O pobre e o preço da cova
Da última vez que eu vim eu não comi caju. “Um suco de caju, por favor”. Mas logo mudei de ideia. “Não, melhor um Guarana”. Não sei por quê. Já nem lembrava do gosto do caju. Como se eu quisesse adiar o momento do fim da tortura. Como se eu tivesse medo da morte de algo. Mesmo a morte de um sentimento ruim, a morte de uma falta. Passei várias horas pensando nesse suco de caju que, nos acréscimos, eu transformei num Guarana banal. E nesse voo tinha tempo de sobra para pensar em besteiras, e em torturas também. O voo se anunciava como uma tortura mesmo.
Ainda bem que do meu lado estava esse rapaz que não tinha nenhum problema pra falar e contar histórias no detalhe. Não sei por quê pra ele era tão importante saber se o voo até o Brasil ia dar dez horas ou menos. “Será que a terra que a gente vê ai já é o Brasil?”. Claro que era. “Eu trabalho pra uma grande empresa na Europa”. Essa empresa paga bem pra ele que é um operário que “se criou na roça”. Os horários de trabalho são bons. Pagaram pra ele treinamento nos Estados Unidos e até ajudaram ele obter seus documentos europeus. Enviam ele trabalhar em missões em outros países do continente. Ele estava passando feio num país, e essa empresa chamou ele pra outro país, mesmo se ele não falava a língua do lugar. Essa empresa se especializa no setor da “indústria da morte”. Forças destrutivas, até o santo desconfia!
“Eu trabalho com fornos industriais”. Mas não é dificuldade suficiente pra tanta bondade patronal. “Eles não querem que eu vá embora”. Esse cara deve ser muito bom. Mas não é critério suficiente pra esse povo. Quase dez horas de viagem e de fala, e eu achei ele muito inteligente mesmo. E simpático. E simples. Mas no bom sentido da palavra. Porem, qual é a falha? “Eu estou exposto à radiação, e isso pode dar câncer”. Tudo o que ele me falou passou a ser totalmente fútil e sem sentido. Comecei a sentir uma profunda pena desse homem de olhar de criança e sorriso sincero. “Se eu morrer, é minha família e meu filho que vão ganhar uma grana ai”. Esses canalhas escolheram ele porque materialmente estava na merda, quase sem família, quase sem conhecimento do país, mas ficha limpa! Um coitado. Mas tenho certeza que esse cara não é um coitado. Ele simplesmente escolheu aceitar o preço de uma morte quase certa, como quem não tem nada a perder, em troca de uma vida melhor. Será melhor mesmo?
Brasil. A gente se cumprimentou antes de sair do avião. Os pensamentos sobre esse moço foram desaparecendo enquanto um céu maravilhoso cobria São Paulo. E de volta a outra realidade, muito mais precária, na grande periferia paulista. Mas, pode ter mais precariedade do que a morte? [“Brasil”, com musiquinha do Ayrton Senna]. Pode. Ou quase. O capitalismo é muito inventivo. De uma indústria da morte a outra. Na manhã seguinte, tomei café com uma prima. “Eu vendo planos funerários”. Ó coisa boa! Claro, porque pra morrer no Brasil pode custar até uns 10.000 reais, ou mais. O pobre já não pode nem morrer de graça! O pobre já não deixa herança quando morre, pelo menos que planeje pra não deixar dívidas. Ou melhor: tomar dívida pra não deixar dívidas. O capitalismo é uma máquina que funciona milimetricamente. Em fim, nem sempre. Principalmente nas indústrias da morte. Matar, destruir, é o melhor que o capitalismo sabe fazer.
E é assim que alguns aprendem a pôr o pé na porta pra vender planos funerários pra quem nem tá com o pé na cova. Porque se estiver com o pé na cova o preço é outro. Mais alto. E a comissão também. Então esses vendedores vão de porta em porta, na casa do povo (principalmente do povo da periferia porque rico já tem plano de vida e de morte e até cova mais confortável que muitas casas de pobre) convencer ele que a morte se prepara, e se paga adiantado!
“O gato estava todo machucado e o veterinário falou que não tinha jeito. Ali mesmo ele apresentou uma sala. Por 500 reais dava pra fazer um velório pro gato”. Esqueci de dizer, mas a morte dos animais também pode ser pretexto de negócio? Ó glória!
Ai me lembrei do cara do avião e falei pra mim: ele também tá pagando o plano funerário. Os canalhas que ele tem de chefes pagam bem ele pra ele aceitar de morrer pra eles, se sacrificar. Ele paga, pouco a pouco, o maior preço que o trabalhador pode pagar pro capitalismo: sua vida. Durante as guerras mundiais, das piores expressões da barbárie capitalista, a burguesia prometia miles e milhares aos operários e camponeses pobres, eles prometiam cuidar das suas famílias pra convencerem eles de ir morrer pelos interesses da classe inimiga. Os capitalistas estão “sempre” prestes a pagar algum preço elevado se isso garante algum lucro superior pra eles ou se isso é necessário pra conserva o seu poder. Na indústria da morte, onde trabalha o moço do avião, é assim também. Mas a burguesia como classe global não faz nunca favor ou presente. Ela recupera tudo. E se não puder recuperar no momento mesmo, ela tem memória e sabe se vingar no momento que aparecer a oportunidade. Às vezes de formas brutais fisicamente. Às vezes de formas brutais mas através de plano funerário.
E esse suco de caju? Será que inconscientemente eu sentia que por fim a essa tortura de não me lembrar do gosto do caju viria com algum preço alto a pagar? Quem sabe. Só uma certeza: esse sistema não dá pra mais, só resta lutar mesmo pra não ter mais que pagar o preço da vida, ou melhor o preço da morte, pra esses canalhas. Lutar e criar uma sociedade nova, onde viver seja tão gostoso como morder num caju bem carnoso.