Confrontos no Estreito de Ormuz: por que Trump não consegue sair da guerra no Irã?
Artigo publicado originalmente em espanhol no dia 10/07/2026 no Ideas de Izquierda Argentina.
Pela segunda vez desde a assinatura do chamado Memorando de Entendimento, Estados Unidos e Irã estão deslizando para um confronto militar aberto. É verdade que a trégua estabelecida em 17 de junho sempre foi frágil e precária, ameaçada por escaramuças militares de baixa intensidade. Em particular pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que mantém aberta a frente de guerra no Líbano contra o Hezbollah e não se conforma em ser o grande derrotado de uma guerra da qual o Irã saiu estrategicamente fortalecido.
Mas, diferentemente das trocas de fogo dos últimos meses, que permaneciam abaixo do limiar da guerra, os incidentes militares iniciados em 7 de julho representam, até o momento, o questionamento mais sério à continuidade das negociações.
A sequência começou com o ataque do Irã a três navios comerciais. Em resposta, os Estados Unidos bombardearam cerca de 85 alvos, incluindo instalações da Guarda Revolucionária, e suspenderam o levantamento das sanções sobre as exportações de petróleo iraniano. O regime persa respondeu com uma chuva de drones e mísseis contra bases norte-americanas no Kuwait, Bahrein e Catar.
O estopim imediato dessa nova escalada é o controle do Estreito de Ormuz, que se transformou no centro de gravidade da guerra e também de um eventual acordo de paz, no qual o Irã pretende capitalizar sua vitória e transformá-la em uma fonte substancial de receitas para os cofres do Estado por meio da cobrança de pedágios. O poder de veto do Irã sobre a circulação em uma das principais rotas do comércio internacional é o símbolo vivo, incontornável e permanente da derrota estratégica sofrida pelos Estados Unidos em sua mais recente aventura bélica no Oriente Médio. Isso significa que o imperialismo norte-americano não pode simplesmente retirar-se do conflito e fingir que nada aconteceu. Trata-se de uma guerra com impacto sobre a geopolítica global (e provavelmente sobre a luta de classes) no curto, médio e longo prazo.
Os 14 pontos do memorando podem ser bastante gerais e estar sujeitos a interpretações (qual é, concretamente, o significado do "melhor esforço do Irã" para abrir o Estreito de Ormuz?), mas o problema não é semântico: trata-se da correlação de forças. E, nesse terreno, o Irã leva vantagem. Mais de dois meses de bloqueio naval norte-americano — descartada a opção militar — não foram suficientes para obrigar o Irã a reabrir essa rota marítima vital para o comércio internacional. Além disso, no balanço geral, o bloqueio causava mais danos à economia internacional — em especial aos aliados asiáticos dos Estados Unidos — do que ao próprio regime iraniano.
Sem alcançar nenhum de seus objetivos, nem pela guerra nem pelo bloqueio, Trump está utilizando a janela de 60 dias prevista no memorando para buscar uma forma de enfraquecer a posição do Irã e de seus aliados regionais, reduzindo o peso da reivindicação do regime iraniano sobre a administração do tráfego no Estreito de Ormuz — um problema que sequer existia antes da guerra. Está claro que o acordo nuclear ficou para etapas posteriores das negociações, caso elas avancem.
A manobra norte-americana consistiu em habilitar um corredor alternativo no estreito, próximo à costa de Omã, e incentivar a circulação pela chamada "rota omanense".
Essa disputa, que sintetiza a correlação de forças deixada pela guerra, levou o Irã a atacar três navios comerciais que, com o aval norte-americano, pretendiam atravessar o estreito sem autorização do regime iraniano.
O início dessa nova escalada militar coincidiu com a participação de Trump na tensa cúpula da OTAN em Ancara, na qual, diga-se de passagem, ele promoveu uma nova inflexão na guerra da Ucrânia e, diante do fracasso do diálogo com Putin, voltou a oferecer certo apoio a Zelensky.
Fiel ao seu estilo, Trump — que vinha ameaçando seus aliados europeus com a anexação da Groenlândia e não parava de provocar sua antiga aliada Giorgia Meloni — declarou que considerava o Memorando encerrado e que negociar com os líderes iranianos (que passaram de "racionais" a "escória" e "lixo") era perda de tempo. Ao mesmo tempo, porém, afirmou que não acreditava em uma volta à guerra e que havia autorizado os negociadores norte-americanos a prosseguir com o diálogo.
A pergunta de um milhão de dólares é se essa nova rodada de ataques e represálias levará ao restabelecimento de um cenário de guerra aberta ou se se trata de mais uma encenação de Trump, que, em seu segundo mandato, parece ter entrado em um ciclo de ameaças e recuos, motivo pelo qual ganhou o apelido de TACO (sigla em inglês para Trump Always Chickens Out, algo como "Trump sempre amarela"). Não há uma resposta definitiva e, embora existam argumentos consistentes que tornem menos provável um retorno à guerra, todas as hipóteses permanecem em aberto.
Se Trump acaba sendo um TACO, isso não se deve tanto à sua personalidade bufonesca e instável — que, sem dúvida, influencia e revela a decadência da classe dominante norte-americana —, mas aos limites evidentes do poder do imperialismo dos Estados Unidos. E também porque, como o próprio Trump admitiu, ele não queria entrar para a história como Herbert Hoover, ou seja, como o responsável por outra Grande Depressão como a de 1930, tendo em vista o impacto da guerra contra o Irã sobre a economia mundial.
Trump assinou o Memorando de Entendimento porque não dispunha de alternativas melhores para sair da armadilha estratégica em que se meteu ao envolver-se em uma "guerra de escolha" contra o Irã, possivelmente influenciado por Netanyahu, com a hipótese simplista de que seria possível promover rapidamente uma "mudança de regime". Depois dos primeiros 40 dias de guerra aérea e do estabelecimento do cessar-fogo em 8 de abril, ficou claro que uma escalada militar não fazia parte do leque de opções do presidente norte-americano. A guerra é altamente impopular nos Estados Unidos, inclusive entre setores da própria base eleitoral republicana, e seus efeitos recaem diretamente sobre a população na forma de inflação, algo que muito provavelmente acabará punindo Trump nas urnas, levando-o à derrota nas eleições de meio de mandato do próximo mês de novembro.
A instabilidade da trégua e a incerteza quanto ao futuro das negociações são consequências lógicas da correlação de forças. Trump está tentando maquiar a derrota estratégica sofrida em uma guerra que não foi herdada de administrações anteriores — como as do Afeganistão, do Iraque ou mesmo a da Ucrânia, que é uma guerra por procuração (proxy) dos Estados Unidos e da OTAN —, mas que é de sua própria responsabilidade. Para isso, procura utilizar o poderio militar sem cair na armadilha das "guerras eternas", isto é, guerras que o imperialismo norte-americano sabe que não pode vencer, mas nas quais investe cada vez mais recursos militares, financeiros e humanos para melhorar sua posição e evitar derrotas retumbantes. Foi esse o caso do surge promovido por George W. Bush no Iraque, da estratégia de contrainsurgência de Obama no Afeganistão e, anteriormente, da teoria do "louco" (madman theory) de Nixon no Vietnã, que consistia em transmitir ao inimigo a mensagem de que estava disposto a tudo para tentar dissuadi-lo. Evidentemente, Nixon jamais cogitou fazer ameaças públicas para depois recuar, como faz Trump.
O regime iraniano está determinado a sobreviver. Após o assassinato do aiatolá Ali Khamenei e da alta cúpula da liderança política e militar no início da guerra, o centro de gravidade do poder estatal passou para a Guarda Revolucionária e, em particular, para os generais que assumiram a condução do conflito. A República Islâmica atravessa uma transição para um regime mais militar e nacionalista do que teocrático, embora, para ser mais preciso, o caráter nacionalista seja a herança ainda preservada da revolução operária e popular de 1979, que teve um profundo conteúdo anti-imperialista e democrático.
Entretanto, esse fortalecimento pode ser apenas conjuntural. A economia iraniana está debilitada por décadas de sanções e isolamento internacional. A guerra destruiu grande parte de sua infraestrutura civil, industrial e comercial, o que, sem dúvida, resulta em aumento do desemprego, da pobreza e do custo de vida.
A deterioração das condições de vida foi o motor do maior movimento de protestos dos últimos anos, iniciado não pelas classes médias urbanas opositoras ao regime em razão de seu caráter opressivo e reacionário, mas pelos bazaris, a base social tradicional dos aiatolás. O regime superou esse desafio desencadeando uma repressão brutal — que prosseguiu durante e após a guerra —, consolidando assim sua unidade interna.
O funeral de Khamenei, ao qual compareceram milhões de pessoas, constituiu sem dúvida uma demonstração de força tanto interna quanto externa. Foi um espetáculo político itinerante que durou seis dias, percorreu mais de 2.500 quilômetros e estendeu-se até o Iraque. O momento escolhido fala por si só sobre as ambições regionais do regime iraniano. O primeiro-ministro iraquiano, Ali al Zaidi, prepara-se para viajar a Washington, a convite de Trump, com uma agenda que inclui a cooperação bilateral e o desmantelamento das milícias islâmicas xiitas.
Isso não significa, contudo, que esse novo regime em formação esteja blindado. O próprio funeral evidenciou as divisões entre o setor que subscreveu o acordo e defende uma saída diplomática, representado pelo presidente M. Pezeshkian, pelo presidente do Parlamento, M. Ghalibaf, e pelo ministro das Relações Exteriores, A. Araghchi; e a ala dura do regime, que rejeita o Memorando de Entendimento com os Estados Unidos e pressiona pela continuidade da guerra contra o "Grande Satã" (e também o "Pequeno Satã", isto é, Israel). Essa divisão no topo do regime também atravessa sua base social, com um setor que compareceu ao funeral empunhando a bandeira vermelha da vingança e entoando incessantemente gritos de "morte aos traidores" e outras palavras de ordem pouco amistosas dirigidas ao presidente e seu círculo político.
M. Khamenei, que herdou o posto do pai mais pelo sobrenome do que por credenciais próprias, procura equilibrar-se entre essas duas frações: rejeitou publicamente o Memorando de Entendimento e, no mesmo ato, autorizou o presidente e os demais negociadores a conduzirem as negociações. Dessa forma, preserva-se politicamente diante de um eventual fracasso do processo de paz.
Em uma entrevista recente, Robert Pape (um acadêmico vinculado à corrente realista das Relações Internacionais) sustenta que, em razão da capacidade de resistência do regime diante dos ataques dos Estados Unidos e de Israel e da vantagem estratégica obtida com o controle do Estreito de Ormuz, o Irã estaria emergindo da guerra como um "quarto centro de poder mundial", ao lado dos Estados Unidos, da Rússia e da China. No entanto, uma comparação, ainda que superficial, com o imperialismo norte-americano ou com potências emergentes como a China (e até mesmo a Rússia), que dominam a economia mundial, dispõem de armamento nuclear e contam com enorme poderio militar, basta para demonstrar que o Irã continua sendo um país dependente, ainda que viesse a controlar o tráfego pelo Estreito de Ormuz.
Nós socialistas estivemos e continuamos pela derrota militar dos Estados Unidos e de Israel na guerra contra o Irã e seguimos sustentando que essa derrota do imperialismo, do Estado sionista que vem perpetrando um genocídio em Gaza e de seus aliados, ainda que fortaleça conjunturalmente um regime reacionário como o iraniano, favorece estrategicamente a luta dos explorados e oprimidos. Isso, porém, não significa conceder apoio político ao regime iraniano, que não apenas reprime seu próprio povo, como tampouco constitui uma força consistentemente anti-imperialista, mas aspira melhorar sua posição e integrar-se em condições mais favoráveis ao sistema internacional existente.
A beligerância de Trump não é expressão da força, mas da crise do imperialismo norte-americano, no contexto da crescente disputa com a China e das tendências ao militarismo e ao belicismo, também manifestadas no rearmamento das potências europeias. A derrota estratégica sofrida no Irã não apenas aprofunda o declínio hegemônico dos Estados Unidos, como tende, em perspectiva, a enfraquecer também seus aliados e governos subordinados, como o governo Milei e os governos da extrema direita pró-imperialista da América Latina.