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Fúria Épica, fracasso épico: seis meses de guerra contra o Irã

Por Claudia Cinatti |
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Artigo publicado originalmente em espanhol no dia 30/08/2026 no Ideas de Izquierda Argentina

No mundo de Donald Trump, a “Operação Fúria Épica” — o codinome da guerra de agressão contra o Irã que lançou junto com Israel — seria uma intervenção militar rápida e relativamente de baixo custo, uma oportunidade para mostrar força e, assim, contrabalançar o declínio inegável do poderio estadunidense. O antecedente da operação militar na Venezuela, que em apenas 3 horas terminou com o sequestro de Nicolás Maduro e a transformação do regime chavista em mero gestor de um protetorado norte-americano, alimentou o triunfalismo fácil que caracteriza o ocupante mais narcisista que a Casa Branca já teve.

Na madrugada de 28 de fevereiro, Trump apareceu em um vídeo pré-gravado, com seu infalível boné MAGA, para anunciar que, junto com Israel, estava levando novamente os Estados Unidos a uma guerra de escolha no Oriente Médio. Na ausência de um casus belli incontestável, como uma agressão iraniana contra a potência norte-americana, Trump apresentou justificativas vagas, alegando uma ameaça iminente e ressuscitando a desastrosa estratégia das “guerras preventivas”, que acabou nada menos que no pântano do Iraque e do Afeganistão.

Segundo Trump, o “maior ataque de todos os tempos” (qualquer semelhança com a retórica de Milei é mera coincidência) supostamente provocaria o colapso da República Islâmica do Irã (mudança de regime) nas primeiras horas, além da destruição de seu arsenal de mísseis e de seu programa nuclear. No papel, o plano era proclamar o famoso mission accomplished e se retirar, evitando assim entrar em outra guerra eterna no Oriente Médio. No máximo, a Operação Fúria Épica duraria quatro semanas. Sem baixas, sem tropas no terreno. Aparentemente, só haveria ganhos.

Para Netanyahu, isso significava concretizar a antiga ambição político-militar de que finalmente os Estados Unidos entrassem em uma guerra direta contra o Irã, seu principal inimigo regional, que Israel não consegue derrotar sozinho com seus próprios meios, como já havia ficado claro na chamada “guerra dos 12 dias”, em junho de 2025. O interesse de Bibi é mais prosaico: tem a ver com sua precária situação interna às vésperas da crucial eleição de 27 de outubro, na qual estão em jogo seu cargo e também sua liberdade.

No início da guerra, houve uma espécie de divisão do trabalho entre os parceiros Trump-Netanyahu: Israel se dedicou a fulminar a liderança política, militar e religiosa iraniana, começando pelo aiatolá Ali Khamenei, o primeiro chefe de Estado assassinado pelo Estado sionista. O Pentágono bombardeou a infraestrutura militar e estratégica, além de outros alvos “brandos”, como uma escola para meninas, um “dano colateral” atribuído às informações equivocadas da inteligência artificial.

Restava apenas esperar o colapso do regime iraniano, uma promessa da inteligência israelense baseada em uma visão simplista que, segundo veio a público posteriormente, praticamente ninguém compartilhava — nem a Casa Branca, nem o Pentágono, nem a CIA. Inclusive, vários assessores e funcionários advertiram o óbvio: que o Irã poderia fechar o estreito de Ormuz. Mas Trump ignorou o alerta porque comprou a fantasia de que o blitzkrieg inicial sequer daria tempo para a teocracia governante reagir.

Politicamente, o principal opositor foi ninguém menos que o vice-presidente, J. Vance, que advertiu que a guerra acabaria fraturando a coalizão eleitoral trumpista, colocando os chamados “America Firsters” contra a ala MAGA da direita republicana. Foi exatamente o que acabou acontecendo, com uma ruptura estrondosa de figuras como a congressista Marjorie Taylor Greene e o ex-apresentador da Fox News Tucker Carlson, que fez uma autocrítica por ter feito campanha para Trump e, depois de romper com o GOP, passou a defender a construção de um “terceiro partido”. O processo pouco institucional pelo qual Trump decidiu levar os Estados Unidos a uma guerra perdida contra a opinião de praticamente todo o establishment estatal é narrado em detalhes no capítulo final do livro Regime Change: Inside the Imperial Presidency of Donald Trump, de Maggie Haberman e Jonathan Swan. Ambos jornalistas do The New York Times, já haviam divulgado anteriormente, no jornal, os detalhes das reuniões na Sala de Situação, nas quais, segundo relatam, Netanyahu e o chefe do Mossad “venderam” uma realidade considerada “farcical” (isto é, ridícula) pela CIA e diretamente “bullshit” pelo secretário de Estado, Marco Rubio.

Sem clareza estratégica nem objetivos políticos precisos — o ABC da condução de uma guerra —, era de se esperar que nada saísse de acordo com o plano. Depois de 40 dias de guerra aérea, a prioridade exclusiva de Trump passou a ser reabrir o estreito de Ormuz, um problema que não existia antes da guerra e que afeta a economia global.

O objetivo já não é a “rendição incondicional” do regime iraniano, algo que está claro que não vai acontecer, e provavelmente tampouco a eliminação do programa nuclear, mas fazer a situação retroceder ao dia 27 de fevereiro, o que, a esta altura, parece uma missão impossível.

Trump proclamou os Estados Unidos vencedores na guerra contra o Irã cerca de 39 vezes: a primeira nos dias iniciais; a última, por volta do aniversário de seis meses do início do conflito, quando o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou a “Operação Pária Econômico”, uma confissão de que o imperialismo não dispõe de opções militares válidas e voltou à política tradicional de pressão econômica in extremis para melhorar os termos da negociação, que até agora continua favorável ao Irã.

Esse plano, que a Casa Branca compara ao “Dia D”, provavelmente tampouco permitirá aos Estados Unidos obter aquilo que não conseguiram no campo de batalha. Essa visão pessimista é compartilhada por vários analistas, entre eles N. Swanson — que foi funcionário de Biden e negociador com o Irã na equipe de Trump —, que, em uma nota publicada na Foreign Affairs, sustenta que o fracasso está inscrito na própria dinâmica da guerra, que debilitou a capacidade de pressão sobre o Irã por um período histórico que excede em muito a presidência de Trump.

O sucesso da “operação pária” baseia-se na ideia peregrina de que o mundo inteiro — incluindo aliados ressentidos e rivais fortalecidos — estaria disposto a ajudar os Estados Unidos a estrangular a economia iraniana, sob a ameaça de um sistema de sanções tão draconiano quanto difícil de sustentar, dado que Washington não tem capacidade de impor essas sanções secundárias à China, principal parceiro econômico do Irã, que já rejeitou categoricamente a pretendida ingerência em seus negócios.

Por outro lado, Trump não é indiferente ao impacto que essas sanções poderiam ter sobre a economia global e doméstica. Como disse no momento da assinatura do Memorando de Entendimento com o Irã, sua “linha vermelha” é se transformar no Herbert Hoover do século XXI.

Passados seis meses, e com as consequências à vista, já não há dúvidas de que a guerra contra o Irã é um “desastre épico” para os Estados Unidos e para a administração Trump, que deixou pedaços de sua popularidade pelo caminho. Com honrosas exceções de jornalistas amigos e de algum outro falcão anacrônico, o balanço de “derrota estratégica” é compartilhado por analistas do mainstream, sejam eles neoconservadores, como R. Kagan, militantes tradicionais do establishment, como R. Haass, ou representantes das diferentes vertentes da escola realista, como J. Mearsheimer.

Um breve balanço de alguns dados levantados pela rede Al Jazeera ajuda a dar valores concretos a essa derrota. Alguns pontos destacados no relatório são: 1) Estados Unidos e Israel realizaram cerca de 3.580 ataques contra o Irã desde 28 de fevereiro. Mas, no mesmo período, o Irã respondeu com 2.053 ataques, principalmente contra aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico e no Oriente Médio. Vale lembrar que, como parte dessa estratégia defensiva de “escalada horizontal” do Irã, as bases norte-americanas no Kuwait, Qatar, Arábia Saudita, Bahrein e Jordânia ficaram inoperantes.2) Os navios comerciais que circulam pelo estreito de Ormuz caíram de 100 para 5 por dia, em média.3) Segundo Peter Hegseth, secretário da Defesa (ou da Guerra, como Trump prefere chamá-lo), o custo da guerra até julho chegava a US$ 37,5 bilhões, mas o valor real é sensivelmente maior: alguns meios de comunicação informam que a estimativa interna do Pentágono oscila entre US$ 80 bilhões e US$ 100 bilhões.4) O preço do petróleo subiu 22% em relação aos valores anteriores à guerra, com picos que ultrapassaram os US$ 120 por barril, em um mercado de alta volatilidade.5) As reservas estratégicas de petróleo dos Estados Unidos caíram mais de 40%, atingindo seu nível mais baixo desde 1982. A tendência se repete em outros países, incluindo a China. A guerra contra o Irã colocou em evidência uma vulnerabilidade que até agora permanecia relativamente oculta, embora a dupla pressão da guerra na Ucrânia e em Gaza já tivesse colocado o risco de uma sobrecarga da capacidade norte-americana. Apesar de seu formidável orçamento militar e de sua máquina de guerra, os Estados Unidos enfrentam uma crise provocada pela escassez de munições e armas de alta precisão, o que os coloca em uma posição inédita de vulnerabilidade caso tenham de enfrentar outras crises — e muito mais ainda se uma delas envolver a China. Segundo uma análise militar do Council on Foreign Relations de agosto, a Operação Fúria Épica dizimou os estoques do Pentágono. Alguns exemplos ilustram a situação crítica: o número de interceptadores Patriot caiu de 1.500 para 830; foram consumidos 40% dos interceptadores de mísseis balísticos e praticamente esgotado o estoque de mísseis táticos. A reposição desse arsenal levaria entre dois e seis anos. Além disso, os Estados Unidos perderam 25% dos drones MQ-9 Reaper — cujo custo supera US$ 30 milhões por unidade —, a maioria derrubada por drones iranianos baratos e de fácil produção. A isso se somam outros infortúnios, como as condições deploráveis, quase de Terceiro Mundo, do porta-aviões Abraham Lincoln e de sua tripulação.

Diante dessa situação crítica, a Casa Branca teve que transferir recursos da Ásia e da Europa para o Oriente Médio. Entre outras coisas, esse é um elemento central para explicar por que Trump recuou da escalada militar depois da queda do Memorando de Entendimento.

A guerra contra o Irã está mudando o Oriente Médio, mas não no sentido que Trump e Netanyahu buscavam. É duvidoso que os Estados Unidos consigam recompor sua presença militar e que seus aliados considerem desejável manter bases norte-americanas em seus territórios que, em vez de garantir sua segurança, acabaram transformando-os em alvos dos ataques iranianos. A guerra contra o Irã e o genocídio promovido pelo Estado de Israel em Gaza tornaram inviáveis os Acordos de Abraão, a estratégia por meio da qual os Estados Unidos buscavam a normalização das relações dos Estados árabes com o Estado de Israel como base para uma ordem regional que fizesse frente ao Irã. Alianças emergentes, como o pacto defensivo entre Arábia Saudita, Paquistão e Turquia, demonstram a ambição de alcançar certo grau de autonomia, de modo a não depender exclusivamente dos Estados Unidos e diversificar seus parceiros, o que inclui a China.

As bravatas de Trump, suas oscilações e seu estilo TACO (Threaten And Chicken Out, ou seja, ameaçar para depois recuar) sem dúvida contribuem para corroer a credibilidade do imperialismo norte-americano, mas a base material de sua decadência deve ser buscada nessa degradação de sua capacidade de coerção. Algo que é percebido não apenas pelo regime iraniano, mas por inimigos muito mais importantes, como Rússia e China. E até mesmo por uma série das chamadas “potências intermediárias” que, embora não tenham a estatura de rivais estratégicos — algumas são inclusive aliadas —, possuem envergadura suficiente para perseguir políticas relativamente autônomas e, em alguns casos, contraditórias com os interesses de Washington.

Se, no plano internacional, a guerra contra o Irã aprofundou a decadência imperialista e acelerou tendências já presentes na situação internacional, no plano interno ela está afundando a popularidade de Trump, que, na última pesquisa da Reuters/Ipsos, alcança apenas cerca de 30% de aprovação. Nesse repúdio generalizado, além da impopularidade da guerra, pesam fortemente o efeito inflacionário e também o profundo questionamento à aliança estratégica com o Estado de Israel, que se manifesta pela esquerda nas vitórias de candidatos com um discurso claramente antissionista e pró-Palestina, sobretudo ligados ao universo político do DSA.

Tudo indica que, na noite de terça-feira, 3 de novembro, quando forem conhecidos os resultados das eleições legislativas, Trump poderá se ver transformado em um lame duck — um “pato manco” —, com dois anos pela frente marcados pela instabilidade política e pela polarização. Trump encabeça um governo bonapartista fraco, com uma base social cada vez mais restrita ao núcleo duro de seus seguidores de extrema direita. Essa fraqueza — e não a força — está na base do belicismo e das políticas imperialistas agressivas, como vemos na América Latina, onde, com a colaboração de governos aliados e servis, pretende concretizar a chamada “Doutrina Donroe”. Também está na base de políticas domésticas autoritárias e antitrabalhadores, como a perseguição e deportação de imigrantes, com as quais busca superar a derrota sofrida em Minneapolis.

O significado profundo da derrota estratégica dos Estados Unidos no Irã e de suas consequências, tanto geopolíticas quanto para a luta de classes, ainda não se manifestou em toda a sua magnitude. Em perspectiva, ela enfraquece seus aliados de extrema direita, como a maioria dos governos da América Latina, começando pelo de Milei na Argentina. A questão é saber se fenômenos novos, como o crescimento do “socialismo” — ainda em uma chave social-democrata — entre a juventude dos Estados Unidos, o movimento internacional de solidariedade ao povo palestino e, em outro registro, a enorme simpatia por Myriam Bregman como referência da esquerda revolucionária na Argentina, são sintomas de que estamos entrando em um “momento Vietnã” de enfrentamento ao imperialismo e de radicalização política, que volte a colocar na ordem do dia a perspectiva da revolução social.