Capa: [Coreia do Sul] Resistindo a repressão do Estado: Consciência de classe, Solidariedade e Unidade.

[Coreia do Sul] Resistindo a repressão do Estado: Consciência de classe, Solidariedade e Unidade.

Por ​Joonseok | | Atualizado em 23.07.2026
Compartilhe este artigo

Publicado originalmente em inglês na Asian Labour Review, em 15 de Outubro de 2025

A história do movimento operário da Coreia é uma história de luta contra a brutal repressão estatal.

Ao longo do último século, a história do movimento operário coreano tem sido uma história de luta contra a brutal repressão estatal. A Coreia experimentou, em cem anos, três momentos em que o movimento sindical independente foi totalmente erradicado pela repressão do Estado.

Na década de 1920, sob o domínio imperialista japonês sobre a Península Coreana, surgiu na Coreia uma forma inicial de movimento sindical, e a primeira organização sindical de alcance nacional foi estabelecida em 1927. Contudo, a polícia colonial japonesa suprimiu de maneira implacável o movimento sindical. Como parte dos esforços para reorganizar a Península Coreana como uma base de guerra antes da invasão em larga escala da China, em 1937, os imperialistas japoneses baniram todas as formas de atividade sindical em 1936–37.

Apenas 80 dias após a derrota do imperialismo japonês, em agosto de 1945, foi fundada na Península Coreana uma organização sindical nacional, o Conselho Geral dos Sindicatos da Coreia (GCKTU). Em seu núcleo estavam ativistas operários que haviam mantido atividades clandestinas sob o duro sistema de mobilização de guerra durante a Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Pacífico.

No entanto, o governo militar dos Estados Unidos, que assumiu o controle da parte sul da Península Coreana após o fim da ocupação japonesa, recusou-se a reconhecer a organização sindical nacional independente e desencadeou a repressão. Em resposta, uma greve geral foi deflagrada em setembro de 1946. O governo militar norte-americano reprimiu brutalmente a greve geral mobilizando grande número de ex-integrantes da polícia japonesa e grupos de gângsteres organizados, aniquilando assim o movimento sindical independente.

Devido ao cenário político ultradireitista formado pela Guerra da Coreia (1950–53), um movimento sindical independente permaneceu impossível na Coreia até a década de 1960. A luta de Jeon Tae-il, em 1970, tornou-se um novo ponto de partida para o movimento sindical independente. Apesar da dura repressão do regime militar de Park Chung-hee na década de 1970, um movimento sindical democrático de pequena escala ganhou forma. Contudo, o regime militar de Chun Doo-hwan, que emergiu após o assassinato de Park Chung-hee em 1979, reprimiu brutalmente o Levante de Gwangju em 1980 e esmagou todos os sindicatos democráticos até 1982. Mais uma vez, o movimento sindical independente foi aniquilado.

Em 1987, ocorreu a Grande Luta dos Trabalhadores, uma onda nacional de greves, e a Confederação Coreana de Sindicatos (KCTU) foi estabelecida em 1995. Alguém poderia achar que, na Coreia atual, o risco do movimento sindical independente vir a ser erradicado pela repressão estatal já não existe. No entanto, se o autogolpe de Yoon Suk-yeol tivesse sido bem-sucedido em 3 de dezembro de 2024, isso poderia ter levado à quarta erradicação do movimento sindical independente.

O autogolpe de Yoon Suk-yeol foi bloqueado pela resistência dos trabalhadores e do povo, e acabou fracassando. Podemos hoje afirmar que, nesse momento, a Coreia do Sul superou uma história em que o movimento sindical independente foi esmagado três vezes. Desde 1987, ele conseguiu sobreviver e se desenvolver apesar da repressão estatal. Qual foi o segredo disso? Como organizador sindical com 40 anos de experiência no movimento e pesquisador histórico, gostaria de sugerir três pontos.

A primeira razão pela qual o movimento sindical independente na Coreia conseguiu resistir com sucesso, em certa medida, à repressão estatal foi a formação de uma ampla massa de trabalhadores avançados — combativos, com consciência de classe e dispostos ao sacrifício. Entre a luta de Jeon Tae-il, em 1970, e a fundação da KCTU, em 1995, cerca de 5 mil trabalhadores foram demitidos, 3 mil foram detidos, e cem se tornaram mártires. Isso significa que pelo menos vários milhares de trabalhadores altamente dedicados já existiam antes da construção da KCTU.

O principal fator que levou ao surgimento de trabalhadores avançados em uma escala tão massiva foi a exploração intensa do capitalismo coreano e a brutal repressão estatal. Durante aquele período, os trabalhadores avançados da Coreia ansiavam genuinamente por se libertar de um trabalho infernal. Evidentemente, a exploração severa e a repressão não levaram automaticamente ao surgimento de trabalhadores avançados. O ponto de inflexão decisivo, do ponto de vista subjetivo, foi a escolha feita pelos cerca de 150 combatentes do exército popular que resistiram às tropas da lei marcial até o fim sem se render, durante o Levante de Gwangju em 1980, encontrando finalmente a morte.

Embora os protestos pela democratização que desencadearam o Levante de Gwangju tenham sido liderados por estudantes universitários, foram os trabalhadores anônimos que se tornaram a principal força dos combatentes do exército popular quando a resistência armada começou contra os disparos das tropas da lei marcial. O fato de cidadãos comuns terem travado uma luta armada contra o regime militar, libertando Gwangju por cinco dias e, o que é ainda mais significativo, de essa luta armada ter sido conduzida não por intelectuais ou estudantes universitários, mas por trabalhadores, impulsionou a Coreia dos anos 1980 para uma era revolucionária.

O movimento estudantil, que até então se limitava a protestos pró-democracia e se inclinava para a democracia ao estilo americano como alternativa, passou a buscar uma revolução democrática contra o regime militar após avaliar o Levante de Gwangju de 1980. Ele passou a encarar a classe operária como sujeito da revolução. Para desenvolver essa orientação revolucionária, importou ativamente teorias marxistas, que até então haviam sido estritamente proibidas devido à repressão do regime militar. Do início à metade da década de 1980, milhares de ativistas estudantis, armados com uma rigorosa teoria marxista, abandonaram sua vida estudantil para se tornarem operários. Eles ingressaram em locais de trabalho em todo o país para organizar os trabalhadores como vanguarda revolucionária. Nem todos foram bem-sucedidos. No entanto, esses estudantes-trabalhadores tornaram-se mediadores fundamentais no crescimento dos operários militantes que emergiram durante a Grande Luta dos Trabalhadores de 1987, transformando-os em trabalhadores avançados dotados de uma sólida consciência de classe.

Armados com consciência de classe e espírito de sacrifício, os trabalhadores avançados lideraram de forma destemida a luta das massas na linha de frente, sem se intimidar perante a brutal repressão do regime militar. A existência de milhares de operários avançados que não temiam nem a demissão, nem a prisão, e nem mesmo a morte, se tornou um ponto de partida precioso, que permitiu ao movimento sindical independente enfrentar a dura repressão estatal.

A segunda razão foi o desenvolvimento de uma tradição de lutas de solidariedade, greves de solidariedade e greves gerais de solidariedade contra a opressão estatal. A Grande Luta dos Trabalhadores de 1987 marcou um novo ponto de partida para o movimento operário coreano contemporâneo. Ao longo de três meses, de julho a setembro, ocorreram 3.300 greves envolvendo 1,2 milhão de participantes. Embora fossem, em sua maioria, greves ilegais com ocupações de fábricas, elas alcançaram a vitória ao conquistar quase 100% de suas reivindicações. O impressionante espírito combativo demonstrado pelos trabalhadores foi resultado da brutal repressão estatal.

Contudo, o processo do levante operário de 1987 não permaneceu como uma explosão isolada. Ele resultou na construção de um movimento sindical independente como conquista organizativa, ainda que isso não tenha ocorrido de maneira automática. O Estado desencadeou uma repressão implacável para impedir que a luta operária de 1987 pudesse conduzir a uma consolidação organizativa. O Estado prendeu inúmeros trabalhadores e torturou os detidos. Dezenas de trabalhadores morreram.

Para enfrentar uma repressão estatal tão brutal, o movimento sindical independente desenvolveu as lutas e greves de solidariedade como meios fundamentais de resistência. Em 1984, mais de dez sindicatos democráticos foram formados no distrito de Guro, em Seul. Quando o regime militar iniciou sua ofensiva repressiva em 1985, prendendo três dirigentes de um desses sindicatos, esses dez sindicatos democráticos responderam com uma greve de solidariedade que durou uma semana. A luta terminou em derrota, com todos os sindicatos desmantelados e mais de 2 mil membros demitidos. Ainda assim, essa luta, ao impulsionar a primeira greve de solidariedade contra a repressão em quase 40 anos desde 1946, forneceu uma orientação crucial para o movimento sindical democrático de grande escala que emergiu após a Grande Luta de 1987.

Após a Grande Luta de 1987, sindicatos democráticos recém-formados se uniram regionalmente para travar lutas de solidariedade contra a repressão estatal. Estabeleceu-se uma tradição segundo a qual, se um sindicato fosse reprimido, dezenas de outros sindicatos da mesma região se uniriam em solidariedade. Em 1989, trabalhadores da região de Masan-Changwon realizaram uma greve de solidariedade com a participação de 20 mil pessoas e intensos protestos de rua, conseguindo garantir a libertação de dirigentes sindicais detidos.

O acontecimento mais significativo ocorreu em 1990. Em janeiro de 1990, foi criado o Conselho Nacional dos Sindicatos (NCTU), antecessor da atual KCTU. Foi a primeira central sindical de âmbito nacional criada pelos sindicatos democráticos surgidos do levante operário de 1987. Para desmantelar essa organização nacional, o Estado desencadeou uma repressão ainda mais brutal. Em resposta, o NCTU lançou uma greve geral de três dias envolvendo 120 mil trabalhadores a cada dia. Foi a primeira greve geral nacional desde 1946. Seu impacto ultrapassou amplamente seus números, pois incluiu muitos dos principais locais de trabalho industriais da Coreia. Sob pressão dessa greve geral, o Estado acabou reconhecendo de fato o NCTU e, em seguida, a própria KCTU foi fundada alguns anos depois.

A terceira razão foi o esforço contínuo para se unir e liderar a luta democrática de todo o povo contra o poder estatal opressivo. Na verdade, a própria Grande Luta dos Trabalhadores de 1987 foi resultado das massivas manifestações pró-democracia contra o regime militar em junho daquele ano, que alcançaram uma vitória parcial. Embora os trabalhadores não estivessem vinculados a sindicatos independentes, participaram em massa das manifestações de rua, que reuniram entre um e dois milhões de pessoas. Por meio dessas lutas de rua, puderam ganhar confiança. Se pudermos derrubar o regime militar, opressor de toda a sociedade, não seria muito mais fácil derrubar o patrão, o opressor no local de trabalho? Essa era a mentalidade dos operários que lideraram a Grande Luta dos Trabalhadores.

Após a fundação da KCTU em 1995, e particularmente após a greve geral de um mês contra as leis trabalhistas em 1996–97, a KCTU ultrapassou o papel de uma federação nacional de sindicatos independentes. Ela se tornou o ponto de convergência para todos aqueles que aspiravam à democracia na sociedade coreana e para todos os movimentos sociais que lutavam pelo progresso social.

Os governos de Lee Myung-bak e Park Geun-hye, entre 2008 e 2016, e a administração de Yoon Suk-yeol, entre 2022 e 2024, passaram a revelar de forma cada vez mais aberta e explícita seu caráter autoritário, atacando direitos democráticos fundamentais em múltiplas frentes. Os trabalhadores também foram um dos principais alvos desses ataques. A KCTU esteve no centro das lutas populares contra os governos de Lee Myung-bak e Park Geun-hye, bem como contra o governo de Yoon Suk-yeol. Essas lutas culminaram no impeachment de Park Geun-hye, em 2017, e no impeachment de Yoon Suk-yeol, em 2025.

Contudo, a participação ativa da KCTU nas lutas democráticas contra o poder estatal opressivo também gerou certa confusão em sua relação com o Partido Democrático, outra grande força política capitalista. Durante seus períodos no poder, entre 1998 e 2008 e entre 2017 e 2022, o Partido Democrático demonstrou plenamente seu caráter como um agente capitalista que ataca os trabalhadores. Foram precisamente os governos do Partido Democrático que introduziram e ampliaram de forma abrangente o sistema de lay-offs e de emprego não-regular, responsáveis por infligir os maiores sofrimentos aos trabalhadores coreanos nos últimos 30 anos.

Sob administrações do Partido Democrático, inúmeros trabalhadores foram presos e demitidos. Até mesmo presidentes da KCTU foram invariavelmente presos sob governos do Partido Democrático. O Partido Democrático diferia de regimes mais autoritários apenas por apresentar um rosto humano enquanto atacava os trabalhadores. Portanto, o Partido Democrático não pode ser um sujeito de solidariedade na luta pela democracia; deve ser um adversário que o movimento sindical independente confronta. No entanto, uma parte considerável da KCTU considera o Partido Democrático como um aliado na solidariedade, o que tem dificultado o desenvolvimento ulterior do movimento sindical independente e levado à dominância hegemônica do Partido Democrático sobre todo o povo. Superar esse problema é uma das tarefas mais importantes para o atual movimento operário coreano.