O cenário da disputa política entre as oligarquias de Raquel Lyra e João Campos em Pernambuco
Este artigo tem o objetivo de analisar os fatores políticos, econômicos e sociais da disputa eleitoral em Pernambuco entre Raquel Lyra e João Campos, a fim de apontar o conteúdo de seus respectivos projetos políticos e os principais fatores de desgaste e fortalecimento que estão atrelados ao derretimento do ex-prefeito.
Introdução
A larga vantagem de 22 pontos que João Campos ostentava no fim de 2025 (53% contra 31% de Raquel Lyra) derreteu ao longo dos últimos meses. O primeiro alerta acendeu em fevereiro de 2026, quando na pesquisa da Datafolha a diferença entre os dois reduziu para 12 pontos. Em abril, a pesquisa Quaest confirmou o avanço da governadora, estreitando a margem entre eles para 42% a 34%. A virada se consolidou nesta quinta-feira (28/05): o novo cenário do Datafolha traz Raquel Lyra com 48% das intenções de voto frente a 43% de Campos. Mas o que pode explicar que uma figura que até um ano atrás era vista como uma das apostas de renovação da “esquerda” por setores da burguesia como João Campos expresse tamanha debilidade diante de uma figura como Raquel Lyra do PSD?
Em linhas gerais, os números expressam, por um lado, a força das alianças de Raquel Lyra em alguns dos maiores colégios eleitorais do interior do estado, grandes investimentos em infraestrutura e campanha populista de direita em relação à “segurança pública”, além de contar com o desgaste com o PSB, que governou o estado por mais de 15 anos. Além disso, a campanha de Raquel conseguiu desgastar a imagem de João Campos com a campanha que denunciou a fraude no concurso para o maior cargo da prefeitura de Recife e envolvia o prefeito diretamente.
Em muitos sentidos, o derretimento de João Campos, ajuda a desmascarar seu perfil “progressista” e a demonstrar o real sentido do que significa o “socialista” presente na sigla do PSB, que se liga de forma contraditória ao nacionaldesinvolvimentismo de figuras históricas do partido como Miguel Arraes, mas também construído nos últimos anos às custas de muito marketing político. Os gastos com publicidade da prefeitura de Recife sob a gestão de João Campos foram maiores, por exemplo, que os gastos com obras de contenção de encostas e prevenção de alagamentos. Esse perfil é endossado pela mídia burguesa ao tratar o PSB como um partido dos “socialistas”, escondendo inclusive seu passado golpista ao se aliar à direita tradicional, o agronegócio e as igrejas pelo golpe institucional que derrubou o governo Dilma em 2016 para acelerar as políticas de ajuste que o próprio PT já vinha implementando e pavimentou o caminho para a ascensão da extrema direita no Brasil.
Na medida que a crise capitalista avança, cada vez mais figuras como João Campos com uma retórica de um suposto neodesenvolvimentismo vão não apenas deixando mais claros seus limites, como terminam por se expressarem de fato como o que verdadeiramente são: projetos de uma burguesia nacional subordinada ao imperialismo e às potências capitalistas. Decerto, João Campos é um exemplo disso, não à toa enquanto prefeito de Recife e presidente do PSB nacional (partido de Alckmin), ele apoiou junto com a burguesia brasileira políticas econômicas como o Arcabouço Fiscal do governo Lula, um verdadeiro bolsa banqueiro que retira do que poderia ser destinado às políticas públicas para enriquecer banqueiros nacionais e estrangeiros. E no que diz respeito às forças políticas no estado de Pernambuco, seja de Miguel Arraes a João Campos ou de João Lyra a Raquel Lyra, o controle permanece entre os mesmos círculos oligárquicos e isso é central para entender as mudanças recentes nas intenções de votos.
Há quatro meses do pleito, certamente o cenário eleitoral segue em aberto apesar da mudança importante que está em curso. Queremos neste texto não apenas apontar o que de fato expressa o projeto político de João Campos que de “socialista” não tem nada, como também mostrar o que está por trás do fortalecimento de Raquel Lyra e como conseguiu tornar seu projeto político viável a ponto de competir com até então um dos prefeitos do Nordeste com maior aprovação.
O projeto político de Raquel Lyra
Para compreender a “ascensão” de Raquel Lyra nos últimos anos, mas em particular nos últimos meses que fez com que ultrapasse João Campos na pesquisa de intenção de votos, precisamos estar atentos a uma combinação de fatores sociais e políticos que correspondem a investimentos em pastas importantes (infraestrutura e “segurança pública”), o alcance popular das obras de infraestrutura, as privatizações da Compesa e CBTU e os problemas da chuva (que impactou diretamente João Campos). Somado a isso, Raquel Lyra vem consolidando alianças no interior, uma chapa com figuras importantes da política pernambucana como Miguel Coelho (DEM) e Túlio Gadelha (PSD), além de aliados na região metropolitana.
Os altos investimentos em infraestrutura do Estado em 2025 somaram 5,05 bilhões e fez Pernambuco estar entre os 10 estados que mais investiram no país, sendo os setores de infraestrutura rodoviária um dos mais beneficiados. Embora sejam obras que estejam a princípio destinadas a favorecer o escoamento da produção do interior do estado, Pernambuco possui um enorme contingente da sua população vivendo em pequenas cidades do interior, que contam com as “Capitais Regionais”, como Caruaru no Agreste, Petrolina no Sertão, mas outras cidades que também cumprem esta função, como Garanhuns, Serra Talhada, Arcoverde, Salgueiro e Vitória de Santo Antão. Estas cidades possuem redes de serviços de abastecimento, saúde, educação etc, que é compartilhada com as pequenas cidades em seu raio de influência, com intenso fluxo de trocas. Essa relação torna os grandes investimentos em estradas e rodagem do governo muito populares, para além dos acordos com os empresários, pois tem impacto direto na vida das pessoas no interior.
Um elemento que parece estar mobilizando as intenções de voto na governadora é a política de “segurança pública”. Raquel Lyra investiu ao menos 1 bilhão de reais nesta pasta, inundando Pernambuco de policiais recém formados, em particular na região metropolitana. Quase imediatamente também explodiram as denúncias de repressão e baculejos de jovens, em sua maioria negros, o que contrasta também com a cooptação que representa estes concursos para as forças repressivas, em um estado onde os índices de desemprego e informalidade estão entre os mais altos do país. A política foi acompanhada de toda uma campanha populista de direita, apresentando os “laranjinhas” como a solução para os problemas de segurança, ao mesmo tempo que os dados de violência policial noticiaram que em Pernambuco 93% dos mortos em intervenções policiais são negros. Ou seja, a campanha que encontra eco em setores populares que são bombardeados cotidianamente pelo discurso da “insegurança social”, também representa o eleitorado da extrema direita do estado, que embora tenha Lula como favorito com 61% de aprovação, ainda mantêm um eleitorado estimado em aproximadamente 2 milhões de votantes (partindo da análise da performance de Bolsonaro nas eleições de 2022).
Contraditoriamente aos bons números de Raquel Lyra, seu governo é diretamente responsável pelo estado onde apenas 34% da população possui acesso a saneamento básico e grande parte do que foi investido está relacionado à injeção de recursos na Compesa para torná-la atrativa para o capital privado, concessão que foi finalizada em dezembro de 2025. Somado a isso, são frequentes as denúncias dos trabalhadores da saúde, onde vemos a estrutura dos hospitais estaduais literalmente caírem aos pedaços. No que diz respeito aos transportes, Raquel Lyra - de mãos dadas com Lula - entregou para empresários privados a concessão do Metrô de Recife, levando a uma importante derrota para a população e classe trabalhadora em Pernambuco. Não menor a localização do estado entre os primeiros em crescimento de feminicídios e transfeminicídios nos últimos anos, como denunciamos aqui.
Os números da última pesquisa de intenção de voto soam particularmente alarmantes para João Campos após ter vencido as eleições municipais em 2024 com 78% dos votos. A mídia burguesa ecoou pelos quatro cantos o nome de João Campos como a possível nova face da “esquerda” institucional no marco da já aberta crise de sucessão de Lula, principalmente a opinião pública em Recife. Mas o que os números recentes mostram é que em política nada está dado tão de antemão.
O avanço de Lyra e o retrocesso de Campos estão relacionados com os movimentos que ambos tiveram no último período como forma de se colocarem como alternativas de gestão para a burguesia, onde a similaridade programática é tamanha, que mudanças pontuais podem ser determinantes para a escolha entre um ou outro. Alguns analistas burgueses que já vinham sinalizando o crescimento de Raquel Lyra, como Igor Maciel do Jornal do Comércio, viam uma possível rejeição de João Campos no eleitorado de direita pernambucano, partindo de considerar sua chapa “demasiado de esquerda”, colocando muito peso na presença de Marília Arraes e Humberto Costa como os candidatos ao senado, Carlos Costa como vice e em declarações de Joao Campos de se colocar como “soldado de Lula” em Pernambuco, enquanto o próprio Lula vem tentando manter um palanque duplo, não se declarando abertamente por nenhum dos pré-candidatos.
Isso se expressa quando vemos como a localização atual de Raquel Lyra contrasta com a baixa popularidade no início de seu governo. As primeiras medidas, que soaram arbitrárias para a maior parte da população, como a demissão em massa dos cargos comissionados, ao contrário de expressão de qualquer apreço pela transparência, era uma medida de sobrevivência - trocar as figuras em postos chaves do Estado que eram de confiança das antigas gestões do PSB por pessoas que fossem de sua própria confiança. Isso gerou uma série de atritos em várias instituições do Estado, como hospitais, escolas e outras repartições públicas. Além disso, os episódios de repressão à greve de rodoviários que resultou na prisão do presidente do sindicato, Aldo Lima, as vaias das trabalhadoras da enfermagem no Geraldão, o calote no salário das merendeiras e a privatização do Metrô de Recife colocaram importantes categorias de trabalhadores enfrentadas com o governo do estado.
João Campos e o atual derretimento nas pesquisas
João Campos saiu da reeleição com uma vitória acachapante, com 78% dos votos e os passos seguidos por ele mostrava que estava buscando ser a alternativa para a burguesia - atacou os servidores municipais com reajuste 0% e oferecendo um aumento de R$1,00 no vale alimentação diante da aumento do preço dos alimentos em 2025. Na tônica privatizadora com o governo do estado e o próprio governo federal, encampou o projeto de privatizar o centro histórico, entregando bairros inteiros para a iniciativa privada; em vez de requalificação dos imóveis e investimento em moradia popular, que de fato poderia povoar o centro de famílias de trabalhadores e revitalizar a região, quis transformar o patrimônio arquitetônico da cidade em lucro para seus capitalistas de estimação - para além disso, nas entrevistas, optava por se declarar como “nem de esquerda, nem de direita, pragmático”.
A política real de João Campos, por fora do marketing progressista, mostrou estar muito mais próxima de Raquel Lyra. No que diz respeito à segurança pública, João Campos armou a guarda municipal, mostrando que também tinha nos planos dialogar com o sentimento de insegurança reforçando a repressão, assim como Raquel com os “laranjinhas”. As chuvas de abril deste ano, embora não tenham alcançado a dimensão do desastre de 2022, deixaram 6 vítimas fatais e expuseram como após 7 anos de gestão do PSB com João Campos, os problemas estruturais da cidade seguem os mesmos. Isso foi a cereja do bolo que coroou o derretimento das intenções de voto em João Campos.
João Campos contraiu dívidas milionárias no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) - o maior já feito a um município - para fazer investimentos em infraestrutura e obras públicas de prevenção de desastres, mas já nas primeiras chuvas de abril vimos novos episódios de alagamentos, enchentes e deslizamentos em Recife e Região Metropolitana. Ao mesmo tempo, enquanto obras de moradia popular são atrasadas utilizando a desculpa da infraestrutura que ainda é necessário ser desenvolvida, terrenos localizados em regiões altamente valorizadas, como a Madalena, são leiloados para a empresas privadas, incentivando a gentrificação da cidade, como aconteceu em 2023 com terreno de 260 m² localizado na rua Benfica; ou o prédio histórico “Ferro de Engomar” entre a Marquês de Olinda e a Rua do Bom Jesus, que também poderia virar moradia popular, mas foi entregue para a especulação por João Campos.
Apesar do significado importante do palanque duplo de Lula em Pernambuco que aparece com 61% de aprovação no estado, contra 32% de desaprovação, ambos os candidatos também estão de olho na base bolsonarista Raquel Lyra mantém aliados bolsonaristas em seu governo, como Anderson Ferreira do PL de Bolsonaro, além de destinar milhões de reais para comunidades terapêuticas (assim como também faz João Campos), como a dirigida pelo bolsonarista Pastor Cleiton Collins, do PP. O vazamento das anotações de Flávio Bolsonaro colocaram o nome da governadora como provável aliada da chapa da extrema direita no estado, informação que embora tenha sido negada por aliados de Raquel, não foi desmentida por ela, o que expressa seus interesses em apresentar um projeto que seja compatível para a extrema direita pernambucana. Por outro lado, a única prefeitura do estado do PL - partido de Bolsonaro - declarou apoio à candidatura de João Campos.
Tanto Raquel Lyra como João Campos representam projetos burgueses ligados às oligarquias, nenhum deles apresenta um projeto para a classe trabalhadora e o povo pobre e oprimido, cada um à sua maneira estão a serviço de manter intactos o legado de ataques à classe trabalhadora como a reforma trabalhista, terceirização irrestrita, etc, porque atende aos interesses dos capitalistas em Pernambuco, e Lula desde sua candidatura ao executivo federal, está pronto para receber o apoio de ambos.
As tarefas da esquerda em Pernambuco
Como buscamos demonstrar, nenhum destes projetos pode responder aos anseios da classe trabalhadora e povo pobre e oprimido. Nesse sentido é que precisamos batalhar por construir alternativas reais que respondam aos problemas da classe trabalhadora e da maioria pobre e oprimida. Isso passa por responder à grande precarização do trabalho e de acesso a serviços essenciais, como o enfrentamento ao projeto de privatização dos transportes que se expressa nos ataques contra o Metrô de Recife e pela revogação da reforma trabalhista e o imediato fim da escala 6x1, por 30 horas e sem redução salarial.
Para responder aos problemas de infraestrutura, precisamos batalhar por uma reforma urbana radical, onde a desapropriação dos edifícios abandonados seja destinada a sua reabilitação para moradias populares, e não para a especulação imobiliária. A partir do não pagamento da dívida pública, construir um grande plano de obras públicas controlado por trabalhadores com hospitais, escolas, casas abrigo etc. Um projeto como este, não virá das mãos das oligarquias Campos-Arraes, Lyra, Coelho, Collins, que governam para a burguesia e estão há anos administrando a precarização no estado.
Os trabalhadores e setores oprimidos precisamos confiar nas nossas próprias forças, seguindo o exemplo de luta dos povos indígenas no Pará, que com sua mobilização, derrotaram o projeto privatista do governo Lula, e como nos mostra o caminho a classe trabalhadora, camponeses e indígenas na Bolívia, que lutam contra o projeto de privatização de Rodrigo Paz. É esta perspectiva que nós do Esquerda Diário defendemos e batalhamos por construir.
Em resumo, podemos perceber a partir da análise que os projetos políticos que estão em jogo de Raquel Lyra e João Campos pouco se diferenciam um do outro, na realidade tem muitos pontos em comum como as privatizações, investimentos em infraestrutura, o populismo de direita com a “segurança pública” e o diálogo com a base bolsonarista no estado. Esses elementos são importantes na medida em que ajudam a desmascarar o projeto de João Campos que está bem longe de ser algo “socialista”, ao mesmo tempo em que também demonstra como Raquel Lyra está disposta a recrudescer as forças de repressão policial e privatizar os transportes como forma de melhorar sua localização como a alternativa para a burguesia pernambucana.