras regiões menores, como a Ilha de Reunión e as cidades de Ceuta e Melilla) do continente mostra como a luta por autodeterminação ainda é central contra as fronteiras impostas pelo colonialismo.

O nível de repressão estatal (os protestos recentes que aconteceram, geraram dezenas e até centenas de mortos em diversos países em cada manifestação, ou a famosa repressão na greve de Marikana na África do Sul em 2012), o histórico de golpes militares e tentativas de golpes em diversos países (a maioria patrocinada pelo imperialismo), necessidade de fraudes eleitorais e de um bonapartismo extremo, são também expressão de uma debilidade das burguesias africanas e sua incapacidade de estabelecer uma hegemonia sob a sociedade civil, necessitando constantemente do uso da força/coerção.

Os Estados africanos combinam diversas características “orientais” (ligado à debilidade das burguesias) com ocidentais para constituir algum tipo de hegemonia. Elementos frágeis da democracia burguesa, diferindo de país para país. Tem importantes burocracias sindicais em alguns países com tradição operária, como a África do Sul ou Nigéria, e outros ligados aos partidos independentistas, como a FRELIMO, MPLAe PAIGC. As ONGs cumprem um importante papel de Estado integral, assim como as igrejas católicas e evangélicas na metade pro Sul do continente (na outra metade, teria que estudar o papel da religião islâmica). Uma reflexão que fica a ser aprofundada é sobre o papel e a formação do Estado integral nos diferentes países e como se articulam as características “orientais” e “ocidentais” nessas formações.

O continente é formado por uma classe trabalhadora muito jovem, com um crescente processo de urbanização, como já falado. É o continente mais jovem (média de 19 anos, na Europa é mais de 40 e na Ásia e Américas mais de 30), e o desemprego na juventude supera os 20, 30, 40% em diversos países. O que torna um setor muito explosivo, como se viu em diversas mobilizações recentes: Quênia, Marrocos, Madagascar, Moçambique, Angola, Tanzânia, Gana, Costa do Marfim, Camarões… com enfrentamento com a polícia, fechamento de rodovias, fogo em edifícios governamentais e características típicas de revolta.

No período de restauração burguesa e avanço do neoliberalismo, foi a África um centro do que chamamos de “perdedores absolutos”, que se reflete hoje no extremo nível de precarização e informalidade (especialmente da juventude)? No entanto, essa classe trabalhadora desenvolveu lutas importantes que fazem parte do que caracterizamos como ondas da luta de classes. É bem possível perceber que é possível situar acontecimentos da luta de classes. Na primeira onda, a Primavera Árabe, o continente foi um dos epicentros: Tunísia, Egito, Líbia e Marrocos produziram processos que derrubaram regimes, abriram crises revolucionárias e mobilizaram milhões, enquanto no sul do Saara uma nova geração começava a entrar em cena, com a juventude angolana protagonizando os “revús” e a África do Sul vivendo a greve selvagem dos mineiros de Marikana, que expôs as contradições profundas do pós-apartheid. Nos anos seguintes, o país voltaria a protagonizar um novo momento de radicalização com os ciclos #RhodesMustFall e #FeesMustFall (2015–2016), que recolocaram a juventude negra no centro da política nacional, articularam o slogan de descolonização das universidades e espaços públicos, com respostas à crise social e em aliança com trabalhadores. Na segunda onda, o marco mais forte foi o Sudão em 2019-21, derrubando o governo militar de 30 anos com elementos de auto-organização e embriões de duplo poder, mas sem uma direção consequente, que descambou para uma saída reacionária da burguesia com uma guerra civil. Ao seu lado, a Argélia viveu o Hirak, uma mobilização monumental que derrubou Bouteflika e abriu uma crise prolongada do regime militar, enquanto Senegal, Nigéria (#EndSARS), Eswatini e a própria África do Sul (com os protestos de 2021) compuseram um ciclo mais amplo de irrupções sociais no continente.

Nessa terceira onda, junto à renascença do movimento operário nos países centrais e o movimento pró-palestina, desde 2023, destacam-se em África as revoltas no Quênia, com enfrentamentos diretos às políticas ditadas pelo FMI, os protestos massivos em Madagascar e as mobilizações no Marrocos, que expressam um padrão comum: precarização extrema da vida, questionamento das instituições políticas e, em vários casos, denúncia das fraudes eleitorais e luta contra o autoritarismo e militarismo (legal e ilegal) do Estado. Esses processos dialogam com dinâmicas semelhantes em outros países do “Sul Global”, como Peru, Equador, Panamá, Sri Lanka, Irã (com componente operário mais forte), Bangladesh e Nepal. O movimento pró palestina se expressou especialmente nos países árabes do Norte da África (exemplo do que foi a Marcha Global por Gaza e as Flotilhas), ainda que tenha tido expressões menores e mais localizadas em outros países como Senegal (forte tradição do movimento estudantil), Nigéria, Quênia e África do Sul com mais expressividade. Em alguns países foi possível observar um caráter operário, com a classe trabalhadora antecipando ou sendo apoiada por outros setores oprimidos como a juventude desempregada. A greve dos taxistas em Angola em julho 2025, a greve geral dos funcionários públicos em Angola de 2024, a greve geral no Sudão que derrubou a junta militar de transição em 2021, e outras expressões como uma recente e forte greve de petroleiros na Nigéria, podem ser exemplos com graus diferentes de intensidade desse elemento operário.

A terceira onda, porém, também produziu fenômenos contraditórios como expressões de “populismos de direita”, como Venâncio Mondlane em Moçambique, e boa parte dos protestos foram ou reprimidos em sangue e refluíram (Angola, Tanzânia, Quênia), ou desviados e capitalizados por bonapartismos militares de forma muito rápida inclusive, como em Madagascar, mostrando também a debilidade desses processos e a falta de uma direção consequente. Mesmo com um refluxo nesses processos, ainda está em aberto a experiência que essa juventude fez e está fazendo (no Quênia, por exemplo, já refluiu e voltou mais de uma vez). Outros países, como os que passam por uma guerra civil, temos que aprofundar nossas hipóteses pois a guerra reacionária fez com que os processos de luta de classes cessassem e atrasem, mas ainda neles, a classe operária joga um papel central, como no Sudão, em que sem a exploração de ouro e petróleo, a guerra não se sustentaria, e é um sujeito que pode reaparecer.

Uma definição que nos parece importante, é que essa onda da luta de classes em África apresentou importantes reveses ao imperialismo, tanto europeu (especialmente francês) quanto norteamericano, e é um fator importante que se soma a disputa geopolítica com a China para pensar o declínio da hegemonia norteamericana. Um dos países pivôs para os interesses imperialistas, o Quênia, como já falado, foi um epicentro da luta de classes que questionou diretamente os planos do FMI e os ajustes neoliberais, protagonizado pela juventude trabalhadora, especialmente em 2024, mas retornando também em 2025. Em Gana também houve mobilizações questionando mais diretamente o FMI e exigindo a suspensão das dívidas públicas dos países africanos. Outras apostas dos EUA e da Europa de “estabilidade e legitimidade”, como Angola e Moçambique, mesmo que sejam países em que os mesmos partidos estejam há 50 anos no poder com fraudes eleitorais, foram abalados pela luta de classes, com questionamentos diretamente ao regime, mesmo que tais regimes não tenham caído e que não tenham se gerado processos organizativos à esquerda (pelo contrário, em Moçambique, a figura de Mondlane, que flerta com a extrema direita, se fortaleceu). Além dos processos no Sahel e Madagascar que deram base a um bonapartismo militar anti-francês, como colocado antes.

Como os países africanos são em sua maioria muito dependentes da exportação de commodities, a flutuação de preços da economia internacional tem um impacto direto sobre a vida das grandes massas, como encarecimento do custo de vida em altíssimos níveis de inflação. Em um cenário internacional com diversos sinais de crise e estagnação, esses elementos podem também impactar em processos de luta do continente. Como ocorreu na Primavera Árabe, fruto dos impactos da crise de 2008, e já se expressaram logo após a Guerra da Ucrânia em processos como na Tunísia, e em países como Angola mais recentemente. Neste último, o preço do combustível é subsidiado pelo governo, e ao implementar um programa de retirada do subsídio para tabelar com o preço internacional, ocorreu a greve dos taxistas e a revolta do final de julho de 2025.

A Teoria da Revolução Permanente e sua “ampliação” servem como base para os desafios estratégicos: ligar as tarefas democrático estruturais (segunda libertação nacional [como alguns autores colocam], dívida externa, reforma agrária, autodeterminação etc.), com demandas democráticas radicais (ligados aos elementos “ocidentais” presentes em diversos países, como por liberdades democráticas, constituinte etc.) e diretamente socialistas (expropriação e controle da produção pelos trabalhadores). Nos caberia pensar a consigna de Assembleia Constituinte Livre e Soberana como consigna democrático radical, sempre ligada a um forte discurso anti-imperialista, especialmente nos recentes processos de luta que houve, que questionavam tanto as condições materiais de vida quanto os regimes políticos.

Uma hipótese que cabe aprofundar é se a classe trabalhadora imigrante, especialmente na França, mas também em outros países imperialistas, oriunda dos países colonizados, traz junto consigo o sentimento anti-imperialista e refletir como isso pode cumprir um importante papel politicamente frente a crise da burguesia francesa. Em outras palavras, como a crise das formas de dominação francesa em África se combinam com a radicalização social na França? Elas podem, em algum grau, convergir politicamente, e quais formas organizativas essa convergência implica?

Os recentes processos da luta de classes na Europa (e em outra medida os EUA, aqui mais ligado à classe trabalhadora imigrante latino-americana) se deram com esses elementos de fusão de uma classe operária nativa europeia e imigrante. O conteúdo anti-imperialista nas mobilizações pró-palestina, com seu ponto alto na greve geral na Itália, podem se fundir com um sentimento anticolonial oriundo dos trabalhadores imigrantes? Isso reforça a importância dos revolucionários levantarem com força um perfil e programa anti-imperialista para avançar na fusão destes setores e construir frações revolucionárias neles. A campanha pela anulação das dívidas externas dos países oprimidos e a denúncia do saque imperialista mantém sua atualidade e força pensando a realidade da maioria dos países africanos.

Essa reflexão busca enxergar a luta no continente africano em uma análise geral da correlação de forças e suas possibilidades estratégicas de desenvolvimento. Tendo como ponto chave para um programa revolucionário em África o anti-imperialismo, por todos os elementos já colocados, a combinação das demandas democráticas mais elementares e as diretamente anticapitalistas, não podem ser enxergadas apenas no terreno nacional de cada país africano, e menos ainda apenas dentro do continente. O encadeamento do processo de colonização, espoliação e de dependência que segue até hoje torna necessário enxergar a classe trabalhadora como uma só força, em que pesem as particularidades de cada país. O que seria, por exemplo, a união das juventudes que se revoltaram no Quênia, Angola, Moçambique, Marrocos, Madagascar e em tantos outros países, ligado ao forte e histórico movimento operário sul-africano, nigeriano ou egípcio, em uma força unificada pelo não pagamentos das dívidas externas, contra o genocídio no Congo e no Sudão ou pela nacionalização das riquezas naturais. Algo assim colocaria em xeque o imperialismo na região, junto às burguesias nacionais e o próprio capitalismo. Embriões de elementos como esse podem ser vistos em exemplos como, na revolta da Tanzânia no segundo semestre de 2025, a fuga de jovens quenianos para ajudar na revolta, ou as consignas de “abaixo o FMI” em Gana e no Quênia, ou a Primavera Árabe que unificou a classe trabalhadora no Norte da África e no Oriente Médio.

Ao longo do século XX, a luta das massas africanas produziu uma consciência política de pertencimento comum entre povos submetidos à dominação colonial e neocolonial. Esse legado alimenta, até hoje, um sentimento progressivo de unidade africana e de oposição ao imperialismo, que reaparece ciclicamente em momentos de ascensão das lutas sociais. O panafricanismo e toda sua heterogeneidade é parte desse processo. No entanto, tal como se constituiu historicamente, expressa uma composição policlassista: articulou interesses e projetos distintos, que vão desde setores da pequena burguesia e intelectual até frações das burguesias nacionais, frequentemente empenhadas em disputar margens de autonomia dentro da ordem capitalista mundial, e não em superá-la. O conteúdo anti-imperialista segue sendo uma fonte importante de radicalização política que, na ausência de uma nova tradição revolucionária, recupera a memória e o simbolismo de antigos dirigentes revolucionários. Justamente por isso, a tarefa estratégica dos revolucionários é não abandonar a perspectiva da união africana, mas disputar seu conteúdo, arrancando-o das mãos das direções conciliadoras e reatualizando-o em um sentido de estados socialistas unidos da África a partir de um programa internacionalista e de classe, capaz de ligar a luta contra o imperialismo à expropriação do capital e à unificação da classe trabalhadora para além das fronteiras nacionais e continentais.

Hoje, o sentimento pró-palestina se tornou o principal elemento anti-imperialista que percorre todo o mundo, sacudindo o coração dos países centrais. A intervenção militar de Trump na Venezuela pode potencializar e colocar na ordem do dia uma luta anti-imperialista na América Latina e também nos países centrais, como se expressou em diversos atos em Paris, Nova York, Madrid e outros. As lições que nos deixam a Guerra do Vietnã e a Revolução dos Cravos colocam a perspectiva também de como o proletariado dos países centrais, como EUA e Europa, que ultimamente vieram sendo um fator importante na luta de classes, tendo seu ponto alto na Itália, podem cumprir um papel em impulsionar a luta anti-imperialista e debilitar sua burguesia, abrindo com isso as possibilidades para a tomada do poder e um governo de trabalhadores, tanto no centro quanto nas (então) colônias. O forte proletariado chinês, que nos últimos anos vem exercitando seus músculos com inúmeras greves sufocadas pela burocracia de Xi Jinping, poderia ser um elemento, também, para girar o motor contra a espoliação das riquezas africanas.

Isso nos coloca a perspectiva estratégica e programática da batalha pela União das Repúblicas Socialistas da África, como unificadora de toda a força anti-imperialista do continente, se ligando à luta do proletariado nos países centrais e a perspectiva revolucionária e socialista nestes países. Retomando Trótski em sua reflexão sobre a América Latina e a luta anti-imperialista, o África só poderá liquidar o atraso e a escravidão unindo seus estados em uma única e poderosa federação. Mas não será a atrasada burguesia africana, agente totalmente venal do imperialismo estrangeiro, que cumprirá essa tarefa, e sim o jovem proletariado africano, chamado a dirigir as massas oprimidas. A palavra de ordem que presidirá a luta contra a violência e as intrigas do imperialismo e das potências capitalistas mundiais, bem como da sangrenta exploração das camarilhas compradoras nativas será, portanto: Pelos Estados Unidos Soviéticos da África. Essa batalha, só pode ser constituída com a construção de um forte partido internacional chamado a encabeçar esta tarefa de organização trotskista ligadas a trabalhadores urbanos nos anos 1980. Hoje, existem grupos e ativistas que se reivindicam trotskistas vindos de distintas tradições, dispersos ou não, ou que se aproximaram do trotskismo por experiências recentes nos processos de luta de classes. Em que pesem os balanços e inclusive importantes capitulações destes grupos, como a participação do grupo de Pablo no governo burguês da Argélia, são experiências que é preciso aprofundar e tirar lições, para pensar a construção de grupos revolucionários no continente.

Esses são alguns levantamentos e hipóteses que colocamos, na batalha pela reconstrução da IV Internacional. Temos ciência de que muitas definições se trata de debates a se desenvolver e que queremos aprofundar mais em documentos e elaborações futuras em diálogo com os setores mais avançados que participam e refletem sobre esses processos no continente africano. Consideramos que pensar em chave revolucionária o continente é parte fundamental e fortalece nosso internacionalismo orgânico e a política por um Movimento por uma Internacional da Revolução Socialista, que para nós é a Quarta Internacional.