Mornas que incendeiam: uma análise do conto “Um ilegítimo desejo”, de Dina Salústio
Este texto analisa o conto "Um ilegítimo desejo" do livro “Mornas eram as noites”, de Dina Salústio (escritora cabo-verdiana), analisando como a narrativa transforma o trauma social da prostituição em Cabo Verde em uma denúncia contra as violências do cotidiano no capitalismo, destacando o papel central das mulheres na luta por uma emancipação social ainda não concluída pós-independência.
“Mornas eram as noites” (1994) é um livro de pequenos contos escritos por Dina Salústio, escritora cabo-verdiana. O livro é escrito já em um contexto pós-conquista da independência dos países colonizados, entretanto a escrita segue marcada pelo testemunho de um trauma social, como vamos verificar. É o caso do conto “Um ilegítimo desejo”, que reproduzimos a seguir:
“UM ILEGÍTIMO DESEJO
Um indivíduo pertence legitimamente a determinado sítio a partir do momento em que lhe é reconhecido o direito de propriedade de uma esquina. Qualquer que seja. Para poisar, estar, negociar, amar. Ou simplesmente como ponto de cruzamento de estações, opiniões e olhares. Eu não pertenço a Nova York ou a São Paulo.
Nha Djina tinha a sua esquina. Ali fizera amigos. Ali despedira-se de amores. Mais tarde ali contrabandeara o seu corpo. Na altura era Djina, apenas Djina. E porque contrabandear e não simplesmente vender? O corpo era dela. Porque contrabandear? Vendia-se. E o alvará da legitimidade, deram-lho as suas necessidades. Nunca houve desejos outros. Mentira! Um dia ansiou pela volta do francês que lhe colocou na mesa de cabeceira de pinho, em cima dos dólares franceses, um sabonete verde que cheirava a encontros suaves, palavras doces, análises ternas de urgências várias.
O francês não voltou, nem o cheiro e a cor do sabonete.
Para Djina qualquer dinheiro era dólar. Ficou-lhe o hábito do primeiro dia. Se fosse hoje, talvez fosse o iene. Questão de poder.
Pela esquina da Djina passavam também os corpos a caminho do cemitério. O dela, mansamente ia passando. E os outros.
Um dia, distraída, falou do seu medo de entrar no cemitério a um cliente que, sádico, a troco de mais uns trocos, a obrigara a ir com ele até... só até à entrada.
A caveira da porta arrepiou-a e, apesar do dinheiro se ter triplicado, não conseguiu coragem para o desempenho pretendido. Preferiu os bofetões e insultos que apanhou sem refilar. Preferiu ficar também sem a renda da casa. Pelo menos por aquela noite.
Uma única vez entrou no cemitério.
Na esquina, nha Djina, que foi Djina apenas, cabeça baixa, escondia o seu olhar tímido de quem lhe dava uma esmola. E agora sim. Agora tinha vergonha porque o corpo esgotado, recusava vender fosse o que fosse em troca de coisa alguma. Até o olhar não olhava mais.
Um dia a esquina acordou sem ela.
No ar, no único gemido, o seu testamento: — Música a acompanhá-la ao cemitério — o seu último e ilegítimo desejo.
O sobrinho, mais pobre que os pobres, espreitou, dias e dias no cemitério, todos os enterros que se seguiram ao dela. Ao décimo dia o peito minguado encheu de esperança: um senhor e seu violino choravam na campa de alguém. Raúl arranjou coragem e pediu-lhe, quase soluçando, que tocasse uma música para tia Djina. Uma só. Não a clássica morna hora di bai, mas uma canção francesa que falasse de amor — com todo o respeito, senhor — soluçou o sobrinho.
O tocador que se lembrava da vaidosa Djina, que a conheceu, que talvez, em algum segundo, a tenha amado, tocou o que Raúl lhe pedia. Não era um favor, não. Seria um prazer — disse — e não se sabia se pensava nela ou nele.
Djina sorriu no outro mundo e descansou para sempre, ao lado de um anjo que falava francês.”
O conto começa com um debate que parece jurídico, sobre a legitimidade de um direito de propriedade. O discurso se torna estranho ao final da frase, em que descobrimos que se refere à propriedade de uma esquina. De acordo com esse “narrador-advogado” (ou narradora?), para ser um indivíduo que pertence a algum lugar, todos temos uma esquina para “poisar, estar, negociar, amar”. Portanto, Djina tem o direito de ter também sua esquina, e terá o “alvará de legitimidade” de vender-se nessa esquina, que “deram-lho as suas necessidades”. O pano de fundo dessas necessidades encontramos ao verificar as condições de mulheres que, muitas vezes excluídas do já escasso mercado de trabalho, têm que recorrer à prostituição para sua sobrevivência e de sua família.
Assim, em todo o texto a narradora vai construindo um jogo de “é legítimo ou não é legítimo?”. É legítimo vender-se numa esquina? É legítimo uma prostituta se apaixonar? Ter medo de cemitério? Querer que toquem música em seu enterro? O conto assim vai nos aproximando cada vez mais dos supostamente ilegítimos desejos de Djina, entrando em choque com a ideia de que uma prostituta não possa ter paixões, sentimentos e medos. Com isso, vai humanizando, legitimando e tornando digna de atenção essa figura que cada vez mais, vai virando invisível na esquina, que um dia “acordou sem ela”. O final arrebatador do conto busca dar dignidade àquela que estava sendo esquecida pelo cotidiano de uma realidade atroz. E, ao contrário do que alguns podiam esperar, o anseio da prostituta em seu último desejo não é dinheiro e luxúria, ela anseia a música. A imagem é forte justamente porque indica o que poderia ser uma vida plena, sem opressão e exploração, que é justamente não só o direito a condições mínimas de sobrevivência, mas também o direito à arte, à poesia, ao amor…
Essa dinâmica que vimos neste conto está presente em diversos outros contos do livro. Os narradores (ou, em sua maioria, narradoras) presentes nos contos parecem estar atravessando a cidade (neste caso, as ilhas), e construindo suas narrativas através de gatilhos de violências disparados pelo cotidiano: a partir de ver uma criança pobre na loja de brinquedos, de ver duas mulheres alcoolizadas na rua, uma prostituta na esquina, uma jovem grávida prematuramente, ou de uma simples “conversa de comadres”... Interessa notar o ritmo da narrativa, em que as histórias desenrolam-se em meio a conversas, a divagações, iniciando-se como um bate-papo tranquilo, despretencioso, uma indagação filosófica, ou de caráter bastante lírico muitas vezes (muitos contos parecem poemas), e pouco a pouco somos abatidos pelo relato de uma violência lancinante.
Aliás, o ritmo de “Mornas eram as noites” já está marcado desde o seu título, sendo as “mornas” um ritmo cabo-verdiano marcado pelo estilo lento e de harmonia melancólica, mas arrebatador (a maior expoente do ritmo é Cesária Évora). A palavra “mornas” também pode remeter a um impasse histórico da situação do fim do século, pós-queda do muro de Berlim, que é quando o livro foi lançado: nem quente, nem frio, já não há grandes revoluções e processos de luta de classes, tudo “segue como está”. Mas o livro é uma forte denúncia de que “como está” não está bem. No continente africano seguem ocorrendo conflitos armados em várias regiões, os países seguem sendo espoliados pelo imperialismo e pelas novas burguesias locais, e as contradições disso se mostram principalmente através da visão das condições das mulheres.
As guerras de libertação contra o colonialismo no continente africano foram processos que trouxeram em si o gérmen da esperança de acabar definitivamente com as opressões de todo o tipo, e não por acaso milhares de mulheres tiveram papel fundamental e protagonista nessas lutas. O que as “mornas” de Dina Salústio denunciam, através do olhar das mulheres, é que esse objetivo ainda não se concluiu. “Se, na realidade, queremos transformar as condições de vida devemos aprender a enxergá-las através do olhar das mulheres”, é o que diz o revolucionário russo Leon Trotski, no texto “Problemas da vida cotidiana” (1923), quando discute a importância da revolução se expandir e se enraizar em cada aspecto da vida e dos costumes. A realidade das mulheres é sempre um indicador do que há de avanços e retrocessos em cada processo revolucionário em cada período histórico. O desvio do caráter revolucionário das guerras de libertação para governos burocratizados, que conformaram uma nova burguesia local, fez justamente com que as antigas estruturas de opressão social e de gênero fossem perpetuadas sob uma nova roupagem política, frustrando as promessas de emancipação integral.
“E se incendiassem a cidade?”, diz um dos contos do livro, como um desejo que parece se estender ao conjunto da obra. Dina, assim, não se resume a colocar as mulheres em um lugar de meras vítimas, mas também como sujeitas da mudança. A história das revoluções e das lutas por libertação é também a história das mulheres africanas na linha de frente desses processos, porque as que mais sofrem com o velho são as que lutam com mais avidez pelo novo. Isso não é apenas uma constatação dos livros de história (que muitas vezes inclusive subvalorizam esse papel feminino), mas também algo que se vê nas lutas do nosso tempo, como o exemplo de Alaa Salah, a “mulher de branco” (como mostra a foto discursando em cima de um carro), uma jovem estudante de arquitetura que na revolta sudanesa de 2019 tornou-se um ícone da luta. O livro de Dina é, assim, um lembrete poético de que essas mulheres seguirão na linha de frente das batalhas, uma vez que a verdadeira independência só ecoará quando nenhum corpo precisar ser mercado, quando nenhuma mais for oprimida e quando pudermos entoar nossas mornas sem dor.