O crescente sentimento contra o imperialismo francês no Sahel
Há uma série de revoltas e explosões sociais que vem percorrendo diversos países no continente africano em que é possível perceber a associação das condições de miséria ao papel do imperialismo nesse continente. Em primeiro lugar é necessário distinguir os interesses políticos das distintas figuras militares que encabeçaram os recentes golpes de Estado em Burkina Faso, Níger e Mali do amplo rechaço de massas ao colonialismo, à dominação imperialista e o justo desejo popular por autonomia e por tomar em suas mãos o destino de seus próprios países. O profundo sentimento de ódio à dominação imperialista francesa na região do Sahel remonta ao histórico papel da França no tráfico transatlântico de escravizados africanos e ao histórico de saque e pilhagem das riquezas, resultado da dominação colonial francesa nessa região.
Aqui é importante ter em mente que a França possuía a segunda maior (atrás apenas da Grã-Bretanha) região colonial em todo continente africano depois da Conferência de Berlim de 1884-1885 que definiu a chamada “partilha da África” entre as potências européias. As colônias dominadas pela França incluíam uma área de mais de 9 milhões de quilômetros quadrados e os territórios do que são hoje a Costa do Marfim, Gabão, Benim, Burkina Faso,
Guiné, República do Congo, Mali, República Centro-Africana, Mauritânia, Níger, Senegal, Somália, Chade, Marrocos, Tunísia, Argélia, além das ilhas de Madagascar e Maurício. Em todos esses territórios a dominação francesa deixou um enorme rastro de violência, espoliação das riquezas e repressão aos movimentos de luta pela independência e assassinato de suas lideranças como Omar Blondin Diop, Larbi Ben M'hidi, Thomas Sankara, entre outros.
Depois dos processos de independência dos países africanos, resultado de processos de uma profunda luta anti-imperialista contra suas antigas metrópoles européias, a França se tornou o país que mais interveio militarmente em países africanos (foram mais de 50 intervenções militares em cerca de 50 anos) ajudando a depor ou sustentando governantes de acordo com os seus interesses. Nos últimos anos, a ingerência imperialista francesa no Sahel vem sofrendo reveses importantes com golpes de Estado que depuseram governos títeres capachos da França.
Desde agosto de 2022, com o fim da intervenção francesa no Mali com as operações Serval e Barkhan, as tropas militares francesas estão sendo expulsas da região do Sahel. Em 2019 durante essas operações, na região do Mopti no Mali, bombardeios aereos resultaram no assassinato de aldeões, pastores e pescadores. No ano seguinte houveram bombardeios no Niger em que o resultado foi o assassinato de mulheres e crianças.Na região de Bounti no Mali, um bombardeio acertou uma cerimônia de casamento, matando dezenas de civis, uma pequena imagem do nível de violência que as sucessivas intervenções militares francesas levaram à região. Segundo dados da Human Rights Watch e ACLED, centenas de civis foram assassinados entre bombardeios e operações francesas. Estima-se que esse número possa chegar a mil mortos.
O movimento de expulsão das tropas francesas começou com o governo de Assimi Goita no Mali, que ordenou a expulsão de tropas francesas em 2021, ao se aproximar militarmente da Rússia. Tal processo veio se consumando com o governo de Ibrahim Traoré que em janeiro de 2023 deu um prazo de um mês para que as tropas francesas deixassem Burkina Faso. Em setembro do mesmo ano, o governo do Níger, após o golpe que depôs o então presidente Mohamed Bazoum, também ordenou a retirada das tropas francesas. Em 2025, a França deixou sua última base militar no Chade.
Sem sombra de dúvidas esse foi um momento histórico para os povos do Sahel onde o colonialismo francês sofreu uma dura derrota, especialmente o projeto imperialista Françafrique referente à espoliação imperialista francesa no continente africano. Esse projeto corresponde a exploração de minérios, petróleo e diamantes, passando por apoio a golpes militares e envolvimento do país em denúncias de corrupção em eleições, junto a intervenções militares e a instalação de bases militares com o objetivo de reprimir a população em troca de apoio de governos regionais. Há um profundo sentimento anti-imperialista em setores amplos da população no qual os distintos governos do Sahel se apoiam, a partir de onde buscam se legitimar e se fortalecer para tomar medidas como a expulsão das tropas francesas de seus países. As juntas militares que governam os países do Sahel se apoiam nesse sentimento de vitória sobre o imperialismo francês, especialmente, nas manifestações e mobilizações que ocorreram nos últimos anos para colocar em andamento medidas de caráter nacionalista apoiando-se nas disputas entre EUA, China e Rússia internacionalmente para buscar relações multilaterais e maiores margens de manobra.
No entanto, é necessário nos perguntar se a ascenção de governos militares, oriundos de golpes de Estado e não da auto-organização das massas populares, a relação com países como a China e a Rússia dentro dos marcos de uma ordem global capitalista pode assegurar verdadeiramente o fim da subordinação nacional, das desigualdades sociais e da exploração e da opressão. Analisando os interesses econômicos e geopolíticos da China e Rússia não é difícil perceber que não se trata de um multilateralismo progressista frente aos interesses do imperialismo norte-americano e francês. Pelo contrário, Rússia e China tem o objetivo de herdar a estrutura capitalista colonial aproveitando ao máximo esta em benefício de sua localização regional.
Tem sido bastante comum ver em debates e discussões sobre Burkina Faso, a defesa das medidas do governo Ibrahim Traoré como medidas estruturais profundas em direção ao socialismo ou diretamente socialistas. No entanto, é importante verificar que para falarmos de medidas de tipo socialista um ponto de partida fundamental é que, como resultado de processos revolucionários, as massas avancem na expropriação da propriedade privada dos meios de produção sob domínio da burguesia e, a partir da tomada do poder, reorganizem o conjunto da sociedade a partir da democracia operária, ou seja, de sua auto-organização avancem na planificação da economia com base na propriedade estatal dos meios de produção sob controle dos próprios trabalhadores. Ao contrário de um golpe de Estado dirigido por uma cúpula militar (de um Exército constituído nos marcos do próprio capitalismo), que substituiria o papel das massas proletárias auto-organizadas, na tradição marxista, um novo governo dos trabalhadores partiria de armar o proletariado, desarmar as organizações contra-revolucionárias burguesas e a tomada do poder não seria um fim em si mesmo, mas o primeiro passo no caminho para a expansão internacional da revolução, a reorganização completa da sociedade em direção a uma sociedade sem Estado, sem moeda e livre da exploração e da opressão, o comunismo.
Como veremos ao longo deste e outros artigos, os objetivos de Traoré são outros. É inegável que o resultado de anos de dominação imperialista sobre Burkina Faso deram como resultado a realidade de extrema dependência econômica da agricultura (é um país de grande produção de algodão, caju, sorgo entre outros itens) e do extrativismo e mineração (sobretudo do ouro, do qual Burkina Faso hoje é o quarto maior produtor da África) sendo impedido de desenvolver sua indústria e, assim como outros países africanos, padecendo de um importante endividamento externo e dependência de importação de petróleo, máquinas e alimentos. É diante desse contexto que algumas medidas tomadas por Ibrahim Traoré como assumir como uma pequena parte das ações de exploração da riqueza da mineração como propriedade estatal e medidas de modernização da agricultura ganham bastante notoriedade.
Ao mesmo tempo, é também inegável que tais medidas entre outras não significaram a reversão da política econômica burkinabe que segue sendo capitalista, ainda que dirigida pelo Estado, empresas nacionais e por empresas estrangeiras. Não à toa é ausente de seu governo o programa de expropriação da burguesia regional e também das potências estrangeiras sob controle dos próprios trabalhadores, que incorporasse, por exemplo, os trabalhadores rurais em posto de trabalho na cidade e, nesse sentido, não apenas diversificasse setores da economia, mas pudesse ser um ponto de apoio para impulsionar processos revolucionários em países do Sahel e de toda África, apontando um caminho de que qualquer progresso econômico e social não pode vir dos imperialismos, tampouco de potência econômicas não ocidentais, este progresso vai ser obra da própria classe trabalhadora burkinabe.
Ao longo do artigo, evidenciaremos como medidas de tipo nacionalistas e populares de Traoré mais se afastam do que se aproximam de medidas socialistas defendidas ao longo da tradição operária e socialista de grandes teóricos e dirigentes revolucionários como Marx, Engels, Trotski, Lenin e Rosa Luxemburgo.
Os limites do multilateralismo “progressista”
Há uma nova reconfiguração geopolítica nos países do Sahel com a ruptura de acordos militares de Burkina Faso, Níger, Chade e Mali com países da OTAN e a CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental). Rússia e China vem dando apoio logístico e militar aos governos que surgiram de golpes na região, como forma de assegurar novos aliados numa região estratégica na África. Ambos países vêm assinando acordos bilaterais com a Aliança dos Estados do Sahel, dando um passo importante em seus objetivos não apenas de manter esses países afastados das influências da OTAN, mas, sobretudo, garantindo uma saída para o Atlântico, algo fundamental nas disputas militares, geopolíticas e comerciais com os Estado Unidos. O estreitamento desses laços ganham ainda mais relevância frente a correlação de forças regionais onde vários países da África Setentrional, em maior ou menor grau, ainda mantêm relações políticas e militares com a OTAN.
Nesse tabuleiro político de disputas de influência entre o imperialismo ocidental e potências capitalistas não-ocidentais, Burkina Faso paulatinamente ganhou uma relevância indiscutível. Os investimentos e empréstimos chineses no país vem tornando possível criar para a população local e no continente uma enorme propaganda em torno das “possibilidades” que se abrem ao se afastar do imperialismo francês e norte-americano e ir em direção à China e à Rússia. Entretanto, analisar a situação geopolítica desta maneira, sem levar em consideração os elementos de classes e os projetos políticos de expansão militar e econômica desses países na região, pode levar a ver toda a situação como um giro progressista dos países do Sahel, sem questionar os verdadeiros interesses chineses e russos e da burguesia local burkinabe.
Rússia e China partem de um pressuposto importante: quanto mais estabilizado estiver o país, melhor para seus negócios. O território burkinabe se encontra dividido, parte dele está sob domínio da junta militar liderada por Traoré. Grupos ligados a Al-Qaeda, ao Estado Islâmico e o Ansaroul Islam (grupo jihadista burkanabe) dominam outras regiões, ainda que a capital Ouagadougou e a maior parte do centro e sul do pais sejam domindas pela junta. O apoio militar da China e da Rússia, desde a venda de armamento chinês através da empresa Norinco às parcerias do Kremlin na venda de armas, fornecimento de treinamento, equipamentos militares, além do apoio militar através do Grupo Wagner, atualmente Africa Corps, vão nessa direção.
O que está em jogo é garantir a estabilização do poder central e do regime, um êxito militar representa a possibilidade política de Rússia e China se firmarem como os grandes parceiros comerciais e militares na região. Não sem motivo, nos últimos anos, novos acordos militares entre os países da Aliança dos Países do Sahel e Rússia foram assinados, com a promessa de envio de 5 mil soldados para a região, treinamento especializado e armamento, além da Norinco ter intensificado o envio de blindados e equipamentos militares para Burkina Faso. Ademais, as mobilizações no Quênia, África do Sul, Etiópia, Nigéria, Moçambique, Gana, Sudão, nos próprios países do Sahel e mais recentemente na Angola, Madagascar, Marrocos e Camarões, também colocam um sinal de alerta no regime burkinabe. Certamente, a junta militar de Traoré não medirá esforços para reprimir sua população caso levantem por sua demandas em greves, manifestações, etc com as armas e tropas fornecidas por Rússia e China.
A China vem expandindo seu mercado de capitais em Burkina Faso, já são inúmeros investimentos na indústria, estrutura e saneamento, rodovias, energia solar, telecomunicações e infraestrutura hídrica. Para ficarmos com alguns exemplos, o Banco estatal chinês forneceu 77 milhões de dólares em empréstimo para a realização da fase 1 do Projeto Nacional Backbone de Telecomunicações, com o objetivo de expandir a rede de fibra óptica ligando a capital Ouagadougou e a cidade de Po, perto da fronteira com Gana, empreendimento de 307 quilômetros de rede. O Banco de Importação e Exportação da China (Exibank), também forneceu empréstimo no valor de 49 milhões de dólares para o projeto Donsin de energia solar. A China Eximbank prometeu um empréstimo de 1,3 bilhão de dólares para a construção do trecho Ouagadougou-Koudougou da rodovia Ouagadougou-Bobo-Dioulasso.
Durante a última cúpula Rússia-África em Moscou, os países assinaram um acordo nuclear, com o objetivo de construir uma usina nuclear em Burkina Faso no intuito de solucionar os problemas referentes ao abastecimento de energia do país, em que apenas 21% da população está conectada à energia. Em junho de 2025, os países assinaram um novo acordo de Cooperação no Uso Pacífico da Energia Nuclear durante o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF). A estatal nuclear russa, Rosatom, vem expandindo capital na África através de acordos para desenvolvimento de energia nuclear, investindo não apenas na estrutura como usinas e reatores, mas também serviço de manutenção e tecnologia. A estatal russa Nargold ganhou espaço na exploração de ouro no país. Em abril de 2025, Traoré concedeu uma licença de mineração industrial à empresa a qual conferiu a subsidiária Jilbey Burkina Sarl 85% da exploração de ouro no projeto Niou, localizado na província de Kourwéogo, enquanto o governo burkinabe detém apenas 15% da exploração. Na região Centro-Norte nas minas de Bissa e Bouly, a Nargold detém 90% da exploração e o governo de Burkina Faso ficou com 10%.
Longe de ser um multilateralismo “progressista”, como se estivesse em jogo interesses benevolentes em relação aos países do Sahel, China e Rússia estão preocupados com a expansão de seus próprios capitais e influências militar e política. Enquanto a Rússia ganhou uma localização indelével na exploração dos recursos naturais como ouro, a China proporciona infra-estrutura capaz de influenciar na produtividade e na dinamização de comercialização na região e com outros países africanos. Não há nenhuma mudança significativa na estrutura de exploração herdada pelo imperialismo francês, na medida em que a exploração dos recursos naturais, particularmente o minério, continua na mão de potências estrangeiras. Apesar disso, há indícios de transformações importantes no país, ainda que seja inicial, a disputa geopolítica entre China e Estados Unidos ganhou novos contornos na região: está em curso um processo de aprofundamento da subserviência de Burkina Faso através da contração de empréstimos chineses. Na medida em que elas se somam às dívidas contraídas com o FMI, a dependência de remessas de capitais para o desenvolvimento de infraestrutura, subsídios para agropecuária e investimentos na indústria, cada vez mais Burkina Faso aprofunda seus laços de dependência ao capitalismo chinês.
O bonapartismo de Ibrahim Traoré
Traoré se tornou presidente de Burkina Faso em 30 de setembro de 2022 quando deu um golpe no governo do tenente-coronel Paul-Henri Damiba do qual fazia parte quando derrubaram, também com um golpe militar, o governo de Kaboré. Desde então, Traoré vem tomando medidas bonapartistas para garantir que consiga governar com o mínimo de instabilidades e crises sociais e políticas, por isso suspendeu da Constituição, dissolveu a Assembleia Nacional e perseguiu opositores do regime. Atualmente Burkina Faso é atravessado por instabilidades políticas e militares pelas quais Traoré justifica essas medidas, bem como o próprio golpe. O governo provisório ficaria vigente até julho de 2024, quando chamaria novas eleições, no entanto isso não aconteceu. No dia 2 de julho foi anunciado que esse prazo se estenderia 60 meses com a estimativa de novas eleições para julho de 2029.
Aqui mais uma vez o caráter do regime de Traoré se distancia dos fundamentos socialistas sobre a relação do Estado e a sociedade civil. O socialismo seria um regime de transição onde a classe trabalhadora auto-organizada planificaria a economia no sentido de satisfazer as necessidades objetivas e subjetivas da população, na medida em que paulatinamente através de seus próprios organizamos ou conselhos dariam conta de organizar toda a vida em sociedade, apontando a um outro tipo de sociedade que, abolindo as classes sociais, pudesse prescindir do Estado e suas forças de repressão. Ao contrário disso, o governo de Traoré se aproxima bem mais de um tipo de governo que a tradição marxista denominou bonapartista, no caso burkinabe, bonapartista suis generis. Isso porque Ibrahim Traoré prescinde das massas e de toda sua auto-organização, centralizando as decisões de cima para baixo, com medidas autoritárias como a supressão de direitos político elementares como o sufrágio universal e lançando mão de uma força de repressão em base ao apoio de uma burocracia militar para impor os interesses políticos e econômicos da classe proprietária.
Segundo,Trotski este seria um tipo de bonapartismo suis generis, um regime que surge da relativa debilidade da burguesia nacional em relação ao proletariado nacional, onde o governo sempre oscila entre as duas classes, podendo fazer ou não concessões aos debaixo:
“Isto dá ao governo um caráter bonapartista suis generis, de natureza particular. Se eleva, por assim dizer, por cima das classes. Na realidade, pode governar ou se convertendo em um instrumento do capital estrangeiro e submetendo o proletariado às cadeias de uma ditadura policial ou manobrando com o proletariado, chegando inclusive a fazer concessões, ganhando deste modo a possibilidade de dispor de certa liberdade em relação aos capitalistas estrangeiros”.
O governo Ibrahim Traoré oscila entre o capital estrangeiro e o nacional, se apoiando nas massas de trabalhadores do campo e da cidade contra o imperialismo francês, na medida em que estreita seus laços econômicos e militares com Rússia e China. O Estado burkinabe, nesse sentido, alterou o Código de Mineração que favoreceu uma maior participação da SONA-MIN (Empresa Nacional de Substâncias Minerais) na exploração de ouro. O Estado Burkinabe passou a ter direito a 10% de participação acionária gratuita de qualquer empresa que tenha licença para exploração mineradora industrial, bem como pode optar pela compra de até 25% como participação adicional. Tal medida restringiu os lucros de empresas estrangeiras que optaram por deixar o negócio, especialmente as mineradoras canadenses e francesas. Empresas da África do Sul, China, Rússia, Austrália, Grã Bretanha e também do Canadá seguem explorando ouro na região.
Quando Trotski desenvolveu a categoria de bonapartismo suis generis, olhava para o governo Cárdenas no México que nacionalizou a indústria de ferro e petróleo no final dos anos 1930, o que dava uma característica de um bonapartismo suis generis de “esquerda”, isto é, havia um programa nacional de concessão às massas em detrimento do imperialismo norte-americano. O que ocorre hoje em Burkina Faso é bem diferente, nem de longe se trata de um processo de nacionalização da indústria mineradora, ao contrário, as novas regras de mineração servem para ampliar a participação estatal burkinabe no mercado financeiro, deixando intactos a estrutura capitalista de exploração de ouro, na medida em que cabe às empresas estrangeiras decidir ou não se deixam a exploração de minérios na região frente às novas regras acionárias sobre a mineração.
Como havíamos mencionado, o combate aos grupos jihadistas em território burkinabe é um tema central de seu governo, além disso foi sob o pretexto de combatê-los e estabilizar o país que Traoré se alçou por cima das classes impondo um regime dirigido por uma burocracia militar que governa e toma todas as decisões no país, se apoiando nas massa trabalhadoras do campo e cidade para romper com o imperialismo francês ao mesmo tempo que se abre a outros capitalistas estrangeiros. A definição do governo de Ibrahim Traoré como um governo bonapartista suis generis se aproxima da formulação feita por Trotski, na medida em que seu governo toma medidas contra o colonialismo francês, especialmente, com o fim dos acordos militares. Combinando o aparato do exército nacional, a tropa mercenária russa Afrika Corps e a milícia civil Voluntários para a Defesa da Pátria (VDP), o governo também ganha contornos de um regime policialesco, isto é, que não dispensa da força para levar até o final seu programa.
No entanto, a defesa do território, bem como dos interesses dos trabalhadores do campo e da cidade só pode ser organizado pelos próprios trabalhadores, não se pode ter uma visão de que os interesses das junta militar e das classes subalternas são os mesmo, ao contrário, o aparato policial se voltará contra os trabalhadores na primeira greve e manifestações por suas demandas. Resgatando novamente o Programa de Transição, é preciso organizar destacamentos de auto defesa dos trabalhadores com a consigna de milicias operárias, como uma forma elementar de organização das lutas, sem nutrir confiança alguma nos destacamentos militares e civis da classe dominante.
Entretanto, o governo de Traoré se afasta de um tipo bonapartismo suis generis quando na realidade suas medidas estão longe de se enfrentar contra a estrutura capitalista deixada pelo imperialismo francês na exploração de minério onde as empresas podem explorar minérios, especialmente o ouro, de acordo com seus próprios interesses e necessidades de mercado. Ao contrário disso, o que deveria estar em andamento é justamente a nacionalização das indústrias e minas de ouro do país, onde nenhuma empresa capitalista pudesse lucrar com a exploração de ouro. Tal medida deixaria todo os recursos produzidos através da exploração de minério no próprio país e não seria destinado a países que sempre se beneficiaram com o colonialismo e tem sua história manchada de sangue negro como a Grã Bretanha.
O legado deixado por Leon Trotski no momento da fundação da Quarta Internacional através do Programa de Transição ajuda a refletir sobre esse problema. Decerto, o desenvolvimento da indústria sempre se encontra em estágios diferentes de seu próprio desenvolvimento e da luta de classes, por isso seria necessário agitar consignas transitórias, como a expropriação da indústria mineira. Como parte de manter os recursos naturais para satisfazer as necessidades do povo burkinabe, seriam os trabalhadores e as trabalhadoras das indústrias de minério e das usinas que controlariam toda a produção, podendo pensar num projeto de extração mineral que não fosse predatório à natureza, sem que nenhum país capitalista explorasse seus minérios em benefício próprio e nem mesmo a burguesia nativa teria esse direito espúrio. Indo mais além, quando as massas de trabalhadores do campo e da cidade contarem com suas próprias forças revolucionárias, se imporia um programa de expropriação dessas empresas, isto é, sem nenhum tipo de indenização aos capitalistas, colocando na ordem do dia a expropriação geral da burguesia.
Hegemonia e transformação cultural: a “descolonização das mentes”
A dominação imperialista na África ao longo dos anos não dispôs apenas de um enorme aparato militar para impor seus interesses econômicos, mas foi acompanhada de um apagamento cultural sem precedentes históricos, submetido através da força. Na prática isso significou para o colonialismo francês, português e inglês, por exemplo, a imposição do idioma da metrópole sobre diversos idiomas nativos. Além disso, o roubos de artefatos culturais que enchem os museus dos países imperialistas da “história africana” e criação de fronteiras nacionais artificiais como forma de devastar culturas inteiras e tentar apagar seu desenvolvimento histórico, social e cultural foram parte daquele processo. Tais medidas, para citar apenas uma ínfima parte delas, foram fundamentais à violência colonial porque abria espaço para avançar ideologicamente numa concepção reacionária e racista de que ao apagar a cultura de um povo, mais próximo ele estaria de ser dominado.
Os nomes dos países africanos eram referenciados na mais bárbara dominação colonial antes das independências, por exemplo, Alto Volta, o nome colonial do país Burkina Faso dado pelo imperialismo francês, se referenciava geograficamente nos rios Volta Negro, Branco e Vermelho que foram estrategicamente fundamentais para o avanço do colonialismo na região, por serem importantes rotas militares e econômicas que asseguraram a dominação francesa. Não à toa que o processo revolucionário dirigido por Tomas Sankara teve como medida imediata mudar o nome do país para Burkina Faso, como forma de expressar culturalmente a transformação radical que passava o país, deixando para trás referência coloniais e racistas que aludiam à dominação e exploração do território resgatando a cultura nativa batizando novamente seu próprio país: Burkina é um termo da língua mooré que significa “pessoas de caráter” e Faso, termo dioula, significa pátria, surgiu da revolução do povo burkinabe a “Pátria de Homens Íntegros”.
Traoré define seu governo como uma “revolução popular progressiva” que seria a junção de uma revolução cultural das mentalidades com o avanço da soberania nacional, isto é, a combinação de soberania alimentar e medidas referentes aos recursos naturais com uma profunda transformação cultural no país. Como havíamos desenvolvido, Ibrahim Traoré vem assentando seu regime político sob um sentimento anti-imperialista que ganhou mais força com a expulsão das tropas francesas de Burkina Faso, após sua solicitação em 2023 ao presidente Emmanuel Macron que retirasse todas as tropas francesas de território burkinabe. Ibrahim está à frente de uma junta militar que se alçou ao governo a partir de um golpe militar dentro de outro golpe, o que desde o princípio colocou limites tanto à sua legitimidade quanto ao apoio da população que deveria conquistar, por não ser um governo eleito democraticamente. Portanto, desde início estava colocado um desafio estratégico para Ibrahim Traoré, a necessidade de seu governo conquistar hegemonia entre as massas através de um programa que pudesse seguir dando sentido ao sentimento anti-imperialista e desta maneira se conectar organicamente com as demandas de uma população composta majoritariamente por trabalhadores rurais.
Traoré vem conquistando legitimidade entre as massas, não apenas devido ao abandono de acordos militares com o Ocidente, mas também, porque adotou um programa nacionalista e popular que atende algumas demandas bastante sintidas pela população burkinabe. Há em curso um projeto de “soberania alimentar”, chamado de Plano Ofensiva Agropastoril, que tem o objetivo de combater a fome, diminuir a dependência de importação de alguns alimentos e criar novos empregos no setor pastoril, pesqueiro e agrícola. O plano consiste na combinação de investimento estatal e privado. Segundo Ismael Sombié, ministro da Agricultura, Recursos Animais e Pesqueiros, 46% dos investimentos serão de fundos do governo e 54% virão de parcerias público-privado, para compra de fertilizantes, sementes, equipamentos agropecuários e de pesca, expansão de áreas rurais irrigadas e mecanizadas, criação de centros de transformação agroalimentar, fundos de financiamento agrícola e microcrédito.
As estimativas do Banco Mundial e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura informam que cerca de 75% a 80% da força de trabalho em Burkina Faso está empregada no setor agrícola. Certamente, o plano de fortalecimento nacional do setor agropastoril terá impacto na condição de vida da população burkinabe, o país figura entre os países com piores IDH do mundo, com alta taxa de fome e desigualdade, resultado de anos de opressão e exploração imperialista com aval de governos títeres locais. No entanto, o plano tem o objetivo de impactar especialmente na produtividade já que apesar de grande concentração de mão de obra no setor agropecuário, a participação deste setor no PIB foi de apenas 18,59%. Não à toa o plano consiste em investimentos em insumos, maquinários e crédito para produtores e não em auxílio para as famílias que vivem abaixo da linha da pobreza e convivem com insegurança alimentar.
Sem mexer na estrutura fundiária restabelecida pelo governo Blase Campaoré após o assassinato de Tomas Sankara que reestitiu o poder e o controle das terras a grandes latifundiários e devolveu a eles algumas terras que haviam sido redistribuídas aos camponeses pós-revolução, IbrahimTraoré mantém intacta as formas de propriedade no campo. O investimento estatal para subsidiar a produção deveria ser realizada junto a uma reforma agrária radical onde todos os proprietários de terras herdeiros do sistema colonial francês fossem expropriados e a partilha das terras entre os trabalhadores do campo fosse realizada por eles mesmos a partir de conselhos auto-organizados desde as bases, atendendo às necessidades das populações locais.
O fortalecimento do nacionalismo através da combinação entre o sentimento anti-imperialista e fortalecimento do setor agrícola vem atrelado a um discurso político panafricanista de “descolonização da mente”. Em um discurso proferido em cerimônia no começo deste ano, Traoré deixa claro essa ligação:
“Assim como eles, nossas massas trabalhadoras, que são agricultores e criadores de gado, também lutam para que possamos alcançar a autossuficiência alimentar com o apoio de todos os técnicos do Ministério da Agricultura. Isso é muito importante. E assim como eles estão lutando, nós, no governo, devemos lutar para mudar nossa mentalidade. Essa descolonização mental é a parte mais difícil. E é por isso que queremos lembrá-los constantemente de que precisamos mudar nossa mentalidade, retornar às nossas raízes. E essa também é a luta contra o imperialismo.”
Evocando também a imagem de Thomas Sankara, importante líder revolucionário no processo de independência do país, Traoré fornece os elementos culturais da construção de uma nação anti-imperialista que segundo ele, precisa afastar de sua própria cultura qualquer elemento que remeta a seu passado sob o jugo francês e norte-americano. Dentre várias medidas tomadas pelo seu governo, salta aos olhos a alteração do idioma oficial do país para o mooré, fulfuldé, e dioula, enquanto o idioma francês foi rebaixado a idioma de trabalho. Uma profunda transformação cultural que tem impacto nas massas trabalhadoras, porque consiste em rebaixar a língua de um opressor histórico.
Desde o fortalecimento da cultura onde as massas trabalhadoras também sentem os anos de opressão imperialista, Ibrahim Traoré também opera medidas de transformação social democráticas e progressistas com objetivo de dar um conteúdo panafricanista ao processo de “descolonização da mente”. A combinação da aplicação de um programa popular e democrático vai dando conteúdo a seu discurso político panafricano, no sentido, de aproximar os objetivos nacionais não apenas das classes subalternas, mas também das classes dominantes burkinabes.
O nacionalismo burkinabe e homofobia
O projeto nacionalista em base a defesa de um panafrincanismo que junta transformações culturais com o fortalecimento do setor rural do país, também coincide com um outro plano nacionalista de consolidar alguns ramos da indústria ao passo que favorece o crescimento da burguesia burkinabe e de uma classe média urbana. Se enganam aqueles que supõem que o que está em jogo, em última análise, é apenas salvar a população burkinabe do imperialismo francês. Os governos bonapartistas, antes de mais nada, por definição são governos da classe dominante e apenas se alçam à condição de protetor militar da sociedade, porque a ordem burguesa está em risco. Segundo Marx no 18 de Brumário, o governo bonapartista, com
“...o pretexto de salvar a sociedade, ele quer salvar a ordem burguesa. Sob o pretexto de salvar a ordem burguesa, quer manter a dominação da classe burguesa. Mas não quer deixar que a burguesia governe. Quer salvá-la de si mesma, colocando a autoridade do Estado sobre a sociedade”.
O cálculo político de Traoré consiste em se opor ao Ocidente com o objetivo de assegurar os interesses da burguesia burkinabe possibilitando que ela possa sair fortalecida em meio à crise social e econômica que atravessa o país. Há, por conta disso, um grande investimento no setor industrial de detergente, automobilístico, cimento e de alimentos, em específico, a produção de extrato de tomate e derivados, para baixar a dependência de importação deste produto de países na própria África.
O fortalecimento da indústria alimentícia se deu a partir de um grupo de investidores chamado “cooperativa” SCOOP-CA/BA, presidida por Aziz Nignan, empresário do ramo agroindustrial. Os recursos deste empreendimento vem de investimento público e privado como das empresas Sank Finance e Crédit Agricole. Os investimentos no setor de detergentes são através do Complexo Industrial de Detergentes Fassi (CIDF), presidido pelo empresário Mady Sawadogo. Se aventa a possibilidade de construção de uma fábrica de caju financiada pela empresária burkinabe Mamunata Baza. O setor automobilístico também é apoiado por Traoré, em particular a empresa Itaoua do empresário Abdoul Kader Bougouma, especializada em veículos elétricos montados em Ouagadougo. O investimento na produção de cimento se desenvolve através da Société Industrielle Sino-Burkinabè de Ciments SA (CISINOB), com investimentos chinês e da burguesia burkinabe.
A ideia de fortalecer a burguesia nacional em detrimento do imperialismo, não é necessariamente nova, os processos de luta por independência, muitas vezes expressaram a contradição entre as aspirações e ações das massas negras e suas direções onde estas defendiam um programa nacional burguês com o objetivo de consolidar uma burguesia nacional. O processo de independência do Alto Volta liderado pelo dirigente revolucionário Thomas Sankara, em certo sentido, teve essas características. Ele chegou a fundamentar a diferença de um setor na burguesia nacional a fim de defender o papel dela no projeto de desenvolvimento nacional e revolucionário:
“Nossa atual revolução, assim caracterizada, apesar de ser uma revolução anti-imperialista, ainda decorre dentro dos limites do regime econômico e social burguês. Ao analisar as classes da sociedade voltaica não constitui uma única classe homogênea, reacionária e antirrevolucionária. De fato, o que caracteriza a burguesia dos países subdesenvolvidos no sentido capitalista é a sua incapacidade congênita de revolucionar a sociedade, como a burguesia dos países europeus da década de 1780, isto é, do tempo que esta ainda era uma classe ascendente” [1].
Em sua concepção, a revolução teria uma etapa anti-imperialista e de “dentro dos limites do regime econômico burguês” limitada pela própria incapacidade da burguesia revolucionar a sociedade, mas por não possuir as mesmas características das burguesia imperialistas, o estágio da “atual revolução” não se voltaria contra todas frações burguesas. As continuidades entre Traoré e Sankara vão para além dos discursos panafricanos de soberania nacional, elas também constituem esse projeto anti-imperialista onde encontra na burguesia nativa uma saída para seu programa nacional popular. Ao mesmo tempo, as descontinuidades aparecem quando Thomas Sankara via a suposta etapa nacional-burguesa como limite para o desenvolvimento da revolução e Ibrahim Traoré como a única forma capaz de dar prosseguimento aos seus anseios panafricanistas.
Se por um lado, o projeto de Traoré consiste no fortalecimento da classe dominante, o regime precisa que seja fortalecido na sociedade o sentido ideológico da manutenção da propriedade privada e da família, por outro lado, ele também vai se assentando sobre bases conservadoras. Por conta disso, o regime de Burkina Faso alterou o Código das Pessoas e da Família criado para regular as relações de herança, família e casamento em 1989, adicionando uma lei reacionária que criminaliza e prevê prisão para a população lgbtqiapn+ do país. Um enorme retrocesso que não deixa Burkina Faso atrás de qualquer país ocidental que tem altas taxas de assassinato contra a popolução lgbtqiapn+, como por exemplo o Brasil. Não há libertação de um povo, sem a libertação de todos os setores oprimidos da sociedade: um projeto panafricano que pretende libertar o povo burkinabe do jugo imperialismo francês e norte-americano que não se propõe a extirpar da sociedade o patriarcado, machismo e lgbtfobia que oprime trabalhadoras e trabalhadores burkinabes, só pode favorecer os senhores e os proprietários.
Conclusão
Os países Sahel atualmente vivem um momento distinto em sua história, imbuídos de um sentimento anti-imperialista construído em base a opressão francesa, agora parecem viver um momento “progressista”, longe dos interesses desses algozes históricos. Entretanto, esse caminho está sendo trilhado, no caso de Burkina Faso, desde uma perspectiva bonapartista com traços nacionalistas e retórica anti-imperialista, o que na realidade coloca limites para a efetiva superação do jugo imperialista, da exploração e opressão capitalistas e de avanço da classe trabalhadora burkinabe em sentido socialista. O projeto de traços nacionalistas de Traoré caminha num sentido de se apoiar e intensificar laços econômicos e militares com Russia e China, na medida em que aumenta sua dependência e dívida com esses países, e fortalecer alguns setores da indústria nacional. Como desenvolvemos ao longo do texto tais medidas se afastam de uma perspectiva operária e socialista, porque, entre outros aspectos, não colocam como sua estratégia e programa uma planificação econômica conduzida pelos próprios trabalhadores auto-organizados em organismos de democracia operária e a expropriação da burguesia burkinabe, bem como de qualquer empresa estrangeira que esteja roubando os recursos naturais no país. As massas operárias burkinabes e de outros países africanos já demonstraram ao longo da história sua ousadia e disposição revolucionárias que, antes cedo do que tarde poderão confluir com uma estratégia e um programa revolucionário e internacionalista e, junto com a força internacional da classe trabalhadora e dos povos oprimidos, por fim a essa história de sofrimento e opressão legada pelo capitalismo e abrir o caminho a uma nova sociedade livre das amarras da exploração em que toda beleza e força criativa dos povos africanos possa se desenvolver livremente e contribuir para elevar o horizonte do conjunto da humanidade.