Minneapolis: Notas sobre um Novo Capítulo da Luta de Classes nos Estados Unidos
Artigo publicado originalmente em inglês na Left Voice Magazine, no dia 04/05/2026
A relação entre o local de trabalho e a comunidade em geral é uma questão estratégica para a construção do poder da classe trabalhadora e para a luta pelo socialismo.
De segunda a sexta-feira, um motorista de ônibus escolar faz sua parada habitual, pega uma criança que se senta entre seus amigos e colegas de classe e continua o trajeto até a escola. Os motoristas de ônibus escolares carregam a responsabilidade de garantir que as crianças cheguem em segurança à escola, onde ficam sob os cuidados de professores e auxiliares educacionais. Em Minneapolis, esse funcionamento foi interrompido quando uma enorme operação do ICE começou em dezembro do ano passado, com uma prisão violenta e ilegal após a outra. Professores, auxiliares educacionais, estudantes, trabalhadores e a comunidade em geral escolheram defender os imigrantes e tomaram para si a resistência contra o ICE. Durante várias semanas, mães, pais, trabalhadores, vizinhos, colegas e amigos estiveram na linha de frente contra os ataques migratórios de Trump. Minneapolis, que havia estado no centro do movimento Black Lives Matter de 2020, viu-se mais uma vez no centro dos acontecimentos. A luta contra o ICE assumiu inúmeras formas. Trabalhadores e membros da comunidade, com os professores desempenhando um papel de liderança, organizaram patrulhas para monitorar as atividades do ICE, informar os moradores sobre possíveis prisões, organizar protestos e colocar seus próprios corpos na linha de frente para impedir que agentes do ICE levassem membros da comunidade. Em 23 de janeiro, mais de cem mil pessoas saíram às ruas nas Twin Cities para exigir “ICE fora de Minnesota”. Escolas fecharam, centenas de pequenos negócios interromperam suas atividades em apoio, e dezenas de milhares de trabalhadores não foram trabalhar. Um novo dia de ação foi convocado para 30 de janeiro, e mais de 50 mil marcharam em Minneapolis.
Houve um impulso para unir diferentes setores da classe trabalhadora e colocar a comunidade no centro da organização da cidade. Em pequena escala, isso pode ser visto como uma disputa sobre a legitimidade do Estado para controlar a vida dos habitantes e como uma afirmação da legitimidade dos trabalhadores, imigrantes e outros oprimidos para dirigir seus próprios futuros. Minneapolis não foi apenas o local da mais impressionante luta contra o ICE e o governo Trump. Foi o palco onde características passadas, presentes e futuras da luta de classes ganharam forma. Colocou questões que vão ao cerne dos desafios de desenvolver uma força política capaz de contra-atacar a extrema direita, da relação entre comunidade e local de trabalho e da reorganização de um terreno político no qual os interesses da classe trabalhadora e dos oprimidos venham para o primeiro plano. A importância das lições de Minneapolis para a esquerda socialista não pode ser subestimada.
Uma Linha Divisória Entre o Local de Trabalho e a Comunidade
Importantes episódios da luta de classes tomaram forma desde a crise econômica de 2008. Países imperialistas e o “Sul Global” compartilharam o palco, do Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, à Praça Tahrir, no Egito, os Coletes Amarelos, na França, as Jornadas de Junho, no Brasil, o movimento dos Indignados, na Espanha, e o BLM. Apesar de suas diferenças, a maioria deles compartilhou uma característica comum: a predominância de uma dinâmica na qual prevaleceu o caráter atomizado e cidadão dos protestos. A classe trabalhadora entrou em cena de inúmeras maneiras, e sua força econômica e social esteve presente (como no caso dos Coletes Amarelos, por exemplo), mas a emergência da classe trabalhadora como sujeito político permaneceu nas sombras. Em parte, isso é resultado dos altos níveis de fragmentação da classe trabalhadora, legado de décadas de neoliberalismo e componente crucial do terreno político. Um dos efeitos desse processo é a ruptura da relação entre a classe trabalhadora nos locais de produção, distribuição e prestação de serviços e a comunidade mais ampla, afetando sua capacidade de se organizar e agir como força política; o neoliberalismo enfraqueceu as organizações da classe trabalhadora que ajudavam a preencher essa lacuna. Nos últimos anos, a classe trabalhadora recuperou algum nível de protagonismo. Em 2022, trabalhadores no Sri Lanka realizaram uma greve geral contra o governo e em protesto contra a dura crise econômica. Na França, dezenas de milhares saíram às ruas e entraram em greve contra as propostas de reforma da previdência em 2023. Em outubro de 2025, uma greve geral paralisou a Itália e desafiou o governo em apoio à Palestina. A luta contra o ICE aponta para as possibilidades de uma renovada iniciativa da classe trabalhadora nos Estados Unidos.
No entanto, superar o problema da relação entre o local de trabalho e a comunidade continua sendo uma questão central e tem sido objeto de diferentes interpretações e prescrições na esquerda.
Um setor importante da esquerda defende um forte Estado de bem-estar social e considera a histórica social-democracia alemã liderada por figuras como Karl Kautsky um modelo. Essa vertente da social-democracia se apoia na presença de instituições cívicas vibrantes (como clubes, associações, organizações voluntárias, sindicatos e o caráter de filiação em massa dos partidos políticos) como fundamentos de uma vida política mais ampla, mediando a relação entre a classe trabalhadora e o Estado. Essas instituições seriam os locais a partir dos quais a classe trabalhadora pode emergir como ator político. Diversos pensadores contemporâneos da esquerda, como Bhaskar Sunkara, discutiram isso em vários artigos. Eles compartilham a avaliação de que há uma escassez de instituições cívicas na sociedade norte-americana contemporânea após o período neoliberal. Nessa perspectiva, os meios para criar essas instituições adquirem importância estratégica. Mais recentemente, o historiador Anton Jäger escreveu sobre o momento sociopolítico contemporâneo, tomando como ponto de partida a ausência de instituições cívicas.
Em seu livro mais recente, Anton Jäger descreve o momento sociopolítico atual como um período de “hiperpolítica”: um surto de engajamento político intenso, acelerado e fortemente mediado pelas redes sociais — embora efêmero e descoordenado [1]. A hiperpolítica encontra-se, de certo modo, suspensa no ar na ausência das instituições tradicionais da vida democrática. Jäger desenvolve essa análise a partir do livro best-seller Bowling Alone – The Collapse and Revival of American Community, de Robert D. Putnam. Publicado em 2000, o livro traça o declínio da participação cívica nos Estados Unidos desde os anos 1970. Os dados mais reveladores aparecem na primeira seção, em que Putnam mostra a trajetória em “U invertido” da participação cívica ao longo do século XX. As associações cívicas se fortaleceram e se disseminaram durante a Segunda Guerra Mundial, atingiram seu auge no final dos anos 1950 e início dos anos 1960 e começaram a declinar em meados dos anos 1970. No prólogo da edição de 2020, Putnam afirma que a situação apenas piorou no século XXI [2].
Embora Bowling Alone informe a avaliação de Jäger sobre a sociedade contemporânea e o atual momento de “hiperpolítica”, ele aponta limitações na obra de Putnam. Em particular, Jäger menciona o “pouco tempo [dedicado] à investigação da transformação estrutural da sociedade — o surgimento das ONGs como substitutas das organizações de filiação em massa, a proliferação das megacatedrais evangélicas e escolas, especialmente nos Estados Unidos e no Brasil, e a evolução de uma nova internet 'social’ após o colapso das empresas ponto-com em 2001”, assim como o conceito de “capital social”.
A saída da hiperpolítica repousa sobre “uma reinstitucionalização do engajamento político”, sem a qual “a esquerda permanecerá refém de uma volatilidade impotente, enquanto seus adversários continuarão desfrutando de uma vantagem decisiva”[3]. O autor belga atravessa as barreiras à “participação política sustentada e orientada institucionalmente” e explora o potencial de formas cotidianas de ação, como os protestos contra aluguéis. Ao mesmo tempo, acrescenta que “as esferas da produção e da distribuição dificilmente podem ser descartadas tão facilmente. O mundo do trabalho continua sendo o local onde a mais-valia e os interesses econômicos entram diretamente em choque, enquanto pais e inquilinos só podem apelar ao Estado fiscal, que por sua vez depende da disposição das elites capitalistas em redistribuir” [4].
Jäger está correto ao enfatizar que o local de trabalho não pode ser descartado tão facilmente. No entanto, ele não aborda o fato de que o potencial dos locais de trabalho como “esferas de produção e distribuição”, assim como os vínculos dos trabalhadores com a vida sociopolítica para além do ambiente de trabalho, foram rompidos por aqueles que dirigem a principal instituição cívica dos trabalhadores: os sindicatos. Durante o neoliberalismo — e mesmo durante a Guerra Fria, pelas mãos da aliança entre o movimento trabalhista e o liberalismo — a burocracia sindical empurrou a consciência de classe para baixo, aceitando os ataques promovidos pelo capital. Paralelamente a esse processo, surgiu um novo ator na forma dos movimentos sociais e das ONGs, e com eles suas próprias burocracias. Apesar de abordarem questões sociais mais amplas, as direções desses movimentos atuaram dentro das limitações de seus focos específicos, reproduzindo nos movimentos sociais o caráter corporativista da política sindical. Eles compartilham uma certa “divisão do trabalho”, na qual os sindicatos assumem as reivindicações econômicas relacionadas ao local de trabalho e os movimentos sociais se ocupam de pautas isoladas. Durante o neoliberalismo, alguns sindicatos passaram a assumir campanhas de pauta única que afetavam setores mais amplos da classe trabalhadora (em vez de locais de trabalho específicos), mas mantiveram a lógica de separar a arena do local de trabalho da comunidade — Joe Burns refere-se a esse fenômeno como “sindicalismo liberal”[5].
Os Sindicatos na Era Neoliberal
Os sindicatos são um exemplo central de como as instituições cívicas declinaram nas últimas décadas. Nos anos 1970, os sindicatos representavam cerca de 25% dos trabalhadores nos Estados Unidos. Por causa de sua relação intrínseca com o Estado e de sua resposta obediente às restrições políticas e judiciais, os sindicatos nunca foram capazes de representar a maioria da classe trabalhadora. Neste momento, quero enfatizar que nem Jäger nem Putnam levam em conta um fator decisivo no colapso da sindicalização nas últimas décadas. Putnam não dedica muita atenção aos sindicatos, e Jäger, por sua vez, enfatiza o impacto dos ataques do capital nos momentos finais da era da “política de massas”, entre 1914 e 1989. Isso é indiscutivelmente verdadeiro, mas representa apenas metade da história. As direções sindicais, limitadas por sua submissão aos limites do regime bipartidário — e, consequentemente, incapazes de oferecer qualquer tipo de alternativa — aceitaram em grande medida, em diferentes níveis, as condições impostas pelos violentos ataques contra a classe trabalhadora durante o neoliberalismo.
Os fios da sociedade civil que se desfizeram durante o neoliberalismo faziam parte do tecido do “Estado Integral”, como Antonio Gramsci o descreveu: diversas formas de instituições que emergiram como resultado, e ao lado, da crescente presença da classe trabalhadora e da cidadania em geral nos assuntos políticos. Essas instituições “fomentam” a hegemonia da burguesia de maneiras diferentes da repressão direta.
A trajetória dos sindicatos esteve intimamente ligada à dinâmica enfrentada pela classe trabalhadora ao longo do século XX — e continuará a estar, de uma forma ou de outra, apesar dos atuais níveis historicamente baixos de sindicalização no país. Leon Trotsky articulou essa relação em 1940, abordando os novos desafios enfrentados pelos sindicatos em uma época de crises, guerras e revoluções. Os sindicatos não poderiam reivindicar neutralidade em relação às questões mais amplas da classe trabalhadora e do povo. Em uma época em que conquistas parciais são constantemente atacadas pela burguesia, uma defesa consequente dos interesses dos trabalhadores exigiria clareza estratégica sobre a questão decisiva da independência de classe — a capacidade da classe trabalhadora de se organizar de acordo com seus próprios interesses e contra os interesses da classe dominante. Nas palavras de Trotsky,
“os sindicatos na época atual não podem simplesmente ser os órgãos da democracia como eram na época do capitalismo livre e não podem mais permanecer politicamente neutros, isto é, limitar-se a servir às necessidades cotidianas da classe trabalhadora. Não podem mais ser anarquistas, isto é, ignorar a influência decisiva do Estado sobre a vida dos povos e das classes. Não podem mais ser reformistas, porque as condições objetivas não deixam espaço para reformas sérias e duradouras. Os sindicatos de nosso tempo podem servir ou como instrumentos secundários do capitalismo imperialista para a subordinação e disciplinamento dos trabalhadores e para obstruir a revolução, ou, ao contrário, os sindicatos podem tornar-se instrumentos do movimento revolucionário do proletariado.”[6]
Emilio Albamonte e Matías Maiello desenvolvem esse quadro teórico para analisar a condição atual da classe trabalhadora desde o final do século XX. Eles comparam o neoliberalismo à Restauração Bourbon do século XIX, mas destacam uma diferença importante: a “restauração burguesa” [do final do século XX], ao contrário da restauração de 1814, não foi acompanhada por uma derrota militar como em Waterloo, mas foi garantida “a partir de dentro” […] durante a ofensiva neoliberal, os trabalhadores viram suas próprias organizações se voltarem contra eles.”⁷ Em outras palavras, as direções sindicais aceitaram os novos termos de enfrentamento ditados pelos ataques do neoliberalismo, todos eles compondo um quadro mais amplo de fragmentação social, isolamento e outras mazelas do período descritas de forma contundente por Jäger. Isso também imprimiu à classe trabalhadora altos níveis de fragmentação interna.
Um Novo Capítulo da Luta de Classes
A classe trabalhadora talvez ainda não tenha ocupado o centro do palco nos Estados Unidos, mas nos últimos anos houve vislumbres disso, como parte de uma retomada mais geral do movimento operário. Anton Jäger define os anos posteriores à crise econômica de 2008 como a “Era Apolítica”, enfatizando um crescente distanciamento entre os partidos tradicionais e suas bases sociais, acompanhado pela ascensão de diferentes vertentes do populismo. Esses anos também foram marcados por intensos processos de luta de classes em escala internacional. Nos Estados Unidos, não houve uma Praça Tahrir, nenhum movimento massivo de trabalhadores contra a austeridade como na Grécia, nem Coletes Amarelos, para citar apenas alguns exemplos. Em vez disso, houve o Occupy Wall Street e o BLM, bem como a ascensão de Bernie Sanders e Donald Trump em 2015. Embora os dados apontem 2018 como um momento crítico na retomada das lutas dos trabalhadores, sinais importantes já estavam presentes em anos anteriores, como a greve dos professores de Chicago em 2013. Não por coincidência, 2018 viu professores na Virgínia Ocidental, Oklahoma e Arizona organizarem greves vitoriosas, enfrentando a relutância dos sindicatos e o aparato jurídico e político do Estado. Tão importante quanto o crescimento da atividade trabalhista — que de modo algum foi linear — é o fato de que os trabalhadores passaram a levantar reivindicações que ultrapassam os limites dos interesses corporativos e desafiam as divisões dentro de suas próprias fileiras. Em Minneapolis, “os mesmos professores e funcionários que agora defendem estudantes contra o ICE são os que fizeram greve em 2022 exigindo melhores salários e redução do tamanho das turmas, ao mesmo tempo em que relacionavam suas condições de trabalho e as de seus estudantes ao racismo no sistema educacional, demonstrando a profunda influência do movimento Black Lives Matter.”
Eric Blanc sistematizou algumas características dessa nova onda do movimento operário em seu novo livro We Are the Union – How Worker-to-Worker Organizing is Revitalizing Labor and Winning Big. Segundo Blanc, as forças motrizes desse novo momento são políticas governamentais favoráveis, o uso sistemático de ferramentas digitais e a radicalização da juventude. Por políticas governamentais, Blanc se refere às políticas trabalhistas do governo Biden, mas mais especificamente ao historicamente NLRB pró-trabalhador de sua administração. O ponto mais relevante para o argumento aqui é a avaliação de Blanc sobre aquilo que ele chama de “sindicalização trabalhador a trabalhador”.
A convergência desses fatores levou ao aumento do ativismo operário e da sindicalização. Blanc examina esforços de sindicalização utilizando diferentes métodos, destacando um tema comum: os trabalhadores “iniciam e/ou conduzem uma campanha de organização sindical, e desempenham um papel central na determinação de suas principais decisões”. Com o sindicalismo “trabalhador a trabalhador”, Blanc procura definir os principais contornos de um “modelo” capaz de superar o método intensivo em quadros profissionais que ainda predomina nas campanhas sindicais atuais. A crítica à dependência desses métodos é uma importante contribuição ao debate sobre os limites de uma estratégia sindical adaptada às restrições políticas e subjetivas do neoliberalismo. A força do livro está nas histórias que conta sobre o choque com que os dirigentes sindicais reagiram às iniciativas dos trabalhadores: “Nunca vi esse número de trabalhadores procurar nosso sindicato antes”, observa Alan Hanson, que foi diretor de organização do United Food and Commercial Workers (UFCW) Local 400 antes de se tornar organizador do UAW [8].
Ao mesmo tempo, Blanc destaca a nova direção do UAW, sob liderança de Shawn Fain, como exemplo de sindicatos que estiveram à altura do momento e encontraram formas de combinar e fortalecer a organização “trabalhador a trabalhador”, exemplificada por sua campanha nacional de organização sindical no Sul dos Estados Unidos. Em resumo: “Desde o momento de sua eleição, a nova guarda do UAW deu uma aula magistral de como mobilizar uma força de trabalho antes cínica e desengajada, defendendo uma liderança responsável, elevando as expectativas, canalizando a raiva contra os senhores corporativos e demonstrando que os trabalhadores podem conquistar grandes vitórias por meio da militância de massas." [9]
A nova direção do UAW empregou táticas mais militantes e um discurso mais combativo que recupera a oposição de interesses entre trabalhadores e patrões. Comparado aos baixos níveis de combatividade operária entre as direções sindicais nas últimas décadas, o UAW se destaca e marca o surgimento de um tipo mais clássico de reformismo sindical. Essa tendência dentro do movimento operário reflete novas formas de pensar entre setores mais amplos da classe trabalhadora, mas opera de maneira que acaba permanecendo limitada pelos marcos do regime bipartidário.
A luta contra o ICE e o governo Trump destaca-se como exemplo disso. Durante a mais impressionante luta contra o governo Trump em Minneapolis, no início deste ano, a direção do UAW limitou-se a declarações tímidas contra a violência do ICE, recusando-se a defender os imigrantes ou convocar os sindicatos a contribuírem com seus recursos para a luta, organizarem-se junto às associações de bairro ou convocarem diretamente uma greve tanto em 23 quanto em 30 de janeiro. O debate sobre uma greve geral em 2028 é outro exemplo. A ideia de uma greve geral tornou-se muito mais popular e já não faz parte apenas do vocabulário dos radicais. No entanto, até o momento, a proposta de greve geral está limitada aos objetivos de conquistar melhores contratos, está prevista para começar e terminar no mesmo dia — o Primeiro de Maio — e encontra-se restrita pelos limites legais de uma legislação trabalhista draconiana.
A Necessidade Imperativa da Hegemonia da Classe Trabalhadora
Diversos componentes do neoliberalismo foram desmontados neste momento pós-neoliberal. No entanto, a precarização do trabalho segue em pleno curso. Essa característica central do neoliberalismo assume novas formas, apoiando-se na enorme fragmentação da classe trabalhadora imposta nas décadas anteriores.
A dispersão e atomização da sociedade levaram a um foco introspectivo e autocentrado entre aqueles que ocupam a esfera pública da política — um importante obstáculo ao desenvolvimento da ação coletiva necessária para que movimentos de massa imponham sua vontade. É a essa conclusão que chega Anton Jäger. Há verdade nessa visão, mas ela não retrata o quadro completo. Ao longo dos últimos anos, houve uma profunda conexão entre questões sociais mais amplas e o movimento trabalhista. O Black Lives Matter é o exemplo mais significativo, mas também o é o destaque que os trabalhadores essenciais deram a si próprios e à classe trabalhadora em geral durante a pandemia. É evidente que a luta contra a brutalidade policial e o racismo impactou positivamente o movimento operário, encorajando os trabalhadores não apenas a assumirem questões relacionadas à opressão racial, mas também a lutarem por suas próprias reivindicações no local de trabalho [10]. Como mencionado anteriormente, mesmo antes de 2020, do BLM e da pandemia, a Revolta dos Estados Vermelhos em 2018 e a greve dos professores de Chicago em 2013 já haviam visto professores levantarem reivindicações que afetavam toda a comunidade escolar.
Em Minneapolis, vimos vislumbres do futuro da luta de classes. Trabalhadores e a comunidade deram passos para criar suas próprias “instituições” no interior dessa luta, apesar de seu caráter passageiro. A disposição de lutar e defender os interesses tanto dos trabalhadores quanto da comunidade em geral constitui o eixo sobre o qual se pode construir uma renovada “vida cívica”, reconectando trabalhadores que labutam lado a lado ou isolados uns dos outros, vizinhos frequentemente afastados entre si e estranhos que compartilham o impulso de tomar em suas mãos seu destino político. Na vasta maioria dos casos, as direções dos sindicatos e dos movimentos sociais têm sido um obstáculo ao florescimento da unidade de classe.
Ainda assim, grande parte do que ocorreu está enraizada na tradição do movimento operário norte-americano. A relação entre o local de trabalho e a comunidade foi um tema constante em momentos de luta de classes mais aguda, assim como em movimentos sociais como a luta contra a segregação racial. Se os sindicatos devem realmente tornar-se instrumentos de organização da classe trabalhadora, enfrentam o desafio de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para romper o muro artificial que separa o local de trabalho da comunidade e os trabalhadores de seus colegas. É impossível fazer isso sem encontrar maneiras de superar os limites impostos por leis trabalhistas draconianas, como as leis contra greves no setor público em vários estados ou leis como a Taft-Hartley, que proíbe greves de solidariedade. Como escreve Joe Burns: “Reviver o movimento operário no setor privado [e público] exigirá violar a legislação trabalhista e enfrentar duramente a ordem existente.” [11]
Os trabalhadores de Minneapolis desafiaram o governo e a lei, colocaram suas vidas em risco para defender imigrantes e sua comunidade e desafiaram corajosamente a “ordem existente”; por sua vez, a maioria das direções sindicais e dos movimentos sociais da cidade, sem falar do país, recusou-se a fazer o mesmo.
Um passo importante nessa direção teria sido os sindicatos compartilharem seus recursos com todas as associações de bairro e convocarem e integrarem comitês locais de defesa dos imigrantes, além de mobilizarem ativamente para os dias 23 e 30 de janeiro. É da maior importância mobilizar a base trabalhadora para fomentar e apoiar alas do movimento operário dispostas a desafiar a burocracia sindical, reivindicar os sindicatos como instrumentos de luta contra a exploração e a opressão e estimular a auto-organização dos trabalhadores. No centro dessa tarefa urgente está a necessidade de unir as fileiras da classe trabalhadora multirracial, entre diferentes setores, organizados e não organizados, e independentemente da situação migratória.
Os apitos agudos soprados para alertar os vizinhos sobre a chegada de agentes do ICE são um exemplo vívido de resistência ao ICE e solidariedade com os imigrantes. Ao mesmo tempo, a vasta maioria dos imigrantes em Minneapolis — um setor-chave da classe trabalhadora daquela cidade — foi forçada a restringir sua atividade política ao interior de suas casas. A ausência de apoio material e político por parte dos sindicatos e de fortes movimentos sociais, juntamente com a timidez dos sindicatos em aderir à luta contra o ICE e, em última instância, seu papel no esforço para desmobilizar a situação, desempenhou um papel vital em impedir o surgimento de formas mais amplas de auto-organização. O fato de que aqueles visados pelo ICE não participaram ativamente da luta contra o ICE e o governo Trump comprova isso. Os imigrantes só poderiam ter participado ativamente da luta em um contexto no qual a classe trabalhadora assumisse um papel hegemônico ativo para impor sua vontade para além dos limites colocados pelo Estado burguês; em outras palavras, se a classe trabalhadora tivesse realmente “destravado” seu poder, poderia ter organizado greves reais e formas de autodefesa que tornassem inegável a participação da classe trabalhadora unificada (imigrantes e cidadãos juntos).
O Terreno para a Auto-Organização
Entre os muitos elementos ricos trazidos à tona por Minneapolis, destaca-se a necessidade de que a classe trabalhadora e os oprimidos criem um terreno capaz de impulsionar o surgimento da classe trabalhadora como ator hegemônico. Isso exige encontrar maneiras de delimitar uma fronteira que estabeleça a independência política em relação aos esforços multifacetados do regime bipartidário para canalizar a energia das massas para as urnas — ocasionalmente oferecendo uma ou outra concessão — e que tenha como objetivo romper a divisão entre “política” e “corporativismo”. Esta última é constantemente reforçada pelas direções tradicionais das instituições de massa, como os sindicatos — a combinação entre participar dos esforços do governo para desmobilizar as tensões em Minneapolis e não encontrar maneiras de se conectar com os grupos de bairro, abrir suas portas, colocar seus recursos a serviço da luta e construir uma greve transforma a atividade política em algo definido pelos adversários da classe trabalhadora e dos imigrantes.
A impressionante demonstração de coragem e criatividade em Minneapolis na defesa dos imigrantes também ilumina possíveis caminhos para o desenvolvimento de instituições mais amplas de auto-organização, abertas a todos os trabalhadores e ao povo. Ao longo do século XX, houve diversos exemplos da construção improvisada, de baixo para cima, de instituições desse tipo, que emergem como expressão da disposição combativa das massas. Não existe, contudo, um caminho previamente determinado para o surgimento de organismos massivos de auto-organização. Na maioria dos casos, tais movimentos surgiram dos locais de trabalho em direção aos bairros. Minneapolis demonstrou que a trajetória inversa é bastante possível, talvez até mais provável. Dado o caráter corporativista das direções sindicais e a disposição de amplos setores da comunidade de ir além das questões econômicas imediatas — como assumir a defesa dos imigrantes — é bastante possível que movimentos baseados na comunidade se radicalizem primeiro e criem novos métodos de auto-organização. Por sua vez, esses movimentos injetam moral e energia no movimento operário (como ocorreu com o Black Lives Matter), tornando possível que a articulação entre comunidade e local de trabalho comece pela própria comunidade.
Ainda assim, os adversários permanecem os mesmos. A burocracia sindical — e a burocracia dos movimentos sociais, composta por um enorme aparato de ONGs — continua atuando como uma barreira que separa esses dois mundos. Não existem formas previamente definidas pelas quais a classe trabalhadora multirracial encontrará meios de liberar sua criatividade política em defesa de seus interesses e exercer seu potencial hegemônico contra a burguesia imperialista. Leon Trotsky, escrevendo nos anos 1930, disse certa vez que “os sovietes americanos serão tão diferentes dos sovietes russos quanto os Estados Unidos do presidente Roosevelt diferem do Império Russo do czar Nicolau II.”
As páginas desse novo capítulo da luta de classes revelam que não há nada de inerentemente sisífico na dinâmica das lutas travadas pela classe trabalhadora e pelo povo. Mas a classe trabalhadora e o povo, belamente exemplificados pela força e determinação dos professores de Minneapolis, merecem um partido próprio. Um partido socialista é um sujeito indispensável para fomentar a criação de um terreno político mais favorável às lutas contra a burguesia imperialista. A esquerda socialista enfrenta o desafio de debater os possíveis caminhos para tal partido, examinando e integrando as conclusões dos processos mais agudos de luta de classes. Os debates em torno da necessidade de novas instituições da classe trabalhadora inspiradas na social-democracia alemã partem do entendimento de que essas instituições mediarão a relação entre a classe trabalhadora, a sociedade civil e o Estado. Trata-se de uma perspectiva estratégica que busca criar um robusto Estado de bem-estar social, o qual levaria, em um futuro indeterminado, ao socialismo. Nesse caso, construir um partido socialista revolucionário pode ser entendido como um objetivo valioso, mas não urgente. Nos Estados Unidos, a Democratic Socialists of America (DSA), por exemplo, acredita que o Partido Democrata pode atuar como ponte entre a classe trabalhadora e o Estado. Minneapolis mostrou, em pequena escala, que os desafios que enfrentamos exigem colocar as instituições existentes da classe trabalhadora e do povo a serviço da defesa de políticas de caráter politicamente independente. Nossa tarefa não é moldar e conter sua atividade dentro dos limites do regime bipartidário, mas combatê-lo. Nessa perspectiva, construir um partido socialista torna-se uma tarefa imperativa.
[1] Jäger, Anton. Hyperpolitics: Extreme Politicization without Political Consequences. Esta edição revisada em inglês foi publicada pela primeira vez por Verso. Suhrkamp, 2026.
[2] Jäger reconhece que esse declínio também afeta a direita, com a ressalva de que esta possui uma relação intrínseca com o Estado, o que reduz o impacto das mudanças nas instituições cívicas sobre sua capacidade de mobilização. Embora esse seja um componente importante da sociedade contemporânea, neste artigo concentro-me em alguns desafios da esquerda.
[3] Jäger, Hyperpolitics, 94.
[4] Jäger, Hyperpolitics, 92,93.
[5] Burns, Joe. Class Struggle Unionism. Haymarket Books, 2022.
[6] Leon Trotsky, Trade Unions in The Epoch of Imperialist Decay. https://www.marxists.org/archive/trotsky/1940/xx/tu.htm
[7] Emilio Albamonte, Matias Maielo, Military Art and Socialist Strategy, p. 480 (forthcoming).
[8] Blanc, We Are the Union, 14.
[9] Blanc, We Are the Union, 113.
[10] Larry W. Isaac & Brittney Rose (2024) Movement for Black Lives at Work? Racial Justice Spillover, Labor Organization, and New Worker Militancy, The Sociological Quarterly, 65:4, 558-583, DOI: 10.1080/00380253.2024.2357549
[11] Burns, Class Struggle Unionism, 52.