Rebelião na Bolívia, soluções de força e tendências às crises orgânicas na América Latina
Artigo publicado originalmente em espanhol no dia 09/06/2026 no Ideas de Izquierda Argentina
A rebelião na Bolívia não recua e já entrou em seu segundo mês. Estamos diante de momentos decisivos? Até onde o governo de Rodrigo Paz pode se sustentar? A Bolívia é a expressão mais explosiva de uma tendência profunda ao que Gramsci chamou de “crises orgânicas”, que percorre toda a América Latina. Aqui, uma análise de alguns elementos que se expressam nas recentes eleições do Peru e da Colômbia, bem como na situação do Chile e da Argentina.
A rebelião na Bolívia faz parte de uma tendência profunda à polarização que vem marcando a América Latina. Uma característica distintiva desta etapa é a proliferação de tendências cada vez mais abertas ao que Antonio Gramsci chamava de “crises orgânicas”: crises que não afetam apenas a economia nem um governo específico, mas o conjunto da ordem social, política e econômica. As classes dominantes perdem a capacidade de dirigir por meio do consenso e abre-se o terreno para as “soluções de força”. Dizia Gramsci que:
Em certo ponto de sua vida histórica, os grupos sociais se separam de seus partidos tradicionais, ou seja, os partidos tradicionais, naquela determinada forma organizativa, com aqueles determinados homens que os constituem, representam e dirigem, já não são reconhecidos como sua expressão por sua classe ou fração de classe. Quando essas crises ocorrem, a situação imediata torna-se delicada e perigosa, porque o campo fica aberto a soluções de força... [1]
As direitas chegam ao governo, mas depois se desgastam muito rapidamente e não conseguem governar. Esse é um padrão que se repete na América Latina. E, como mostra o caso da Bolívia, essa tendência às soluções de força que está na base das tendências autoritárias — “bonapartistas”, diríamos os marxistas — dos governos de direita também inclui, como contrapartida, a intervenção das massas trabalhadoras e camponesas por meio da ação direta.
Estado de exceção e “soluções de força”
Na segunda-feira, 9 de junho, após sua aprovação no Senado e na Câmara dos Deputados, Rodrigo Paz promulgou a Lei do Estado de Exceção. No entanto, ainda não emitiu um decreto para torná-la efetiva. Enquanto setores duros da direita continuam pressionando por uma saída pela força, o governo de Paz intensifica as ameaças para forçar uma negociação in extremis. Em entrevista coletiva, voltou a falar em “narcoterrorismo” para se referir à rebelião operária, indígena, camponesa e popular que já completou 40 dias, assumindo o discurso de Trump e Marco Rubio.
Embora tente demonstrar força, o governo vem de uma derrota. No sábado, 6 de junho, mobilizou uma grande operação policial e militar, juntamente com grupos racistas de extrema direita, para desalojar o bloqueio na pequena localidade de San Julián, em Santa Cruz. O resultado foi um fracasso: após seis horas de confrontos na estrada, a polícia teve de recuar, reconhecendo sua incapacidade de abrir passagem. Longe de quebrar o movimento, a resistência heroica dos bloqueadores e a rejeição à atuação das milícias racistas (que saquearam casas de moradores) aprofundaram o apoio popular. No dia seguinte, houve uma importante mobilização para fortalecer o bloqueio.
O que acontece em San Julián é um exemplo paradigmático do processo político boliviano: ali, Rodrigo Paz havia obtido quase 60% dos votos nas eleições presidenciais e agora a localidade é um dos centros de enfrentamento ao seu governo. Muitos o haviam apoiado com a esperança de melhorar suas condições de vida, mas o que receberam foi um ataque brutal em todas as frentes.
O governo Paz vem realizando incursões repressivas para “testar” a correlação de forças, sem ainda tomar a decisão de lançar uma repressão generalizada. O risco para o governo é muito grande. O exemplo de San Julián mostra que certamente haverá resistência, e ela pode se generalizar. Enquanto isso, Paz aposta no desgaste do movimento e busca dividir as forças mobilizadas antes de intensificar a repressão. A Central Operária Boliviana (COB) denunciou a detenção ilegal de vários dirigentes por policiais encapuzados. Mas essa estratégia pode sair muito mal para o governo: os bloqueios vêm se mantendo entre 90 e 100 durante a última semana.
No Cabildo de El Alto da última terça-feira, 2 de junho, do qual participaram milhares de pessoas, assim como nos realizados no Distrito 7 de El Alto e em Caracollo, na sexta-feira, 5 de junho, também com milhares de participantes, reafirmou-se a manutenção das medidas de luta diante das tentativas repressivas do governo, bem como a rejeição ao “diálogo”. Nas ruas e estradas, escuta-se por toda parte a indignação e a exigência da renúncia de Paz. As mesas de diálogo do regime fracassaram.
No entanto, é preciso ter em mente, como alerta o La Izquierda Diario da Bolívia, que em janeiro a direção da COB mudou de posição e fez um acordo com o governo. Atualmente, sem fazer nada para efetivar a greve geral, parece apostar no desgaste do movimento. Mas, se houver um salto na repressão, também poderemos assistir a um salto na resistência e nos confrontos diante de um governo que hoje continua suspenso no ar.
A proliferação das “crises orgânicas”
As tendências à crise orgânica também são muito profundas em outro país andino: o Peru. As eleições de domingo, 7 de junho, tiveram como resultado um empate técnico entre Keiko Fujimori, herdeira do neoliberalismo autoritário, e Roberto Sánchez, que ficou em primeiro lugar por uma margem muito pequena. Sánchez foi ministro do ex-presidente Pedro Castillo, preso após o golpe institucional da direita em 2022. Recordemos que, naquele momento, houve uma insurreição popular contra a golpista Dina Boluarte, duramente reprimida pelos militares, com mais de 70 mortos. Na última semana, Sánchez apresentou um programa moderado, buscando conquistar o centro político.
A eleição se polarizou geograficamente, expressando uma fratura profunda que reproduziu o mapa eleitoral de Pedro Castillo. O sul andino, a serra rural e a Amazônia apoiaram massivamente Sánchez, enquanto Lima e a costa urbana inclinaram-se para Fujimori. O sul do país é a região onde ocorreram mais de 50 mortes em 2022, durante a repressão militar à insurreição popular contra a destituição e prisão de Castillo. Por exemplo, em Chumbivilcas, uma província da região de Cusco situada a 3.660 metros acima do nível do mar, onde a pobreza extrema supera 54% em algumas áreas e a desnutrição crônica afeta 17,4% das crianças menores de cinco anos, Sánchez obteve 94% dos votos. Já em San Isidro, o distrito mais rico de Lima, Keiko Fujimori alcançou 84%.
O que acontecerá a seguir? O país vive uma crise política colossal, com um regime completamente deslegitimado. Vem-se de uma sucessão de presidentes efêmeros, destituídos ou que renunciaram: com o vencedor desta eleição, serão nove presidentes em dez anos. O Congresso, controlado pelos fujimoristas, tentará uma nova manobra de destituição? Em meio à campanha eleitoral houve protestos de produtores rurais. Depois das eleições, a questão pendente é como derrotar o poder econômico e político que sustenta o fujimorismo. O aspecto mais interessante no terreno da mobilização tem sido o processo de ocupações de universidades e lutas estudantis, com reivindicações democráticas, por melhores condições de estudo e questionamentos às autoridades universitárias. Estariam elas antecipando a entrada em cena de outros setores de trabalhadores, camponeses e povos originários contra o projeto extrativista e espoliador do imperialismo?
Outra expressão das tendências à crise orgânica que atravessam a região pode ser observada no Chile. Trata-se de tendências a uma polarização crescente diante de governos de centro-esquerda que frustram as expectativas das massas, como ocorreu com Boric, e cujo desgaste é capitalizado pela direita, como aconteceu com a ascensão da extrema direita de Kast. Contudo, ao chegarem ao governo, esses setores carecem de um projeto hegemônico e rapidamente se desgastam.
Na semana passada, o Chile viveu uma importante jornada nacional de mobilização estudantil secundarista e universitária, com cerca de 20 mil estudantes nas ruas de Santiago. Também houve uma mobilização significativa em Valparaíso, com mais de 2 mil participantes, além de atos em várias cidades do país. As manifestações ocorreram em rejeição aos cortes orçamentários, ao projeto Escolas Protegidas (voltado para disciplinar e controlar as escolas) e às reformas impulsionadas por Kast. Em Santiago, Kast mobilizou as forças especiais dos Carabineros para reprimir e deter estudantes, mas os protestos aconteceram mesmo assim. Tudo indica que o movimento estudantil chileno está despertando novamente, o que é uma excelente notícia. A oposição à direita não vem dos habituais defensores do “diálogo”, como o Partido Comunista, a Frente Ampla e o Partido Socialista, mas das ruas — uma tendência que se fortalece no Cone Sul.
Esses governos de direita, como os de Paz, Milei ou Kast, ao mesmo tempo em que implementam ajustes no estilo da “motosserra” contra a classe trabalhadora, são profundamente racistas e buscam atacar os direitos do movimento de mulheres. Em contrapartida, as mulheres têm sido protagonistas destacadas da rebelião na Bolívia e se mobilizam massivamente em outros países, como a Argentina.
As mulheres de pollera estão à frente de cada um dos bloqueios e protagonizam as tendências à auto-organização na Bolívia. São mulheres camponesas, trabalhadoras precárias ou ambas as coisas ao mesmo tempo; representam o rosto de uma nova classe trabalhadora boliviana, na qual a luta das mulheres se cruza com a opressão racista e colonial contra os povos originários, contra a nação aimará e as demais nações oprimidas.
Na Argentina, em 3 de junho, ocorreu uma mobilização massiva, com milhares e milhares de pessoas em todo o país ao grito de “Ni Una Menos”, contra os feminicídios e a violência machista. Viu-se muita indignação nas ruas após o brutal feminicídio de Agostina Vega. Na Argentina, ocorre um feminicídio a cada 30 horas, enquanto o governo de Milei, que faz da misoginia uma política de Estado, nega a própria existência da categoria de feminicídio.
O declínio hegemônico dos Estados Unidos
Tudo isso ocorre no contexto da ofensiva imperialista de Trump na região. Marco Rubio telefonou ao presidente da Bolívia para manifestar seu apoio, e o secretário de Defesa dos Estados Unidos afirmou que os manifestantes eram “narcoterroristas”. Eles querem avançar contra Cuba, depois de terem imposto um protetorado na Venezuela.
Trump também saiu em apoio ao candidato da extrema direita na Colômbia, Abelardo de la Espriella, que passou ao segundo turno contra Cepeda, herdeiro político de Petro. De la Espriella é um trumpista com um discurso de “mão dura” ao estilo Bukele, extremamente misógino, admirador de Milei, que conseguiu absorver grande parte do eleitorado da direita uribista tradicional. Trump quer que o país sirva como plataforma para suas políticas imperialistas na região, como ocorreu nos tempos do Plano Colômbia. No fundo, o que está em jogo é que na Colômbia continuam abertos grandes problemas estruturais, como a dependência em relação ao imperialismo, a concentração da riqueza, a questão agrária, a precarização do trabalho e a violência contra dirigentes sociais.
No entanto, a imagem de invencibilidade de Trump está se dissipando. Tornou-se pública a ligação que fez a Netanyahu para que este não destruísse o acordo com o Irã. Israel vem ampliando suas ações em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. Trump deseja encerrar a guerra e, por isso, pressiona por um cessar-fogo. Mas não consegue controlar seus aliados sionistas. E o Hezbollah não aceita uma trégua enquanto Israel continuar ocupando o sul do Líbano; portanto, a situação está longe de ser simples. Ao mesmo tempo, o Irã tenta estabelecer uma nova equação de dissuasão no Golfo.
Trump também sofreu derrotas importantes no plano interno: nos tribunais e no Congresso. Na semana passada, a Câmara dos Representantes votou pela limitação de seus poderes de guerra em relação ao Irã, com o apoio de quatro parlamentares republicanos. Embora a resolução não seja vinculante, trata-se de um forte golpe político contra uma guerra impopular. Entre os republicanos cresce a preocupação com as eleições de novembro, enquanto os índices de aprovação de Trump continuam caindo. São diferentes expressões do declínio hegemônico dos Estados Unidos, que repercutem na América Latina, onde seus “peões” atravessam crises.
Algumas questões estratégicas colocadas pela rebelião na Bolívia
As tendências às crises orgânicas constituem o DNA da história contemporânea da América Latina e possuem um pano de fundo comum: uma estrutura social extremamente desigual e combinada, marcada pela dependência em relação ao imperialismo. Como demonstra a Bolívia, o profundo racismo da oligarquia contra os povos originários está atravessado pela questão da terra, pela persistência do latifúndio, pelo avanço do agronegócio e pelos projetos extrativistas.
Isso se entrelaça com a luta contra a precarização e a informalidade do trabalho, a degradação das condições de vida das mulheres e dos setores populares, resultado dos ajustes estruturais impostos pelo FMI e do endividamento. Ou seja, para romper o ciclo de crises econômicas e sociais, seria necessário articular uma saída anti-imperialista e anticapitalista. Todas essas questões tornam-se muito concretas quando surgem rebeliões operárias e camponesas como a da Bolívia, dirigidas contra um plano ditado pelo imperialismo.
Nesses quarenta dias multiplicaram-se instâncias como assembleias e cabildos, dos quais participam setores auto-organizados e também dirigentes sindicais da COB, federações camponesas e associações de bairro. No entanto, a burocracia da COB vem evitando tomar resoluções que tornem efetiva a greve geral, algo que representaria um xeque-mate para o governo de Paz. Essa contradição estratégica foi apontada, em entrevista, por Javo Ferreira, dirigente da LOR-CI, a propósito do cabildo multitudinário de 2 de junho.
Foi um cabildo importante, de caráter nacional (...). No entanto, o ponto fraco foi que não se adotaram novas medidas voltadas para garantir a greve geral, para torná-la efetiva. Na mineração, na indústria manufatureira e em alguns setores importantes de serviços, embora os trabalhadores e trabalhadoras estejam se incorporando às mobilizações convocadas pela COB e pelos sindicatos, não houve paralisação das atividades. Ou seja, os trabalhadores participam das mobilizações e até dos pontos de bloqueio, mas o fazem sem interromper a produção. E isso é um problema, porque permite ao governo de Rodrigo Paz contar com a vantagem do tempo e do desgaste da mobilização para tentar dividi-la por meio de negociações parciais, combinadas com brutais ataques repressivos.
Essas são algumas das questões estratégicas que a rebelião do povo boliviano coloca de maneira muito concreta. A Bolívia é hoje um laboratório de lutas e resistências. Se a rebelião camponesa, indígena e popular conseguir articular-se com uma greve geral efetiva, como exigem muitos participantes dos cabildos e das assembleias, será possível derrotar o governo de Paz.
O que está em jogo hoje na Bolívia terá consequências muito além dos Andes, do Altiplano ou dos Yungas. Será este o início de uma contraofensiva continental contra os representantes do poder imperial?
[1] Gramsci, Antonio, “Observaciones sobre algunos aspectos de la estructura de los partidos políticos en períodos de crisis orgánica” (Q13, §23), Cuadernos de la cárcel, Tomo 5, México, Ediciones Era, 1999.