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Para honrar Honestino Guimarães: é preciso levar a sério o enfrentamento ao imperialismo e à extrema-direita!

29.09.2026

“A história é sempre contemporânea, ou seja, política” - Antonio Gramsci

Escrevo essas linhas a partir do documentário “Honestino”, dirigido por Aurélio Michaelis. O presente texto é um ensaio, não pretendo fazer uma análise minuciosa do filme, nem redigir um artigo acadêmico, mas sim tirar da obra algumas ideias e impressões para inspirar um debate mais profundo acerca dos usos e sentidos políticos da memória de Honestino Guimarães nos dias de hoje. Antes de tudo, minha intenção é provocar debates. Diante da crise do poder judiciário no Brasil, do acirramento da ingerência imperialista na América Latina e das eleições de 2026, faz falta ir à fundo no legado desse histórico militante do movimento estudantil para o presente a fim de preparar os combates que virão.

O cinema nacional vive uma epifania de excelentes filmes sobre a ditadura militar, como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”. De certa forma, isso faz parte de um espírito de uma época que se confunde com o reaparecimento da extrema-direita enquanto uma força de massas e da intervenção imperialista, mas também da luta de classes internacional e da volta ao imaginário coletivo da rebeldia jovem e do socialismo ao redor do mundo. Em boa medida, “Honestino” é uma obra com pontos inspiradores, e retomar a sua memória na atual conjuntura política é mais do que necessário. O filme prometia muito, no entanto se perdeu em suas limitações.

O mais sensível do filme sem dúvida são os relatos dos amigos, familiares, ex-esposas e militantes sobre a vida pessoal de Honestino, ajudando a tirar tanto a pecha de um romântico “herói intocado”, uma visão de que é impossível ser militante, quanto da desumanização promovida pela extrema-direita contra os desaparecidos políticos da ditadura. Ao ser morto, Honestino tinha a mesma idade que eu tenho ao escrever essas linhas, é difícil não se sentir conectada com sua figura de alguma forma, militando e estudando na mesma Universidade de Brasília, passando pelos mesmos prédios e salas de aula, que mudaram tanto - e ao mesmo tempo tão pouco. Era um filho de família trabalhadora, amante do Vasco da Gama, samba e praia. Arriscava sua vida para poder ver a filha mesmo na clandestinidade, um leitor voraz e poeta nas horas vagas, orador articulado. Em geral, dormia pouco, praticava yoga regularmente para preparar o corpo diante da repressão e da tortura, ao mesmo tempo endurecia ao dizer o que precisava ser dito, mas sem jamais perder a ternura com seus amigos e camaradas de militância. Um dos momentos mais sublimes do filme é quando se fala da foto em que Honestino repousa sua cabeça no colo de sua filha pequena, um pequeno vislumbre de sutileza e afeto diante de uma temporalidade infame e opressiva. A política também é feita de paixão, não é mesmo?

Foto tirada em 1973, ano do desaparecimento de Honestino. Sua filha, Juliana Guimarães tinha apenas 3 anos. Segundo ela, essa foto é uma das poucas provas que restaram do convívio com o pai, já que ela não tem lembranças daquela época.

No entanto, os grandes debates políticos e estratégicos que atravessam sua vida, desde seus tempos de escola quando no Elefante Branco, passando pelos anos de UnB, as prisões e invasões militares, a presidência da UNE e depois a clandestinidade, passam de forma genérica e sem coesão. Diversas das histórias emblemáticas do movimento estudantil, presentes por exemplo no documentário de Vladimir Carvalho, “Barra 68”, ficam ausentes ou nubladas. Cito de passagem alguns exemplos. O episódio do campo de concentração na quadra de basquete quando da invasão militar na UnB em 1968 é particularmente forte. Depois de uma brutal perseguição e repressão aos estudantes, diversos alunos estavam nos arredores da quadra em que os militares confinavam os “subversivos”, até que alguns deles entram deliberadamente nas quatro linhas em solidariedade aos colegas presos, ajudando a libertar alguns e, de forma geral, desmoralizando os guardas que não esperavam aquela situação. Outro exemplo curioso é o de Golbery do Couto e Silva Filho, preso também em 1968. Ele era filho de Golbery do Couto e Silva, o principal ideólogo do Serviço Nacional de Informação. Quando o Exército chamou o jovem para que fosse levado dali, Golbery Filho disse “eu estou aqui, mas avise ao meu pai que não vou embora enquanto todos os estudantes não forem soltos também”. Ou mesmo o relato de Maria Coeli Almeida, às vésperas do golpe militar de 64. Diante da chegada de seu tio, João de Almeida, comandante das tropas de Minas Gerais, sob ordens do General Mourão, seus pais lhe haviam proibido de sair de casa. Sabendo que ali se preparava uma intervenção militar, o que depois viria a ser o próprio golpe, ela fugiu para a UnB avisar seus professores para que se preparassem.

Essas memórias compõe o que era a subversão daquela geração de 1968, da qual Honestino era um de seus mais destacados dirigentes, muitos daqueles jovens que rompiam com suas famílias da alta hierarquia burocrática do Estado ditatorial, enquanto outros tantos decidiram dedicar suas vidas não só a luta contra a ditadura militar, mas também pela revolução. A solidariedade era um valor, assim como a rebeldia - essa é uma ideia que se toca no filme “Honestino”. No entanto, essa mesma ideia não é tão explorada em suas relações mais profundas. 

O filme acaba por não convidar as novas gerações à militância no movimento estudantil, na verdade parece mais bem uma miragem distorcida: reflete um passado que teima em voltar, o fantasma da extrema-direita e da ditadura, retrata o sensível da vida de um desaparecido político, mas não consegue se realizar plenamente, some no horizonte de si mesma, acabando na exortação de uma resistência passiva. O contraste das entrevistas com a atuação de Bruno Gagliasso parece se perder um tanto no tom panfletário e caricato, mas sobretudo pela falta de capacidade de se ligar com o presente. Em boa medida, o filme acaba servindo como um reflexo da atual direção majoritária da UNE, composta por setores governistas, e sua dissociação profunda com o legado concreto de Honestino (e da própria entidade). A ex-Reitora da UnB, Márcia Abrahão (PT) e o DCE da UnB contracenam uma cena final que não empolga nem anima, não exorta o público a tomar para si a memória de Honestino, não rompe com a rotina e o status quo estético.

A memória, o tempo e a luta de classes 

Façamos uma pequena digressão. Para o marxista italiano Enzo Traverso, a memória constitui um conjunto de representações coletivas do passado produzidas no presente, por meio das quais grupos sociais constroem identidades e atribuem sentido à sua experiência histórica. Por isso, a memória não é politicamente neutra: as formas de lembrar e esquecer estão relacionadas às disputas sociais em torno da interpretação do passado[1]. Nesse sentido, a memória é uma relação vivida e subjetiva com o passado, individual e coletivamente construídas, moldadas politicamente. Por outro lado, em suas Teses sobre o conceito de história[2], ao combater o historicismo alemão, pensamento que o autor considerava a historiografia típica das classes dominantes, Walter Benjamin entende que a história não é exatamente “aquilo exatamente o que aconteceu”, mas sim uma disputa, um campo de batalha entre vencedores e vencidos. Ademais, o presente pode trazer à tona aspectos do passado que antes permaneciam ocultos, visto que a história também é o reino das possibilidades, não uma garantia de um progresso inevitável. Portanto, o papel do historiador seria o de “atear ao passado a centelha da esperança (...) perpassado pela convicção de que também os mortos não estarão seguros diante do inimigo, se ele for vitorioso. E esse inimigo não tem cessado de vencer” (Tese VI). 

A história é o movimento real das contradições. Nesse espírito, uma das teses da obra A Ecologia de Marx, do ecossocialista John Bellamy Foster, é a concepção de que o marxismo é a síntese mais radical do pensamento filosófico e científico materialista, de forma que haveria nela uma concepção ecológica igualmente radical da história e da ação política. Foquemos no que implica a primeira dessas premissas. De acordo com o autor, o marxismo parte da existência de uma realidade material independente, em si mesma, da consciência e racionalização humana, todavia ela mesma é um produto da história natural transformada dialeticamente em história humana através da evolução e especiação humana por meio do trabalho, o que nos torna capazes de apreender esse real em movimento, bem como de transformá-lo[3]. As formas como fazemos essa apreensão também mudam com o tempo (não necessariamente para melhor, os retrocessos no saber por vezes também acompanham as derrotas na luta de classes e a decadência cultural e social, ao passo que se animam novamente com suas vitórias), o que não nega em absoluto a existência de um concreto histórico. Essa é uma premissa importante para pensar a História enquanto disciplina, uma vez que as tendências pós-modernas tendem repetidamente a qualificá-la enquanto um mero “ponto de vista”, uma “narrativa” e não uma ciência. É evidente que as formas de apresentação e apreensão do real, como ele é escrito (e inscrito), como se pesquisa, em qual momento se dá essa produção e com qual sentido etc., alteram o seu conteúdo. Agora, disso afirmar que não haveria diferença essencial entre uma História que se compromete com a transformação social, a memória dos vencidos e com a própria luta de classes contra os exploradores, e uma mal chamada “História” do tipo “revolução de 64” ao estilo Brasil Paralelo apenas abre espaço ao negacionismo da extrema-direita. Limpemos primeiro esse terreno. 

Tomemos as averiguações da Comissão Nacional da Verdade, por exemplo, em que a memória viva, tanto daqueles que sofreram a violência de Estado quanto aqueles que a infringiram, ao lado da documentação da repressão, foram colocadas diante dos historiadores para que, no presente, se pudesse elaborar o passado (o que evidentemente impacta a forma como se via e interpretava o futuro). Todavia, seu potencial foi contido e adestrado, ficou suprimido em si mesmo ao não avançar no fundamental da luta pelos direitos humanos: a apuração e punição exemplar de todos os crimes perpetrados pela ditadura militar. Ficou evidente que se tratava de uma diretriz de Estado, auxiliada e apoiada diretamente pelo imperialismo dos Estados Unidos. Foram 434 nomes: 191 mortos, 208 desaparecidos e 35 desaparecidos cujos corpos foram encontrados e identificados. Além disso, ao menos 8.350 indígenas foram assassinados na análise de apenas 10 etnias, sem mencionar a questão de que a repressão imposta pela polícia e os grupos de extermínio paraestatais nas favelas e periferias contra a população trabalhadora não foi considerada.

De outro ponto de vista, a elaboração sobre a memória também acontece na militância revolucionária, em que a oralidade, as conversas e encontros da velha guarda com os mais novos resgatam para o presente a vivacidade das batalhas passadas, animando os futuros combatentes, momentos em que a vida se entrelaça com a história e o tempo. As estatísticas e dados são necessários para o enfrentamento sistemático ao aparato de repressão,  são números políticos, principalmente diante de um aparato que ainda vive nos tribunais militares, nos sistemas de inteligência, nas polícias, nos esquadrões da morte e nas milícias. No entanto, a memória também é fundamental para ligar as aspirações do passado com as do presente, suspender o entorpecimento da rotina e nos elevar a uma dimensão superior, a dos sonhos e da luta que nos precedem, de que não começamos do zero e podemos aprender obstinadamente com a história, em seus erros, fios de continuidade e acertos. A memória tem o potencial de dilatar o tempo, imaginar futuros outros aos quais estamos acostumados. Para o petismo, a Comissão Nacional da Verdade foi um erro porque “abriu a caixa de pandora” e alentou os militares à promoveram o golpe institucional de 2016. Tratava-se então de deixar o passado ali, intocado? Conciliar mais e mais? Qual seria aqui, então, o papel do historiador e da memória? O da resignação diante de um passado que teima em retornar no presente e assombra o futuro, um no qual “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”?

Em Melancolia de esquerda, Enzo Traverso propõe uma reflexão sobre a memória das derrotas da esquerda revolucionária e sobre a permanência, no presente, das experiências, esperanças e projetos associados às lutas do passado. A memória dos derrotados não deve ser reduzida à nostalgia: ela pode constituir uma forma de crítica do presente e preservar experiências históricas que continuam a interpelar as possibilidades de transformação social[4]. Para o autor, precisamos de uma “transição da utopia para a memória” visto que, depois da crise das experiências revolucionárias, particularmente após a queda do Muro de Berlim, a memória passaria a ocupar um lugar central na cultura política da esquerda. A grande problemática desse zeitgeist da esquerda contemporânea não é apenas o desalento, que encontra grande eco nas políticas do mal-menor conciliador contra o “fascismo” em cada eleição que se passa, mas do predomínio de uma apreensão da memória das lutas sociais esvaziada de uma reflexão e um balanço históricos estratégicos. A partir dessa reflexão, pretendo trazer alguns elementos da memória, obra, pensamento e ação de Honestino para dilatar o tempo presente.

Invasão da Universidade de Brasília, agosto de 1968. Os militares prendem alunos e professores na quadra de basquete, próximo à antiga Reitoria e da atual Faculdade de Educação

O “Mandado de Segurança Popular” e os balanços do golpe militar e de 1968

Vivendo na clandestinidade forçada por quase 5 anos, Honestino escreve o “Mandado de Segurança Popular”[5] em 1973, um jogo de palavras com a repressão fascistoide da ditadura militar a partir da figura jurídica do mandado de segurança, que resguarda um direito, individual ou coletivo, comprovadamente violado ou ameaçado por uma autoridade pública. Tratava-se de uma carta aberta confiada à sua então esposa, Isaura Botelho Guimarães, para que, caso fosse capturado, pudesse ser entregue à imprensa, partidos políticos, autoridades civis e eclesiásticas, cujo conteúdo denunciava e responsabilizava os órgãos de repressão e o próprio Estado pela perseguição e quaisquer crimes que poderiam ser feitos contra ele.

Esse documento exprime um certo caráter de testamento, uma vez que nesse momento, após as sucessivas “quedas” de seus companheiros, Honestino considerou necessário redigir um manifesto político dedicado a ajudar a luta futura contra a ditadura militar, sintetizando algumas ideias centrais das quais ele pretendia ser lembrado. A organização política de Honestino era a Ação Popular (AP), uma organização que vinha da juventude católica progressista e que dirigiu a UNE ao lado do PCB no pré-golpe militar. Ao longo dos anos seguintes, a organização entrou em disputa entre distintos projetos políticos, atravessando uma “virada ideológica” que passava por revisar o seu “reformismo” do “socialismo humanista cristão” para uma perspectiva mais próxima de premissas marxistas. Será entre junho-julho de 1968, na I Reunião Ampliada da Direção da AP, já em um momento de início do refluxo contrarrevolucionário, que a organização irá aderir oficialmente ao maoísmo e à estratégia de guerra popular prolongada. São anos de transformação da organização e do próprio Honestino, ao mesmo tempo em que disputavam a direção do movimento estudantil com organizações como a POLOP e outras dissidências do PCB, cuja estratégia estava inspirada no foco guerrilheiro, no guevarismo e na Revolução Cubana. Em 1971, após uma série de debates internos, a maioria da AP decide pela fusão com o PCdoB, ala esta que encabeçará a Guerrilha do Araguaia. Honestino fica com a minoria que se opõe, renomeando a organização de Ação Popular Marxista Leninista (APML)[6]. 

O ano de 1968 esteve embalado pelos ventos da luta de classes internacional soprando desde o Maio francês, as ocupações de fábrica do Outono Quente italiano e a luta contra a burocracia stalinista na Primavera de Praga, e em todos eles aparecendo com força a aliança operário-estudantil. O Brasil foi sacudido após a morte do secundarista Edson Luís em março, seguido por intensas greves operárias como a dos metalúrgicos de Contagem/MG em abril e a passeata do Cem Mil em junho. Em julho, a greve dos metalúrgicos que ocuparam a Cobrasma em Osasco/SP foi duramente reprimida, com intervenção militar no sindicato, prisão de seus líderes e desocupação da fábrica. No final de agosto a UnB sofreu intervenção militar, em outubro o Congresso de Ibiúna da UNE foi desmantelado, desarticulando o movimento estudantil nacionalmente, e por fim, em dezembro, o AI-5 foi promulgado. Algo que marcou profundamente o 68 brasileiro, e apesar de ter sido esmagado pela repressão depois foi retomado no seguinte ascenso operário iniciado em 1978-80, foram os “estudantes-operários”, estudantes que em um turno estavam nas universidades e no outro nas fábricas. Eles debatiam marxismo, revolução russa e outros temas com os trabalhadores, colocando-se lado a lado em apoio ativo à sua auto-organização, cujo ponto auge foram as oposições metalúrgicas, em especial a de Osasco, na qual os operárias formaram comissões de fábricas independentes para combater a burocracia sindical atrelada ao Estado.

No entanto, careciam a ambas as posições hegemônicas no movimento estudantil, tanto a guevarista como a maoísta, uma estratégia que desse conta de organizar os estudantes nacionalmente desde as bases através da defesa de uma política de auto-organização, isto é, uma estratégia que tivesse como objetivo a construção de assembleias capazes de organizar comandos nacionais e articular de forma massiva e nacional o movimento. Outra carência importante era a aliança incondicional com a classe operária e seu reconhecimento como sujeito revolucionário, pela sua posição na produção e, portanto, capaz de parar e transformar a sociedade desde as bases. Isso poderia ter generalizado os exemplos dos “estudantes operários”, entre outros exemplos como a solidariedade das ocupações universitárias às greves como na USP no antigo campus da Maria Antônia, auxiliando os trabalhadores a superarem as burocracias sindicais e unificar o conjunto da classe junto dos camponeses e oprimidos. Por fim, faltou ao movimento a bandeira da luta pela construção de um grande partido revolucionário da classe trabalhadora, que tirasse as lições das revoluções do pós-guerra[7]. 

O trotskismo e a estratégia-programa da revolução permanente, sintetizam que deve ser o proletariado a classe social dirigente do movimento de massas rumo à revolução social, acaudilhando junto de si os camponeses e as camadas médias contra a classe dominante e o imperialismo. Essa estratégia, resumidamente, baseia-se na incapacidade da burguesia nacional dos países oprimidos de resolver questões democráticas básicas como a reforma agrária (o que foi demonstrado com Jango e o golpe militar), sendo necessária uma política independente dos trabalhadores para enfrentar a espoliação imperialista e fazer frente à reação contrarrevolucionária. A partir da constituição de organismos de poder operário e popular, como foram os sovietes russos,  se faria necessário avançar para a revolução socialista, expropriando e socializando os meios de produção democraticamente desde a base. Nem a concepção de “guerra popular”, na qual a AP dissolvia o sujeito operário no campesinato, nem o foquismo guerrilheiro que levou a aventuras ultraesquerdistas, liquidando a jovem vanguarda nas guerrilhas urbanas e rurais separando-se dos centros operários, eram alternativas. Nessa dinâmica, em um país semi-colonial como o Brasil, a revolução só poderia se concluir e se completar a nível internacional.

Ainda assim, Honestino foi um crítico da guerrilha, argumento que retoma em seu Mandato de Segurança Popular:“Das tentativas de atingir esses objetivos através de uns poucos, decididos e corajosos por certo, mas sem o apoio e a participação popular, todas se mostraram fracassadas. As ações armadas de pequenos grupos como assaltos a bancos, atentados e seqüestros revelam apenas um radicalismo inconseqüente que não leva a nada que não a radicalização artificial da repressão.”

Apesar dessa opinião, Honestino afirmou com convicção refutando as acusações de “terrorismo” impostas contra a guerrilha, “uma vez que os verdadeiros terroristas estão no poder e usam do terror para aí se manter.” Sua confiança, no entanto, estava em que “estes dias de violência fascista serão superados pela luta democrática de nosso povo e em especial dos trabalhadores (...), na força da atuação coletiva das massas. E esta luta sem a real participação das massas trabalhadoras não nos levará a nada.” 

Honestino não chega a romper diretamente com os preceitos fundamentais do maoísmo. Em boa medida, primeiro a AP depois a APML foram incapazes de fazer um balanço consequente tanto do que levou ao golpe militar quanto da reorientação estratégica necessária para derrotar a ditadura. A disjuntiva de superar o caráter de uma organização católica progressista de base pequeno-burguesa com a “proletarização” militante, isto é, de enviar os estudantes para o trabalho clandestino em fábricas e no campo, não solucionava o problema central que era a estratégia de como derrubar a ditadura. Honestino, assim como a AP e a APML, tinham uma forte lógica nacionalista, e em larga medida viam a “luta democrática” anti-imperialista como uma etapa necessária de democracia burguesa para então dar lugar a uma luta aberta pela revolução socialista. Ainda que a história não seja feita a partir dos “e se”, é fato que sua paixão revolucionária e abnegação militante, bem como a crítica à guerrilha e a confiança na classe trabalhadora que expressava em seus últimos escritos, diferente do caminho que seguiu o restante da AP, o separam da trajetória conciliadora de uma série de setores stalinistas, seja o pacifismo burocrático do PCB, quanto o “reformismo armado” guerrilheiro. Os primeiros promoviam a ideia de que qualquer luta mais séria contra a ditadura atrapalharia a transição democrática, justificando assim sua aliança com a burguesia dita “democrática” como o MDB; já os últimos, depois de abandonarem as metralhadoras, revisaram os preceitos da guerrilha para a lógica do eleitoralismo pacifista com a atuação por dentro do MDB, como o PCdoB, MR-8 e o PCR. Ambos setores se encontravam nas mesmas trincheiras da burocracia sindical pelega e interventora da ditadura, atuando em comum contra a auto-organização e a independência de classe. Esse foi o mesmo trágico caminho que trilhou a UJS, juventude que dirige burocraticamente a UNE e o movimento estudantil desde meados dos anos 80.

Foto do 1º de maio de 1968 na Praça da Sé em São Paulo, em que trabalhadores e estudantes tomam o palanque oficial em que discursava o governador Abreu Sodré e a burocracia sindical. Além da AP, Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e Aliança Libertadora Nacional (ALN) são algumas das organizações que lideram a revolta. Na foto, também lê-se no cartaz: “Operários, estudantes: unidos para libertar o Brasil do imperialismo”.

Os sentidos do legado de Honestino ontem e hoje

Os trotskistas encontram seus fios de continuidade naqueles e naquelas que, assim como Honestino, confiavam na força da classe operária, mas especialmente aos que a levaram até o final com trabalhos pacientes e clandestinos nas fábricas, nos locais de trabalho e estudo, forjando fortes oposições sindicais e batalhando pela auto-organização que logo emergiu diante do ascenso operário do final dos 70 e início dos 80. Nesse contexto é que nasce o Partido dos Trabalhadores, um empreendimento histórico da classe trabalhadora brasileira, surgido a partir do classismo e da necessidade de um instrumento político independente, que no entanto foi desviado sobretudo por Lula e os sindicalistas autênticos para se tornar a ala esquerda da transição pactuada brasileira. Diante das multitudinárias greves metalúrgicas do ABC paulista, Lula atuava desde o sindicato separando as demandas salariais e econômicas dos trabalhadores da luta política mais geral pela queda da ditadura. Nas idas e vindas dos embates com a ditadura nos anos 80, a estratégia de um “socialismo democrático” do PT, na qual os trabalhadores governariam o capitalismo de forma mais humana, foi paulatinamente rebaixando as aspirações das massas. Com o ascenso do neoliberalismo e depois com os governos petistas, com o próprio Lula sendo o responsável pela gestão do capitalismo brasileiro, a antes criticada Constituição “cidadã” e a Nova República se tornaram o símbolo máximo do Estado democrático de direito, enquanto a última trincheira historicamente possível que nos separa do fascismo e da barbárie propagada pela extrema-direita[8].

Não estava dado que esse seria o caminho do fim da ditadura. Assim como em 68, o que as grandes greves metalúrgicas indicavam era a possibilidade de romper com a ditadura em chave revolucionária. No entanto, a falta de um partido revolucionário inserido na classe operária e nos movimentos sociais que pudesse intervir em seu interior e disputar os rumos da história cobrou seu preço. As organizações de origem trotskista, por exemplo, como a Democracia Socialista, Convergência Socialista e O Trabalho perderam uma oportunidade ao se adaptar à ala de Lula e sua “transição democrática”, furtando-se de construir uma política independente dentro do PT que pudesse dar lugar a um grande partido operário revolucionário no Brasil.

Outro ponto forte do “Mandado de Segurança Popular” é quando fala sobre o judiciário: “Sem maiores provas, sem maiores critérios, estas condenações são algumas das centenas de exemplos a que se viu reduzida a justiça em nosso país. É certo que a Justiça, sendo um instrumento de classe, nunca foi exemplo de isenção e imparcialidade. Mas é certo também que nunca chegou a tal grau de distorção (...) Daí porque não me ‘entregar’. Não reconheço nem posso reconhecer como ‘justiça’ o grau de distorção a que se chegou nesse terreno. A justiça a que recorro é a consciência democrática de nosso povo e dos povos de todo o mundo.” A resolução de Honestino está em completa dissonância com a confiança depositada por amplos setores da esquerda nos dias de hoje no judiciário, uma completa subordinação do combate ao bolsonarismo aos ditames do autoritarismo de toga do Supremo Tribunal Federal. O paradoxo aumenta se pensarmos que, até hoje, os mandantes, torturadores, responsáveis militares e civis pelos crimes da ditadura seguem impunes. O chefe do DOI-CODI de São Paulo entre 1970 e 1974, Carlos Alberto Brilhante Ustra, por exemplo, viveu tranquilamente sua vida numa mansão no Lago Norte, uma das regiões da classe alta da capital federal, até morrer em 2015. 

Por outro lado, o corpo de Honestino nunca foi encontrado, e as causas exatas das condições de sua morte ainda não são consenso entre os historiadores. As linhas de investigação trabalham com algumas hipóteses: a primeira é de que Honestino tenha sido assassinado pela brutalidade da tortura no Centro de Informações da Marinha (Cenimar); a segunda é que, pelo seu alto nível de “periculosidade”, tenha sido transferido para o DOI-CODI do Rio de Janeiro, principal centro de tortura e coordenação da eliminação de insurgentes, e então morto; a última é que tenha sido levado para a Casa da Morte em Petrópolis, um centro clandestino mantido pelo Centro de Informação do Exército, e então teria sido esquartejado e jogado ao mar de um avião, enterrado em uma vala comum ou queimado. Apesar das reparações póstumas, como o atestado de óbito entregue em 1996, a anistia política concedida em 2013 e o diploma de geógrafo em 2024, familiares e movimentos de direitos humanos ainda consideram que a justiça não terá sido realizada plenamente enquanto todos os detalhes, não só do desaparecimento de Honestino, mas do conjunto dos crimes da ditadura, não forem devidamente apurados e punidos. O desaparecimento é um crime brutal justamente porque nega o direito à memória, é a incerteza e a desumanização mais extrema, tomada como orientação repressiva de Estado. A verdade é que a dor da memória não espera.

Diante da crise histórica do poder judiciário com o caso do Banco Master, as palavras de Honestino continuam atuais em todo seu sentido. São esses mesmos juízes, de salários milionários e eleitos por ninguém, que mantém de pé a Lei da Anistia, assim como mais da metade da população carcerária, uma maioria absoluta negra e jovem, presa sem julgamento, e impedindo o direito ao aborto legal, seguro e gratuito. Um produto contraditório da transição tutelada e pactuada com os militares foi revestir a Nova República com o véu de que a ditadura havia ficado para trás. A extrema-direita e o imperialismo estão dispostos a cometer novamente os mesmos crimes de Estado - não é por acaso que, no final dos anos 90, Jair Bolsonaro falava que o pior erro da ditadura foi não ter “matado 30 mil”. 

São os herdeiros dessa escória que chamam nossos Centros Acadêmicos de ninhos de rato, e por vezes tentam desmoralizar o movimento estudantil e a universidade pública, inclusive difamando, assediando e atacando moral e fisicamente nossos espaços e os estudantes. Se queremos honrar a memória de Honestino, é preciso levar à sério o enfrentamento à extrema-direita, não podemos aceitar que elas sejam palco para reacionários, precisamos defendê-la! É preciso tomar partido e se organizar com uma estratégia capaz de atacar a raíz do poder desses setores. 

A frente ampla de Lula-Alckmin, muito longe de representar a memória de Vila Euclides, estádio dos multitudinários comícios das greves metalúrgicas que colocaram a ditadura em cheque, é o vetor que procura salvar uma Nova República já há tempos velha e caduca, cujos poucos direitos conquistados e assegurados na constituinte de 88 foram fundamentalmente rasgados. A entrega do petróleo e das terras raras ao imperialismo, o arcabouço fiscal e o pagamento religioso da dívida pública, a conciliação com o agronegócio e a bancada evangélica, a perpetuação dos privilégios e impunidade das altas cúpulas militares - tudo isso foi feito em nome de nos salvar do “fascismo”... e falhou categoricamente. É preciso trilhar outro caminho, um que aponte um programa anticapitalista e socialista, independente da frente ampla e do regime político, capaz de preparar os combates que virão. 

…

“E se não achar meu caminho, basta-me crer encontrá-lo de coração”, é uma frase de Honestino esculpida no monumento em sua homenagem ao lado do Restaurante Universitário da Universidade de Brasília. A memória de Honestino precisa animar as novas gerações a tomar decididamente o caminho da classe trabalhadora e da revolução internacional, e é justamente por isso que escrevo essas linhas. E se é verdade que “nada de grande se fez no mundo sem paixão”, como disse Hegel, também é verdade que "é preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias”, como diria Lênin. Ao contrário de seus detratores que lhe atribuem uma perspectiva teleológica, para o marxismo a história não está dada de antemão e é fruto do processo vivo da luta de classes e da ação consciente de pessoas concretas. Por isso, a paixão precisa animar a ciência, da mesma forma que a ciência precisa dar os fundamentos concretos e precisos para canalizar a paixão em seu sentido revolucionário pleno. 

Termino esse ensaio com um trecho de uma carta de Honestino escrita em 1972, transcrita por sua mãe, endereçada a seus irmãos e publicada na Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade da Universidade de Brasília. Acredito que não existem palavras melhores que as dele nesse momento para animar as novas gerações: 

“Tenho pensado bastante em vocês todos. E sinto que gosto muito da família que tenho. Nestas horas me dói profundamente não estar com vocês. Sei que seria muito bom a gente conviver um pouco. Quando há amor e uma vontade de transformação em nós e nas pessoas próximas e se leva isso na prática, não há nada melhor. Quando estive com os manos este ano senti que cada vez tenho maior amizade, carinho, ligação com eles. Me sinto amigo pacas destes dois. E quanto não pagaria para convivermos juntos e interagirmos uns sobre os outros! Vi que os dois estão muito inquietos, não estão acomodados dentro de si. E isso é muito bom. Lembra-me o Torquato Neto (não sei se vocês conhecem): ‘Não era um anjo barroco/ era um anjo muito louco/ com asas de avião/ que disse: Vai bicho/ desafinar o coro dos contentes’. É isso aí. Enquanto não estivermos fazendo coro com os contentes, enquanto sentirmos a cuca quente e o sangue correndo, tá tudo azul. Não seremos mortos vivos dos tipos que o Henfil fala: não seremos os mesquinhos da vida. E vejam, meus caros, que a acomodação que eu tô combatendo é uma bem geral, e não apenas acomodação política. O negócio é cada um descobrir a própria medida dos seus passos. Ninguém tem o direito de se amesquinhar, de virar morto-vivo. Ou ainda, ninguém se transforma em morto-vivo sem deixar de ser vivo, de ser gente, e tudo o mais. Aí virado morto-vivo: contente beato, bobo alegre; aplaudidor dos poderosos, das leis morais que estão aí impostas e impositivas; aí, bem aí. Não sei se vocês estão com consciência disso. E isso é nada mais do que filosofia, rumo, perspectiva de vida. É verdade e verdade é coisa inquieta que mexe com a gente.”