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O que está acontecendo no Paraguai?

Por Guillermo Stola |
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Artigo publicado orginalmente em espanhol em La Izquierda Diario no dia 06/11/2026

Após a Grande Fraude do Ueno Bank, que deixou 3 milhões de paraguaios (metade do país) sem acesso aos seus fundos, a Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou por unanimidade o impeachment do presidente Santiago Peña, que foi acionista do banco e favoreceu ativamente seus negócios desde que assumiu o cargo, em 2023. Como chegamos até aqui e o que pode acontecer nos próximos dias?

Chamá-la de “Grande Fraude” é, na verdade, pouco. Hoje, 3 milhões de paraguaios não conseguem acessar suas economias e não têm nenhuma garantia de que irão recuperá-las. Da noite para o dia, o esforço de milhões de pessoas evaporou, e agora elas precisam se virar para conseguir arcar com as despesas diárias. Como consequência, uma onda de revolta se espalhou por todo o Paraguai.

O presidente Santiago Peña ficou no olho do furacão, e com razão: as investigações que se seguiram ao fechamento do Ueno Bank pelo Banco Central revelaram que Peña havia sido acionista do banco e que o havia favorecido repetidas vezes, por meio de diversas medidas, leis e nomeações. Hoje, a Câmara dos Deputados votou unanimemente a favor da abertura de um processo de impeachment contra ele. Agora, resta apenas a decisão do Senado, mas tudo indica que ele será destituído do cargo. No entanto, sua iminente saída parece estar longe de resolver a crise política e econômica que explodiu de um dia para o outro e que provoca temor nas mais altas esferas do poder no Paraguai.

O que é o Ueno Bank?

O Ueno Bank é uma das principais instituições financeiras do Paraguai. Existe desde 1976, mas, em 2021, foi adquirido pelo Grupo Vázquez, um dos mais importantes do país. O grupo é proprietário de cerca de 20 empresas de diferentes setores (esportivo, tecnológico e de entretenimento) e, em 2025, teve receitas superiores a 100 milhões de dólares.

O Ueno começou como uma financeira, mas, em 2023, mesmo ano em que Santiago Peña assumiu a presidência, obteve autorização para operar como banco e cresceu rapidamente até se tornar a principal instituição bancária do país, chegando inclusive a ter um escritório na Argentina, com cerca de 800 funcionários.

Como tudo começou?

Em 3 de novembro, o Banco Central do Paraguai declarou a insolvência do Ueno Bank e iniciou sua intervenção. A insolvência de um banco ocorre quando ele não dispõe de reservas suficientes para garantir suas operações. Após a intervenção, todos aqueles que tinham seu dinheiro e suas economias depositados no Ueno ficaram impossibilitados de acessá-los.

O Banco Central possui um mecanismo que prevê a devolução dos depósitos aos poupadores, mas o processo não é imediato e não há nenhuma garantia de que os valores serão devolvidos integralmente. O limite atual da primeira etapa dos reembolsos é de 10 milhões de guaranis, o equivalente a 1.624 dólares.

Mas como chegamos a esse ponto? A verdade é que já havia algum tempo que existiam sinais de alerta. Foi detectado que o Ueno Bank concedia numerosos empréstimos milionários a empresas pertencentes ao próprio Grupo Vázquez: em bom português, o Grupo Vázquez emprestava dinheiro ao Grupo Vázquez, que depois teria de devolvê-lo ao Grupo Vázquez.

As economias de 3 milhões de paraguaios foram, portanto, destinadas a financiar as atividades desse grupo empresarial. Para piorar, o governo de Peña flexibilizou as leis financeiras para permitir que instituições financeiras privadas pudessem administrar uma parcela dos fundos públicos. O Ueno Bank recebeu cerca de 850 milhões de dólares em recursos públicos, entre os quais estavam 380 milhões provenientes do fundo estatal destinado às aposentadorias e à saúde. Milhões que o Ueno utilizou para continuar concedendo esses enormes empréstimos às empresas pertencentes ao seu proprietário. Um esquema Ponzi grosseiro, que em algum momento teria de entrar em colapso. E foi exatamente isso que aconteceu na terça-feira.

A situação já era, por si só, grave, mas a fraude trouxe à tona toda uma rede de corrupção e cumplicidade em torno da (ex-)instituição bancária, rede que tinha entre suas principais figuras ninguém menos que o próprio Santiago Peña, presidente do Paraguai desde 2023 pelo Partido Colorado. Amigo de Javier Milei e Donald Trump, Peña vivia falando maravilhas de seu modelo econômico e de quanto ele havia beneficiado os paraguaios.

A relação de Peña com o Ueno Bank era quase simbiótica: ele e seus irmãos haviam sido acionistas da instituição até 2025 (segundo declaração do próprio Peña) e ele havia nomeado Carlos Carvallo Spalding, que fora presidente do Ueno, para a presidência do Banco Central. Uma definição literal de conflito de interesses, sobretudo levando em conta que foi a administração de Peña que concedeu ao banco a licença bancária e a autorização para administrar os fundos públicos. Quando enfrentou críticas por essa medida, teve a audácia de declarar que estava “protegendo as economias das pessoas”. O cinismo era total.

Até mesmo seus familiares aproveitaram o negócio: a nora de Peña obteve um empréstimo de 1,4 milhão de dólares do Ueno para sua boutique, a MUAR, que nunca foi pago. Por coincidência, a loja foi desmontada e fechada após o anúncio da dissolução do Ueno Bank. Nada suspeito.

Fúria nas ruas, renúncia fracassada e impeachment

A reação contra essa fraude foi quase imediata. Milhares de poupadores afetados foram às ruas exigindo a devolução imediata dos fundos e o impeachment de Santiago Peña, e acabaram entrando em confronto com a polícia, que reprimiu os protestos. No entanto, a repressão não conteve a revolta, e as manifestações contra Peña não cessaram, especialmente nas imediações do Congresso, em Assunção.

Peña já estava por um fio, mas ainda tinha esperança de que o bloco colorado (seu partido) bloqueasse o pedido de impeachment apresentado pela oposição. Essa esperança, porém, desmoronou quando Horacio Cartes, ex-presidente do Paraguai e líder do Partido Colorado, manifestou-se a favor do impeachment de Peña.

À primeira vista, isso poderia parecer surpreendente, mas não é: Peña estava disputando com Cartes sua influência dentro do partido e vinha conseguindo afastá-lo cada vez mais, algo que não agradou nem um pouco ao ex-presidente. O apoio de Cartes ao impeachment foi sua vingança contra Peña e acabou selando a condenação deste último.

Peña, no entanto, decidiu renunciar para evitar o impeachment. A renúncia, além disso, lhe garantiria uma cadeira vitalícia no Senado (um “direito” à impunidade estabelecido pela Constituição paraguaia para todo ex-presidente que não tenha sido destituído) e imunidades parlamentares que o protegeriam de qualquer investigação judicial.

A manobra, porém, não deu certo: na quinta-feira, a Câmara dos Deputados votou unanimemente a favor do impeachment de Peña. Mais tarde, foi convocada uma reunião conjunta de senadores e deputados para tratar de sua renúncia. Nela, o Partido Colorado estava disposto a votar a favor, mas, à medida que a votação se aproximava, ficou claro que a renúncia seria rejeitada. Por isso, os colorados se levantaram e foram embora, provocando o encerramento da sessão. Após essas notícias, os manifestantes que estavam nas imediações do Congresso entraram em confronto com a polícia, furiosos com essa tentativa de garantir a impunidade de Peña.

No entanto, como a renúncia não foi votada, Peña continua sendo o presidente do Paraguai, e o processo de impeachment seguirá adiante.

E assim chegamos à situação atual, na qual Peña terá de comparecer ao Senado às 10 horas da manhã de sexta-feira para apresentar sua defesa, após a qual será votada sua destituição.

E agora?

É praticamente certo que Peña será afastado da presidência. Em seu lugar, assumiria seu vice-presidente, Pedro Alliana, homem de confiança de Horacio Cartes. Alliana também está envolvido no escândalo do Ueno Bank, mas foi blindado pelo Partido Colorado, que votou contra o pedido da oposição para abrir um processo de impeachment contra ele. Sua eventual presidência está longe de oferecer garantias de um governo mais transparente, muito menos.

Enquanto isso, o Senado deverá eleger um novo vice-presidente. Todos apontam que seria Antonio Barrios, outro homem próximo a Cartes, que há alguns dias declarou que um impeachment contra Santiago Peña seria “demais”. Os altos e baixos da política burguesa provocam situações que parecem saídas de uma paródia.

Assim, o Paraguai passaria a ser presidido por alguém envolvido na “Grande Fraude” do Ueno Bank, tendo como vice um senador que não queria julgar o então presidente.

Uma demonstração contundente de que a crise do Ueno Bank não é responsabilidade apenas de Santiago Peña. Trata-se de uma crise que expõe todo o regime político paraguaio, especialmente o Partido Colorado: Peña não governou sozinho, e foram os próprios colorados que votaram as leis que permitiram que o fundo de aposentadoria ficasse nas mãos da iniciativa privada.

Esse escândalo também escancara o roubo descarado promovido pelo setor empresarial. O Grupo Vázquez não teve nenhum escrúpulo em roubar as economias dos trabalhadores e comerciantes paraguaios para financiar suas próprias empresas, nem em conceder a si mesmo empréstimos milionários provenientes dos fundos de aposentadoria, tudo isso com a cumplicidade aberta do Estado paraguaio. Isso abalou a confiança no sistema bancário, já que várias pessoas que não tinham economias no Ueno decidiram retirar seu dinheiro dos respectivos bancos como medida preventiva, para evitar uma situação semelhante.

Se o regime acredita que poderá resolver sua crise simplesmente se livrando de Peña, está muito enganado. Milhões de pessoas continuam sem conseguir acessar suas economias e, se essa situação se prolongar, a revolta aumentará. Nas imagens dos telejornais que mostravam os protestos diante do Congresso, alguns manifestantes gritavam: “Que todos vão embora!”, uma cena que remete a 2001, na Argentina.

É muito cedo para dizer como tudo isso terminará, mas a destituição de Peña está longe de representar o fim de uma situação que pode se tornar explosiva.