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Trump na encruzilhada: sem mudança de regime nem estratégia de saída no Irã

Por Claudia Cinatti | | Atualizado em 23.07.2026
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A quase duas semanas do início do ataque imperialista dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, fica claro que Netanyahu entrou no conflito com um objetivo definido, enquanto Trump o fez sem ter uma estratégia de saída, algo que já começa a lhe custar muito caro.

A guerra de agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã já entrou em sua segunda semana. Junto com a intensidade dos bombardeios e a volatilidade do preço do petróleo e dos mercados, crescem as especulações sobre se o fim está próximo ou, pelo contrário, se estamos diante de uma nova escalada. No campo dos atacantes, Netanyahu não tem dúvidas de que seu objetivo é apagar do mapa a República Islâmica e, se possível, mergulhar o Irã em uma guerra civil que leve a uma fragmentação política, religiosa, étnica e territorial seguindo o modelo da Síria ou da Líbia. Guiado por suas aspirações regionais para consolidar o domínio da “Grande Israel”, o primeiro-ministro genocida voltou a abrir a frente de guerra no Líbano. Mas seu aliado, Donald Trump, não dá nenhuma certeza. Diz uma coisa e outra: um dia afirma que a guerra pode durar 4 ou 6 semanas (inclusive mais do que o previsto), mas também diz que seus objetivos (quais?) estão praticamente cumpridos e que, portanto, está prestes a terminar, sem precisar nem quando nem como. Essa confusão no campo de batalha mostra que Trump entrou nessa nova “guerra de escolha” no Oriente Médio sem estratégia de saída. E que os interesses do imperialismo norte-americano não são necessariamente os mesmos que os do Estado de Israel.

Fiel ao seu estilo fanfarrão, Trump afirmou diante de congressistas republicanos reunidos em seu exclusivo clube de golfe em Miami que os Estados Unidos haviam organizado uma “breve excursão” pelo Oriente Médio para “erradicar o mal” e que em breve haveria um final feliz. Mas o presidente parece pouco crível. Por trás dessa bravata há sérias suspeitas de que Trump, apelidado de TACO (que mais ou menos significa “Trump sempre recua”), esteja mais próximo de declarar “mission accomplished” e cantar vitória com o que estiver à mão.

A “excursão” pelo Oriente Médio está saindo bastante cara (no mínimo custa aos Estados Unidos US$ 1 bilhão por dia) e não parece ser muito divertida para os grandes investidores, tampouco para os aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico, que estão no centro dos ataques do Irã. E cada vez menos para a administração Trump e para os candidatos republicanos que aspiram renovar ou conquistar cadeiras no Congresso.

O impacto econômico global dessa nova guerra no Oriente Médio já está sendo sentido. Segundo o Wall Street Journal, o virtual fechamento do Estreito de Ormuz — por onde circula 20% do comércio internacional de petróleo — desencadeou a pior crise energética desde o embargo petrolífero de 1973. Já não se trata apenas de problemas de segurança, mas de ataques militares concretos a navios petroleiros, sem que até o momento os Estados Unidos encontrem uma forma de liberar esse “ponto de estrangulamento” estratégico ou de suprir a demanda por petróleo e energia. O abastecimento de gás para a Europa está em perigo. Em uma semana, o petróleo atingiu a marca de 100 dólares por barril (estava em 73 antes da guerra), embora tenha recuado diante da vaga promessa de Trump de que a guerra duraria muito menos do que o previsto, além de que as economias do G7 se comprometeram a colocar parte de suas reservas no mercado para sustentar a oferta e estabilizar o preço. Com o petróleo (e os preços) em alta e os mercados em baixa, mais uma vez a ameaça de estagflação surge no horizonte.

Talvez a conversa de uma hora que Trump teve com Vladimir Putin esteja relacionada à busca de algum tipo de mediação com o regime iraniano para encontrar uma saída. Quem mais teme esse cenário é Netanyahu, que já fareja que mais uma vez seu aliado o deixará com a tarefa inconclusa, como ocorreu com a “guerra dos 12 dias” de junho de 2025. Essa preocupação é compartilhada pela ala mais belicista e “neocon” do capital financeiro norte-americano, expressa em um editorial do Wall Street Journal, sob o sugestivo título “O Irã não está ganhando esta guerra”.

O secretário de Defesa (rebatizado de “secretário da Guerra”), Peter Hegseth, anunciou ataques ainda mais devastadores, com a expectativa de dobrar o regime iraniano. Mas, por enquanto, certamente aumentou a destruição e a morte de civis, sem conseguir o efeito buscado.

Desafiadora, a Guarda Revolucionária continuou a guerra também no terreno propagandístico. Seu porta-voz declarou que o Irã poderia aguentar “ao menos seis meses de guerra intensa” e que se reserva o privilégio de “determinar quando a guerra terminará”, dando a entender que não está no interesse da República Islâmica aceitar um cessar-fogo semelhante ao de 12 de junho, que apenas adiou por oito meses um novo ataque contra o território iraniano por parte de Israel e dos Estados Unidos.

Apesar da superioridade militar da aliança norte-americana-israelense e de terem conseguido importantes vitórias táticas, isso por si só não foi suficiente para provocar a capitulação ou a desintegração do regime iraniano, embora haja indícios de divisões internas que poderiam se aprofundar, sobretudo entre o presidente Masoud Pezeshkian, considerado um “reformista”, e o establishment teocrático.

Nas primeiras horas do ataque, em uma espécie de divisão de tarefas, as forças norte-americanas apontaram contra alvos militares, enquanto o exército israelense se concentrou na operação de “decapitação”, para a qual contava com informações de inteligência precisas, graças à expertise do Mossad. Assim, pouco depois de iniciada a chamada operação “Fúria Épica” (ou “Leão Rugindo”, como foi codificada por Israel), já haviam sido assassinados o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, junto com grande parte da cúpula do regime, incluindo comandantes da Guarda Revolucionária, o corpo militar de elite paralelo ao Exército regular. Essa estratégia de decapitação é a mesma que o Estado de Israel havia aplicado contra o Hezbollah (na famosa operação com os bipes) e contra o Hamas em setembro de 2024, embora no caso do Irã tenha sido levada ao extremo e, pela primeira vez, tenha assassinado um chefe de Estado.

No entanto, como ocorreu nos casos do Hamas e do Hezbollah, uma coisa é enfraquecer e outra muito diferente é fazer desaparecer como por mágica organizações — e menos ainda estruturas estatais — que, no caso da República Islâmica do Irã, são produto da expropriação e da transformação reacionária realizada pelo clero xiita sobre a profunda revolução operária, popular e anti-imperialista de 1979.

Diante da iminência da guerra, a teocracia fechou fileiras e selou sua unidade interna com um banho de sangue. Liquidou, mediante uma repressão brutal, os protestos que haviam colocado o regime em xeque entre dezembro e janeiro passados, uma demonstração contundente de descontentamento popular que Trump e Netanyahu tentaram instrumentalizar sem sucesso para sua política de “mudança de regime”. Tampouco isso está funcionando em meio à guerra. A população bombardeada e submetida à chuva ácida provocada pelo ataque a depósitos de combustível por parte de Israel não estaria recebendo os agressores como “libertadores”. A enésima tentativa de utilizar os curdos como infantaria imperialista tampouco está prosperando.

Sob fogo, a Assembleia de Clérigos elegeu como novo líder o filho do aiatolá assassinado, Mojtaba Khamenei, que além de portar o sobrenome (o que nominalmente dá a ideia de continuidade) está associado à Guarda Revolucionária e à ala dura do regime teocrático. A eleição — na qual Trump havia reivindicado ter poder de veto — é em si mesma uma mensagem. Israel já adiantou que Khamenei filho teria os dias contados.

Do ponto de vista militar, o Irã adotou uma estratégia realista de “defesa ativa”. Seu objetivo não é a vitória — fora de seu alcance — mas aumentar os custos militares, políticos e econômicos para os atacantes até o ponto em que eventualmente considerem que é melhor desistir e buscar alguma saída negociada. Essa estratégia, que alguns analistas chamam de “escalada horizontal” porque o objetivo é expandir em vez de atacar apenas alvos duros, consiste em lançar mísseis e drones contra cidades de Israel, contra bases norte-americanas nos países do Golfo Pérsico ou bases de países europeus — como a da Grã-Bretanha em Chipre —, contra aeroportos e instalações energéticas, bancos, instituições financeiras e hotéis. E, sobretudo, jogar a carta econômica, fechando total ou parcialmente o estreito de Ormuz. Para isso conta com a colaboração de seus aliados regionais, enfraquecidos mas ainda com capacidade de combate, como o Hezbollah e os houthis do Iêmen.

Como consequência da lógica “horizontal”, o teatro de operações se ampliou por vários milhares de quilômetros, desde Chipre, Turquia e Azerbaijão até as proximidades do Sri Lanka, com o afundamento de uma fragata iraniana que vinha de um exercício militar com a Índia (sob suspeita de que o dado tenha sido vendido aos Estados Unidos).

A jogada assimétrica do Irã não está isenta de riscos. O mais importante é que pode produzir o resultado inverso ao desejado. Ou seja, que em vez de os países do Conselho de Cooperação do Golfo pressionarem pelo fim da guerra, fortaleça-se a aliança anti-iraniana entre essas monarquias, os Estados Unidos e Israel, seguindo na guerra a lógica geopolítica dos Acordos de Abraão. No entanto, isso ainda não ocorreu e não está claro que vá acontecer, dado que o interesse das monarquias do Golfo é a estabilidade regional que permita fazer prosperar seus negócios e facilitar a reconversão de fornecedores de petróleo em polos tecnológicos e centros de turismo.

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Assim como Netanyahu não conseguiu obter uma vitória definitiva em Gaza apesar de mais de dois anos de brutal genocídio, no Irã a dupla Trump-Bibi parece estar enfrentando o mesmo problema estratégico. Como coloca o colunista do Washington Post F. Zakaria, parafraseando Clausewitz, sem objetivos políticos claros a guerra se transforma em pura violência e os resultados passam a ser decididos pelo acaso.

Enquanto o senso comum indica que para a República Islâmica a vitória consiste em sobreviver, e para Netanyahu em obter seu objetivo máximo — aniquilar o Irã e erguer-se como única potência regional dominante —, ninguém consegue neste momento definir em que consistiria uma vitória para os Estados Unidos. Trump parece ter entrado nessa nova “guerra de escolha” com a hipótese simplista de que um ataque militar devastador dos Estados Unidos e de Israel reativaria o caos interno e levaria à rápida queda do regime dos aiatolás, substituído por uma liderança disposta a se submeter aos Estados Unidos (como na Venezuela), sem que o imperialismo norte-americano fosse obrigado a mobilizar tropas terrestres como no Iraque.

A essa altura está claro que essa hipótese de “mudança de regime” expressa não se concretizou. Por enquanto tampouco sua variante “light” de “mudança de liderança”, à moda venezuelana. Como observa com ironia um colunista do Financial Times, mais do que “Fúria Épica”, a operação deveria se chamar “Procurando desesperadamente por Delcy”. O problema de Trump é que no Irã ainda não apareceu um insider que desempenhe o papel de Delcy Rodríguez, que se transformou rapidamente em agente do imperialismo após o sequestro de Maduro e administra o neoprotectorado ianque na Venezuela. Isso complica o cenário para Trump, que enfrenta a possibilidade de uma guerra prolongada e expõe a falta de estratégia da Casa Branca.

As potências europeias encontram-se em uma posição incômoda que revela seu papel subordinado e que, diante da alternativa, optam por agir como vassalos de Trump para não se tornarem alvo da ira do déspota norte-americano (com a tímida exceção do governo de Sánchez, do Estado espanhol). Enquanto dizem não aderir à guerra, enviam fragatas e navios à região para se somar ao ataque contra o Irã com fins “defensivos” (Macron) e permitem o uso de bases norte-americanas (Starmer), ou diretamente se juntam ao coro do belicismo trumpista, como a Alemanha.

A guerra no Irã, e antes dela a intervenção norte-americana na Venezuela, não podem ser compreendidas fora da disputa estratégica entre os Estados Unidos e a China. Em ambos os casos, um dos objetivos de Trump é privar a China do fornecimento de petróleo barato e minar as alianças de Pequim. Nem a China nem a Rússia (Putin segue concentrado em ganhar o máximo possível na guerra da Ucrânia) saíram a responder por seus aliados, além das declarações previsíveis de defesa da “ordem multipolar”, repúdio à agressão norte-americana e apoio aos regimes atacados. Isso não significa que não estejam prestando assistência discretamente ao Irã, sobretudo no caso da Rússia, colaborando principalmente com inteligência militar. Mas, evidentemente, não é o momento de confrontar abertamente os Estados Unidos. A China tomou nota e decidiu aumentar seu orçamento militar em 7% e ampliar o investimento em tecnologia para reduzir sua dependência dos caprichos e das guerras comerciais de Washington. Esses movimentos preparatórios se combinam com negociações e tréguas — como a que Trump negociou com Xi Jinping, na qual recuou das tarifas exorbitantes impostas no “Liberation Day” em troca de garantir acesso às terras raras nas quais a China possui uma vantagem comparativa. E são sinais de que a rivalidade ainda não chegou aos extremos.

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O desfecho da guerra ainda é incerto. Embora seja uma incógnita por quanto tempo o Irã poderá resistir à investida dos Estados Unidos e de Israel, o tempo joga contra Trump. Quanto mais a guerra se prolongar, mais próxima estará das cruciais eleições de novembro, que já vêm com prognóstico reservado para os republicanos. Em apenas um ano à frente da Casa Branca, Trump dilapidou seu capital político e viu diminuir o controle sobre os poderes do Estado e sobre o próprio Partido Republicano. Recebeu golpes como a decisão da Suprema Corte (de maioria conservadora) que anulou a maior parte das “tarifas recíprocas”. E, sobretudo, sofreu uma dura derrota em Minneapolis, onde a mobilização operária e popular o obrigou a recuar na ofensiva anti-imigração executada pelo ICE. Em síntese, Trump preside um governo bonapartista fraco, com risco de se tornar um “pato manco” caso venha a perder a maioria em alguma das câmaras do Congresso.

Normalmente, o início de uma guerra gera um primeiro efeito de “unidade nacional” ou de apoio às tropas e ao presidente, que depois vai se dissipando. Por exemplo, George Bush (pai) tinha uma aprovação de 64%, mas subiu para 82% poucos dias após lançar a operação Tempestade no Deserto, embora, como sabemos, tenha ganhado a guerra mas perdido as eleições. E George Bush (filho) passou de 51% para 90% de aprovação após lançar a guerra do Afeganistão, embora sua “guerra contra o terrorismo” tenha sido repudiada vários anos depois.

Nada disso está acontecendo agora. A guerra no Irã, desde o começo, tem uma maioria de norte-americanos contrária. Segundo uma pesquisa da IPSOS, apenas 27% aprovam os ataques. Outros estudos de opinião, como o da Quinnipiac University, colocam a aprovação em 40% e registram que a aprovação do presidente — em torno de 38% — não teve nenhuma variação significativa com o início da guerra, embora tenha aumentado a preocupação com a economia (mais de 7 em cada 10 eleitores). Segundo os dados dessa pesquisa, a guerra no Irã é completamente “partidária”: os republicanos majoritariamente apoiam, os democratas rejeitam, mas também uma maioria de independentes — 67% — é contra a guerra. Inclusive setores da própria base republicana e do movimento MAGA se opõem porque a veem mais como uma guerra pelos interesses de Israel do que pelos dos Estados Unidos; mais do que “America First”, dizem que Trump é o presidente de “Israel First”. As declarações infelizes do secretário de Estado Marco Rubio, que reconheceu que Israel impôs a guerra aos Estados Unidos, foram um presente para os conspiracionistas que, com ou sem provas, veem a sombra de Israel por trás da decadência norte-americana, desde as guerras até o “escândalo Epstein”. Isso ocorre em um marco mais geral de perda de legitimidade do Estado de Israel entre a população norte-americana, incluindo setores evangélicos. O principal porta-voz da oposição pela (extrema) direita à guerra no Irã é o ex-apresentador da Fox News, Tucker Carlson, um “american-firstista” de primeira hora que se tornou um crítico implacável da aliança incondicional entre Estados Unidos e Israel, com contornos abertamente antissemitas. Seguem-no outras celebridades da galáxia MAGA, como a ex-congressista Marjorie Taylor Greene e Steve Bannon.

Trump, por enquanto, dá como garantido o apoio incondicional do MAGA (“MAGA c’est moi”, disse em um acesso de narcisismo extremo). Mas esse questionamento, ainda limitado, poderia se generalizar. Uma disparada do preço do petróleo impactaria imediatamente os postos de gasolina do meio-oeste norte-americano, onde se concentra o núcleo duro da base trumpista. Esse é um parâmetro sensível que poderia colocar em risco a aposta na queda da inflação, praticamente a única carta forte que Trump tem para reverter o colapso de sua popularidade e evitar uma derrota nas eleições de meio de mandato, que parece cada vez mais provável.

O único que até agora se beneficia dos cenários extremos é Netanyahu, que está usando a guerra contra o Irã para se recuperar de uma crise praticamente terminal e apostar que as guerras permanentes lhe permitam vencer, ainda que por pouco, as próximas eleições. Até agora, a guerra no Irã tem amplo consenso na população israelense, que aprofundou sua guinada à direita. Mas a impopularidade de Netanyahu poderia voltar ao primeiro plano, sobretudo se, como tudo indica, Israel não conseguir seus objetivos.

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Em janeiro de 2003, o então presidente George Bush (filho) se colocou diante do Congresso norte-americano para fazer o tradicional relatório sobre o estado da União. Bush dedicou grande parte desse discurso a construir o casus belli contra o Iraque de Saddam Hussein, um antigo cliente de Washington que se transformara no inimigo público número um do império. A famosa fake news das armas de destruição em massa serviu de pretexto para o primeiro experimento em grande escala da doutrina da “guerra preventiva”, um dos pilares da estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos no pós-11 de Setembro, que levava a marca inconfundível dos neoconservadores. Os outros dois eram o unilateralismo e a “expansão da democracia”, o complemento ideológico do belicismo reforçado.

As “guerras eternas” do Iraque e do Afeganistão aprofundaram a crise de hegemonia dos Estados Unidos. Basta lembrar a imagem das tropas imperialistas saindo às pressas do Afeganistão, quase como em Saigon. Segundo R. Kaplan, um ilustre analista neoconservador, essas “guerras intermediárias” (que não devem ser confundidas com guerras limitadas) são uma armadilha para as grandes potências e uma desgraça que arruína presidências. No entanto, em si mesmas, as guerras do Iraque e do Afeganistão não foram a causa, mas uma tentativa fracassada de frear, por meio da superioridade militar, o declínio acelerado da liderança norte-americana. Vistas retrospectivamente, foram o último estertor do “momento unipolar”, que chegou ao fim com a crise capitalista de 2008, a emergência da China como competidora estratégica e o surgimento de uma série de “potências intermediárias” com capacidade de perseguir interesses nacionais em nível regional.

No mesmo sentido, o trumpismo não é a causa, mas o produto da decadência norte-americana — tanto interna quanto externa — que, pela magnitude de seu poderio, desestabiliza o conjunto do sistema internacional.

A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã é a última demonstração empírica de que a “ordem baseada em regras” desenhada pelo imperialismo norte-americano para liderar o mundo do pós-guerra está morta e enterrada. O que predomina é o caos. Trump encarna uma tentativa de “solução de força” para superar a crise dos Estados Unidos e restaurar seu domínio. Em um mundo regido pela rivalidade entre potências, pelo militarismo e por tendências protecionistas — com a disputa com a China como marco estratégico — o trumpismo busca que os Estados Unidos se ergam como uma espécie de “hegemon predador”, como o chama o cientista político neorrealista S. Walt. A “Doutrina Donroe” e a guerra no Irã fazem parte dessa política de utilização do poderio militar e de outros instrumentos coercitivos para disciplinar aliados e inimigos. Mas, diferentemente da Doutrina Monroe evocada por Trump, não estamos em um momento de ascensão, mas de decadência do imperialismo norte-americano.

O genocídio perpetrado por Israel em Gaza deu origem a um poderoso movimento internacional de solidariedade com o povo palestino e contra os cúmplices do Estado sionista nesse crime de guerra. Esse movimento, com elementos anti-imperialistas — que recorda o movimento contra a guerra do Vietnã — deve ser fortalecido para pôr fim à guerra imperialista no Irã. Os inimigos são os mesmos. Se triunfarem no Irã, estarão mais fortes para redobrar sua ofensiva e sua guerra de classe. Como ocorreu com a derrota da Argentina na Guerra das Malvinas, a ditadura acabou caindo, mas a derrota nacional foi profunda e reforçou a conclusão de que não se podia enfrentar o imperialismo. E Margaret Thatcher utilizou a vitória nas Malvinas para se fortalecer internamente e esmagar a greve dos mineiros. Apesar do caráter profundamente reacionário e opressor do regime iraniano — e sem lhe dar nenhum apoio político —, uma derrota dos Estados Unidos, do Estado sionista e de seus aliados será uma grande notícia para os explorados e oprimidos do mundo.