Capa: As terras raras e o mito neodesenvolvimentista, uma polêmica com Armando Boito

As terras raras e o mito neodesenvolvimentista, uma polêmica com Armando Boito

Por Danilo Paris | | Atualizado em 09.06.2026
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Introdução

As terras raras e os chamados minerais críticos assumiram posição central nas disputas geopolíticas contemporâneas. A crescente demanda transformou esses recursos em elementos estratégicos da economia mundial. Nesse contexto, a rivalidade entre Estados Unidos e China redefiniu o papel dos países detentores de grandes reservas minerais, entre eles o Brasil, que possui uma das maiores concentrações de terras raras do planeta.

A relevância brasileira existe não apenas em função da dimensão das reservas conhecidas, mas principalmente da qualidade geológica de determinadas jazidas e da possibilidade de exploração em larga escala. Entretanto, a existência de recursos naturais abundantes não garante, por si só, desenvolvimento tecnológico ou mesmo soberania industrial. A questão fundamental está no debate se o país será capaz de construir uma cadeia produtiva nacional integrada ou se permanecerá subordinado ao papel histórico de exportador de matérias-primas de baixo valor agregado, papel que sempre lhe coube na divisão internacional do trabalho desde a colonização.

O debate ganhou maior importância após a aquisição da mina de Serra Verde, localizada em Goiás, considerada a maior mina de terras raras fora da China e uma das jazidas mais promissoras do mundo. A empresa responsável pela aquisição foi a norte-americana USA Rare Earth, que possui participação direta do governo dos Estados Unidos por meio de investimentos vinculados ao Departamento de Defesa e a fundos estratégicos voltados à segurança nacional e ao fortalecimento das cadeias minerais críticas. Ou seja, uma empresa que na prática funciona essencialmente como um braço dos interesses do Estado norte-americano, ainda que atue formalmente por meio de capital privado. A aquisição ainda foi realizada mediante a assinatura de um memorando com o governador Ronaldo Caiado, figura que encabeça um dos setores da burguesia brasileira mais explicitamente alinhados ao entreguismo mineral e à submissão aos interesses estrangeiros. Trata-se de um campo político profundamente articulado ao lobby das mineradoras privadas no Brasil, cujas associações empresariais possuem composição majoritariamente internacional e atuam de forma permanente para ampliar a entrega da exploração do subsolo e dos minerais estratégicos do país.

Nesse contexto, o debate ganhou ainda mais intensidade com a aprovação, na Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei 2780/2025, que estabeleceu a chamada Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O projeto foi apresentado pelo governo como instrumento de fortalecimento industrial e tecnológico, mas na realidade constitui a consolidação de um modelo mineral subordinado aos interesses do capital privado e estrangeiro, baseado na ampliação de incentivos fiscais, flexibilização regulatória e aprofundamento da lógica exportadora de baixo valor agregado. Em vez de construir qualquer mecanismo de soberania tecnológica e produtiva, o PL reforçou a inserção dependente do Brasil na nova divisão internacional do trabalho associada à transição energética e à disputa geopolítica entre as grandes potências. 

Mais do que isso, esse tema fez cair o véu do mito desenvolvimentista — e de seus congêneres, como o neodesensenvolvimentismo — do governo Lula que alguns intelectuais insistem em defender, em particular no seu terceiro mandato. Para isso,em contraste com a tese defendida pelo professor Armando Boito Jr. , este artigo busca demonstrar que o atual governo Lula está muito distante dos contornos de uma política neodesenvolvimentista. 

Mais do que isso, é importante partir de considerar que não é o debate crítico de ideias que pode fragilizar a campanha de Lula, como afirma o professor no início do seu artigo, mas sim os resultados concretos de uma política econômica que preservou os fundamentos centrais do neoliberalismo, aprofundando a reprimarização da economia e mantendo o país em uma posição subordinada na divisão internacional do trabalho. Afinal de contas, foi o próprio Lula, e não quem o critica, que reconheceu que apesar das crises próprias e dos efeitos sociais do neoliberalismo, ainda sim, “nós sucumbimos à ortodoxia”. Uma fala marcante, realizada na primeira edição da Mobilização Progressista Global, realizada diante de uma plateia de milhares de pessoas, que incluía lideranças como o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez e o presidente colombiano Gustavo Petro.

Mas, antes de entrar propriamente na polêmica, é necessário uma breve introdução da importância do tema das terras raras nos dias atuais para a partir daí entrar no debate sobre o neodesenvolvimentismo. Isso porque a determinação concreta da política do governo vai se demonstrar aqui em sua manifestação real, e a partir daí poderemos chegar às conclusões mais gerais. 

Terras raras e a centralidade tecnológica contemporânea

As terras raras correspondem a um conjunto de dezessete elementos químicos caracterizados por diversas propriedades fundamentais para diferentes aplicações industriais. Embora o nome sugira escassez, esses elementos não são propriamente raros na crosta terrestre. A dificuldade encontra-se na baixa concentração dos depósitos e, sobretudo, na complexidade técnica e econômica de sua separação e purificação.

A atual importância desses minerais deriva da sua utilização em ímãs usados em turbinas eólicas, veículos elétricos, baterias, smartphones, discos rígidos, sistemas de inteligência artificial, equipamentos militares, satélites, radares, mísseis e semicondutores, entre vários outros. Sem vários desses elementos, boa parte da infraestrutura tecnológica contemporânea simplesmente deixaria de funcionar. Trata-se, portanto, de um mercado que sua real importância não está em termos financeiros absolutos, mas porque é indispensável para cadeias produtivas muito mais amplas e lucrativas.

A expansão recente da inteligência artificial, dos data centers e da transição energética intensificou ainda mais a demanda por esses recursos. Esse movimento ampliou a busca das grandes potenciais de novas jazidas de terras raras e consolidou a disputa internacional em torno do controle não só de sua extração, mas também do processamento e transformação industrial.

O monopólio chinês e a disputa com os Estados Unidos

A China ocupa posição hegemônica na cadeia global das terras raras. O país concentra aproximadamente metade das reservas conhecidas, domina cerca de 60% da extração mundial e controla mais de 90% da capacidade global de separação e refino. Além disso, responde por aproximadamente 94% da produção mundial de ímãs permanentes de alta performance. É importante ressaltar que a extração chinesa de terras raras e minerais críticos não se dá apenas em seu território, mas através da exploração do trabalho e dos bens naturais de países na África e na América Latina, um modus operandi semelhante aos das potências ocidentais.

Diógenes Moura Breda, professor de economia e especialista em terras raras, explica que desde os anos 1980, o Estado chinês adotou uma política deliberada de centralização da produção mineral, e que agora o diferencial chinês encontra-se especialmente na etapa de separação química das terras raras. Como esses elementos aparecem misturados na natureza e possuem propriedades químicas muito semelhantes, o processo de separação exige centenas de etapas industriais altamente complexas e custosas. Essa capacidade tecnológica tornou-se o principal gargalo mundial do setor e permitiu à China utilizar seu domínio como instrumento geopolítico, uma vez que os EUA não têm essa mesma capacidade desenvolvida.

Nos últimos anos, especialmente após a imposição de restrições chinesas às exportações de terras raras para os Estados Unidos, Washington passou a considerar a dependência mineral um problema de segurança nacional. A resposta norte-americana incluiu investimentos públicos diretos, participação acionária estatal em empresas privadas e uma ofensiva internacional voltada à construção de cadeias alternativas de suprimento.

Nesse cenário, o Brasil transformou-se em alvo prioritário da estratégia estadunidense. A combinação entre reservas abundantes, relativa facilidade de extração e proximidade geográfica colocou o Brasil no centro do alvo para o abastecimento norte-americano.

As reservas brasileiras de terras raras representam cerca de um quarto das reservas mundiais conhecidas, mesmo com a menor parte do território nacional devidamente mapeada. Além disso, determinadas jazidas apresentam alto teor mineral e custos relativamente baixos de exploração, tornando-se extremamente atrativas para o capital internacional.

Apesar desse potencial, a estrutura mineral brasileira permanece organizada em torno da exportação de produtos primários. Desde os anos 1990, especialmente após as mudanças constitucionais promovidas durante o governo Fernando Henrique Cardoso, consolidou-se um modelo de abertura irrestrita ao capital estrangeiro e de estímulo à exportação mineral de baixo processamento. Modelo que foi integralmente mantido por todos os governos do PT. 

Nesse contexto foi aprovado o PL 2780 sobre as terras raras. Embora o governo sustente que o projeto cria incentivos para agregação de valor e fortalecimento industrial,  críticos como  o próprio Diógenes Breda, argumentam que a proposta aprofunda justamente o modelo exportador consolidado nas últimas décadas.

Entre os principais pontos criticados estão a ampliação de isenções fiscais para mineradoras, a flexibilização do licenciamento ambiental e a ausência de mecanismos efetivos de controle estatal sobre a cadeia produtiva. O projeto não estabelece limites relevantes ao capital estrangeiro nem cria instrumentos mínimos de participação pública direta na exploração mineral estratégica. É a perpetuação da mesma lógica que levou às privatizações de empresas como a Vale do Rio Doce, e que mostram seus efeitos mais destrutivos em Mariana e Brumadinho. 

As recentes declarações de Lula de que quer que Trump “se associe” ao Brasil na exploração de terras raras, afirmando ainda que “pode vir chinês, francês, alemão, japonês”, revela uma concepção marcada pelo extrativismo e pela abertura ao capital estrangeiro. O discurso do presidente nem mesmo se aproxima da defesa do controle nacional sobre recursos estratégicos, pelo contrário, aponta para a ampliação da presença de potências internacionais na exploração mineral brasileira, aprofundando a inserção subordinada do país nas cadeias globais de produção.

E isso também  representa uma nova ofensiva contra territórios indígenas e comunidades tradicionais. Em nome da “transição energética” e da produção de tecnologias consideradas estratégicas, vai crescer também a pressão e a busca para liberar projetos minerários em regiões ambientalmente sensíveis e ricas em recursos minerais.Segundo dados levantados pela APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e pelo Instituto Socioambiental (ISA) requerimentos ligados aos chamados “minerais críticos” já cercam 278 terras indígenas, 44% das terras indígenas do país. Ao acelerar e incentivar a exploração desses minerais, o PL 2780 aprofunda ainda essa ofensiva sobre territórios indígenas em nome da disputa geopolítica por recursos estratégicos.  O avanço desse modelo tende a ampliar conflitos de diversas ordens, com riscos de contaminação de rios e destruição ambiental, além de ameaçar modos de vida e territórios dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos. Na prática, a promessa desse tipo de desenvolvimento associada aos interesses imperialistas nada mais é do que a reprodução de uma lógica histórica de espoliação colonial, na qual o país exporta matéria-prima enquanto populações locais arcam com os impactos sociais e ecológicos da mineração.

Outro aspecto problemático apontado pelo professor e pesquisador refere-se à lógica dos incentivos econômicos. Como a exportação de produtos de baixo processamento já é altamente lucrativa e amplamente beneficiada por isenções tributárias, às empresas privadas teriam poucos estímulos reais para investir em etapas industriais mais sofisticadas, que exigem maior prazo para desenvolvimento e envolvem questões tecnológicas mais complexas. Em outras palavras, é o incentivo para exportação de matéria prima, sem qualquer estímulo para que o processamento se desenvolva nacionalmente. Daí a pronta negativa do governo Lula em desenvolver uma estatal para a exploração de terras raras, menos ainda de investimentos próprios em pesquisa para o desenvolvimento do refino e separação no Brasil. 

Nesse sentido, a expectativa de que o setor privado estrangeiro transfira espontaneamente tecnologia ao Brasil não passa de um conto de fadas. A experiência internacional demonstra justamente o contrário. Tanto China quanto Estados Unidos tratam minerais críticos como questão estratégica de Estado, utilizando mecanismos de proteção nacional, controle de investimentos e políticas industriais fortemente centralizadas.

O mito neodesenvolvimentista 

Diante de um recurso estratégico para o desenvolvimento industrial, a transição energética, a indústria militar, a inteligência artificial e a disputa entre China e Estados Unidos, o governo brasileiro esteve muito distante de qualquer tipo de medida minimamente soberana, ou mesmo neodesenvolvimentista, como propagam alguns de seus defensores. Ao contrário, respondeu com incentivos fiscais, abertura ao capital estrangeiro, flexibilização ambiental e subordinação às grandes mineradoras. Longe de uma suposta “resistência neodesenvolvimentista”, o que vimos foi aplicação não só como política de Estado, mas como política de governo do receituário clássico da submissão do país aos interesses do imperialismo que são chaves da estruturação do modelo neoliberal. Em outras palavras, a política do atual governo do PT não só não é capaz de romper com o modelo neoliberal, mas recondiciona e aprofunda sua manifestação concreta segundo as novas necessidades das disputas interimperialistas. 

É a luz desse debate que buscamos debater com a tese de Armando Boito Jr., segundo a qual o governo Lula 3 não seria neoliberal, mas neodesenvolvimentista. Boito sustenta que o neodesenvolvimentismo seria uma política defensiva de resistência ao que ele chama de “novíssima dependência”, situada entre o neoliberalismo puro e o desenvolvimentismo clássico. Para ele, os governos do PT não romperam com o modelo neoliberal, mas teriam procurado moderar seus efeitos por meio da combinação de políticas sociais, política externa ativa e algum grau de intervenção econômica. 

O problema dessa formulação é que ela transforma concessões parciais e retórica soberanista em sinais de um projeto neodesenvolvimentista, abstraindo aquilo que determina tanto os contornos da política de governo como seus efeitos na divisão internacional do trabalho. 

O caso das terras raras mostra o contrário. Quando colocado diante de uma oportunidade de modificar a posição subordinada do Brasil na divisão internacional do trabalho, o governo só operou dentro das diretrizes neoliberais, como a aprofundou. 

A crítica central não é que o governo Lula seja idêntico a Temer, Bolsonaro ou Milei. Bolsonaro e Milei encontram-se no campo do neoliberalismo mais agressivo, uma forma de ultra neoliberalismo que pretende atacar com todas as energias as políticas públicas e direitos sociais em benefício da máxima liberalização econômica, tudo isso envolto na ideologia mais asquerosa da extrema-direita alinhada a Trump. O efeito comparativo serve para criar um contraste sensível da forma de governar de cada um, o que por óbvio tem diferenciações de inúmeras ordens, mas que em última instância desloca o debate, ignorando aspectos fundamentais das definições sobre neoliberalismo, desenvolvimentismo e neodesenvolvimentismo. 

O fato de Lula manter programas sociais, negociar com os BRICS ou ter uma retórica de defesa de direitos não altera o núcleo da política macroeconômica. O eixo central segue sendo o respeito ao arcabouço fiscal, a prioridade ao equilíbrio das contas públicas, mantendo tripé macroeconômico neoliberal para o pagamento da dívida pública e a preservação da rentabilidade financeira.

Além das terras raras, a criação do Arcabouço Fiscal talvez seja a evidência mais clara de que o terceiro governo Lula não representa uma política de resistência ao neoliberalismo, mas sim uma atualização funcional de seus mecanismos de gestão. Se a manutenção das reformas que vieram com o golpe de 2016 são elementos neoliberais claros de acomodação a novas configurações de um regime mais agressivo contra os trabalhadores e o povo pobre, o Arcabouço Fiscal, idealizado pelo próprio PT, escancara isso. Embora apresentado como alternativa ao teto de gastos de Temer, o novo regime fiscal preservou e aprimorou seu  núcleo central  que tem como essência subordinar o investimento público, a expansão das políticas sociais e a própria capacidade de planejamento estatal à lógica da “credibilidade fiscal” perante o mercado financeiro. É a manutenção do equilíbrio fiscal como princípio estruturante do Estado, institucionalizando uma regra que limita estruturalmente sua própria capacidade de investimento. Além do mais, impõe limites prévios a qualquer projeto de reindustrialização, impossibilitado inclusive qualquer debate sério de desenvolvimento do refino das terras raras através de investimentos em desenvolvimento de tecnologia própria, o que exigiria volumes consideráveis de aportes. Digno de nota é a própria política industrial do governo Lula 3, marcada por um nível de fragilidade e inconsistência que beira a inexistência, algo admitido inclusive pelo próprio ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Sabemos que qualquer política minimamente séria de industrialização e soberania tecnológica enfrentaria a resistência agressiva do imperialismo, sendo a própria Operação Lava Jato um indício dos mecanismos que podem ser acionados para conter projetos que afetem interesses estratégicos do capital internacional. Por isso, do ponto de vista marxista, consideramos que apenas um proletariado fortemente organizado poderia reunir a força necessária para enfrentar o imperialismo, não depositando nenhuma confiança na possibilidade de que tal processo seja conduzido pelos limites da gestão do Estado burguês. No entanto, o ponto do debate aqui é outro: trata-se de demonstrar que, mesmo tomando como referência os critérios formulados por Armando Boito para definir um projeto neodesenvolvimentista, o governo Lula permanece muito distante de apresentar qualquer proposta concreta nessa direção, mantendo-se dentro dos marcos fundamentais da política econômica neoliberal.

Por isso, a diferença entre neoliberalismo agressivo e neoliberalismo com amortecedores sociais não deveria ser confundida com neodesenvolvimentismo sob pena de criar uma ficção, ou melhor, um mito que lance fumaça sobre a verdadeira política econômica do governo Lula 3. Em tudo o que é fundamental, a trilha do neoliberalismo segue muito bem demarcada, sem diques ou contenções. 

O caso das terras raras talvez seja o mais lapidar contra o argumento de Armando Boito Jr. sobre a política externa como evidência de um suposto neodesenvolvimentismo. Por outro lado, compor os BRICS e a retórica da multipolaridade não impediram que Lula se aproximasse mais de Trump. Pelo contrário. A política externa recente revelou um crescente movimento de acomodação e subserviência aos interesses norte-americanos em torno da reorganização das cadeias globais de suprimento. Ainda que o Brasil tenha uma dupla dependência em relação a China e EUA, essa dupla dependência é assimétrica devido ao histórico e influência do imperialismo estadunidense no país e em toda América Latina. 

As reuniões entre Lula e Trump, marcadas por declarações públicas de forte aproximação política e pessoal — nas quais Lula afirmou haver “amor à primeira vista” e que teria existido uma “química” imediata entre ambos — expressam justamente esse caráter. Mais do que declarações, é uma orientação que busca manter o Brasil como subsidiário dos interesses dos Estados Unidos. Não por acaso, a questão dos minerais críticos e das terras raras passou a ocupar papel central nas negociações bilaterais, e continuaram sendo tema estruturante da relação entre os dois países nos próximos anos. 

O momento também é oportuno para a avaliação se de fato o neodesenvolvimentismo, defendido por Boito, tensiona os limites do modelo neoliberal. Como buscamos demonstrar, a política das terras raras indica o contrário, ela não só se acomoda dentro desses limites como também os redefine. O mito neodesenvolvimentista desmorona justamente no terreno em que deveria demonstrar sua existência. No caso das terras raras — assim como no Arcabouço Fiscal, na preservação dos mecanismos de financeirização da dívida pública, no modelo de exploração do petróleo, na relação de submissão à autonomia do Banco Central e na manutenção das contrarreformas herdadas dos governos anteriores — o governo não estabelece qualquer antagonismo, limite, freio ou contenção substantiva do neoliberalismo. Ao contrário, sua política consiste em reorganizar e administrar o próprio modelo neoliberal diante das novas condições econômicas e geopolíticas, preservando seus fundamentos centrais enquanto busca conferir maiores contornos de estabilidade política e legitimidade social.

Longe de representar efetivamente uma contenção neoliberal, a pretensão de categorizar o governo Lula 3 como neodesenvolvimentismo tende a ignorar a inserção dependente do país no mercado mundial, para criar uma expectativa mítica de desenvolvimento econômico que possa conviver com a manutenção das estruturas históricas de subordinação ao imperialismo, e que portanto, comparativamente à governos como o de Milei, pode ser benéfica. Em palavras simples, é buscar a construção de apoio político ao projeto de país do PT, como uma possibilidade progressista diante de um neoliberalismo cada vez mais agressivo, sem notar que é essa própria política que retroalimenta os agentes mais ativos dessa agressividade, já que justamente mantém as bases do neoliberalismo e do capitalismo brasileiro que produzem os fenômenos de extrema direita. 

Nas palavras do próprio Boito, o neodesenvolvimentismo é concedido “como o desenvolvimentismo possível dentro do modelo capitalista neoliberal.” E mais importante ainda é a conclusão do autor de que “[...] no limite, essas variações dentro do modelo podem se converter, dependendo da situação política, numa política de superação do próprio modelo”. Em outras palavras, a depender da situação, o neodesenvolvimentismo poderia ser uma etapa na superação do próprio neoliberalismo, sendo portanto, uma possibilidade desejável, um programa político e econômico que poderia em algum sentido representar uma saída para a devassa neoliberal. 

É aqui que entra a qualificação intermediária do neodesenvolvimentismo, que não está nem no polo desenvolvimentista, nem no polo neoliberal. A olhos nus, não teria cabimento a defesa de alguma forma desenvolvimentista do atual governo. Por outro lado, atribuir apenas a Milei, Bolsonaro e Temer a égide neoliberal, ainda que com distinções próprias, está em função de eleger um meio termo, que sem negar a manutenção de esse tipo de modelo, o relega a um traço do próprio Estado, isentando a política do governo em aspectos fundamentais. 

Além do mais, fica assinalado, ainda que não desenvolvido, interesses de frações de classes que poderiam estar por detrás de cada uma dessas variantes. Tomado dessa forma, e pela tradição teórica à qual o autor se vincula, é possível afirmar que ele deposita expectativas na fração burguesa que, ao menos em determinadas circunstâncias, poderia sustentar uma política neodesenvolvimentista, ou, em outras palavras ser a “força dirigente da frente neodesenvolvimentista”, como ele mesmo afirmou em outros momentos. 

Para que o leitor entenda o debate, de maneira didática, Boito faz uma distinção entre a grande burguesia associada ao capital imperialista e financeiro internacional, mais diretamente integrada às cadeias globais de acumulação e a burguesia interna, composta por setores mineração, construção pesada, agronegócio, a indústria de transformação e grandes bancos de capital predominantemente nacional, que, embora também dependentes do capital internacional, buscariam melhores condições de competição e expansão no mercado interno. 

A polêmica reside precisamente no fato de que essa caracterização tende a atribuir à burguesia interna um potencial progressivo ou, ao menos, contraditório diante do imperialismo. Nossa divergência é que a experiência histórica recente demonstra que nenhuma dessas frações esteve disposta a sustentar um projeto de desenvolvimento que implicasse confrontar os interesses estratégicos do capital financeiro e das grandes potências, preferindo reiteradamente acomodar-se às exigências da ordem neoliberal. Agora em particular, o tema das terras raras reforça a contradição desse tipo de concepção. Foi justamente parte desse setor, assim denominada burguesia interna, que cumpriu um papel político para que os interesses dos EUA fossem mantidos, preservados e ampliados, expresso nos contornos em que se desenhou o PL das terras raras. 

Conclusão

Diante desse cenário, uma saída verdadeiramente soberana para a questão das terras raras exigiria romper com a lógica de subordinação ao capital internacional, ao modelo extrativista e neoliberal. Isso passa pela imediata estatização da Serra Verde e pela criação de uma empresa estatal de terras raras, articulada a um amplo programa de desenvolvimento científico, tecnológico e industrial capaz de garantir domínio nacional sobre toda a cadeia produtiva desses minerais estratégicos. Nesse sentido, é fundamental restabelecer o controle estatal e o monopólio público sobre a exploração desses recursos, revertendo as medidas implementadas nos anos 1990 que abriram o subsolo brasileiro e os bens naturais ao capital privado e estrangeiro em nome das privatizações e da liberalização econômica. Um projeto dessa magnitude, entretanto, precisa questionar os limites impostos pelo Arcabouço Fiscal, pelos mecanismos de transferência de recursos ao sistema financeiro através da dívida pública e pela própria lógica de austeridade permanente que condiciona os recursos brasileiros. 

Ao mesmo tempo, essa estatal não poderia reproduzir o modelo tradicional de gestão subordinado a acionistas privados, interesses governamentais ou acordos com multinacionais. Seu controle deveria estar nas mãos dos trabalhadores do setor, pesquisadores das universidades públicas, técnicos especializados, movimentos ambientalistas e representantes dos povos diretamente afetados pela mineração, como indígenas, quilombolas e comunidades ribeirinhas. Somente um controle social dessa natureza poderia estabelecer um modelo que não estivesse baseado na devastação ambiental, na expulsão de comunidades e na destruição de territórios, mas sim na preservação ecológica e na garantia dos direitos dos povos originários e tradicionais.

Entretanto, uma política dessa natureza inevitavelmente entraria em choque com os interesses do imperialismo e dos grandes monopólios internacionais que disputam o controle global dos minerais críticos. Ao mesmo tempo esses interesses seriam defendidos por seus representantes nacionais, diretos e indiretos, e não viria de qualquer fração da burguesia brasileira, historicamente e estruturalmente dependente do imperialismo, um projeto em defesa dos interesses nacionais. Por isso, é necessário retomar o debate sobre qual é o sujeito social capaz de enfrentar o imperialismo e a partir dele construir uma força social capaz de unificar trabalhadores, movimentos populares, setores ambientais e organizações indígenas em torno de uma campanha nacional unitária sob a consigna de que “as terras raras são nossas”. Ao contrário de semear expectativas em saídas que se apoiem em frações burguesas supostamente neodesenvolvimentista, acreditamos que mobilização independente da classe trabalhadora, em aliança com os setores explorados e oprimidos do país, pode abrir caminho para enfrentar os interesses imperialistas e disputar um projeto de país onde os bens naturais estejam a serviço dos interesses das grandes maiorias e da preservação ambiental, em choque com toda arquitetura neoliberal que emolduram o conjunto das relações estatais e produtivas no Brasil.