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Como foi a Revolução Boliviana de 1952?

Por Claudia Ferri |
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Esse artigo foi publicado originalmente em espanhol no dia 19 de maio de 2026 no La Izquierda Diario Argentina

A crise atual pela qual passa a Bolívia, somada à força operária e popular que vem ocupando as ruas contra o governo, traz à memória este fato histórico pouco conhecido hoje.A profunda crise que a Bolívia atravessa põe em xeque o governo de ajuste de Rodríguez Paz Pereira. Houve barricadas, mobilizações e confrontos com as forças policiais, enquanto trabalhadores, camponeses e estudantes ganham força e protagonismo. Essa combatividade emergente não é nova, mas sim fruto da história operária e popular boliviana. Há 74 anos, operários e mineiros pegaram em armas e venceram todo um exército nacional na maior revolução ocorrida até hoje na América do Sul.

O que acontecia na Bolívia nesses anos?

No início dos anos 50, havia um governo militar que defendia os interesses dos empresários mineiros, conhecidos como os "barões do estanho". Era um regime oligárquico, machista e racista, onde apenas votavam os homens que sabiam ler e escrever — o que correspondia a apenas 10% da população de 2.000.000 de habitantes.

Os trabalhadores e os setores populares vinham enfrentando os militares e resistindo à repressão com greves e manifestações de rua. Quem estava na liderança desse movimento eram os mineiros, uma força poderosa devido ao seu contingente e ao poder que detinham no processo produtivo, em uma economia onde a mineração era uma área jurídica chave. Além disso, eles tinham acesso à dinamite.

As Teses de Pulacayo

Não podemos deixar de mencionar a influência das Teses de Pulacayo, um documento importantíssimo do ano de 1946. Ele dizia que os trabalhadores precisavam ter independência política — ou seja, não confiar nos partidos políticos tradicionais —, lutar pela nacionalização das minas (mas sob o controle dos próprios mineiros) e também armar-se para enfrentar a repressão. O texto foi escrito por Guillermo Lora, que era dirigente trotskista do Partido Operário Revolucionário, e foi aprovado na votação de um Congresso de trabalhadores mineiros.

Chegamos ao ano de 1951. Houve eleições e o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), que era um partido burguês e nacionalista, venceu. Os militares não quiseram entregar o governo e deram um "autogolpe", formando uma Junta Militar presidida pelo General Ballivián. Em 1952, a crise política e social era imensa. Além disso, sentimentos de revolta e indignação se espalharam devido à derrota da Bolívia na Guerra do Chaco. Tudo isso levou a uma conspiração para realizar um golpe. Por trás disso, estavam alguns funcionários da ditadura, chefes policiais e militares, e dirigentes do MNR. A ideia era que, na madrugada de 9 de abril, o golpe fosse realizado de forma rápida e eficaz, mas a oposição do alto comando militar fez com que essa tentativa fracassasse.

O movimento operário boliviano não apenas repeliu o golpe, mas passou à ofensiva com o objetivo de derrotar todo o regime oligárquico. Naquele 9 de abril, das minas e fábricas saíram grupos armados, improvisando milícias que enfrentaram um exército regular.

Em La Paz, os combates começaram. Ali, garantiram armas e prenderam os militares. Muitos trabalhadores tinham experiência no manejo de armas por serem veteranos da Guerra do Chaco; alguns foram líderes naturais do levante. As mulheres estavam na retaguarda, organizando o abastecimento das tropas e atuando como enfermeiras.

O Exército foi perdendo nos diversos confrontos. Entrincheirou-se na Base Aérea de El Alto e bombardeou Villa Victoria, com a intenção de descer para La Paz.

Ao que acontecia na capital boliviana, somaram-se os mineiros de Milluni, que decidiram em assembleia marchar a pé em dois grandes grupos: um desceu em direção a Villa Victoria e outro foi para El Alto para se unir ao povo alteño.

No dia 11 de abril, os mineiros conseguiram capturar um trem com munições e armamentos. Além disso, contavam com armamento pesado, e por isso lançaram-se ao ataque. As vitórias apenas elevavam a moral do povo. Na batalha de El Alto, os revolucionários avançaram com dinamites, fuzis e pistolas, subindo até a zona onde estavam os militares, e venceram-nos.

Mais mineiros se somaram. Mais combates foram travados em outras cidades. Em Oruro, os últimos regimentos "leais" foram derrotados puramente à base de dinamitazos (ataques com dinamite).

A revolução não aconteceu apenas nas cidades: ela se expandiu para o campo com uma velocidade própria daqueles tempos. Os povos originários enfrentaram os latifundiários, símbolos de séculos de exploração e opressão.

Em apenas dois dias, o regime oligárquico boliviano deixou de existir e as massas se tornaram as protagonistas do cenário político e social — praticamente a única força que permaneceu armada.

Mas o que aconteceu depois? Os trabalhadores bolivianos fizeram a revolução, mas não ficaram com o governo. Quem assumiu o poder foi o MNR, com Paz Estenssoro como presidente após retornar do exílio. Ele concentrava em sua figura muitas expectativas das massas que haviam se levantado.

Ao mesmo tempo em que isso acontecia, no dia 17 de abril foi criada a Central Operária Boliviana (a COB). Foi ela quem organizou os sindicatos e as milícias operárias formadas no calor da revolução.

O papel da COB 

A COB trazia consigo uma armadilha. Ela era muito poderosa e grande, chegando a expressar situações de "duplo poder" — no sentido de que, por possuir milícias armadas que haviam derrotado o exército, de certa forma começava a assumir tarefas de um Estado. No entanto, por ser liderada pela burocracia sindical filiada ao MNR (ou seja, ao novo governo), acabou se integrando a ele como uma espécie de “ministros operários” consultores. Isso conteve o processo revolucionário em vez de expandi-lo. O acordo entre o MNR e a COB expressava, em última análise, uma colaboração de classes, algo muito diferente do que propunham as Teses de Pulacayo. Por isso, o processo acabou sendo desviado para dentro das margens legais.

O governo do MNR conseguiu reconstruir o Exército e selou acordos com os Estados Unidos. Houve concessões importantes, que foram necessárias para acalmar a insurgência. Por exemplo, as minas foram nacionalizadas, embora os seus antigos donos tenham sido indenizados.

Também foi desenvolvida uma reforma agrária, mas de caráter limitado. Ela foi implementada mais por uma necessidade de legalizar uma série de medidas que já estavam acontecendo na prática, como a ação de milhares de camponeses que tomaram terras, sobretudo na região de Cochabamba.

Além disso, foi necessário instituir o voto universal e o voto feminino. O regime do MNR utilizou essa medida para se legitimar no poder. Também nomeou operários para cargos públicos individuais, buscando desmantelar uma reivindicação histórica que era o controle operário — ou seja, que os próprios trabalhadores controlassem a produção.

O MNR mostrou sua verdadeira face alguns anos após a revolução. Em 1956, firmou planos de ajuste com o FMI. Anos mais tarde, e não sem uma resistência operária significativa, a derrota acabou de se consolidar com o golpe militar do general Barrientos em 1964.

Infelizmente, a alternativa de esquerda, que era o POR, atuou apenas como o “conselheiro de esquerda” da burocracia sindical e do MNR. Nunca tentou seriamente ganhar a liderança das massas operárias e camponesas, a começar pelos mineiros, onde tinham um peso importante no início da revolução.

A lição histórica 

Diferente do que aconteceu na Revolução Russa, quando esse duplo poder começava a se manifestar e a palavra de ordem lançada foi "todo o poder aos sovietes", na Bolívia faltou impulsionar a ideia de “Todo o poder à COB!”. Um caminho de independência política que colocasse de pé uma república operária e camponesa, expropriando os grandes capitalistas e se tornando independente do imperialismo; despertando, assim, a simpatia e a solidariedade de muitos outros povos oprimidos.

Na Revolução Boliviana houve espírito de sacrifício, coragem e combatividade. Também houve armamento e milícias operárias. O que faltou foi um partido revolucionário que organizasse todas as forças, em vez de entregar o poder ao governo dos empresários.

A revolução boliviana foi realmente enorme, estourou no coração da América do Sul e suas conclusões continuam tendo plena vigência em um mundo onde o sistema capitalista não tem mais nada a oferecer — como se pode ver com a crise profunda e grave que o país atravessa.

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